====== COMPREENSÃO [VERSTEHEN] (2014:54-56) ====== //BRAVER, Lee. Heidegger: thinking of being. 1. publ ed. Cambridge: Polity Press, 2014.// * A estrutura do aí inclui, após Befindlichkeit, o compreender, sendo ambos sempre presentes e mutuamente determinantes, e o compreender é entendido como saber-como e competência para interagir adequadamente com diferentes tipos de entes ao mover-se nas linhas de significância do ser-no-mundo. * Compreender é saber-como e competência prática (183/143). * Ser-no-mundo envolve saber orientar-se por linhas de significância. * Ser estudante envolve saber usar caneta, papel, mesa, cadeira de modo apropriado. * Compreender e estado-de-ânimo coexistem e determinam-se reciprocamente. * O compreender é explicado como projeção de coisas sobre possibilidades, em que “projeção” traduz Entwurf como lançar-adiante e se liga etimologicamente a termos como projétil, articulando-se ainda com Geworfenheit como ser-lançado revelado nos estados-de-ânimo. * Entwurf significa lançar-adiante. * A imagem do projétil evidencia o lançar-adiante. * A projeção conecta-se ao ser-lançado de Geworfenheit. * Estados-de-ânimo desvelam o ser-lançado com o qual a projeção se entrelaça. * O compreender de uma ferramenta é saber do que ela pode-fazer, de modo que o martelo aparece primariamente como martelável ou capaz-de-cravar-pregos e não como coisa inerte com propriedades físicas, sendo encontrado primeiro e na maior parte das vezes em termos de habilidade (184/144). * O saber-como refere-se ao poder-fazer do instrumento. * Martelo aparece como capaz de cravar pregos. * A experiência inicial privilegia capacidade em vez de propriedades. * O encontro ordinário é funcional e orientado por possibilidades. * A liberação do martelo para suas possibilidades ocorre ao assumir um fim relevante (o para-onde), como construir uma estante, e a projeção de si na possibilidade de martelar destaca o martelo do fundo e desdobra a cadeia de equipamentos e ações conectando-a ao para-o-que de ser carpinteiro. * Um fim assumido torna operante o para-onde. * Compreensão pré-ontológica de conexões com madeira, pregos e tarefas pode permanecer recolhida. * O martelo pode permanecer fundido ao pano de fundo antes do engajamento. * Projetar-se na possibilidade de martelar solta o martelo do fundo. * A cadeia de in-order-tos é puxada para fora e amarrada ao para-o-que de ser carpinteiro. * O para-o-que é a possibilidade auto-definidora assumida para tentar resolver a questão do ser, como ser carpinteiro, mas essa possibilidade não deve ser entendida como potencial não atualizado no sentido tradicional present-at-hand, pois a possibilidade própria do Dasein exige pensar que o Dasein é suas possibilidades (185/145). * Para-o-que funciona como possibilidade de auto-definição. * Possibilidade tradicional é concebida como estado possível não atual. * Essa concepção pertence ao present-at-hand e contrasta com a exigência existencial. * Possibilidades do Dasein não são algo que ele não é. * Dasein é suas possibilidades. * A facticidade da jogada indica encontrar-se já em um modo de vida com projetos em curso e impede o início como folha em branco, e o para-o-que não culmina em conclusão decisiva, mas recua como horizonte até ficar subitamente para trás, de modo que o ser-professor ou ser-estudante consiste em tarefas sempre renovadas e cessa quando cessam as possibilidades que sustentam o papel. * Há inserção prévia em projetos e contextos em andamento. * O horizonte do para-o-que recua conforme é perseguido. * Ser professor envolve tarefas contínuas. * Quando tarefas cessam, o ser professor permanece apenas nominal ou honorífico. * Não haver mais possibilidades não equivale a plena atualização do papel. * Ser estudante envolve aulas e tarefas com meta de graduação. * A graduação marca o término do ser estudante e não sua consumação. * Lançamento e projeção são co-originários e entrelaçados, com a projeção figurando como aspecto ativo de escolha e o lançamento como fatos encontrados, mas ambos só existem juntos, pois escolhas passadas situam o estar em sala de aula e a manutenção do projeto decide o permanecer-no-projeto, sempre modulada pelo modo como a situação se dá afetivamente, inclusive quando o compromisso é assumido como a-ser-mantido independentemente do sentir. * Projeção é o aspecto de escolher e fazer. * Lançamento é o encontrar fatos dados. * Situação presente no Umwelt resulta de escolhas já feitas. * O projeto precisa ser mantido para continuar valendo. * Abandonar o para-o-que altera o estar-no-projeto mesmo sem mudança espacial. * O modo afetivo de encontrar a situação informa continuidade e estilo de manutenção. * Compromisso pode ser mantido apesar do humor por ser encontrado como dever-de-manter. * O compromisso encontrado como a-ser-mantido é descrito como espécie de sentir. * Dasein é possibilidade lançada entregue a si mesma (183/144). * A inteligibilidade e significatividade do mundo dependem de projetar o para-o-que, pois por linhas de significância e cadeias de in-order-tos os entes tornam-se significativos como capazes e adequados a fins, e coisas nuas e sem sentido só aparecem em observação desengajada que as torna mudas e inertes (192/151; 190/149; 189/149). * A projeção do para-o-que funda a inteligibilidade do mundo. * Significância é composta por linhas de in-order-tos em tarefas. * Entes aparecem como para-isto e capazes-de-fazer. * Coisas sem sentido surgem em observação desengajada. * O usual é aparecerem como rastelo, toalha, cadeira. * O entender pode permanecer prático no uso ou tornar-se explícito. * A interpretação é o desenvolvimento explícito do compreender, traduzindo Auslegung como pôr para fora e expor ao olhar, e ao interpretar o martelo explicita-se a cadeia de in-order-tos vinculada ao para-o-que, formando um contexto inteligível de Umwelt que lhe confere sentido. * Auslegung é descrito como pôr para fora e dispor ao exame. * Interpretar torna explícito o que estava implícito no uso. * A cadeia liga martelo, pregos e madeira a tarefas intermediárias. * O conjunto é orientado para construir estante. * O sentido do martelo provém do contexto de significância do Umwelt. * No uso ordinário, o martelo se retira e o encontro já o entende por uma totalidade de envolvimentos que mantém ocultas as relações de atribuição do in-order-to, enquanto a interpretação puxa essas cadeias recolhidas para fora e faz a compreensão apropriar-se do compreendido ao desenvolver sua natureza (189/149; 188/148). * O encontro imediato já entende por totalidade de envolvimentos. * As relações de atribuição permanecem implícitas e encobertas. * A interpretação desdobra e explicita cadeias antes enroladas. * A explicitação torna visível o que guiava a ação. * A interpretação é descrita como desenvolvimento da possibilidade do compreender. * O compreender apropria-se do que compreende ao torná-lo explícito. * A hermenêutica de Ser e Tempo é reforçada pela recusa de apreensão imediata sem pressuposições, pois a tentativa de suspender engajamento para mera observação produz distorções e mantém preconceitos profundos, contrariando a busca filosófica tradicional por retirar acidentais culturais e limitações sensoriais e tensionando a promessa husserliana de intuição inocente (191–2/150). * A apreensão sem pressupostos é rejeitada. * A filosofia tradicional busca criticar suposições e remover acidentes culturais. * Há busca por acesso ao real além de limitações do corpo e sentidos. * A intuição inocente é atribuída a Husserl como pretensão fenomenológica. * A purificação por observação mantém preconceitos profundos. * A desativação do engajamento gera distorções do que se queria evitar. * A interpretação em ¶32 distingue o ato explícito de uma interpretação sempre operante pela qual entes são entendidos como tipos determinados, de modo que nada entra na consciência sem compreensão pré-ontológica de ser que os torna ferramenta, objeto ou outro Dasein, e mesmo o present-at-hand permanece um sentido distante de preocupações humanas, com três estruturas prévias preparando toda experiência. * Há interpretação como ato explícito e como estrutura constante do entender. * Entes aparecem como certos tipos e não como sem sentido. * A compreensão pré-ontológica de ser molda o aparecer. * Present-at-hand é um sentido ainda significativo, embora distante do social. * Três estruturas prévias são indicadas como condições do interpretar. * Toda visão, pensamento e encontro já vem preparado por essas estruturas. * Não há dados brutos passivamente espelhados. * A estruturação precede percepção e pensamento. * Esquemas podem evoluir historicamente e ser trocados, mas não eliminados. * O acesso ao mundo ocorre sempre por algum esquema interpretativo. * A interpretação pode tornar-se asserção, e essa forma é dita derivada por depender do já interpretado e por distorcer o que ocorria, pois a asserção aponta e faz aparecer, predica separando ao unificar, e comunica partilhando o foco com outros (196–9/154–7). * Asserções só podem enunciar sentidos já encontrados interpretativamente. * A asserção aponta e dirige atenção para um sujeito. * O apontar é ligado a apophansis. * Mesmo sem presença perceptiva, a fala abre um aí em que algo aparece. * A predicação atribui qualidade e separa sujeito e predicado. * O foco em um predicado obscurece outros traços e o todo integrado. * A comunicação partilha o destaque com outros, formando clareira comum. * A gramática sujeito–predicado sustenta tacitamente ontologia de substância e acidente ao dividir mundo em sujeitos portadores de propriedades, sendo isso reconhecido por filósofos como Nietzsche e Bertrand Russell como um efeito de estrutura linguística que impõe fore-structure. * A forma S é P encoraja pensar em entidades autocontidas. * Predicados aparecem como propriedades possuídas. * A tradição de substância–acidente é reforçada pela gramática. * A linguagem impõe uma estrutura prévia interpretativa. * O ponto é associado a observações de Nietzsche e Russell. * A asserção é derivada também por retirar do fluxo do lidar preocupadamente e por velar o pronto-para-o-uso ao convertê-lo em objeto sobre o qual se fala, deslocando a antevisão para o present-at-hand e cortando o equipamento da significância que constitui a ambientalidade (200/158). * O pronto-para-o-uso torna-se tema de enunciado. * A antevisão passa a mirar o present-at-hand no pronto-para-o-uso. * O pronto-para-o-uso fica velado como pronto-para-o-uso. * O item é cortado da rede de significância. * A ambientalidade é descrita como constituída por essa significância. * A apofanticidade das asserções contrasta com o “como” existencial-hermenêutico do uso cotidiano, pois a interpretação primordial ocorre em ação de circunspecção e pode permanecer muda ou em murmúrio não gramatical, e a deriva apofântica depende de como se diz e se experiencia, levando o enunciado teórico a reconfigurar o martelo como coisa com propriedade de peso (201/158; 200/157). * O uso cotidiano interpreta sob o “como” existencial-hermenêutico. * Se o martelo pesa, pode-se largá-lo e pegar outro sem verbalizar. * A interpretação primordial acontece em ação de preocupação circunspectiva. * Pode surgir expressão mínima como “pesado demais” sem estrutura teórica. * O efeito derivado depende do modo de dizer e do modo de experienciar. * A asserção teórica traduz-se como coisa-hammer com propriedade de peso. * O pronto-para-o-uso não aparece como corpo espacialmente delimitado, mas como via para um fim, de modo que o martelo funciona como caminho para madeira fixada e, diante de problema, o caminho cede ou resiste levando a recuar e buscar rota alternativa, o que preserva a análise de retirada do equipamento em ¶16. * Ferramentas aparecem como meios-caminho orientados a metas. * O martelo aparece como via para fixar madeira. * A espacialidade corpórea do objeto não é o foco primário. * Problema é vivido como colapso de via ou resistência. * A resposta é recuo e busca de alternativa. * A retirada do equipamento orienta a experiência cotidiana. {{tag>Braver compreensão}}