====== FILOSOFIA E PERCEPÇÃO (2013) ====== //BENOIST, Jocelyn. Le Bruit du sensible. Paris: Cerf, 2013// * A filosofia da mente contemporânea situa como central o problema da percepção. * Centralidade atribuída no âmbito contemporâneo. * Inserção explícita na filosofia da mente. * A percepção surge como algo estranho de ser tratado como problema, pois aparece como experiência imediata e contínua tanto com os olhos abertos quanto fechados. * Imediaticidade: abrir os olhos basta para perceber. * Persistência: olhos fechados mantêm percepção, ainda que de outro tipo. * A filosofia tende a possuir apenas os problemas que produz para si mesma, de modo que se impõe identificar o que foi construído sob o rótulo de “problema da percepção”. * Autogeração de problemas filosóficos. * Interrogação sobre a fabricação do problema. * O “problema da percepção” aparece como caso particular do problema epistemológico moderno do acesso do espírito ao mundo, formulado como relação entre representação e objeto em Kant, onde a percepção é tomada como modalidade de acesso cuja possibilidade precisa ser explicada. * Epistemologia moderna: separação entre espírito e mundo como pano de fundo. * Kant: relação entre “representação em nós” e “objeto”. * Percepção como via de acesso que deve “fornecer” objetos. * O acesso em jogo é acesso a objetos como tais, de modo que, seguindo Frege, percebe-se a própria coisa (a “fresa” à beira do caminho) e não sensações indeterminadas sem objeto determinado. * Frege: exemplo da fresa no caminho. * Rejeição de “sensações” sem referência clara. * Percepção como percepção do objeto mesmo. * Uma certa filosofia trata como enigma o fato de a percepção qualificar o percebido como objeto e recorre a uma resposta de espírito kantiano segundo a qual a intervenção do pensamento determina o objeto percebido, como em Frege com a tese de que ver a fresa pressupõe pensar que é uma fresa. * Enigma: como o percebido aparece como objeto. * Resposta: pensamento como condição de determinação objetiva. * Frege: identificação da fresa ligada ao pensar “é uma fresa”. * Atribuir ao pensamento a determinação do objeto desperta resistência por colidir com a originalidade e a originariedade da percepção em relação ao pensar, pois ver uma fresa difere de pensar que há uma fresa e não parece exigir tal pensamento subjacente. * Originalidade: diferença de tipo experiencial entre ver e pensar. * Originariedade: ausência aparente de dependência do pensamento na visão comum. * Dependência do pensamento admitida apenas em casos especiais. * Mantida a independência da percepção em relação ao pensamento, reaparece o problema de como ela permanece percepção de objetos, núcleo do problema pós-fregeano que mobiliza parte da filosofia contemporânea e recebe o nome de “problema da percepção”. * Formulação pós-fregeana do impasse. * Foco: objetualidade sem pensamento determinante. * Antes da resposta fenomenológica, ressalta-se o caráter fabricado do problema, pois é estranho perguntar como a percepção “acessa” seu objeto como se precisasse resolver algo por conceitos, quando a percepção já seria o lugar onde isso está resolvido. * Estranheza de exigir solução conceitual para a percepção. * Percepção como resolução prévia do suposto problema. * A questão moderna do acesso parece pressupor a percepção como acesso dado e inquestionável, de modo que o problema do acesso se aplicaria às formas de pensamento e não à percepção, já que se está sempre no meio das coisas. * Inversão de perspectiva: percepção como dado primário. * “Acesso” perde sentido quando não há passo a transpor. * Problema do acesso deslocado para o pensar. * Uma filosofia que formula o “problema da percepção” aborda a percepção como se viesse de um além ou aquém sem percepção, como se fosse preciso constituí-la como acesso a partir de um não-acesso primeiro, embora tais questões dependam da própria percepção e por isso não façam sentido aplicadas a ela. * “Não-acesso” hipotético como ponto de partida equivocado. * Dependência das questões do fato perceptivo. * Inaplicabilidade do esquema de acesso à percepção. * Uma boa filosofia da percepção exigiria ascese para compreender que o problema é estrangeiro à percepção e por isso não se coloca, pois não há aquisição das “coisas mesmas” já que se está nelas, e a tarefa é pensar adequadamente as coisas, para o que a originariedade perceptiva é condição e ponto de aplicação, não uma forma de adequação. * Estranheza do problema diante do fato de já estar nas coisas. * Tarefa: pensamento adequado sobre as coisas, não obtenção delas. * Originariedade: nada menos que coisas mesmas, nada mais que elas. * Adequação como trabalho do pensar com base na percepção. {{tag>Benoist percepção}}