====== QUERER (LM) ====== //ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 [ARENDTVE] / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]// * A tríade pensar, QUERER e julgar constitui o núcleo das atividades espirituais irredutíveis entre si, cada qual dotada de impulso próprio — a “necessidade da razão” em Kant, a autonomia da volição em Duns Scotus e Tomás de Aquino, e a autolegislação do juízo reflexivo em Kant —, sem possibilidade de redução a um denominador comum [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9]. * Kant: “necessidade da razão” como motor interno do pensar. * Duns Scotus: “nihil aliud a voluntate est causa totalis volitionis in voluntate”. * Tomás de Aquino: “voluntas vult se velle” (De Veritate, q. XXII, art. 12). * Kant: juízo como “faculdade peculiar” (Crítica da Razão Pura, B171-B174; Crítica do Juízo, introd. IV). * A autonomia das atividades espirituais implica sua não-condicionalidade em relação ao mundo e à vida, permitindo transcendência espiritual das condições existenciais — como nascimento, trabalho e morte — sem alterar a realidade factual, conforme indicado por Heidegger, Heráclito e Kant [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9]. * Heidegger: atividades espirituais não conferem diretamente poder de agir. * Heráclito: “sophon esti pantón kechórismenon”. * Kant: possibilidade de seres racionais sem nossos critérios sensíveis. * O espírito pode QUERER o impossível, como a vida eterna. * As atividades espirituais, embora ocorram em um mundo de aparências, exigem retirada deliberada da imediaticidade sensível, tornando presente o ausente por meio da imaginação, da memória e da antecipação volitiva, conforme Kant e a tradição metafórica da visão [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9]. * Kant: imaginação como “faculdade da intuição mesmo sem a presença do objeto”. * Memória: constituição do “não mais”. * Vontade: antecipação do “ainda não”. * Retirada do presente como condição do pensar, QUERER e julgar. * A prioridade do pensar decorre de sua função de dessensorializar os particulares dados aos sentidos, tornando possível o exercício do QUERER e do julgar sobre aquilo que ainda não é ou já não é mais [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 9]. * Representação antecede reflexão. * Preparação do espírito para lidar com ausentes. * Dessensorialização como condição do trato com o futuro e o passado. * A distinção entre crime público e transgressão privada evidencia que o mal cometido afeta o mundo comum e não apenas o agente ou a vítima, impondo punição independentemente do perdão individual [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18]. * Leis distinguem acusação obrigatória e ofensas privadas. * Comunidade violada como fundamento da punição. * O mundo comum como instância lesada. * A dualidade socrática do dois-em-um revela que o eu não é unidade simples, pois a consciência introduz diferença interna que possibilita harmonia ou desarmonia consigo mesmo [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18]. * Sócrates: risco de desacordo consigo. * Consciência como “conhecer comigo mesmo”. * Distinção entre aparecer aos outros e aparecer a si. * O conflito interno entre QUERER e não-querer fundamenta o Imperativo Categórico de Kant como exigência de não-contradição, retomando a preocupação socrática com o acordo consigo mesmo [Arendt, Vida do Espírito I O Pensar 18]. * Kant: agir segundo máxima universalizável. * Proibição de abrir exceção para si. * Autocontradição como critério moral. * A liberdade da Vontade manifesta-se como consciência de poder ter agido de outro modo, fato que inquietou filósofos como Agostinho e Bergson devido à ligação intrínseca entre vontade e liberdade [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER Introdução]. * Agostinho: questionamento da necessidade de falar em vontade se é necessário QUERER. * Bergson: “dado imediato da consciência”. * Distinção entre desejos e atos livres. * O futuro, enquanto domínio do projeto volitivo, caracteriza-se por incerteza e exige da Vontade transcendência semelhante à da razão ao pensar o incognoscível, como exemplificado pelo Testamento e pela antecipação da morte [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 1]. * Futuro como coisas que podem nunca vir a ser. * Testamento como expressão extrema da volição. * Paralelo entre necessidade de pensar e necessidade de QUERER. * A suspeita medieval e moderna em relação à Vontade decorre do peso de responsabilidade que implica, até que, na virada do século XIX, QUERER e Ser passam a ser equacionados após Kant, retomando a tradição iniciada por Parmênides [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 2]. * Kant: embaraço da razão especulativa diante da liberdade. * Parmênides: identidade entre pensar e ser. * Substituição moderna da razão pela Vontade como faculdade suprema. * A descrença na existência ou liberdade da Vontade, em Hobbes e Espinosa, fundamenta-se na analogia da pedra em movimento e na definição de liberdade como ausência de impedimentos externos [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 3]. * Hobbes: crítica ao “posso QUERER se quiser”. * Espinosa: homens conscientes das ações, não das causas. * Distinção entre liberdade subjetiva e sujeição objetiva. * A concepção agostiniana identifica na Vontade uma cisão interna entre velle e nolle, superando o dualismo maniqueísta e formulando o insight de que QUERER e poder não coincidem [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 10]. * Agostinho: duas vontades, carnal e espiritual. * “Non hoc velle quod posse”. * Conflito interno como dilaceração da alma. * Em Duns Scotus, a autonomia radical da Vontade funda a contingência e a liberdade como experiência interna infalível — “experitur enim qui vult se posse non velle” —, independentemente da cadeia causal aristotélica [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 12]. * Possibilidade de revogar escolha. * Crítica à necessidade absoluta. * Contingência como evidência interna. * A transformação da Vontade em amor, em Agostinho e Scotus, redime a fragmentação volitiva ao converter o QUERER em atividade pura cujo fim está em si mesma, culminando na beatitude como fruitio [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 12]. * Agostinho: força unificadora do amor. * Scotus: beatitude como amor perfeito a Deus. * Distinção entre uti e frui. * Em Nietzsche, QUERER é comandar e implica simultaneamente comando e obediência internos, revelando a estrutura dual da vontade e seu vínculo com poder, ressentimento e impossibilidade de QUERER retroativamente [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 14]. * “QUERER é comandar”. * Genealogia do ressentimento. * Experimento do eterno retorno. * Heidegger radicaliza a crítica à vontade-de-potência ao opor-lhe o deixar-ser (Gelassenheit), deslocando a primazia do QUERER para o pensar como resposta ao chamado do Ser [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 15]. * Kehre como reação à vontade-de-potência. * História do Ser (Seinsgeschichte). * Pensar além da causalidade e da finalidade. * A liberdade política difere da liberdade filosófica da Vontade, pois nas comunidades políticas a ação é moldada por leis e princípios energéticos, conforme Montesquieu e Jefferson, garantindo espaço para agir segundo o que se deve QUERER [Arendt, Vida do Espírito II O QUERER 16]. * Montesquieu: liberdade como poder fazer o que se deve QUERER. * Jefferson: “princípios energéticos”. * Distinção entre tirania e regimes com espaço de ação. {{tag>Arendt querer vontade}}