====== EGO 2 (LM) ====== //ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 [ARENDTVE] / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]// * O segundo volume de A Vida do Espírito é dedicado à faculdade da Vontade e ao problema da Liberdade, fenômenos encobertos por argumentos que se desvinculam das experiências reais do EGO volitivo ao favorecer doutrinas não interessadas em salvar os fenômenos [Arendt, Vida do Espírito II O Querer Introdução]. * Bergson equipara o problema da liberdade para os modernos aos paradoxos dos Eleatas para os antigos. * Os argumentos que recobrem os fenômenos não são arbitrários e não devem ser desprezados. * Todo exame crítico da Vontade é empreendido por pensadores profissionais, o que suscita a suspeita de que as denúncias da Vontade como mera ilusão e as refutações de sua existência, idênticas em filósofos de pressupostos diversos, decorrem de um conflito básico entre as experiências do EGO pensante e as do EGO volitivo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer Introdução]. * Kant cunha a expressão Denker von Gewerbe para designar os pensadores profissionais. * Argumentos quase idênticos contra a Vontade são sustentados por filósofos com filosofias gerais bastante diferentes. * A avaliação do EGO pensante sobre as outras atividades do espírito não é confiável nem objetiva, embora o espírito que pensa e o que quer seja o mesmo e o eu una corpo, alma e espírito, pois a noção de vontade livre é um postulado necessário em toda ética e um dado imediato da consciência, cuja conexão com a liberdade levantou a desconfiança dos filósofos [Arendt, Vida do Espírito II O Querer Introdução]. * Bergson afirma a vontade livre como dado imediato da consciência, tal como o eu-penso de Kant ou o cogito de Descartes. * Agostinho questiona por que falar da vontade se é necessário querer. * A pedra de toque do ato livre é a consciência de que se poderia ter deixado de fazer o que foi feito, distinto dos desejos e apetites. * A Vontade tem liberdade infinitamente maior que o pensamento, mas este não pode escapar ao princípio de não contradição. * O EGO pensante invisível não está em Lugar Nenhum quando formulado em termos espaciais, pois retirou-se do mundo das aparências e do próprio corpo, a ponto de a pergunta sobre onde se está quando se pensa ser imprópria por ser feita de fora da experiência de pensamento [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1]. * Platão ironicamente designa o filósofo como homem apaixonado pela morte. * Valéry escreve “Tantôt je pense et tantôt je suis”, indicando que o EGO pensante perde o senso de realidade e o eu real não pensa. * A investigação da experiência temporal do EGO pensante revela que a memória, como poder do espírito de tornar presentes os invisíveis, opera em um Presente duradouro, uma lacuna entre passado e futuro, cuja interpretação medieval como indício da eternidade divina desconsidera o caráter comum e banal dessa experiência, que é o ato habitual do intelecto em qualquer reflexão [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1]. * Agostinho chama a eternidade de Deus de hodiernos, um “hoje” duradouro. * O nunc stans da meditação medieval e o présent qui dure de Bergson designam o agora permanente. * A parábola kafkiana do tempo é utilizada para designar a lacuna entre o passado e o futuro. * A constituição de um presente que dura ocorre tanto na reflexão sobre ocorrências cotidianas quanto sobre coisas eternamente invisíveis. * A aparente espacialidade do presente duradouro do EGO pensante é um erro causado pelas metáforas espaciais utilizadas para descrever o tempo, pois a duração é sempre expressa como extensão devido à necessidade de medir o tempo para as atividades cotidianas, medindo distâncias espaciais [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1]. * Bergson descobre que os termos sobre o tempo são tomados de empréstimo à linguagem espacial. * O passado é entendido como algo que fica atrás e o futuro à frente. * A sucessão temporal pressupõe um espaço estendido onde a sucessão se dá. * O EGO pensante reflete sobre as atividades cotidianas mas não está envolvido nelas. * A Vontade é o órgão espiritual para o futuro, do mesmo modo que a memória é o órgão espiritual para o passado, e seu problema básico consiste em lidar com coisas que nunca existiram, e não apenas com coisas ausentes dos sentidos que o espírito torna presentes [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 1]. * Grandes filósofos que nunca duvidaram da razão sustentaram que a Vontade é uma ilusão. * A língua inglesa apresenta ambivalência com will como auxiliar de futuro e to will como volição. * A Vontade lida com o ainda-não, visível ou invisível, que absolutamente nunca existiu. * A filosofia de Nietzsche sobre a Vontade de Potência não constitui o clímax da ascendência da Vontade, mas sim um equívoco causado por edições não críticas de suas publicações póstumas, pois Nietzsche devota muitas passagens a uma declarada hostilidade à teoria da liberdade da vontade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 2]. * Nietzsche fornece insights decisivos sobre a natureza da Vontade e do EGO volitivo. * A teoria da liberdade da vontade, embora refutada centenas de vezes, deve sua permanência precisamente ao fato de ser refutável. * Sempre aparece alguém forte o suficiente para refutá-la uma vez mais, segundo Nietzsche. * As complexidades do EGO volitivo exigem considerar que toda filosofia da Vontade é produto do EGO pensante, cuja avaliação das outras faculdades não permanece imparcial, o que se evidencia no fato de pensadores com filosofias diferentes levantarem argumentos idênticos contra a Vontade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 3]. * É sempre o mesmo espírito que pensa e quer. * As principais objeções à Vontade na filosofia pós-medieval serão esboçadas antes da discussão sobre Hegel. * A desconfiança recai sobre a imparcialidade do EGO pensante ao avaliar a Vontade. * As mesmas objeções levantadas contra a Vontade poderiam ser levantadas contra o pensamento, mas quase nunca o foram, com exceção de Nietzsche e Wittgenstein, que ousaram duvidar da faculdade do pensamento [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 3]. * Hobbes calcula consequências como pensamento sem margem para suspeitas. * Ryle refuta a doutrina da faculdade da vontade ao afirmar que ninguém descreve volições como ações rápidas ou lentas entre o meio-dia e o lanche. * Wittgenstein sustenta em seus primeiros experimentos que o sujeito que representa pode ser superstição ou ilusão vazia, mas o sujeito volitivo existe, reiterando argumentos contra a negação da Vontade de Espinosa. * Nietzsche tem dúvidas tanto em relação à vontade quanto ao pensamento. * A contingência dos assuntos humanos sempre condenou este campo a um status ontológico baixo aos olhos dos filósofos do EGO pensante, mas antes da Era Moderna existiam vias de escape como o bios theoretikos na Antiguidade e a vita contemplativa cristã, conjugada à esperança de uma vida após a morte [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 3]. * O pensador antigo habitava a vizinhança das coisas necessárias e perenes. * A divina Providência e a expectativa da visão face a face consolavam o pensamento cristão. * Kant julgava a vida infeliz e destituída de sentido sem a esperança de um Além. * A progressiva secularização e descristianização do mundo moderno, com sua ênfase no futuro e no progresso, expôs os pensadores à contingência das coisas humanas de maneira radical, fazendo com que o velho problema da liberdade se incorporasse ao acaso da história e encontrasse pseudossolução na filosofia da história do século XIX, cujo olhar retrospectivo do EGO pensante depura a realidade do acidental [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 3]. * O progresso aproxima-se dos limites da condição humana na Terra. * Hegel produz teoria de uma Razão escondida guiando as vontades contingentes a um objetivo final não pretendido. * A Revolução Francesa é contemporânea ao início do fim da história para Hegel. * O puro esforço do EGO pensante internaliza e relembra, fazendo o pensamento coincidir com o autêntico Ser. * As especulações dos padres da Igreja ao explicar a fé cristã em termos da filosofia grega enfrentaram a transição lógica de Nada para Algo, e suspeita-se que foi o novo EGO volitivo que considerou a ideia de um começo absoluto apropriada à sua experiência de fazer projetos, como no exemplo de Kant em que levantar-se da cadeira com intenção de algo inicia uma nova série [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 4]. * A língua hebraica não possui palavra para o Ser. * O equacionamento do Universo e do Ser implica o nada como oposto. * No exemplo de Kant, levantar-se por hábito ou necessidade é continuação de uma série precedente. * Do ângulo do EGO volitivo, é a necessidade, e não a liberdade, que parece uma ilusão da consciência, insight elementar de Bergson que nunca teve importância nas discussões sobre necessidade versus liberdade e que foi levantado apenas uma vez antes por Duns Scotus, defensor da primazia da Vontade e da contingência em tudo o que é [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 4]. * Duns Scotus é apontado como o mais importante pensador da Idade Média cristã e o maior dos escolásticos. * Duns Scotus afirma que os verdadeiros cristãos dizem que Deus age contingentemente. * Duns Scotus propõe que os que negam a contingência sejam expostos a tormentos até reconhecer que é possível não ser atormentados. * Descartes foi o primeiro a recusar-se deliberadamente a tratar da não plausibilidade da vontade livre, considerando absurdo duvidar daquilo que se experimenta interiormente, embora jamais tenha ocorrido a ele ou a seus objetores falar do pensamento como mero dado da consciência sem prova, o que suscita a suspeita de que aprazia menos aos pensadores profissionais a liberdade do que a necessidade, suspeita reforçada pela ligação entre todas as teorias da vontade livre e o problema do mal [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 4]. * Descartes afirma que tais coisas são experimentadas em si mesmo, não persuadidas pelo raciocínio. * O cogito cartesiano é uma ação do espírito no interior de si mesmo, mas não é pressuposto sem prova. * Agostinho inicia o tratado sobre o livre-arbítrio perguntando se Deus é o autor do mal. * Paulo propõe a questão do mal na Epístola aos romanos. * Os filósofos parecem geneticamente incapazes de lidar com certos fenômenos do espírito e com sua posição no mundo, sendo tão pouco confiáveis na avaliação da Vontade quanto o foram na avaliação do corpo, hostilidade esta que é muito mais antiga que o antagonismo cristão à carne e é motivada pela incorrigível natureza das necessidades corporais que interrompem as atividades do EGO pensante [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * A hostilidade ao corpo existe pelo menos desde Platão. * O corpo sempre quer ser cuidado e, mesmo nas melhores condições, interrompe o EGO pensante. * Na alegoria da Caverna, o corpo força o filósofo a retornar dos céus das ideias à Caverna dos assuntos humanos. * O dogma cristão da ressurreição da carne contrasta com as crenças gnósticas e a filosofia clássica. * O antagonismo do EGO pensante em relação à Vontade é um conflito entre duas atividades espirituais incapazes de coexistir, pois ambas se retiram do mundo das aparências, mas o pensamento torna presente o que é ou foi, enquanto a Vontade move-se em direção ao futuro, onde não há certezas, e a alma reage com esperança e medo, sentimentos mutáveis e inquietos que a Antiguidade considerava males da caixa de Pandora [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * Pensamento e Vontade antagonizam-se nos estados psíquicos que afetam. * A expectativa é o aparato psíquico para lidar com o desconhecido. * Esperança e medo dão guinadas em direção a seu aparente oposto. * O futuro como projeto da Vontade nega o que é dado, e o poder da negação que move a História em Hegel e Marx deriva da habilidade da Vontade de realizar um projeto, ameaçando o presente duradouro do EGO pensante, que não responde com serenidade aos projetos da vontade, pois toda volição anseia por seu próprio fim no fazer e tem como humor habitual a impaciência, a inquietude e a preocupação [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * O nunc stans absorve o que não é mais sem perturbação, mas não responde com serenidade aos projetos da vontade. * Nenhum querer encontra satisfação na própria atividade. * A volição envolve particulares e anseia pela transformação do querer no fazer. * O projeto da vontade pressupõe um eu-posso não garantido. * A inquietação da Vontade é apaziguada pelo eu-quero-e-faço. * A Vontade sempre quer fazer algo e menospreza o pensamento puro, cuja atividade depende de não fazer nada, e nunca um teólogo ou filósofo exaltou a doçura da experiência do EGO volitivo como exaltavam a do EGO pensante, com exceção de Duns Scotus e Nietzsche, que entendiam a Vontade como poder que se compraz consigo mesmo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * Duns Scotus afirma que a vontade é potência porque pode algo. * O EGO volitivo antecipa um eu-posso e o prazer da Vontade é o eu-quero-e-eu-posso. * A habilidade da Vontade de tornar presente o ainda-não opõe-se à lembrança, que tem afinidade natural com o pensamento e não perturba a serenidade do espírito, enquanto a Vontade lida com coisas em nosso poder cuja realização não é assegurada, gerando tensão e inquietação na alma que só podem ser superadas pelo fazer, e a mudança do querer para o pensar paralisa temporariamente a vontade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * A anamnesis em Platão é hipótese plausível para a capacidade humana de aprender. * Agostinho equaciona espírito e memória. * A nostalgia contém dor e pesar mas não perturba o espírito. * Agostinho formula que querer e ser capaz de realizar, velle e posse, não são a mesma coisa. * Em termos de tonalidade, o humor predominante do EGO pensante é a serenidade e o prazer de uma atividade sem resistência da matéria, inclinando-se à melancolia, enquanto o humor da Vontade é a tensão, que arruína a tranquilidade do espírito de Leibniz, para quem a única tarefa da Vontade seria querer não querer [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * Kant e Aristóteles apontam a melancolia como humor característico do filósofo. * Leibniz insiste na animi tranquilitas encontrada nas cadeias de pensamento que provam ser este o melhor dos mundos possíveis. * Leibniz afirma que todo ato voluntário interfere na harmonia universal. * Leibniz, com consistência admirável, conclui que o pecado de Judas não está na traição a Jesus, mas no suicídio, pois ao odiar-se odiou o Criador, pensamento encontrado em versão radical no Mestre Eckhart, para quem o homem que cometeu mil pecados mortais não deveria desejar não os ter cometido, rejeição surpreendente do arrependimento que em Eckhart é motivada pela fé e em Leibniz é vitória final do EGO pensante sobre o EGO volitivo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 5]. * Judas, ao condenar-se, condena implicitamente o todo da criação de Deus. * A sentença condenada do Mestre Eckhart afirma que o pecador não deve desejar não ter cometido os pecados. * A alternativa à rejeição do arrependimento seria declarar que teria sido melhor nunca ter nascido. * A tentativa da Vontade de querer retroativamente poderia resultar na aniquilação de tudo o que é. * Nenhum filósofo descreveu o confronto do EGO volitivo com o EGO pensante com maior simpatia e significação do que Hegel, assunto complexo devido à terminologia esotérica e às especulações sobre o tempo, cujos textos fundamentais foram reunidos e interpretados por Alexandre Koyré em ensaio que se tornou fonte e base da interpretação de Alexandre Kojève [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * As passagens de Hegel sobre a Vontade são escassas na Fenomenologia do Espírito, Filosofia do Direito, Enciclopédia e Filosofia da História. * O ensaio de Koyré, Hegel à Iéna, é dedicado aos textos de Hegel sobre o tempo. * A argumentação de Koyré é acompanhada de perto por Arendt. * A tese central de Hegel é a insistência na primazia do futuro em relação ao passado, o que não surpreenderia em um pensador do século XIX com confiança no progresso, não fosse Hegel também afirmar que a filosofia é seu tempo compreendido em pensamento e que o que existe é razão, premissa de sua contribuição decisiva: uma filosofia da história reunida pelo olhar retrospectivo do EGO pensante, que internaliza o passado e reconcilia Espírito e Mundo sem pagar o preço da alienação do mundo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * Hegel afirma que todo mundo é filho de seu próprio tempo. * O que é pensado é, e o que é existe somente à medida que é pensamento, segundo Hegel. * O espírito assimila para si o que teve significado, considerando o não assimilável como acidente irrelevante. * A primazia do passado desaparece quando Hegel discute o tempo humano, cujo fluxo o homem experimenta como puro movimento até refletir, momento em que a atenção do espírito se dirige ao futuro, que nega o presente permanente e ganha prioridade sobre o passado, reversão causada pela negação que o homem faz de seu Agora, faculdade que não é o pensar mas o querer [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * O termo alemão Zukunft e o francês avenir indicam o tempo que está em processo de vir em direção. * O futuro antecipado transforma o presente em um não-mais antecipado. * Koyré descobre que o Ser, terminado e realizado, pertence ao Passado. * Hegel não menciona a Vontade no contexto da negação do Agora. * O EGO volitivo vive para o futuro, e o hoje é ameaçado pela interferência do espírito que o nega, convocando o ainda-não ausente e cancelando espiritualmente o presente, cuja essência é não ser, pois o futuro é sua realidade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * Hegel afirma que a razão pela qual o presente não pode resistir ao futuro não é a inexorabilidade da sucessão temporal. * O amanhã não projetado pela Vontade pode ser repetição do passado. * O Agora é vazio e se preenche no futuro. * O eu que se identifica com o EGO volitivo existe em transformação contínua de seu futuro em um Agora e deixa de ser no dia em que não há mais futuro, quando tudo está realizado, e a velhice consiste no encolhimento da dimensão de futuro, enquanto a morte significa a perda final do futuro, abrindo para a tranquilidade do passado e para o olhar retrospectivo do EGO pensante em busca de significado [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * Os voluntaristas derivam o principium individuationis da faculdade da vontade. * Heidegger considera a velhice o tempo da meditação. * Sófocles considera a velhice tempo de paz e liberdade, libertação das paixões do corpo e da ambição. * O passado começa com o desaparecimento do futuro, e o EGO pensante afirma-se na tranquilidade quando o Devir é interrompido, pois a inexorabilidade é o preço pago pela Vida, e a antecipação da morte é o preço pago pela tranquilidade, inexorabilidade que não vem do movimento externo mas é engendrada no espírito do homem, que não é só temporal mas é o Tempo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * O pensamento existencial posterior transforma a inexorabilidade na noção de autoprodução do espírito humano. * Em Hegel, a autoconstituição do Tempo é obra do homem. * Em Hegel, o homem distingue-se das outras espécies não como animal rationale, mas como a única criatura viva que sabe de sua própria morte, e é na antecipação da morte que o EGO pensante se constitui, pois os projetos da vontade tomam a aparência de um passado antecipado e tornam-se objeto de reflexão, capacitando o homem a dominar a morte e preservar-se dentro dela [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * O espírito que não ignora a morte capacita o homem a resistir a ela. * Koyré afirma que o movimento da dialética temporal é interrompido quando o espírito se depara com o próprio fim. * O tempo preenchido cai no passado e o futuro perde seu poder sobre ele. * O verdadeiro Ser do futuro deve ser o Agora, mas em Hegel este nunc stans é um nunc aeternitatis. * A eternidade para Hegel é a natureza quintessencial do Tempo, imagem de eternidade platônica. * Se existe vida do espírito, isso se deve ao órgão do espírito próprio para o futuro e à inquietude daí resultante, e também à morte que, prevista como fim absoluto, paralisa a vontade e transforma o futuro em passado antecipado, os projetos em objetos de pensamento e a expectativa em lembrança antecipada, doutrina de Hegel que soa moderna e sintonizada com a fé no Progresso, embora Hegel tenha um predecessor estranho para quem a noção de progresso era alheia [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * A solução hegeliana parece engenhosa para os filósofos modernos entrarem em acordo com a tradição. * O predecessor de Hegel não tinha interesse em descobrir uma lei que governasse os acontecimentos históricos. * O insight a que a filosofia deve levar, para Hegel, é que o mundo real é como deveria ser, e como a filosofia diz respeito ao que é verdadeiro eternamente, ao Agora como presença absoluta, a filosofia deve apaziguar o conflito entre o EGO pensante e o EGO volitivo, unindo as especulações sobre o tempo da perspectiva da Vontade com a perspectiva do pensamento de um presente que dura [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * A filosofia hegeliana trata do que é verdadeiro eternamente, nem o Ontem nem o Amanhã. * O espírito, percebido pelo EGO pensante, é o Agora enquanto tal. * A tentativa hegeliana de unificar as perspectivas não é bem-sucedida, pois a primazia do futuro exige que o tempo nunca termine, enquanto a filosofia no sentido hegeliano exige uma interrupção no tempo real, e a filosofia de Hegel só poderia reivindicar verdade objetiva sob a condição de que a história estivesse factualmente no fim [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * Koyré observa que Hegel possivelmente acreditava que a condição essencial para uma filosofia da história já era realidade. * Kojève sustenta que o sistema hegeliano é a verdade e o fim definitivo da filosofia e da história. * O movimento em espiral que concilia as noções retilínea e cíclica de tempo não se baseia nas experiências do EGO pensante nem do EGO volitivo, mas no movimento não experienciado do Espírito do Mundo, solução engenhosa para o problema da Vontade alcançada com prejuízo de ambas as experiências, não passando de uma hipótese [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * O Geisterreich hegeliano é o domínio dos espíritos com forma definida na existência. * Um espírito toma de seu predecessor o império do mundo espiritual. * O movimento dialético triádico assegura o progresso infinito e dá conta da ascensão e queda das civilizações, e o elemento cíclico permite ver cada fim como um novo começo, infinitude que está em perfeita harmonia com o conceito de tempo do EGO volitivo e com a primazia do futuro, pois a Vontade prefere querer o Nada a não querer, e a noção de progresso infinito nega todo objetivo e admite fins apenas como meios [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 6]. * Hegel afirma que Ser e Nada são a mesma coisa, a saber, Devir. * O movimento de Ser para Nada é desaparecimento, e de Nada para Ser é surgimento. * Nietzsche observa que a Vontade preferiria querer o Nada a não querer. * Heidegger aponta que o progresso infinito nega todo objetivo. * As dificuldades que cercam a discussão sobre a Vontade assemelham-se às falácias metafísicas do EGO pensante em seu conflito com o mundo das aparências, e a questão orientadora é que experiências fizeram os homens tomarem consciência de que eram capazes de constituir volições, já que a faculdade da Vontade só se tornou manifesta muito depois da descoberta da razão [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 7]. * Arendt não tenta refutar as falácias metafísicas como erro lógico ou científico, mas demonstra sua autenticidade. * O EGO pensante nunca deixa inteiramente o mundo das aparências por estar incorporado a um eu corpóreo. * A identificação do espírito com o cérebro é uma falácia, pois o espírito determina a existência de objetos de uso e coisas-pensamento, e o cérebro, ferramenta do espírito, não está sujeito a mudanças operadas pelo desenvolvimento de novas faculdades espirituais, mas o espírito é afetado por suas próprias atividades e pelas mudanças no mundo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 7]. * O espírito do ferramenteiro é o espírito de um corpo dotado de mãos. * O espírito que origina pensamentos é o espírito de uma criatura dotada de cérebro humano. * As atividades do espírito têm natureza reflexiva. * As experiências do EGO volitivo não eram ignoradas na Antiguidade grega, onde Sócrates descobriu o dois-em-um, a consciência, articulada no diálogo sem som do pensamento, que ocorre no estar-só e na retirada do mundo das aparências, interioridade que não se refere tematicamente ao eu mas às experiências que este eu elege para investigar [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8]. * O diálogo sem som de mim comigo mesmo é chamado de pensamento desde Platão. * A filosofia é a atividade solitária para Hegel. * Descartes e Kant acompanham o eu-penso. * Os dois-em-um são amigos e parceiros, e manter a harmonia é fundamental para o EGO pensante. * A natureza reflexiva das atividades do espírito, do cogito me cogitare e do volo me velle, é mais forte no EGO volitivo, pois todo eu-quero surge de uma reação natural dos homens livres quando subjugados, e a vontade dirige-se a si mesma respondendo à lei com a ordem de querer o que a lei ordena, o que inicia a disputa interna com a contravontade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8]. * O juízo é a faculdade menos reflexiva das três. * Paulo escreve que os que observam a Lei estão sob o peso da maldição. * O eu-quero-e-não-posso é rebatido por um não-quero. * A Vontade, que se divide produzindo sua própria contravontade, precisa ser curada para tornar-se uma só, cura que para o EGO pensante seria a pior coisa, pois poria fim ao pensamento, e a solução de Paulo, a misericórdia divina, elimina a Vontade ao destituí-la da contravontade, mas a salvação não depende do querer nem do esforço do homem [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8]. * Paulo afirma que a misericórdia de Deus não depende do querer ou do esforço do homem. * A lei veio para tornar o pecado identificável e aumentar a perdição. * A graça abundou onde o pecado cresceu, felix culpa. * A vontade é impotente porque se torna um obstáculo para si mesma, e onde não é um obstáculo, como em Jesus, ainda não existe, e para Paulo o conflito se dá entre carne e espírito, hostilidade ao corpo que surge da essência da Vontade e não apenas da interrupção da atividade pensante, pois a carne torna-se metáfora para a resistência interna [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 8]. * Paulo afirma que viver de acordo com a carne é uma espécie de morte. * A tarefa do espírito é causar a mortificação da carne. * A descoberta da Vontade abriu a caixa de Pandora das questões irrespondíveis. * Epiteto exemplifica o filósofo que, uma vez que a razão descobre a região interna onde o homem enfrenta impressões e não a existência factual, não se volta para as coisas externas e força-se a querer que aconteça somente o que acontece, afastamento da realidade que contrasta com a retirada do EGO pensante e transforma o espectador em aparição fantasmagórica no mundo das aparências [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9]. * Epiteto afirma que o filósofo vai aos jogos mas está interessado somente em si mesmo. * O filósofo deve querer que só ganhe aquele que de fato ganha. * Quando vai a algum lugar, não presta atenção ao objetivo, mas à própria atividade de caminhar. * A deliberação interessa-se unicamente pelo ato de deliberar. * A única força que pode obstruir o consentimento ativo da vontade é ela mesma, e o critério para a conduta correta em Epiteto é querer estar satisfeito consigo mesmo e querer aparecer nobre diante do deus, redundância pois o deus está dentro de ti, e o EGO volitivo, não menos dividido em dois que o dois-em-um socrático, mantém uma relação francamente antagônica consigo mesmo, uma luta permanente [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9]. * Epiteto usa o termo agón para designar a luta permanente. * O filósofo mantém a guarda contra si mesmo como contra seu próprio inimigo. * Aristóteles afirma que os sentimentos de amizade para com os outros são extensão dos sentimentos de amizade para consigo mesmo. * O eu do filósofo governado pelo EGO volitivo engaja-se em luta sem fim com a contravontade, e o preço pela onipotência da Vontade é alto, pois estar em desacordo consigo mesmo torna-se parte inseparável da condição humana, destino agora atribuído ao homem bom e sábio [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9]. * O pior que poderia acontecer ao dois-em-um do ponto de vista do EGO pensante é o homem-vil de Aristóteles estar em desacordo consigo mesmo. * Questiona-se se a cura é pior do que a doença. * A descoberta ineliminável da empreitada do EGO volitivo é que toda obediência presume o poder de desobedecer, e o poder da Vontade para assentir ou dissentir, dizer Sim ou Não, coloca em seu poder as coisas que dependem somente de si, poder terrível e esmagador que nunca deixou de exigir um consentimento enfático, visto por alguns como último ressentimento da Vontade contra sua impotência existencial e confirmação de seu caráter ilusório [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 9]. * Sêneca e Mestre Eckhart aconselham aceitar todas as ocorrências como se as tivesse desejado. * Agostinho considera a faculdade da vontade monstruosa. * Demócrito fala do depósito das dores e tesouro dos males. * Agostinho fala do abismo escondido no coração bom e no coração mau. * A cisão se dá na própria vontade, não entre espírito e vontade nem entre carne e espírito, e a Vontade fala sempre no modo imperativo, ordenando a si mesma, e onde quer que haja uma vontade há sempre duas vontades, nenhuma das quais plena, sendo necessário querer em parte e não-querer em parte [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10]. * Agostinho afirma que se a vontade fosse plena, não ordenaria que fosse vontade. * É o mesmo EGO volitivo que simultaneamente quer e não quer. * O tumulto das duas vontades em um só espírito dilacerava Agostinho. * Os maniqueístas explicavam o conflito com duas naturezas contrárias, mas Agostinho argumenta que haveria tantas naturezas quantas vontades em luta, e o mesmo conflito ocorre onde nenhuma escolha entre bem e mal está em jogo, com vontades todas más ou todas boas dilacerando o EGO volitivo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10]. * Agostinho exemplifica com alguém tentando decidir entre ir ao circo ou ao teatro, ou roubar, ou cometer adultério. * Quatro vontades más e em conflito não podem ser realizadas ao mesmo tempo. * O mesmo se dá com vontades boas. * A solução para os conflitos do EGO volitivo parece um deus ex machina nas Confissões e deriva de uma teoria diferente da Vontade, e John Stuart Mill, ao examinar a questão da vontade livre, descreve os conflitos de maneira menos vívida mas com palavras semelhantes, insistindo que o conflito se dá de mim para comigo mesmo [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 10]. * A teoria diferente da Vontade é apresentada em Sobre a Trindade. * Mill afirma que a confusão de ideias é muito natural para o espírito humano. * Um dos eus representa um estado mais permanente dos sentimentos do que o outro. * A autonomia da Vontade, sua completa independência das coisas como elas são, a indiferença, tem como única liminação a incapacidade de negar o Ser como um todo, e a indiferença da Vontade está relacionada a elementos contraditórios, pois somente o EGO volitivo sabe que uma decisão tomada poderia não ter sido tomada [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * Os escolásticos chamam de indiferença a não determinação da vontade por qualquer objeto. * O espírito não pode conceber o nada, ainda que a fé o tenha como objeto. * O teste da liberdade é o poder de querer ou não-querer o mesmo objeto apresentado pela razão ou desejo, poder que nem o desejo nem o intelecto possuem, e Duns Scotus afirma que o EGO volitivo, ao realizar uma volição, sabe ser livre para realizar o contrário e revogar a escolha, liberdade que se manifesta apenas como atividade espiritual e cujo preço é ser livre frente a cada objeto [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * Scotus afirma que está em poder de nossa vontade querer e não-querer com relação ao mesmo objeto. * O homem pode odiar a Deus e encontrar satisfação em tal ódio. * A liberdade da Vontade não consiste na seleção dos meios para um fim predeterminado como eudaimonia ou beatitudo. * Olivi denomina o homem sem essa liberdade de bestia intellectualis. * Olivi afirma que a vontade transcende todo criado. * O amor expresso em Volo ut sis é o mesmo amor com que Deus ama os homens. * Para os cristãos, Deus age contingentemente, livre e contingentemente, e Scotus chega à mesma avaliação da contingência por meio da filosofia, pois Aristóteles definira o contingente como aquilo que poderia também não ser, e o EGO volitivo tem ciência em cada volição de que poderia também não querer [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * Aristóteles define o contingente e o acidental como o que poderia também não ser. * O teste interno infalível distingue o ato livre de vontade do desejo irresistível. * A noção de contingência, correspondente à experiência do EGO volitivo, opõe-se à experiência do espírito e ao senso comum que percebem o mundo factual como necessidade, pois uma vez que o contingente aconteceu, perde o aspecto de contingência e apresenta-se como necessidade, resistindo a reflexões sobre sua original casualidade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * O insight de Bergson sobre o evento que se torna necessário após ter vindo a ser é citado. * Os fios do evento não podem mais ser desembaraçados. * O espírito que se orienta exclusivamente por sua interioridade e reflete sobre o passado reordena os processos em um padrão de necessidade, eliminando o acaso, condição necessária para o EGO pensante ponderar sobre o significado do que veio-a-ser, pois sem a eliminação dos elementos acidentais não seria possível qualquer explicação coerente [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * Scotus soluciona o problema da liberdade e da fragmentação da vontade sem recorrer à graça divina, pois a vontade sabe curar-se das consequências de sua liberdade simplesmente agindo conforme uma de suas proposições, perdendo a liberdade no momento em que para de querer e começa a agir [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * Paulo e Agostinho consideravam a graça divina necessária para curar o infortúnio da Vontade. * Scotus discorda da necessidade de intervenção divina. * O ato de escrever exclui o seu oposto, e não se pode tomar atitude simultânea em relação a querer e não-querer escrever. * O asno de Buridan resolve o problema parando de escolher e começando a comer. * Scotus compara as atividades do espírito à atividade da luz, que se renova permanentemente em sua fonte e perdura, e o dom da vontade livre, entregue a um ens creatum, força este ser a passar do activum ao factivum, da atividade pura à fabricação, mudança possível porque há um eu-posso inerente a cada eu-quero [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 12]. * O eu-posso é o oposto da potentia passiva dos aristotélicos. * O EGO experimenta um eu-posso poderoso e ativo. * Séculos mais tarde, Nietzsche suspeita que a crença no EGO pensante como única realidade fez atribuir realidade às coisas em geral, inversão de papéis possível somente quando o idealismo alemão rompeu todas as pontes, exceto a ponte arco-íris de conceitos, e os filósofos convenceram-se de que não possuem a verdade [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]. * Nietzsche é mestre nos experimentos de pensamento com inversão de papéis. * Heidegger afirma que a novidade da posição contemporânea em filosofia é a convicção de que não se possui a verdade. * A geração amadurecida sob as revoluções do século XVIII, com o espírito formado pela liberação kantiana do pensamento, transportou a noção de Progresso para o campo dos assuntos humanos e voltou sua atenção para a Vontade como órgão do Futuro, resultando na emancipação do espírito humano e na ideia de que tudo é EGO [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]. * Kant introduz a autocrítica da Razão. * Schelling afirma que a ideia de fazer da liberdade a parte essencial da filosofia emancipou o EGO pensante. * O conceito personificado de Humanidade em Pascal prolifera com incrível intensidade. * As atividades dos homens foram transformadas em atividades de conceitos personificados, tornando a filosofia infinitamente mais difícil e incrivelmente mais viva, uma orgia de pura especulação repleta de dados históricos disfarçados de abstração radical, onde as coisas-pensamento dão início a uma dança incorpórea e espectral [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]. * A principal dificuldade em Hegel é o teor de abstração e pistas ocasionais sobre os fenômenos reais. * Schelling afirma que a filosofia se ergue a um ponto de vista mais alto, a um maior realismo. * Os noumena de Kant são produtos desmaterializados da reflexão do EGO pensante. * O idealismo alemão, no qual a especulação pura alcançou seu clímax junto com o fim, foi omitido das considerações por Arendt por não se acreditar em um mundo em que o espírito humano pudesse sentir-se confortavelmente em casa, e Nietzsche e Heidegger, ao confrontarem-se com a Vontade como faculdade humana, repudiaram-na e converteram-se à casa fantasmagórica de conceitos personificados construída pelo EGO pensante [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]. * A ponte arco-íris de conceitos não é atravessada por falta de nostalgia. * A justificativa para a omissão é a não crença em um mundo passado ou futuro como morada do espírito. * Nietzsche explica em Para além do bem e do mal que aquele que quer dá ordens a algo que nele obedece, e o aspecto mais estranho da Vontade é termos uma só palavra para designar que somos ao mesmo tempo quem dá as ordens e quem obedece, superando a dicotomia pela noção do Eu e identificando querer e agir [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]. * O obediente experimenta sentimentos de coerção, ânsia, pressão e resistência. * O comandante experimenta sensação de prazer. * O hábito de identificar querer e executar faz com que se tome a obediência como certa. * A metáfora nietzschiana da Vontade como ondas do mar assemelha duas relações de coisas diferentes, mas para Nietzsche Vontade e Onda são idênticas, e as aparências do mundo transformam-se em mero símbolo das experiências interiores, colapsando a metáfora que servia de ponte entre o EGO e o mundo das aparências [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]. * As ondas se erguem do mar sem intenção ou meta, criando euforia enorme e sem propósito. * A Vontade aprecia o querer assim como o oceano aprecia as ondas. * O homem prefere querer o nada a não querer, segundo Nietzsche. * As experiências do EGO volitivo fizeram Nietzsche descobrir o turbilhão do mar. * O colapso da metáfora ocorre por adesão sectária ao aparato da alma humana, cujas experiências têm absoluta primazia, e Nietzsche afirma que as pressuposições da teoria mecanicista não são fatos-em-si mas interpretações com auxílio de ficções físicas, suspeita que a ciência moderna também alcançou [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]. * Nietzsche enumera matéria, átomo, gravidade, pressão e força como ficções físicas. * Lewis Mumford especula que o mundo exterior pode ser o mundo interior virado ao avesso. * Na coletânea Vontade de potência, a palavra final de Nietzsche sobre o assunto parece ser um repúdio à Vontade e ao EGO volitivo, cujas experiências internas levaram ao engano de supor causa e efeito, intenção e meta, na realidade, e o super-homem é aquele que supera essas falácias e redime a Vontade, levando-a à imobilidade do dizer sim [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]. * Desviar o olhar é a única negação. * O super-homem bendiz e diz Amém a tudo o que é. * O Esquecimento do Ser pertence à natureza da relação entre Homem e Ser, e Heidegger não se satisfaz mais em eliminar o EGO volitivo em favor do EGO pensante, mas dessubjetiviza o pensamento, rouba-o de seu Sujeito e transforma-o em função do Ser, reinterpretando a reviravolta e centrando-se na noção de que pensar é o único autêntico fazer do homem [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]. * Heidegger afirma em Nietzsche que a Vontade nunca possuiu o começo e o abandonou pelo esquecimento. * A Brief über den Humanismus interpreta Ser e Tempo como preparação para a reviravolta. * O pensamento ouve a voz do Ser nas expressões dos grandes filósofos do passado. * A descida ao passado coincide com a expectativa paciente da chegada do futuro. * Na compreensão radical de Nietzsche, a Vontade é essencialmente destrutiva, e a reversão original de Heidegger contrapõe-se a essa destrutividade, interpretando a tecnologia como vontade de querer cujo fim é a destruição total, e a alternativa é o deixar-ser do pensamento que obedece ao chamado do Ser, disposição chamada Gelassenheit [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]. * O deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser. * Heidegger afirma que a Gelassenheit prepara para um pensamento que não é uma vontade. * O pensamento está além da distinção entre atividade e passividade porque está além do domínio da Vontade. * Heidegger concorda com Nietzsche que a categoria da causalidade deriva da experiência do EGO volitivo. * A diferença entre Heidegger e seus predecessores é que o espírito do homem, chamado pelo Ser para transpor sua verdade à linguagem, está sujeito a uma História do Ser que determina se os homens respondem ao Ser em termos de querer ou pensar, e essa História revela-se ao EGO pensante se este superar a vontade e realizar o deixar-ser [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]. * Em Heidegger, a fusão entre pensar e agir não é apenas eliminação da separação sujeito-objeto para dessubjetivizar o EGO Cartesiano, mas a fusão real das mudanças na História do Ser com a atividade de pensamento dos pensadores, que, escondidos, respondem ao Ser e o realizam, originando uma contracorrente salutar no curso desastroso dos eventos [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]. * O conceito personificado do Idealismo Alemão torna-se completamente encarnado em Heidegger. * As reflexões sobre a Vontade não são enunciados científicos, não pretendem verdades demonstráveis, mas são produtos do EGO pensante em sua busca de significado, e Einstein traçou o limite entre enunciados cognitivos e proposições especulativas ao afirmar que o fato mais incompreensível da natureza é a natureza ser compreensível [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]. * O EGO pensante interfere na atividade cognitiva, interrompe-a e paralisa-a com suas reflexões. * A ininteligibilidade fundamental da compreensibilidade da natureza é um enigma sobre o qual vale a pena pensar. * A atenção aos homens de ação na expectativa de encontrar uma noção de liberdade purgada das perplexidades da reflexividade do espírito não alcançou o que se esperava, pois o abismo de pura espontaneidade das lendas fundadoras foi coberto pelo mecanismo da tradição ocidental, e a liberdade sobreviveu em sua integridade original apenas nas promessas utópicas de um reino de liberdade final [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]. * O hiato entre liberação e constituição da liberdade é superado pela compreensão do novo como reafirmação melhorada do velho. * A liberdade é a raison d’être de toda política na tradição ocidental. * O reino de liberdade na versão marxista significaria o fim de todas as coisas e paz eterna. {{tag>Arendt ego}}