obra:ga9:essencia-verdade
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| + | ===== 6 Essência da Verdade ===== | ||
| + | //Resumo em tópicos// | ||
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| + | 1. O discurso versa sobre a essência ([[lx> | ||
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| + | 2. Cabe perguntar se, ao nos ocuparmos da questão da essência, não vagamos no vazio de uma universalidade que tira o fôlego de todo pensamento, se a estranheza desse perguntar não expõe à luz do dia a infundamentação de toda filosofia, e que sentido tem essa questão que (" | ||
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| + | 3. Ninguém pode subtrair-se à evidente segurança dessas perplexidades nem ignorar facilmente sua seriedade impositiva, sendo o porta-voz dessas perplexidades o " | ||
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| + | 4. O senso comum dos homens tem sua própria necessidade e afirma seu direito com a única arma que lhe pertence: o apelo à " | ||
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| + | 5. A isso se acrescenta que nós mesmos nos detemos na obviedade do senso comum quando cremos estar seguros naquelas múltiplas " | ||
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| + | 6. Se, no entanto, devemos colocar a questão da verdade, exige-se então uma resposta à pergunta sobre em que ponto estamos hoje, querendo-se saber o que é feito de nós hoje, reclamando-se o fim a ser proposto ao homem no âmbito e para sua história, querendo-se a " | ||
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| + | 7. Mas para reclamar a " | ||
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| + | **1. O conceito corrente de verdade** | ||
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| + | 8. Pergunta-se o que se entende habitualmente por " | ||
| + | * Falamos do ouro verdadeiro para distingui-lo do falso, não sendo o ouro falso realmente como aparenta, sendo apenas " | ||
| + | * A verdade do ouro autêntico não pode, portanto, ser garantida por sua simples realidade, repropondo-se a pergunta pelo que significam aqui autêntico e verdadeiro: ouro autêntico é aquele real cuja realidade está em concordância ([[lx> | ||
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| + | 9. Não chamamos verdadeiras apenas uma alegria real, o ouro autêntico e entes desse gênero, mas chamamos verdadeiras ou falsas também, e antes de tudo, nossas asserções ([[lx> | ||
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| + | 10. O verdadeiro, seja coisa verdadeira ou proposição verdadeira, é aquilo que quadra, que se acorda, significando ser-verdadeiro e verdade aqui acordo, e isso de dupla maneira: de um lado, o acordo de uma coisa com o que já se entende por ela, de outro, a concordância entre o que é intencionado na asserção e a coisa. | ||
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| + | 11. Esse duplo caráter do acordo é posto em relevo pela definição tradicional da essência da verdade: veritas est adaequatio rei et intellectus, | ||
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| + | 12. Um conceito não é, porém, a pura inversão do outro, pois intellectus e res são pensados diversamente em cada caso, devendo-se, para isso, reconduzir a fórmula corrente do conceito habitual de verdade à sua origem mais próxima, a medieval. | ||
| + | * A veritas como adaequatio rei ad intellectum não significa ainda a ideia transcendental kantiana, possível apenas com base na subjetividade do ser humano, segundo a qual "os objetos se conformam a nosso conhecimento", | ||
| + | * Também um ens creatum é o intellectus humanus, que, enquanto faculdade concedida por Deus ao homem, deve adequar-se à sua ideia, sendo o intelecto conforme à ideia apenas na medida em que realiza em suas proposições a adequação do pensamento à coisa, a qual, por sua vez, deve ser conforme à ideia. | ||
| + | * Se todos os entes são entes " | ||
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| + | 13. Uma vez dissociada da ideia de criação, essa ordem pode ser apresentada de modo geral e indeterminado como ordem universal, surgindo, no lugar da ordem da criação teologicamente pensada, a possibilidade de um planejamento de todos os objetos pela razão universal ([[lx> | ||
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| + | 14. Isso significa que a verdade da coisa consiste sempre no acordo da coisa dada com o conceito " | ||
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| + | 15. Sob o domínio da obviedade desse conceito de verdade, obviedade quase nunca considerada em seus fundamentos essenciais, aceita-se com igual obviedade que a verdade tenha seu contrário, isto é, que haja a não-verdade, | ||
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| + | 16. Cabe então perguntar se ainda é necessária uma investigação particular que descubra a essência da verdade, não sendo esta suficientemente explicitada por esse conceito que, além de não perturbado por nenhuma teoria, é protegido pela obviedade de sua evidência que o torna válido para todos. | ||
| + | * Se assumirmos a redução da verdade da proposição à verdade da coisa como uma explicação teológica, e se mantivermos a definição filosófica de sua essência em sua mais rigorosa pureza, evitando toda mescla com a teologia e limitando o conceito de verdade à verdade da proposição, | ||
| + | * Cabe então perguntar o que resta de problemático numa asserção se sabemos o que significa concordância de uma asserção com a coisa — mas o sabemos realmente? | ||
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| + | **2. A possibilidade intrínseca da concordância** | ||
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| + | 17. Falamos de concordância ([[lx> | ||
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| + | 18. Falamos também de concordância quando, de uma das duas moedas diante de nós, asseveramos: | ||
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| + | 19. A moeda é de metal, a asserção nada tem de material; a moeda é redonda, a asserção não tem caráter espacial; com a moeda pode-se comprar algo, enquanto a asserção sobre a moeda nunca é meio de pagamento, mas, apesar de todas as desigualdades, | ||
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| + | 20. Cabe perguntar como é possível que algo completamente diferente, como a asserção, possa adequar-se à moeda, devendo para isso tornar-se moeda e assim deixar completamente de ser si mesma, o que jamais conseguirá fazer, pois, se isso ocorresse, no mesmo instante a asserção não poderia sequer mais concordar enquanto asserção com a coisa, devendo na adequação a asserção permanecer, e antes justamente vir a ser, aquilo que é. | ||
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| + | 21. Cabe então perguntar em que consiste sua essência completamente diversa de toda coisa, e como pode a asserção, justamente conservando sua essência, adequar-se a outra coisa, à coisa. | ||
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| + | 22. Aqui adequação não pode significar uma identificação real (dinghaft) entre coisas de gênero diverso, determinando-se antes a essência da adequação a partir do tipo de relação que intercorre entre a asserção e a coisa, indo a vazio, enquanto essa " | ||
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| + | 23. A asserção sobre a moeda " | ||
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| + | 24. Re-presentar ([[lx> | ||
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| + | 25. A relação ([[lx> | ||
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| + | 26. Todo comportar-se é constantemente aberto ([[lx> | ||
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| + | 27. Isso só ocorre se o próprio ente se pro-põe no asserir representativo, | ||
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| + | 28. A asserção deve tomar de empréstimo sua conformidade da abertura constante do comportar-se, | ||
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| + | 29. Mas, se a conformidade (a verdade) da asserção só é possível através da constante abertura do comportar-se, | ||
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| + | 30. Cai assim a tradicional atribuição exclusiva da verdade à asserção como seu único lugar essencial, não tendo a verdade sua morada originária na proposição, | ||
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| + | **3. O fundamento que torna possível uma conformidade** | ||
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| + | 31. Cabe perguntar de onde o asserir representativo recebe a consigna de conformar-se ao objeto e de acordar-se com ele segundo a norma da conformidade, | ||
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| + | 32. Isso só é possível se esse prospectar já se ofereceu livremente numa abertura para o que nela se impõe como manifesto, vinculando todo representar, | ||
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| + | 33. A constante abertura do comportar-se, | ||
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| + | 34. Cabe perguntar se essa tese sobre a essência da conformidade não substitui uma obviedade por outra, sendo necessário, | ||
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| + | 35. No conceito de liberdade não pensamos, contudo, a verdade, muito menos sua essência, podendo por isso a tese de que a essência da verdade (a conformidade da asserção) é a liberdade parecer estranha. | ||
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| + | 36. Cabe perguntar se pôr a essência da verdade na liberdade não significa entregar a verdade ao arbítrio do homem, não sendo abandonar a verdade ao arbítrio dessa "cana oscilante" | ||
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| + | 37. Ao homem certamente se imputam falsidade e simulação, | ||
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| + | 38. A verdade vale para a metafísica como aquilo que, sendo imperecível e eterno, jamais pode ser construído sobre a fugacidade e fragilidade do ser humano, cabendo então perguntar como pode a essência da verdade encontrar ainda sua consistência e fundamento na liberdade do homem. | ||
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| + | 39. A oposição à tese de que a essência da verdade é a liberdade repousa em preconceitos, | ||
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| + | **4. A essência da liberdade** | ||
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| + | 40. A indicação que remete à conexão essencial entre a verdade como conformidade e a liberdade abala esses preconceitos, | ||
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| + | 41. Vê-se daí também que a liberdade é o fundamento da possibilidade intrínseca da conformidade, | ||
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| + | 42. O que é manifesto, e ao qual um asserir representativo, | ||
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| + | 43. Falamos habitualmente de deixar ser ou deixar estar quando, por exemplo, nos abstemos de um empreendimento projetado, significando " | ||
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| + | 44. Com a expressão aqui necessária " | ||
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| + | 45. Deixar-ser — no sentido de deixar-ser o ente como aquele ente que é — significa deixar-nos envolver por aquilo que está aberto em sua abertura, dentro da qual todo ente está, trazendo-a por assim dizer consigo, tendo sido esse " | ||
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| + | 46. Se traduzirmos [[lx> | ||
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| + | 47. O deixar-se envolver no des-encobrimento do ente não significa perder-se nela, mas dá lugar a um recuar diante do ente, de modo que este se manifeste pelo que é e como é, e que a adequação representativa possa extrair dele sua própria medida, expondo-se aquilo que, entendido como deixar-ser, se es-põe ao ente como tal, e põe no aberto todo comportar-se, | ||
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| + | 48. Vista à luz da essência da verdade, a essência da liberdade se revela como o es-por-se no des-encobrimento do ente. | ||
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| + | 49. A liberdade não é, portanto, apenas o que o senso comum entende de bom grado com esse nome, isto é, o arbítrio às vezes emergente que na escolha ora se lança para um lado, ora para outro, não sendo a liberdade a independência do poder fazer ou não fazer algo, nem tampouco a simples disponibilidade para algo requerido e necessário (e portanto para algum ente). | ||
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| + | 50. A liberdade é, antes de tudo isso (antes da liberdade " | ||
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| + | 51. No ser-aí reside o fundamento essencial do homem, aquele fundamento que, por longo tempo infundamentado, | ||
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| + | 52. A e-xistência, | ||
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| + | 53. O ente em sua totalidade se descobre como ϕύσις, " | ||
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| + | 54. Se, porém, o ser-aí e-xistente, enquanto deixar-ser o ente, liberta o homem para sua " | ||
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| + | 55. A liberdade assim entendida, enquanto deixar-ser o ente, efetiva e realiza a essência da verdade no sentido do desvelamento do ente, não sendo a " | ||
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| + | 56. Como todo comportar-se ([[lx> | ||
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| + | 57. Sendo, contudo, a verdade essencialmente liberdade, o homem histórico, no deixar-ser o ente, pode também não deixá-lo ser pelo ente que é e como é, sendo nesse caso o ente ocultado e falsificado, | ||
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| + | 58. Como, porém, enquanto essência da verdade, a liberdade e-xistente não é propriedade do homem, mas o homem e-xiste, tornando-se capaz de história, apenas se é possuído por essa liberdade, também a não-essência da verdade não pode surgir posteriormente da simples incapacidade ou negligência do homem, devendo antes brotar da essência da verdade. | ||
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| + | 59. É apenas porque, em essência, a verdade e a não-verdade não são indiferentes uma à outra, mas se inerem reciprocamente, | ||
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| + | 60. A discussão da não-essência da verdade não é acréscimo posterior para preencher uma lacuna, mas o passo decisivo para colocar adequadamente a pergunta pela essência da verdade, cabendo perguntar como podemos captar a não-essência na essência da verdade, não podendo, se a essência da verdade não se esgota na conformidade da asserção, também a não-verdade ser identificada com a não-conformidade do juízo. | ||
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| + | **5. A essência da verdade** | ||
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| + | 61. A essência da verdade se desvela como liberdade, e esta como o deixar-ser e-xistente que desvela o ente, pairando todo comportar-se que se mantém aberto no deixar-ser o ente, comportando-se de cada vez em relação a este ou àquele ente. | ||
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| + | 62. A liberdade, como deixar-se envolver no desvelamento do ente em sua totalidade enquanto tal, já dispôs todo comportar-se num estado de ânimo em relação ao ente em sua totalidade, não se deixando o estar num estado de ânimo (o estado de ânimo) jamais captar como " | ||
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| + | 63. Um estar num estado de ânimo, isto é, um e-xistente ser-exposto ao ente em sua totalidade, só pode ser " | ||
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| + | 64. A evidência do ente em sua totalidade não coincide com a soma dos entes de fato conhecidos, podendo, ao contrário, onde o ente é pouco conhecido ao homem, ou conhecido apenas aproximadamente pela ciência, a evidência do ente em sua totalidade impor-se e dominar de modo mais essencial do que onde o conhecido e o cognoscível a cada momento cresceram a perder de vista, e nada mais resiste à industriosidade do conhecer, enquanto se crê sem limites a dominabilidade técnica das coisas. | ||
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| + | 65. Justamente no aplainamento e nivelamento do conhecer-tudo e do conhecer-apenas, | ||
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| + | 66. O deixar-ser o ente, que dispõe num estado de ânimo, penetra e precede todo comportar-se que nele está aberto e paira, sendo o comportar-se do homem impregnado, em seu estado de ânimo, pela evidência do ente em sua totalidade, aparecendo, porém, essa " | ||
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| + | 67. Apesar de determinar constantemente a disposição de tudo, essa totalidade permanece sempre o indeterminado e o indeterminável, | ||
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| + | 68. O deixar-ser é em si simultaneamente um velar, acontecendo na e-xistente liberdade do ser-aí o velamento do ente em sua totalidade: é o encobrimento ([[lx> | ||
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| + | **6. A não-verdade como velamento** | ||
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| + | 69. O encobrimento impede o des-encobrimento à ἀλήθεια e não a deixa ser ainda como [[f> | ||
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| + | 70. O encobrimento do ente em sua totalidade nunca se coloca apenas a posteriori como consequência do conhecimento sempre parcial do ente, sendo o encobrimento do ente em sua totalidade, a não-verdade autêntica, mais antiga que toda evidência deste ou daquele ente, mais antiga também que o próprio deixar-ser, que, ao des-encobrir, | ||
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| + | 71. Cabe perguntar o que o deixar-ser custodia nesse seu referimento ao encobrimento: | ||
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| + | 72. No deixar-ser que des-encobre e ao mesmo tempo encobre o ente em sua totalidade, acontece que o encobrimento apareça como aquilo que é primeiramente encoberto, custodiando o ser-aí, enquanto e-xiste, o primeiro e mais amplo não-des-encobrimento, | ||
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| + | 73. Não-essência não significa aqui uma espécie de decadência da essência no sentido do universal (κοινόν, | ||
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| + | 74. Falar assim da não-essência e da não-verdade choca sobremaneira o modo habitual de pensar e dá a impressão de uma aproximação forçada de " | ||
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| + | 75. A liberdade, entendida como deixar-ser o ente, é em si um vínculo resoluto ([[lx> | ||
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| + | 76. É verdade que o homem, em seu comportar-se, | ||
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| + | 77. O estabelecer-se na realidade corrente é, em si, o não deixar que o velamento do velado se imponha e domine, havendo certamente, mesmo no âmbito do praticável, | ||
| + | |||
| + | 78. O mistério esquecido do ser-aí não é, contudo, eliminado pelo esquecimento; | ||
| + | |||
| + | 79. Assim deixada estar, uma humanidade preenche seu próprio " | ||
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| + | 80. Erra a medida tanto mais quanto mais exclusivamente assume a si mesmo, enquanto sujeito, como medida de todos os entes, insistindo o desmedido esquecimento da humanidade em assegurar-se a si mesma com o praticável de cada vez acessível, tendo esse insistir seu suporte, para ele incognoscível, | ||
| + | |||
| + | 81. E-xistindo, o ser-aí é insistente; também na existência insistente o mistério domina e se impõe, mas como essência esquecida, e portanto tornada " | ||
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| + | **7. A não-verdade como errância** | ||
| + | |||
| + | 82. Insistente é o homem voltado à realidade mais próxima e praticável do ente, insistindo, porém, apenas na medida em que já e-xiste, assumindo o ente como tal medida diretriz, sendo, no entanto, em seu tomar medidas, a humanidade desviada do mistério, implicando-se reciprocamente aquele insistente voltar-se para a realidade praticável e este e-xistente desviar-se do mistério — aliás, sendo a mesma coisa. | ||
| + | |||
| + | 83. Aquele voltar-se-para, | ||
| + | |||
| + | 84. O homem erra; não é que caia na errância ([[lx> | ||
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| + | 85. A errância é o âmbito daquela reviravolta na qual facilmente a e-xistência in-sistente se perde e se equivoca sempre de novo, dominando e impondo-se já o velamento do ente velado em sua totalidade no próprio desvelamento do respectivo ente, tornando-se esse desvelamento, | ||
| + | |||
| + | 86. A errância é a oposição essencial ([[lx> | ||
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| + | 87. Todo comportar-se tem sempre seu próprio modo de errar conforme sua abertura constante e seu referimento ao ente em sua totalidade, indo o erro desde as mais comuns ações equivocadas, | ||
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| + | 88. Contudo, o que se conhece habitualmente como erro, mesmo segundo as doutrinas da filosofia, isto é, a não-conformidade do juízo e a falsidade do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 89. A errância domina o homem e o desvia, mas, como desvio, a errância contribui ao mesmo tempo para criar a possibilidade que o homem pode extrair de sua e-xistência de não se deixar desviar, fazendo experiência da própria errância e não desconhecendo o mistério do ser-aí. | ||
| + | |||
| + | 90. Porque a e-xistência in-sistente do homem se move na errância, e porque a errância como desvio é sempre de algum modo angustiante e, em razão dessa angústia, senhora do mistério — precisamente no sentido de que este é esquecido —, o homem, na e-xistência de seu ser-aí, está submetido ao domínio do mistério e, ainda mais, à angústia da errância, encontrando-se na situação de necessidade de coação (Not der Nötigung) por parte de ambos. | ||
| + | |||
| + | 91. A essência da verdade em sua plenitude, que inclui sua não-essência ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 92. O desvelamento do ente como tal é em si ao mesmo tempo o velamento do ente em sua totalidade, dominando a errância na contemporaneidade do desvelamento e do velamento, pertencendo o velamento do velado e a errância à essência inicial da verdade. | ||
| + | |||
| + | 93. A liberdade, concebida a partir da e-xistência in-sistente do ser-aí, é a essência da verdade (no sentido da conformidade do re-presentar) apenas pelo fato de que a própria liberdade nasce da essência inicial da verdade, do domínio do mistério na errância, realizando-se o deixar-ser o ente no comportar-se que se mantém aberto. | ||
| + | |||
| + | 94. Mas o deixar-ser o ente como tal em sua totalidade só acontece de modo adequado à essência quando por vezes é assumido em sua essência inicial, estando então a re-solução ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 95. A perspectiva que da errância se estende sobre o mistério é o perguntar no sentido daquela que é a única pergunta: o que é o ente como tal em sua totalidade? Pensando esse perguntar o problema do ser do ente, problema essencialmente desconcertante e, por isso, ainda não dominado em sua plurivocidade, | ||
| + | |||
| + | **8. A questão da verdade e a filosofia** | ||
| + | |||
| + | 96. No pensamento do ser, a libertação do homem para a e-xistência, | ||
| + | |||
| + | 97. No mesmo momento histórico em que se cumpre o início da filosofia, começa também a explícita dominação do senso comum (a sofística), | ||
| + | |||
| + | 98. Os termos em que o comum bom senso, plenamente legítimo em seu âmbito, avalia a filosofia não captam, contudo, sua essência, a qual só pode ser determinada a partir do referimento à verdade originária do ente como tal em sua totalidade, sendo, porém, a filosofia, porque a essência da verdade, em sua plenitude, inclui a não-essência e se impõe e domina antes de tudo como velamento, em si discorde ao buscar essa verdade em seu perguntar. | ||
| + | |||
| + | 99. Seu pensamento é o abandono à mansidão que não se recusa à velatura do ente em sua totalidade, sendo ainda mais seu pensamento a re-solução do rigor que não rompe a velatura, mas constrange sua essência intacta ao espaço aberto do compreender e, portanto, à sua própria verdade. | ||
| + | |||
| + | 100. No manso rigor e no rigoroso mansidão de seu deixar-ser o ente como tal em sua totalidade, a filosofia se torna um perguntar que não pode ater-se unicamente ao ente, mas que também não admite nenhuma imposição externa, tendo essa condição interior de necessidade do pensamento sido percebida por Kant, que diz da filosofia que ela é posta de fato numa situação crítica que deve sempre manter, sem poder atrelá-la ou apoiá-la em nada, nem no céu nem na terra, devendo demonstrar aí sua autenticidade como guardiã autônoma de suas próprias leis, e não como arauto daquilo que um senso infuso ou não sei que outra natureza tutelar lhe sugere. | ||
| + | |||
| + | 101. Com essa interpretação da essência da filosofia, Kant, cuja obra introduz a última reviravolta da metafísica ocidental, olha para um âmbito que, em conformidade com sua própria posição metafísica fundada na subjetividade, | ||
| + | |||
| + | 102. Se a filosofia realiza sua essência, decidida desde os inícios, como " | ||
| + | |||
| + | 103. A tentativa aqui apresentada leva a questão da essência da verdade além dos limites da habitual definição do conceito comum de sua essência, e ajuda a repensar se a questão da essência da verdade não deve ser ao mesmo tempo, e antes de tudo, a questão da verdade da essência. | ||
| + | |||
| + | 104. No conceito de " | ||
| + | |||
| + | **9. Nota** | ||
| + | |||
| + | 105. A questão da essência da verdade brota da questão da verdade da essência, entendendo a primeira questão a essência antes de tudo no sentido da [[f> | ||
| + | |||
| + | 106. A questão da verdade da essência pensa a essência (Wesen) em sentido verbal e, permanecendo ainda no interior da representação típica da metafísica, | ||
| + | |||
| + | 107. A questão da essência da verdade encontra sua resposta na afirmação de que a essência da verdade é a verdade da essência, vendo-se facilmente, após os esclarecimentos dados, que essa afirmação não pretende ser uma simples inversão de palavras nem suscitar a aparência do paradoxo. | ||
| + | |||
| + | 108. O sujeito da proposição, | ||
| + | |||
| + | 109. A resposta à questão da essência da verdade é o dizer (die [[lx> | ||
| + | |||
| + | 110. Já no projeto originário, | ||
| + | |||
| + | 111. A questão decisiva (Ser e Tempo, 1927) do sentido do ser, isto é, do âmbito do projeto, ou seja, da abertura, ou seja, da verdade do ser e não apenas do ente, intencionalmente não foi desenvolvida. | ||
| + | |||
| + | 112. O pensamento se mantém aparentemente na órbita da metafísica e, contudo, em seus passos decisivos que da verdade como conformidade conduzem à liberdade e-xistente, e desta à verdade como velamento e errância, ele efetua uma mudança do perguntar que faz parte da superação da metafísica. | ||
| + | |||
| + | 113. O pensamento tentado nesta conferência se realiza naquela experiência essencial em que se constata que somente a partir do ser-aí, no qual o homem pode entrar, se prepara para o homem histórico uma proximidade à verdade do ser. | ||
| + | |||
| + | 114. Aqui, como já em Ser e Tempo, não apenas é abandonada toda espécie de antropologia e toda forma de subjetividade do homem enquanto sujeito, e não apenas é buscada a verdade do ser como fundamento de uma mudada posição histórica de fundo, mas, no curso da conferência, | ||
| + | |||
| + | 115. A progressão do perguntar é em si o caminho de um pensamento que, em vez de fornecer representações e conceitos, se experimenta e se põe à prova como mudança do referimento ao ser. | ||
| + | |||
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