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| + | ====== Introdução ====== | ||
| + | //Der Spruch Anaximander (1946) [2010]// | ||
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| + | **O dito de Anaximandro e suas traduções: | ||
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| + | **§ 1. Citação do dito e das traduções de Nietzsche e Diels** | ||
| + | * No comentário de Simplício à Física de Aristóteles conserva-se o Spruch (dito) de Anaximandro, | ||
| + | * Entre a formulação originária do Spruch (dito) por Anaximandro, | ||
| + | * A primeira tradução considerada é a de Nietzsche, surgida no contexto de sua reflexão sobre a filosofia na época trágica dos gregos e de suas preleções sobre os filósofos pré-platônicos, | ||
| + | * A segunda tradução considerada é a de Diels, ligada ao empreendimento filológico moderno dos Fragmentos dos Pré-Socráticos, | ||
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| + | **§ 2. Diferença e comunidade das duas traduções. A intenção filosófica de Nietzsche e a intenção filológica de Diels. A determinação tradicional do pensar grego inicial como “filosofia da natureza” e a atribuição de Anaximandro a ela** | ||
| + | * As traduções de Nietzsche e Diels procedem de intenções distintas, pois Nietzsche pensa Anaximandro a partir da Besinnung (meditação) sobre sua própria época e sobre o que nela advém, enquanto seu encontro com a filologia clássica é atravessado por sua condição de pensador e não por mero interesse erudito. | ||
| + | * Nietzsche permanece, no meio do Zeitgenössische (contemporâneo), | ||
| + | * A dificuldade moderna diante de Nietzsche provém da proximidade excessiva a seu “pé de montanha”, | ||
| + | * O pensamento de um pensador pertence também aos acasos e enredamentos de sua época, pois é por eles que o Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) lhe é trazido. | ||
| + | * Nietzsche pensa sua própria época, isto é, aquilo que a aguarda, em diálogo com o mais antigo pensador do Ocidente, razão pela qual seu interesse pelos filósofos pré-platônicos é também interesse pelos séculos XIX e vindouros. | ||
| + | * A tradução de Diels nasce da tarefa filológica de oferecer uma base textual cientificamente segura para os ditos dos filósofos pré-socráticos, | ||
| + | * Apesar de suas origens diferentes, as duas traduções concordam no essencial e quase palavra por palavra, revelando uma compreensão comum do conteúdo do Spruch (dito). | ||
| + | * O Spruch (dito) parece falar do Entstehen (surgimento) e do Vergehen (perecimento) das coisas, concebendo a mudança contínua como uma Wechselwirtschaft (economia de troca) da Natur (natureza), na qual o real se desenvolve e se desfaz. | ||
| + | * A atribuição de Anaximandro à Naturphilosophie (filosofia da natureza) repousa sobre a tradição aristotélica que nomeia os primeiros pensadores como physikoi ou physiologoi, | ||
| + | * A interpretação moderna tende a ver o pensamento inicial como química fracassada do universo ou ciência primitiva, explicando a linguagem de pena, culpa e expiação como projeção antropomórfica de experiências humanas sobre processos naturais. | ||
| + | * O perecimento das coisas é compreendido como retirada do palco à maneira de um destino humano. | ||
| + | * O pagamento recíproco é entendido como transposição de relações humanas de troca para a mutabilidade natural. | ||
| + | * A adikia (injustiça) das coisas permanece pouco interrogada, | ||
| + | * A leitura corrente atenua a estranheza da adikia (injustiça) das coisas ao qualificá-la como linguagem poética e antropomórfica, | ||
| + | * A observação de Simplício de que Anaximandro fala com nomes “mais poéticos” oferece à interpretação tradicional um meio de explicar a duplicidade do Spruch (dito), como se ele alternasse uma formulação mais científica e outra mais imagética por falta de rigor da ciência nascente. | ||
| + | * A compreensão naturalizada do Spruch (dito) fornece o solo da concordância entre Nietzsche e Diels, mas essa concordância exige que se pense seu Grund (fundamento) mais próprio. | ||
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| + | **§ 3. O fundamento próprio da concordância das duas traduções: | ||
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| + | **a) Tradução como interpretação dentro de uma Auslege (disposição interpretativa) pré-concebida. O platonismo como Auslege (disposição interpretativa) do pensar grego inicial enquanto filosofia “pré-platônica” ou “pré-socrática”** | ||
| + | * Toda tradução é Auslegung (interpretação), | ||
| + | * No primeiro ouvir e ler, a palavra já se encontra previamente interpretada dentro da Auslege (disposição interpretativa), | ||
| + | * A Auslege (disposição interpretativa) oferece o campo em que palavras gregas são naturalmente remetidas a palavras alemãs. | ||
| + | * Termos como gênesis, phthora, chreon, dike, tisis, didonai, adikia, taxis e chronos são reconduzidos ao óbvio de “surgimento”, | ||
| + | * A língua das palavras e obras gregas fala a partir da Auslege (disposição interpretativa), | ||
| + | * O Spruch (dito) é recebido de antemão como palavra de um filósofo, e sua Auslegung (interpretação) é guiada pelo que já se entende por filosofia e pelo tipo de filosofia que se atribui ao tempo de Anaximandro. | ||
| + | * Quando o Anfang (começo) do pensar ocidental é previamente determinado como filosofia pré-platônica, | ||
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| + | **b) Traços fundamentais do platonismo: a idea como o “Sein” (ser) e a distinção entre sensível e não sensível como âmbito do pensar. “Filosofia” = platonismo = idealismo. Os contramovimentos ao idealismo e o materialismo como formas do platonismo** | ||
| + | * A Vorrangstellung Platons (posição predominante de Platão) repousa no fato de que sua doutrina, juntamente com a de Aristóteles e através da teologia cristã, sustenta a história inteira do Denken (pensar) ocidental, inclusive a filosofia de Nietzsche. | ||
| + | * A filosofia ocidental é Platonismus (platonismo), | ||
| + | * O Ganze des Seienden (todo do ente) se mostra ao pensamento pela determinação do Sein des Seienden (ser do ente) como idea. | ||
| + | * A cisão entre o sensível e o não sensível torna-se o traço fundamental pelo qual o Seiende (ente) no todo aparece. | ||
| + | * O traço platônico do Seiende im Ganzen (ente no todo) atravessa tanto a interpretação que subordina o sensível ao suprassensível quanto a inversão que reduz o suprassensível a derivação, | ||
| + | * O Denken (pensar) que representa o Seiende (ente) em sua Seiendheit (entidade) chama-se filosofia, e “filosofia”, | ||
| + | * O materialismo também é Platonismus (platonismo), | ||
| + | * O Wesen (essência) mais originário do materialismo não está em afirmar que tudo é matéria, mas em fazer aparecer o Seiende (ente) como Material (material) da Technik (técnica), cujo próprio Wesen (essência) ainda permanece oculto. | ||
| + | * A interpretação fichteana da natureza como material do dever aproxima-se do materialismo mais do que a leitura idealista habitual faria supor. | ||
| + | * A referência de Nietzsche ao diabo como antigo amigo do conhecimento indica que a questão do materialismo não pode ser reduzida a indignação moral. | ||
| + | * A questão do diabo e do materialismo pertence essencialmente ao problema das traduções de Anaximandro, | ||
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| + | **c) A dependência das traduções de Diels e Nietzsche em relação ao platonismo da formação clássico-tradicional do século XIX. A filosofia de Nietzsche como “platonismo invertido”. A interpretação filosófica de Hegel dos “filósofos mais antigos” a partir de Aristóteles** | ||
| + | * As representações platônicas sobre Entstehen (surgimento), | ||
| + | * A tradução de Diels, embora filológica, | ||
| + | * A semelhança entre Diels e Nietzsche não se explica por dependência filológica ocasional, mas pela fonte comum das representações formativas correntes sobre a filosofia e suas doutrinas. | ||
| + | * Nietzsche já é filósofo quando traduz Anaximandro, | ||
| + | * A inversão do platonismo consiste em fazer o sensível aparecer como aparência do ente e como ideal, mas tal inversão continua sendo Verstrickung in den Platonismus (enredamento no platonismo). | ||
| + | * Nietzsche interpreta Heráclito e Parmênides pelo esquema platônico de Sein (ser) e Werden (devir), no qual o Sein (ser) é associado ao suprassensível, | ||
| + | * Embora Nietzsche tenha dado vivacidade à Persönlichkeit (personalidade) dos pensadores do século VI, sua interpretação de seu Gedachtes (pensado) ainda os empurra para o túmulo do platonismo que pretendia superar. | ||
| + | * A incapacidade moderna de deixar os primeiros pensadores falarem mostra que entre seu Gedachtes (pensado) e a posteridade se interpôs o platonismo como uma cadeia montanhosa quase intransponível. | ||
| + | * A dificuldade de Nietzsche em abrir o caminho para a Frühe (aurora) do pensamento talvez se ligue ao peso de sua experiência do nihilismus (niilismo), que o impediu de alcançar a severidade exigida para repensar os primeiros pensamentos. | ||
| + | * A pergunta por Hegel torna-se necessária porque seu Denken (pensar) sistemático parece ter sido o primeiro a pensar filosoficamente a história da filosofia a partir da própria essência da realidade absoluta. | ||
| + | * Hegel não interpreta diretamente o Spruch (dito) de Anaximandro, | ||
| + | * Hegel também pensa o Anfang (começo) grego como desenvolvimento que se encaminha para Platão e Aristóteles, | ||
| + | * A diferença entre Hegel e as opiniões posteriores do século XIX está em que Hegel fundamenta filosoficamente a mesma compreensão do começo como estágio superado de uma Entwicklung (desenvolvimento). | ||
| + | * As traduções de Nietzsche e Diels não bastam sequer para conhecer grosseiramente o Spruch (dito), caso se confirme que sua Auslegung (interpretação) permanece governada pelo platonismo. | ||
| + | * A pergunta sobre por que não traduzir corretamente de imediato o Spruch (dito) revela que ainda se pressupõe a superioridade dos posteriores sobre os anteriores e a legitimidade de compreender Anaximandro a partir de Platão. | ||
| + | * As considerações anteriores conduzem à pergunta decisiva sobre o Sinn (sentido) de ainda ocupar-se hoje de um Spruch (dito) pronunciado há mais de dois milênios e meio. | ||
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| + | **§ 4. As reservas essenciais contra o projeto de interpretação do dito. A possibilidade de sermos tomados por ele** | ||
| + | * A dificuldade não consiste em buscar uma tradução sem pressupostos, | ||
| + | * A primeira reserva afirma que o conteúdo do Spruch (dito) é necessariamente inacessível, | ||
| + | * A segunda reserva afirma que, mesmo se o salto até o Spruch (dito) fosse possível, seu conteúdo só poderia ser compreendido no horizonte das representações atuais, de modo que se tornaria impossível determinar o que Anaximandro quis dizer. | ||
| + | * A terceira reserva afirma que o que restasse do sentido originário seria apenas algo historicamente ultrapassado pelo progresso do Denken (pensar) moderno, tornando o dito antiquado para os atuais. | ||
| + | * A quarta reserva concede ao Spruch (dito) um valor histórico como começo da filosofia da natureza, mas nega que uma ocupação histórica com ele possa falar do que hoje é. | ||
| + | * As reservas declaram ilusórios o acesso ao Spruch (dito), seu proveito e o direito de ocupar-se dele, uma vez que tal ocupação pareceria permanecer apenas histórica. | ||
| + | * As reservas não devem ser dissolvidas por contrarrazões, | ||
| + | * O momento decisivo consiste em tentar ser tomado pelo próprio Spruch (dito), pois somente depois disso as reservas podem ser retomadas, caso ainda se mostrem necessárias. | ||
| + | * Ainda não há Einsicht (visão compreensiva) do Spruch (dito), mas já há Vorsicht (cautela) diante das próprias opiniões e pretensões modernas de superioridade. | ||
| + | * O Spruch (dito) pode falar algo estranho e talvez deixar não dito um Rätsel (enigma), pois o Ungesprochene (não dito) só pode retirar-se no interior do Gesprochene (dito) que fala. | ||
| + | * A Auslegung (interpretação) não precisa reconstruir psicologicamente o que Anaximandro teria representado, | ||
| + | * As reservas precisam ser nomeadas porque o desejo impensado de saber melhor só pode ser deixado de lado quando se torna explicitamente conhecido como obstáculo. | ||
| + | * A prontidão para ser tomado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) pressupõe que Anaximandro seja pensador, que o Spruch (dito) seja dito de pensador e que aquilo que nele deve ser pensado ainda diga respeito ao presente. | ||
| + | * A questão final não é se está ao arbítrio moderno ouvir o Spruch (dito), mas se ele já fala mesmo quando não é ouvido, decidindo assim algo sobre o Geschick (destino historial) dos que não o escutam. | ||
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| + | **§ 5. A construção do dito: sua articulação em duas partes e a ligação entre elas pela palavra yap** | ||
| + | * O Spruch (dito) de Anaximandro é retomado em seu texto grego e na tradução de Diels para que sua Bau (construção) possa ser pensada antes de se decidir o que ele diz. | ||
| + | * A pergunta sobre aquilo de que o Spruch (dito) fala não pode ser respondida de imediato por um tema único, pois ainda permanece incerto se ele possui algo como um Gegenstand (objeto) tematizável. | ||
| + | * O Spruch (dito) se divide em duas partes, separadas entre a fórmula “segundo a necessidade” e o início do segundo membro por yap (pois). | ||
| + | * As duas partes parecem construídas de modo semelhante, pois a primeira articula o “de onde” e o “para onde” do Entstehen (surgimento) e do Vergehen (perecimento), | ||
| + | * A semelhança formal levou à opinião de que os dois membros dizem o mesmo em formulações diversas, e até à suspeita filológica de que a primeira sentença não seria de Anaximandro. | ||
| + | * A suspeita de que gênesis e phthora pertenceriam apenas à terminologia platônico-aristotélica não se sustenta, pois as palavras podem possuir Nennkraft (força nomeadora) originária sem serem comprimidas no esquema de uma terminologia posterior. | ||
| + | * A relação entre as duas partes permanece decisiva, porque elas não podem ser simplesmente idênticas se a segunda começa por yap (pois), termo que funciona como Gelenk (articulação) entre membros distintos de um todo. | ||
| + | * O yap (pois) indica uma relação de fundamentação, | ||
| + | * A própria possibilidade de pensar o que vem à linguagem no Spruch (dito) pode depender da explicitação desse pequeno termo de ligação, pois o yap (pois) ao mesmo tempo mostra e encobre a relação entre partes desiguais. | ||
| + | * O Ganze des Spruches (todo do dito) só pode ser alcançado seguindo passo a passo suas palavras, sem compor artificialmente o todo a partir de partes isoladas. | ||
| + | * As duas sentenças possuem conteúdos diferentes, pois a primeira nomeia Entstehen (surgimento) e Vergehen (perecimento), | ||
| + | * Segundo as traduções de Nietzsche e Diels, esse Selbe (mesmo) de que falam as duas sentenças seriam “as coisas”, mas precisamente aí se abre a pergunta decisiva pelo que Anaximandro realmente diz. | ||
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