obra:ga59:4
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| + | ====== §4 ====== | ||
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| + | **§ 4. A Vida como Fenômeno Originário e os Dois Grupos de Problemas da Filosofia Contemporânea** | ||
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| + | * A situação problemática da filosofia contemporânea é caracterizada pela posição da " | ||
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| + | **a) A Vida como Objetivação e o Problema da Validade Absoluta (o Problema do A Priori)** | ||
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| + | * A primeira direção de sentido — vida como processo histórico, como devir e como criação objetivante — identifica o conjunto das criações do espírito com o conceito de cultura, geralmente articulado em três domínios fundamentais segundo a tríplice autodesdobramento do espírito em teorético, prático e estético: ciência, moral e arte; a religião, porém, não encontra lugar claro nesses sistemas de cultura, o que é sintoma de que os domínios culturais não são considerados apenas como fenômenos históricos, | ||
| + | * Quando se fala de uma ordem racional da ciência, da moral, da arte e da religião, está em jogo algo que transcende o factual histórico, a saber, a questão suprahistórica das relações entre as ideias últimas e os sistemas de valores e da sistemática apriorística da razão — e é diante dessa objetividade do absolutamente válido, desvinculado de toda relação e de toda pressuposição, | ||
| + | * Essa contraposição entre o absoluto e o relativo suscita a questão de como pensar que ideias se realizam nas objetivações da vida e o absoluto ganha forma no relativo, e de se a validade absoluta não é apenas uma ilegítima e ingênua exageração da própria posição histórica contingente — questão que se radicaliza com o avanço da consciência histórica e do conceito de vida em devir como fenômeno originário, | ||
| + | * Constitui-se assim um primeiro grupo de problemas, caracterizado na linguagem da filosofia contemporânea como o problema da validade absoluta e do a priori, que engloba: a relação entre relativo e absoluto, o problema da história (temporalidade e supratemporalidade), | ||
| + | * A resposta de que uma abrangente comparação histórico-religiosa permitiria estabelecer a superioridade valorativa interna do cristianismo frente às demais religiões mundiais desloca o problema por meio de uma teorização equivocada, já que o cristianismo primitivo não conhecia história das religiões e obteve sua convicção de fé por outros meios; e ao se aprofundar a reflexão sobre esse complexo, surgem perguntas fundamentais sobre o sentido de " | ||
| + | * Fala-se de a priori lógico, ético, estético e até religioso, sendo em cada caso um a priori de conteúdo diferente, mas sempre a priori, validade e lei da razão; o a priori é dado no domínio teórico pela validade de verdades independentes do ato de julgar factual, e a partir daí se amplia a um sistema de legalidade racional apriorística ou de valores, mas onde se mantém simultaneamente aberto ao aspecto da história, surge necessariamente uma tensão entre o a priori e a validade de um lado, e a relatividade histórica do reconhecimento e da contestação de outro — tensão que é o antigo problema platônico, mas essencialmente agravado e complicado pelo fenômeno da vida histórica. | ||
| + | * Essa tensão impulsiona o passo em direção à dialética, na busca de uma lógica do movimento e do devir, de uma dinâmica histórica em que os opostos encontrem tanto seu direito quanto sua superação, | ||
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| + | **b) A Vida como Vivência e o Problema do Irracional (o Problema da Vivência)** | ||
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| + | * O avanço da vida como fenômeno originário na segunda direção de sentido — vida como vivência da existência em sua intimidade, plenitude e obscuridade — configura um segundo contraponto que se entrelaça com o primeiro de múltiplos modos, porque em ambas as direções de sentido de " | ||
| + | * O afluxo das mais diversas configurações e situações vitais, fomentado pela consciência histórica, intensificou a receptividade para múltiplas possibilidades de existência e tornou disponível um riqueza de orientações, | ||
| + | * Se a filosofia deve ser de algum modo conhecimento racional, ela se vê diante da questão de se é possível uma consideração da vivência que não a desfigure imediata e necessariamente de modo teórico — objeção que a filosofia precisou levantar contra si mesma, e que é sustentada por dois motivos principais: primeiro, o conceito kantiano-transcendental de conhecimento, | ||
| + | * Sustentando ambos os termos desse segundo contraposto — reconhecendo a irracionalidade da vida e da vivência e simultaneamente buscando um conhecimento filosófico racional do espírito segundo suas direções de atividade —, a filosofia se vê diante da tarefa de mediar a tensão entre irracional e racional, e com esse segundo grupo de problemas, designado na linguagem da filosofia contemporânea como o problema da vivência, emerge igualmente o passo em direção à dialética: reconhecimento dos opostos com superação progressiva e simultânea. | ||
| + | * A tendência crescente para uma filosofia dialética — historicamente falando, uma aproximação a Hegel —, predominantemente motivada pelos dois grupos de problemas, caracteriza-se por tratar os termos dos opostos (absoluto e relativo, a priori e história, racional e irracional) como peças fixas, procedendo dialeticamente em direção a uma unificação digna e a uma superação dos opostos; a estrutura fundamental da filosofia permanece intacta mesmo na dialética transcendental, | ||
| + | * A situação problemática está agora caracterizada pelos dois grupos de questões — o problema da validade apriorística e o problema do irracional —, ambos estreitamente relacionados entre si e com o problema da filosofia mesma em sua ideia, estrutura fundamental e método; o que está em jogo não é simplesmente retomar a situação problemática e propor uma nova combinação ou reformulação dos conceitos fundamentais do esquema, mas tentar afrouxar o próprio esquema enquanto tal, para avançar de novo em direção à ideia da filosofia — não importa se o que se ganha é inauditamente novo ou antigo, nem se disso é possível construir um sistema: o que está em jogo é restituir a filosofia a si mesma a partir de sua alienação, | ||
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