obra:ga49:8-13
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| + | ====== GA49 §§8-13 ====== | ||
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| + | **Primeiro Capítulo: A Elucidação Histórico-Conceitual de Fundamento e Existência** | ||
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| + | **§ 8. Essentia e existentia** | ||
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| + | * A existência se determina, na distinção metafísica corrente, como aquilo que é efetivamente real, em oposição ao simples ser-tal (quidditas), | ||
| + | * O ato puro corresponde à onipresença divina interpretada como puro agir, enquanto a escolástica define a existência como aquilo que foi conduzido para fora do nada e das causas em direção ao real. | ||
| + | * A distinção entre essência e existência remonta a uma reinterpretação de Aristóteles, | ||
| + | * O desenvolvimento dessa distinção em doutrina das modalidades torna-se um jogo vazio com conceitos cuja origem não é pensada nem pode ser fundamentada em sua raiz essencial. | ||
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| + | **§ 9. " | ||
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| + | * Uma filosofia que coloca a existência no centro precisa atribuir-lhe um sentido enfático, pois se existência significasse apenas ser em geral, o título seria redundante como " | ||
| + | * A filosofia da existência é obra exclusiva de Jaspers, para quem ela é o pensamento que ultrapassa todo saber objetivo a fim de que o homem se torne ele mesmo. | ||
| + | * Para Jaspers, o dasein é a presença factual do homem como ser vivo, ao passo que a existência é o homem em seu ser-si-mesmo como existente, voltado ao outro igualmente irrepresentável. | ||
| + | * A existência, | ||
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| + | **§ 10. O conceito de existência em Kierkegaard** | ||
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| + | * Kierkegaard (1813-1855) é um estímulo essencial para a filosofia da existência, | ||
| + | * No trecho central da obra " | ||
| + | * O existir em verdade envolve quatro momentos: penetrar conscienciosamente no próprio ser-si-mesmo; | ||
| + | * Existir em verdade significa para Kierkegaard ser cristão, isto é, tornar-se sempre cristão, compreendendo-se diante de Deus a partir da fé no fato da encarnação. | ||
| + | * Hegel pensa de modo abstrato no sentido de Kierkegaard porque esquece o indivíduo singular, porque medeia a diferença infinita entre tempo e eternidade suprimindo o paradoxo, e porque sua metafísica é a da subjetividade absoluta do espírito. | ||
| + | * O confronto entre Kierkegaard e Hegel é, em verdade, o confronto entre o cristão crente no sentido kierkegaardiano e a metafísica absoluta do idealismo alemão. | ||
| + | * Existir, para Kierkegaard, | ||
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| + | **§ 11. Kierkegaard, | ||
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| + | * A discussão serve para esclarecer o modo de pensar que orienta o confronto com Schelling, sem reivindicar um ponto de vista próprio nem defender uma originalidade ameaçada. | ||
| + | * Ser e Tempo é entendido como o nome de uma necessidade que ultrapassa o fazer de um indivíduo, distinguindo-se entre essa necessidade e o livro como tal, com seus reconhecidos limites. | ||
| + | * A classificação de Ser e Tempo como filosofia da existência tem por base a presença explícita do conceito de existência e dos existenciais como tarefa de uma analítica da existência. | ||
| + | * Há dependência visível em relação a Kierkegaard, | ||
| + | * Ser e Tempo é inevitavelmente interpretado como filosofia da angústia, do nada, da morte e do cuidado, reduzido à psicologia de um homem desenraizado e sem ímpeto, o que resulta de se tomar um tema destacado pelo conjunto sem perguntar pela finalidade do todo. | ||
| + | * A leitura de Ser e Tempo como antropologia filosófica apoia-se na doutrina das disposições afetivas e no uso do conceito de existência restrito ao humano, mas equivoca-se ao supor que a angústia seja a única disposição fundamental. | ||
| + | * O conceito existencial de existência em Ser e Tempo difere do conceito existenciário (de Kierkegaard e Jaspers): enquanto este diz respeito ao ser-si-mesmo interessado em si como ente, aquele refere-se ao ser-si-mesmo na medida em que se relaciona ao ser e à relação com o ser. | ||
| + | * A plena elaboração do conceito existencial de existência estava reservada ao terceiro capítulo da primeira parte, "Tempo e Ser", que não foi publicado por se mostrar insuficiente durante a revisão de provas. | ||
| + | * Em Ser e Tempo, os conceitos de consciência e subjetividade não aparecem como determinações fundamentais do ser humano, pois o homem é compreendido a partir do dasein e não mais como animal rationale. | ||
| + | * A compreensão do ser (Seinsverständnis) é ela mesma uma determinação do dasein, e o dasein é caracterizado pelo ser-no-mundo como constituição fundamental, | ||
| + | * O ser-no-mundo não significa ocorrer entre outros entes, mas ter o ente como tal no todo em sua abertura e comportar-se em relação ao que aí se manifesta. | ||
| + | * A compreensão do ser não significa que o homem compreende apenas seu próprio ser, mas que compreende o ser em geral e, a partir disso, pode relacionar-se com o ente que ele mesmo é e com o que não é. | ||
| + | * O dasein não é colocado num aberto como um par de sapatos posto à porta, mas é a exposição itinerante ao aberto cuja abertura e clareira chama-se mundo. | ||
| + | * O que se chama existência em Ser e Tempo nomeia o fato de que o dasein está extastaticamente exposto (ex-siste) na abertura extática do tempo, sendo a existência o habitar no interior da exposição extática ao aberto. | ||
| + | * Dasein é a temporalização extática do tempo, determinado pelo projeto do ser; ex-sistência é a palavra para o habitar no interior da exposição extática ao aberto. | ||
| + | * A temporalidade do dasein não equivale à simples ocorrência na corrente do tempo nem à mera consciência do tempo, mas ao fato de que o tempo se relaciona essencialmente ao ser do homem, determinando-o como temporalização. | ||
| + | * O dasein não está " | ||
| + | * O tempo não é uma dimensão neutra em torno do dasein, mas o dasein é o ser arrebatado ao vindouro que vem a si mesmo em suas possibilidades, | ||
| + | * A questão da temporalidade do dasein não é se o homem está no tempo de modo diferente do animal ou do planeta, mas se sua relação ao tempo se esgota nesse mero estar temporal como outros entes. | ||
| + | * A temporalidade assim compreendida não torna o ser " | ||
| + | * Ex-sistência no âmbito do questionar de Ser e Tempo nomeia o habitar extático no aberto, e o " | ||
| + | * Angústia, morte, culpa e nada são tratados em Ser e Tempo exclusivamente porque a questão sobre o sentido do ser, aparentado ao nada, exige manter aberto o nada e o nulificante no aberto. | ||
| + | * A questão pelo sentido do ser é a questão pela verdade do ser: o tempo, como abertura extática, é o nome provisório para a verdade do ser, e por isso a meditação sobre angústia, morte e nada não provém de nenhuma antropologia. | ||
| + | * O dasein é entendido a partir da compreensão do ser, e não a partir da subjetividade; | ||
| + | * Existência no sentido de Ser e Tempo é o ser-si-mesmo do homem compreendido a partir do dasein como insiStência na clareia do ser, não mais como subjetividade. | ||
| + | * O conceito de existência em Ser e Tempo provém de uma perspectiva de questionamento totalmente estranha à filosofia da existência, | ||
| + | * O ser é desde Platão e Aristóteles determinado como ousia, presença; a questão por que o ser é projetado sobre o tempo e compreendido a partir do tempo é o que condensa o título Ser e Tempo. | ||
| + | * A distinção entre autenticidade e inautenticidade do dasein também se relaciona à verdade do ser: no esquecimento do ser, o dasein está caído no ente; autêntico é quando concede ao ser a primazia sobre o ente. | ||
| + | * A tentativa de compreender o dasein como sujeito e a compreensão do ser como subjetivismo falha porque em Ser e Tempo a interpretação do homem como sujeito já está superada pela insiStência na compreensão do ser. | ||
| + | * O projeto do ser não é uma produção subjetiva humana, pois o projeto é lançado, determinado e afinado pelo próprio ser que projeta e por aquilo em direção ao qual precisa projetar. | ||
| + | * A questão do sentido do ser não pode ser respondida a partir do homem como ponto de partida porque em qualquer determinação do ser humano já se pensa, implicitamente, | ||
| + | * A questão sobre a relação do ser ao homem permanece sem ser perguntada tanto na abordagem a partir do homem quanto na abordagem a partir do ser: só uma experiência mais originária dessa relação força um tipo inteiramente outro de questionar. | ||
| + | * Na filosofia de Schelling, opera um antropomorfismo consciente, e a doutrina da analogia do ente dentro da metafísica ocidental é uma dissimulação da questão do antropomorfismo. | ||
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| + | **§ 12. Antecipação sobre o conceito de existência em Schelling** | ||
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| + | * O conceito de existência em Schelling diz respeito ao ser-si-mesmo do ente, pensando a ipseidade no sentido da subjetividade como egoidade. | ||
| + | * Diferentemente de Kierkegaard, | ||
| + | * Historicamente, | ||
| + | * O conceito de existência em Ser e Tempo não tem qualquer relação com o de Schelling, embora haja ressonância com Kierkegaard e com a filosofia da existência na medida em que a existência é restrita ao dasein e o ser-si-mesmo se torna essencial. | ||
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| + | **§ 13. Os impulsos originários que determinam a essência do fundamento e sua transformação histórica** | ||
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| + | * Fundamento é sempre aquilo a que recorre uma construção, | ||
| + | * O nome grego para o que chamamos fundamento é arche, que significa o que está no início, o mais antigo, e ao mesmo tempo domínio, de modo que início e domínio ressoam unidos nessa palavra. | ||
| + | * A articulação conceitual do ser da arche ocorre com Aristóteles, | ||
| + | * A arche como princípio da gênese e do movimento assume um papel condutor na interpretação grega do ente como physis, e é Aristóteles quem concebe pela primeira vez a essência do movimento a partir da ousia. | ||
| + | * As quatro causas aristotélicas são: aquilo de que algo surge e persiste (o subjacente, hyle); o aspecto e o paradigma que mostram o que algo deve ser (eidos); o ponto de onde parte a mudança (poiesis); e aquilo em vista do que a mudança ocorre (telos, ergon). | ||
| + | * As quatro causas foram posteriormente incorporadas à escolástica como causa materialis, formalis, efficiens e finalis, sendo então externalizadas na distinção entre conteúdo e forma. | ||
| + | * O ente propriamente dito, isto é, aquele que está presente por si mesmo, é subjectum; nesse conceito grego de sujeito não há nada de ego, consciência ou ipseidade. | ||
| + | * No começo da metafísica moderna, a essência da verdade transforma-se em certeza que o homem pode assegurar por si mesmo, e o ego cogito torna-se para Descartes o subjectum certum privilegiado. | ||
| + | * Em Leibniz, a essência do sujeito egóico torna-se a essência da subjetividade em geral como egoidade, e todo ente passa a ser pensado como sujeito, isto é, determinado pelo ser-si-mesmo. | ||
| + | * A questão que se ergue ao final é em que medida todo ente é articulado em fundamento e existência, | ||
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