obra:ga32:1
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| + | ===== GA32: §1 ===== | ||
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| + | **§ 1. Sistema da fenomenologia e sistema da enciclopédia** | ||
| + | * A pergunta pelo modo como o sistema da ciência exige a Fenomenologia do espírito como primeira parte requer esclarecer que o subtítulo usual da obra é abreviado, pois o título completo inicialmente foi Sistema da ciência. Primeira parte. Ciência da experiência da consciência, | ||
| + | * A forma mais completa do título mostra que a primeira parte do sistema da ciência é ela mesma ciência e constitui o primeiro momento da ciência, cujo caráter próprio só se esclarece por contraste com uma segunda parte que, contudo, não apareceu sob o título de segunda parte do sistema. | ||
| + | * A Ciência da lógica, publicada por Hegel em 1812, 1813 e 1816, relaciona-se materialmente com a segunda parte esperada do sistema, pois seu título remete ao mesmo esquema da Ciência da fenomenologia do espírito, mas ela não aparece expressamente como segundo tomo do Sistema da ciência. | ||
| + | * O sistema da ciência aparece necessariamente em duas figuras, como ciência da fenomenologia do espírito e como ciência da lógica, de modo que a Fenomenologia remete à Lógica e a Lógica remete à Fenomenologia, | ||
| + | * O plano original do sistema de 1807 previa duas partes, sendo a segunda composta pela lógica e pelas ciências reais da filosofia, conjunto que corresponde à forma transformada da metafísica tradicional, | ||
| + | * A metafísica hegeliana transforma a divisão tradicional ao organizar-se em lógica e filosofia real, esta última composta por filosofia da natureza e filosofia do espírito, enquanto a teologia especulativa deixa de aparecer como terceira ciência real e passa a estar unida originariamente à ontologia no conceito próprio da lógica hegeliana. | ||
| + | * A teologia especulativa não se identifica com filosofia da religião nem com doutrina da fé, mas designa a ontologia da realidade suprema enquanto tal, que em Hegel se une à pergunta pelo ser do ente em geral. | ||
| + | * A Fenomenologia do espírito, se a segunda parte projetada deveria expor a metafísica, | ||
| + | * A Lógica não apareceu explicitamente como segunda parte do Sistema da ciência porque Hegel alegou que sua extensão exigia uma publicação autônoma, fazendo dela a primeira continuação da Fenomenologia dentro de um plano ampliado, ao qual deveriam seguir-se as ciências reais da filosofia. | ||
| + | * A omissão do título Sistema da ciência na publicação da Lógica não se explica pela simples ampliação da obra, mas pelo início de uma transformação da ideia do sistema entre 1807 e 1812, na qual a função e o lugar da Fenomenologia começaram a mudar, fazendo com que a Lógica deixasse de ser simplesmente a segunda parte do plano originário. | ||
| + | * A transformação ocorrida entre a publicação da Fenomenologia e a publicação da Lógica pode ser vislumbrada pela Filosófica propedêutica de Hegel, que permite acompanhar de modo aproximado a passagem entre os planos do sistema. | ||
| + | * A trajetória de Hegel entre Jena, Bamberg, Nuremberg e Heidelberg mostra que a elaboração da Lógica ocorreu durante sua atividade como redator e reitor de ginásio, culminando em sua entrada em Heidelberg em 1816, quando sua concepção de filosofia afirmava a confiança na ciência, na verdade e na potência do espírito. | ||
| + | * A aceitação posterior do chamado para Berlim não se deveu apenas ao desejo de atividade universitária, | ||
| + | * Na fase berlinense, Hegel publicou apenas a Filosofia do direito e algumas recensões de importância menor para o princípio de sua filosofia, enquanto suas aulas desenvolveram o sistema que já recebera forma decisiva na Enciclopédia de Heidelberg de 1817. | ||
| + | * A Filosófica propedêutica, | ||
| + | * O ensino filosófico no ginásio mostra a dupla posição da lógica, pois no segundo curso ela sucede à Fenomenologia conforme o plano originário, | ||
| + | * A Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio, publicada em Heidelberg em 1817, constitui a forma nova e definitiva do sistema, composta por ciência da lógica, filosofia da natureza e filosofia do espírito, isto é, pelo conjunto da metafísica hegeliana. | ||
| + | * No sistema enciclopédico, | ||
| + | * Nas notas preparatórias às novas edições da Fenomenologia e da Lógica, Hegel afirma que o antigo título Sistema da ciência não deveria mais acompanhar a Fenomenologia e que a Enciclopédia havia substituído o projeto de um segundo tomo contendo as demais ciências filosóficas. | ||
| + | * A afirmação de que a Enciclopédia substitui o segundo tomo do sistema originário é correta apenas em parte, pois ela não funciona mais como segunda parte do antigo sistema, mas como o todo de um novo sistema no qual a Fenomenologia já não ocupa lugar autônomo e fundador. | ||
| + | * O sistema determinado pela Fenomenologia deve ser distinguido do sistema enciclopédico, | ||
| + | * A mudança da posição da Lógica expressa a transformação da própria ideia de sistema, não como abandono de um ponto de vista insustentável, | ||
| + | * A distinção entre sistema da Fenomenologia e sistema da Enciclopédia não corresponde simplesmente a primeiro e segundo sistema, pois antes deles já se encontra o chamado sistema de Jena, designação apenas aproximativa para os diversos esboços em que a ideia especificamente hegeliana de sistema estava em formação. | ||
| + | * A possibilidade de um sistema de Frankfurt deve ser admitida porque a intensa confrontação de Hegel com o mundo grego, especialmente com Platão e Aristóteles e sob a proximidade de Hölderlin, dificilmente teria começado apenas em Jena, revelando uma clarificação filosófica anterior. | ||
| + | * A sequência dos projetos hegelianos pode ser pensada como sistema de Frankfurt, sistema de Jena, sistema da Fenomenologia e sistema da Enciclopédia, | ||
| + | * A Fenomenologia do espírito continua sendo o caminho que prepara a dimensão, o espaço e o âmbito de extensão do sistema enciclopédico, | ||
| + | * A Fenomenologia possui no sistema enciclopédico uma dupla posição, pois é, de certo modo, parte preparadora do sistema e, ao mesmo tempo, componente interno subordinado do próprio sistema. | ||
| + | * A dupla posição da Fenomenologia não decorre de indecisão de Hegel quanto à sua função, mas nasce da própria estrutura do sistema e impõe as questões sobre sua fundamentação sistemática, | ||
| + | * A resposta a essas questões exige antes apreender com clareza o caráter primário da Fenomenologia do espírito e compreender suas dimensões essenciais. | ||
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