obra:ga3:ga3-1-conceito-metafisica
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| ====== § 1. O conceito tradicional da metafísica ====== | ====== § 1. O conceito tradicional da metafísica ====== | ||
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| - | * Tradicionalmente, | + | * Tradicionalmente, |
| - | * A expressão grega meta ta physika, que originalmente era apenas uma designação bibliográfica para os tratados de Aristóteles que seguiam à Física, veio a adquirir, mais tarde, o sentido de uma caracterização filosófica. Essa transformação, | + | * A expressão grega meta ta physika, que originalmente era apenas uma designação bibliográfica para os tratados de Aristóteles que seguiam à Física, veio a adquirir, mais tarde, o sentido de uma caracterização filosófica. Essa transformação, |
| - | * Contudo, é duvidoso que aquilo que se reúne sob o título de Metafísica em Aristóteles corresponda ao que posteriormente se entendeu por metafísica. O próprio Kant reconhece que o nome não é arbitrário, | + | * Contudo, é duvidoso que aquilo que se reúne sob o título de Metafísica em Aristóteles corresponda ao que posteriormente se entendeu por metafísica. O próprio Kant reconhece que o nome não é arbitrário, |
| - | * O nome “metafísica”, | + | * O nome “metafísica”, |
| - | * A origem dessa perplexidade está na ambiguidade do próprio Aristóteles ao definir a essência da filosofia primeira. Ela é, ao mesmo tempo, o conhecimento do ente enquanto ente (on he on) e o conhecimento da região suprema do ente (timiotaton genos), a partir da qual se determina o ente em sua totalidade (katholou). Essas duas caracterizações não constituem duas doutrinas opostas, mas aspectos de um mesmo problema: o duplo movimento pelo qual o pensamento apreende o ente como tal e o ser em seu todo. | + | * A origem dessa perplexidade está na ambiguidade do próprio Aristóteles ao definir a essência da filosofia primeira. Ela é, ao mesmo tempo, o conhecimento do ente enquanto ente (on he on) e o conhecimento da região suprema do ente (timiotaton genos), a partir da qual se determina o ente em sua totalidade (katholou). Essas duas caracterizações não constituem duas doutrinas opostas, mas aspectos de um mesmo problema: o duplo movimento pelo qual o pensamento apreende o ente como tal e o ser em seu todo. |
| - | * Esclarecer essa duplicidade é tarefa essencial, pois o dualismo entre o conhecimento do ente enquanto ente e o conhecimento do ente supremo domina a questão do ser desde o início da filosofia grega. A filosofia primeira é, desde o nascimento do pensamento ocidental, simultaneamente ontologia e teologia. | + | * Esclarecer essa duplicidade é tarefa essencial, pois o dualismo entre o conhecimento do ente enquanto ente e o conhecimento do ente supremo domina a questão do ser desde o início da filosofia grega. A filosofia primeira é, desde o nascimento do pensamento ocidental, simultaneamente ontologia e teologia. |
| - | * Pode-se, provisoriamente, | + | * Pode-se, provisoriamente, |
| - | * A metafísica ocidental posterior a Aristóteles não deriva de um sistema que se teria simplesmente transmitido, | + | * A metafísica ocidental posterior a Aristóteles não deriva de um sistema que se teria simplesmente transmitido, |
| - | * O primeiro motivo é de ordem estrutural e provém da interpretação cristã do mundo. A partir da fé, todo ente não divino é concebido como criatura, e o universo, como criação. O homem, situado entre as criaturas, possui dignidade especial, pois o que realmente importa é a salvação de sua alma. A totalidade dos entes divide-se, assim, em três domínios: Deus, natureza e homem. A teologia, a cosmologia e a psicologia formam, em conjunto, a metaphysica specialis, enquanto a metaphysica generalis (ontologia) se ocupa do ente em geral (ens commune). | + | * O primeiro motivo é de ordem estrutural e provém da interpretação cristã do mundo. A partir da fé, todo ente não divino é concebido como criatura, e o universo, como criação. O homem, situado entre as criaturas, possui dignidade especial, pois o que realmente importa é a salvação de sua alma. A totalidade dos entes divide-se, assim, em três domínios: Deus, natureza e homem. A teologia, a cosmologia e a psicologia formam, em conjunto, a metaphysica specialis, enquanto a metaphysica generalis (ontologia) se ocupa do ente em geral (ens commune). |
| - | * O segundo motivo essencial concerne ao método do conhecimento metafísico. Por tratar do ente e do sumo ente, a metafísica é considerada a ciência mais elevada, “a rainha das ciências”. Em coerência com essa dignidade, seu modo de conhecer deve ser o mais rigoroso e conclusivo. O ideal que se impõe é o do conhecimento matemático — racional, puro e a priori, independente da experiência contingente. Assim, o conhecimento do ente em geral e de suas partes principais converte-se em uma “ciência da razão pura”. | + | * O segundo motivo essencial concerne ao método do conhecimento metafísico. Por tratar do ente e do sumo ente, a metafísica é considerada a ciência mais elevada, “a rainha das ciências”. Em coerência com essa dignidade, seu modo de conhecer deve ser o mais rigoroso e conclusivo. O ideal que se impõe é o do conhecimento matemático — racional, puro e a priori, independente da experiência contingente. Assim, o conhecimento do ente em geral e de suas partes principais converte-se em uma “ciência da razão pura”. |
| - | * Kant permanece fiel à intenção dessa metafísica dogmática, mas desloca sua questão para o âmbito da metaphysica specialis, a que denomina “metafísica propriamente dita”, pois nela se encerra o fim último de toda a metafísica. Contudo, reconhece que essa ciência fracassa continuamente em seus esforços, por falta de coerência e eficácia. Por isso, antes de ampliá-la, é necessário esclarecer a possibilidade interna dessa ciência, isto é, determinar sua essência. | + | * Kant permanece fiel à intenção dessa metafísica dogmática, mas desloca sua questão para o âmbito da metaphysica specialis, a que denomina “metafísica propriamente dita”, pois nela se encerra o fim último de toda a metafísica. Contudo, reconhece que essa ciência fracassa continuamente em seus esforços, por falta de coerência e eficácia. Por isso, antes de ampliá-la, é necessário esclarecer a possibilidade interna dessa ciência, isto é, determinar sua essência. |
| - | * O ponto de partida kantiano da fundamentação da metafísica surge, assim, da necessidade de perguntar: como é possível a metafísica como ciência? Essa interrogação marca a virada decisiva: a metafísica deixa de ser apenas o saber do ente supremo e torna-se o questionamento crítico do próprio conhecer. O problema da metafísica converte-se no problema das condições de possibilidade do conhecimento do ser. | + | * O ponto de partida kantiano da fundamentação da metafísica surge, assim, da necessidade de perguntar: como é possível a metafísica como ciência? Essa interrogação marca a virada decisiva: a metafísica deixa de ser apenas o saber do ente supremo e torna-se o questionamento crítico do próprio conhecer. O problema da metafísica converte-se no problema das condições de possibilidade do conhecimento do ser. |
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