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| + | ===== §3 ===== | ||
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| + | **§ 3. A fundamentação da metafísica como ciência enquanto Crítica da razão pura** | ||
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| + | **a) A interpretação kantiana do conhecimento ontológico** | ||
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| + | **α) Conhecimento a priori** | ||
| + | * A fundamentação kantiana da metafísica como ciência, sob o título Crítica da razão pura, tem por problema a razão teórica humana, isto é, não uma consciência indefinida em geral, mas a possibilidade da ciência enquanto conhecimento teórico próprio da razão humana. | ||
| + | * A razão, ou entendimento, | ||
| + | * O conceito, por conter algo universal, funciona como regra para a determinação pensante dos casos particulares que caem sob ele, razão pela qual a razão ou entendimento também pode ser compreendida como faculdade das regras. | ||
| + | * Como toda regra possui um fundamento ou princípio segundo o qual regula, a razão é determinada como faculdade dos princípios das regras e, nesse sentido, como faculdade que fornece os princípios do conhecimento a priori. | ||
| + | * O conhecimento a priori significa provisoriamente o conhecimento por conceitos que o eu pensante realiza de antemão, a partir de si mesmo e sem auxílio da experiência, | ||
| + | * A metafísica teórico-dogmática combatida por Kant é essencialmente conhecimento a priori do suprassensível por meros conceitos, mas Kant amplia e aprofunda o sentido de a priori, definindo a razão como faculdade dos princípios do conhecimento a priori. | ||
| + | * A razão pura significa uma razão cuja cognição não se mistura com experiência ou sensação, de modo que o a priori em sentido estrito designa um conhecimento por conceitos absolutamente livre da experiência, | ||
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| + | **β) As condições da possibilidade de uma ciência do ente em geral** | ||
| + | * A fundamentação da metafísica como ciência, enquanto Crítica da razão pura, tematiza a razão pura como faculdade dos princípios, | ||
| + | * A ciência matemática da natureza exerce papel exemplar na problemática kantiana porque, desde a Antiguidade até Kant, o ente foi primariamente compreendido como natureza e como presente-subsistente, | ||
| + | * A pergunta pelo fundamento de uma ciência do ente remete à pergunta pelo que pertence ao conhecimento científico enquanto tal, e Kant não parte do fato dado da ciência matemática da natureza, mas busca desenvolver a possibilidade da ciência a partir da própria razão pura como faculdade originária do conhecimento. | ||
| + | * A ciência matemática da natureza forneceu a Kant a indicação decisiva de que toda ciência do ente, especialmente da natureza, deve previamente determinar esse ente em sua constituição de ser para poder tomá-lo como tema. | ||
| + | * A formulação kantiana do procedimento de Galileu, Torricelli e Stahl mostra que a razão deve levar princípios e experimentos à natureza para obrigá-la a responder a perguntas previamente projetadas, pois a ciência não nasce de observações casuais, mas de um plano racional que torna possível a conexão necessária das leis. | ||
| + | * A apresentação kantiana do vínculo entre compreensão pré-ontológica do ser, objetivação e tematização do ente conserva uma concepção específica do problema, mas retoma com clareza o problema platônico segundo o qual o ente possui princípios de seu ser. | ||
| + | * O exemplo da ciência matemática da natureza mostra que toda ciência do ente contém razão, isto é, contém determinações a priori pelas quais algo é fixado sobre os objetos antes de sua doação empírica, possibilitando que eles sejam dados como aquilo que são. | ||
| + | * As determinações a priori ampliam o conhecimento dos objetos porque afirmam algo necessário e universal sobre a natureza, como os princípios da permanência da substância e da causalidade, | ||
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| + | **γ) Juízos analíticos e sintéticos** | ||
| + | * A interpretação kantiana de conhecimentos ontológicos como o princípio da causalidade parte da tese de que conhecer é julgar, e a explicitação do conteúdo de um conceito por análise constitui um juízo analítico, no qual se retira do conceito do sujeito aquilo que nele já está pensado. | ||
| + | * A verdade dos juízos analíticos funda-se no conteúdo conceitual do sujeito e na ausência de contradição entre sujeito e predicado, de modo que esses juízos são a priori por dependerem apenas da forma lógica do juízo e não da relação com o ente visado. | ||
| + | * O juízo sintético acrescenta ao conceito do sujeito um predicado que não está contido nele, exigindo experiência ou intuição do ente para justificar essa atribuição, | ||
| + | * A objeção segundo a qual a diferença entre juízos analíticos a priori e juízos sintéticos a posteriori seria fluida não atinge o ponto decisivo da distinção kantiana, pois esta não se refere ao modo factual de adquirir o juízo, mas ao tipo de fundamento que justifica a conexão entre sujeito e predicado. | ||
| + | * O princípio da causalidade é sintético porque amplia o conhecimento da natureza ao determinar seu ser quanto às mudanças e às causas, mas é também a priori porque não é fundado na experiência, | ||
| + | * A descoberta fundamental de Kant consiste em reconhecer que o entendimento pré-ontológico do ser do ente e todo conhecimento ontológico são conhecimentos que ampliam o conhecimento do ente sem depender da experiência, | ||
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| + | **δ) O problema da possibilidade dos juízos sintéticos a priori ou de uma compreensão ontológica do ser** | ||
| + | * A fundamentação dos juízos analíticos a priori e dos juízos sintéticos a posteriori se compreende respectivamente pelo princípio de contradição e pela experiência, | ||
| + | * A questão pode ser formulada como a pergunta pela possibilidade da compreensão pré-ontológica ou explicitamente ontológica do ser do ente, sobre a qual repousa toda objetivação científica e toda ontologia regional de um domínio de ser. | ||
| + | * A tarefa própria da razão pura consiste em responder como são possíveis os juízos sintéticos a priori, pois dessa resposta depende a permanência ou queda da metafísica como ciência. | ||
| + | * O problema kantiano deve ser esclarecido a partir de seu primeiro estágio de formulação, | ||
| + | * A pergunta decisiva do período inicial de Kant interroga o fundamento da relação entre aquilo que se chama representação em nós e o objeto, isto é, o fundamento da possibilidade de que conceitos puros do entendimento possam determinar necessariamente algo sobre os objetos. | ||
| + | * A dificuldade do problema reside em que as representações empíricas podem ser explicadas pelo efeito do objeto sobre os sentidos, e o conhecimento divino pode ser explicado como produção dos objetos pelo próprio pensamento, mas o entendimento humano finito não recebe seus conceitos puros dos objetos nem produz por si mesmo os objetos pensados. | ||
| + | * A insuficiência da explicação negativa das representações intelectuais exige saber de onde provém a concordância entre conceitos puros do entendimento e objetos que não são produzidos pelo pensamento humano nem derivados da experiência. | ||
| + | * A questão decisiva é como o entendimento pode projetar princípios reais sobre a possibilidade das coisas, ou seja, como o sujeito pode possuir de antemão uma compreensão da constituição de ser do ente que torna possível o acesso ao próprio ente. | ||
| + | * A virada copernicana de Kant significa que os objetos devem regular-se pelo conhecimento entendido como conhecimento ontológico a priori da constituição de ser do ente, e não que o ente real seja dissolvido em mera representação subjetiva. | ||
| + | * A virada copernicana esclarece que todo conhecimento ôntico do ente deve orientar-se previamente por um conhecimento ontológico, | ||
| + | * As obscuridades kantianas favorecem mal-entendidos, | ||
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| + | **b) A diferença entre filosofia transcendental ou metafísica e fundamentação da metafísica como Crítica da razão pura** | ||
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| + | **α) Ontologia como sistema. A Crítica como fundamentação do sistema da filosofia transcendental** | ||
| + | * O problema fundamental de Kant consiste em explicar como conhecimentos sintéticos e ao mesmo tempo a priori são possíveis, isto é, onde se encontra o fundamento pelo qual conceitos e princípios puros do entendimento podem determinar algo sobre as coisas sem serem extraídos da experiência. | ||
| + | * A investigação transcendental não se dirige aos objetos mesmos, mas à possibilidade a priori da relação do entendimento puro com os objetos, e por isso se ocupa do modo de conhecimento dos objetos enquanto esse modo deve ser possível a priori. | ||
| + | * A pergunta transcendental busca as condições de possibilidade da síntese a priori, e a filosofia transcendental expõe o nexo interno entre categorias e princípios enquanto estes determinam os objetos a priori. | ||
| + | * A tarefa da filosofia transcendental corresponde à elaboração das determinações ontológicas dos domínios do ente, isto é, à elaboração das ontologias regionais, razão pela qual filosofia transcendental e ontologia designam o mesmo campo problemático. | ||
| + | * A Crítica da razão pura não é o sistema já desenvolvido da filosofia transcendental, | ||
| + | * A Crítica da razão pura pode ser resumida como fundamentação transcendental da ontologia em geral, pois fundamenta a metafísica como ciência do ente ao fundamentar a possibilidade da síntese a priori e da relação a priori com os objetos. | ||
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| + | **β) A fundamentação da metafísica como crítica da razão pura e sua posição no todo da metafísica** | ||
| + | * A fundamentação da metafísica recebe o nome de crítica porque precisa julgar a razão pura, acompanhar os passos da metafísica e determinar os limites dentro dos quais a razão pode legitimamente produzir conhecimento a priori. | ||
| + | * A metafísica tradicional apresentou-se como conhecimento teórico do suprassensível, | ||
| + | * As três questões fundamentais da razão, acerca do que se pode saber, do que se deve fazer e do que se pode esperar, enraízam a metafísica na natureza da razão humana comum e fazem dela uma disposição natural. | ||
| + | * A disposição natural para a metafísica não basta, pois as proposições metafísicas tradicionais conduziram a contradições; | ||
| + | * A análise transcendental mostra que as condições da metafísica teórica do suprassensível não podem ser satisfeitas, | ||
| + | * O resultado negativo da fundamentação mostra que nenhum fundamento teórico a priori pode ser obtido para os objetos suprassensíveis, | ||
| + | * A Crítica da razão pura, entendida como fundamentação da ontologia e tratado do método da metafísica, | ||
| + | * A filosofia da razão pura divide-se em crítica e metafísica: | ||
| + | * A metafísica como sistema possui uma parte especulativa ou teórica e uma parte prática, reunindo a totalidade da cognição pura a priori em unidade sistemática. | ||
| + | * A parte teórica da metafísica tem por tema tudo enquanto é, isto é, o presente-subsistente, | ||
| + | * A parte prática da metafísica considera o ente enquanto deve ser. | ||
| + | * A metafísica da natureza, enquanto ciência do ente como ente, é escalonada em duas disciplinas, | ||
| + | * A primeira disciplina investiga a constituição de ser do ente em geral, ainda antes de qualquer região empírica determinada, | ||
| + | * A ontologia kantiana refere-se aos objetos em geral enquanto entes encontráveis na experiência possível, e não ao mero algo formal em sentido husserliano, | ||
| + | * A disciplina fundada sobre a filosofia transcendental trata da natureza em sentido material, isto é, do conjunto das coisas enquanto objetos dos sentidos, abrangendo tanto a natureza corporal externa quanto a natureza pensante interna. | ||
| + | * A fisiologia racional kantiana, em sentido antigo, é a ontologia da natureza material e se divide em física racional e psicologia racional, bem como em uma fisiologia transcendente que abrange cosmologia racional e teologia racional. | ||
| + | * A divisão kantiana da metafísica deixa transparecer a tradição, na qual a filosofia transcendental corresponde aproximadamente à metafísica geral e a fisiologia, cosmologia e teologia correspondem à metafísica especial. | ||
| + | * A metafísica dos costumes permanece fora desse conjunto como parte prática da metafísica. | ||
| + | * A Crítica não é uma teoria do conhecimento das ciências naturais, mas a fundamentação da disciplina fundamental da metafísica, | ||
| + | * A interpretação da Crítica como teoria do conhecimento da ciência matemática da natureza falha duplamente, porque não vê que se trata de ontologia e não de teoria do conhecimento, | ||
| + | * As tentativas recentes de reconhecer em Kant motivos metafísicos e ontológicos corrigem parcialmente a leitura unilateralmente gnosiológica, | ||
| + | * A leitura de Cohen e Natorp como teoria do conhecimento da ciência matemática da natureza possui uma razão interna, pois Kant, ao buscar uma ontologia do presente-subsistente em geral, frequentemente toma como fundamento explícito a natureza físico-corporal. | ||
| + | * Kant reconhece a dificuldade de que a metafísica geral, sempre que necessita de exemplos ou intuições para dar significado aos conceitos puros do entendimento, | ||
| + | * A fundamentação da metafísica como ontologia e sua forma crítica em Kant ficam provisoriamente esclarecidas, | ||
| + | * A interpretação fenomenológica da Crítica da razão pura requer esclarecer inicialmente o horizonte geral da questão, o campo da investigação e o plano de construção da obra como um todo. | ||
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