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| + | ===== §2 ===== | ||
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| + | **§ 2. Significado geral da fundamentação de uma ciência** | ||
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| + | **a) Interpretação fenomenológica da essência da ciência** | ||
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| + | * O ponto de partida é a ciência caracterizada como uma espécie de conhecimento, | ||
| + | * O comportamento desvelador em relação ao ente que circunda o Dasein é uma possibilidade livre da existência humana; a existência é o modo de ser próprio e exclusivo do ser humano, que inclui o conhecer como possibilidade livre, ao passo que as coisas da natureza simplesmente estão presentes. | ||
| + | * Para caracterizar a essência da ciência a partir da existência, | ||
| + | * Uma coisa material como uma pedra ou uma cadeira não tem mundo, sua maneira de ser é inteiramente desprovida de relação com um mundo; o ente simplesmente presente pode ocorrer dentro de um mundo, mas só adquire a determinação de ser intramundano quando um Dasein existe e o deixa vir ao encontro; a natureza pode muito bem ser à sua maneira sem que haja Dasein e, portanto, mundo. | ||
| + | * Plantas e animais não estão presentes como pedras, mas tampouco existem de modo a se relacionar com um mundo; a sua maneira de ser, distinta tanto do simples estar presente quanto da existência humana, é chamada vida, e se é lícito falar em ambiente dos animais, permanece em aberto se aí há mundo em sentido próprio. | ||
| + | * A segunda determinação essencial do Dasein ao lado do ser-no-mundo é a liberdade: o Dasein é um ente ao qual importa sua própria existência, | ||
| + | * O comportamento em relação ao ente intramundano é primária e inicialmente não o comportamento cognoscente da pesquisa científica, | ||
| + | * Da mesma forma, a natureza em seu poder e força não é desvelada pela reflexão sobre ela, mas no combate com ela e na luta por dominá-la, o que os mitos da natureza expressam; e as circunstâncias e contingências da ação cotidiana não são descobertas pelo simples contemplar do mundo, mas ao agarrar ou examinar ocasiões, quando então dificuldades, | ||
| + | * No trato com as coisas, compreende-se previamente o que significa algo como utensílio ou coisa de uso; não se aprende o ser-utensílio em geral, pois esse já deve ser previamente compreendido para que se possa dispor a usar um utensílio determinado; | ||
| + | * O que se revela nesse pré-entendimento é a constituição de ser do ente: só nos podemos relacionar com algo como simples presente enquanto previamente entendemos o que significa estar presente; todo comportamento em relação ao ente contém em si uma compreensão da maneira de ser e da constituição de ser do ente em questão. | ||
| + | * Compreende-se o ser do ente, mas nem se apreende conceitualmente esse ser, nem se sabe que se o compreende pré-conceitualmente, | ||
| + | * O Dasein também se compreende a si mesmo pré-ontologicamente em seu ser ao se relacionar consigo como ente; ele entende sua própria maneira de ser, a existência, | ||
| + | * A distinção conceitual entre o modo de ser do Dasein e o das coisas permanece obscura por longo tempo, mesmo dentro da filosofia; Kant orbita em torno desses problemas sem os ver como tais, e começa-se hoje a reconhecê-los como centrais. | ||
| + | * Três pontos resumem o que pertence essencialmente ao Dasein antes e independentemente de qualquer relação científica com o mundo: quando o Dasein existe facticamente, | ||
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| + | **b) A conversão do comportamento pré-científico ao científico pelo ato fundamental da objetivação. Objetivação como realização explícita da compreensão do ser** | ||
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| + | * Mesmo quando, no trato cotidiano, nos voltamos expressamente para as coisas e deliberamos sobre elas, esse olhar circunspeto ainda não é comportamento científico, | ||
| + | * A ausência de prática técnica não gera positivamente um comportamento científico, | ||
| + | * O comportamento que constitui o comportamento científico como tal chama-se objetivação; | ||
| + | * Com a objetivação coloca-se a tarefa de expor e determinar o ente que vem ao encontro na contraposição; | ||
| + | * O comportamento em relação ao ente só é possível com base numa prévia iluminação por uma compreensão do ser; nas ciências, onde o ente como tal deve tornar-se objeto, é necessária uma elaboração explícita dessa compreensão do ser; o essencial da objetivação está na realização explícita da compreensão do ser em que se torna compreensível a constituição fundamental do ente que deve tornar-se objeto. | ||
| + | * A gênese de uma ciência se realiza na objetivação de um domínio do ente, o que significa a elaboração da compreensão da constituição de ser do ente em questão; dessa elaboração brotam os conceitos fundamentais que delimitam o terreno e o domínio da ciência, e sobre a objetivação se edifica a tematização. | ||
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| + | **c) O processo de objetivação na gênese da ciência natural matemática moderna** | ||
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| + | * A distinção da ciência natural moderna não está na observação de fatos, no experimento, | ||
| + | * A natureza precisa ser previamente projetada como um conjunto fechado de deslocamentos de corpos materiais no tempo, e o que a delimita como tal — movimento, corpo, lugar, tempo — deve ser pensado de modo a possibilitar a determinabilidade matemática; | ||
| + | * Não há fatos puros: fatos como tais só podem ser apreendidos quando o domínio da natureza está delimitado como tal; em toda pesquisa que se pretende puramente factual já há pré-concepções sobre a determinação do domínio dentro do qual os fatos são encontrados, | ||
| + | * A essência da ciência como desvelamento do ente pelo desvelamento mesmo reside na objetivação; | ||
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| + | **b) A relação entre fundamentação da ciência e filosofia** | ||
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| + | * A autofundamentação das ciências realizada por elas mesmas no projeto da constituição de ser de seu domínio é ao mesmo tempo necessária e limitada: é sim uma fundamentação enquanto a ciência ganha seu solo por esse projeto, mas não o é de modo pleno porque esse projeto esbarra em um limite necessário dentro da própria ciência, exigindo uma fundamentação mais originária que as ciências com seus métodos não podem executar. | ||
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| + | **a) O limite da autofundamentação da ciência** | ||
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| + | * No projeto da constituição de ser de um domínio, o físico delimita os conceitos fundamentais de movimento, corpo, lugar e tempo, mas não tematiza a essência do movimento como tal nem o ser do tempo; quando suas reflexões avançam sobre essas generalidades, | ||
| + | * Os conceitos fundamentais de uma ciência não podem ser esclarecidos pelos métodos dessa mesma ciência: os conceitos fundamentais da filologia não se esclarecem pela filologia, nem os da história pela pesquisa de fontes; e a verdadeira história de uma ciência não se faz pela descoberta de novos fatos, mas pela transformação de seus conceitos fundamentais, | ||
| + | * A autofundamentação das ciências exige por sua vez uma fundamentação que elas não podem realizar, pois falta o método seguro para perguntar pelo que os conceitos fundamentais visam como tais; essa fundamentação necessária da autofundamentação da ciência é a fundamentação propriamente dita da ciência. | ||
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| + | **b) Fundamentação da ciência como ontologia regional. Fundamentação da interrogação ontológica na filosofia como ontologia fundamental** | ||
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| + | * O que está no limite das reflexões das ciências é a meditação temática sobre o ser visado no projeto da constituição de ser como tal; a fundamentação da autofundamentação das ciências consiste na transformação da compreensão pré-ontológica do ser em uma ontologia explícita, que pergunta tematicamente pelo conceito de ser e pela constituição de ser como tais. | ||
| + | * Como cada ciência tem seu domínio regional de ente como objeto, a meditação ontológica correspondente se refere à constituição de ser regional que determina esse domínio; em toda ciência de um domínio do ente já reside latentemente uma ontologia regional que lhe pertence, mas que ela mesma, por princípio, não pode desenvolver. | ||
| + | * Toda investigação ontológica objetiva o ser como tal; toda investigação ôntica objetiva o ente; a objetivação ôntica só é possível com base no projeto ontológico da constituição de ser, e a interrogação ontológica exige por sua vez uma fundamentação mais originária, | ||
| + | * A constituição de ser que precisa ser previamente compreendida para que o ente possa vir ao encontro é aquilo que em certo sentido é mais cedo que o ente, é a priori; esse entendido anteriormente ao ente é justamente o mais tardio e último a ser conceitualmente apreendido, e os próprios gregos chamavam as ciências individuais de filosofias individuais, | ||
| + | * Toda ciência é latente e no fundo filosofia; a própria filosofia está inscrita no fundo do Dasein humano como possibilidade factual, pois a compreensão do ser é a condição mais originária de possibilidade da existência humana; por isso a filosofia, como tarefa de iluminação explícita do ser, é a possibilidade mais livre da existência humana: só onde a necessidade mais originária vincula é possível a liberdade mais elevada. | ||
| + | * É possível ocupar-se com as ciências do ente sem se importar com a filosofia que nelas necessariamente, | ||
| + | * Em síntese: a autofundamentação das ciências precisa por sua vez de fundamentação, | ||
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