obra:ga20:5
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| + | ===== §5. A INTENCIONALIDADE ===== | ||
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| + | 1. A intencionalidade constitui o fenômeno que mais provoca estranhamento na filosofia contemporânea e o principal obstáculo a uma recepção imparcial do projeto fenomenológico, | ||
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| + | 2. A legitimidade de se falar em uma descoberta da intencionalidade pela fenomenologia, | ||
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| + | 3. Na literatura filosófica corrente, a intencionalidade é desqualificada como conceito de origem escolástica, | ||
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| + | 4. A rejeição dessas opiniões correntes não visa preservar a originalidade de Husserl frente a Brentano, mas evitar que caracterizações apressadas obstruam de antemão os passos elementares necessários à compreensão da fenomenologia. | ||
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| + | **a) A intencionalidade como estrutura das vivências: exposição e elucidação inicial** | ||
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| + | 5. A intencionalidade deve ser mostrada como estrutura das próprias vivências enquanto tais, e não como uma coordenação acrescentada a estados psíquicos em relação a outras realidades, sendo necessário afastar o preconceito de que as coisas mesmas devam ser apreendidas de um só golpe, pois o caminho até elas é longo e exige a prévia remoção dos preconceitos que as obscurecem. | ||
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| + | 6. Intentio significa literalmente direcionar-se-para, | ||
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| + | 7. As considerações seguintes não exigem talento especial, mas sim o abandono de preconceitos e o exercício de ver direta e simplesmente, | ||
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| + | 8. A percepção natural de uma cadeira encontrada ao entrar numa sala, e afastada por estar no caminho, serve de caso exemplar de comportamento psíquico, escolhido por representar a percepção cotidiana mais comum e não uma observação em sentido enfático, pois a percepção natural, tal como vivida no trato com o mundo circundante, | ||
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| + | 9. Uma interpretação grosseira descreve a percepção da cadeira como um evento psíquico interno ao qual corresponderia uma coisa física externa, coordenação que se revela dispensável diante de casos de ilusão e alucinação. | ||
| + | * a alucinação de um automóvel sendo conduzido pela sala evidencia um processo psíquico de percepção sem objeto real correspondente; | ||
| + | * a percepção enganosa de um homem que, ao se aproximar na floresta escura, revela-se uma árvore, mostra igualmente a ausência do objeto supostamente percebido; | ||
| + | * diante desses fatos, conclui-se apressadamente que nem toda percepção é percepção de algo, e que mesmo quando há objeto correspondente, | ||
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| + | 10. Desde Descartes sustenta-se, | ||
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| + | 11. Reexaminando a alucinação, | ||
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| + | 12. A intencionalidade não é propriedade que sobrevenha à percepção apenas quando há correspondência real, mas constitui intrinsecamente a percepção correta ou enganosa, sendo precisamente por a percepção enquanto tal já ser um direcionar-se-para algo que se tornam possíveis o engano perceptivo e a alucinação. | ||
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| + | 13. Uma vez postas de lado as pressuposições epistemológicas, | ||
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| + | **b) O mal-entendido de Rickert sobre a fenomenologia e a intencionalidade** | ||
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| + | 14. Tanto na recepção da intencionalidade quanto na interpretação de Brentano, viu-se sobretudo dogma metafísico onde deveria ver-se a exposição da estrutura da vivência, sendo o mérito decisivo de Husserl ter atentado ao fenômeno mesmo do perceber como direcionar-se-para, | ||
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| + | 15. Não interessa demonstrar contradições no pensamento de Rickert, mas evidenciar que ele reivindica a intencionalidade quando esta convém à sua teoria e a descarta quando a contraria, revelando ausência do requisito mais elementar da fenomenologia, | ||
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| + | 16. Rickert toma de Brentano a definição do juízo como reconhecimento, | ||
| + | * citação de Rickert: visto que o que vale para o juízo deve também valer para o conhecer, segue-se do parentesco do juízo com o querer e o sentir que também no puro conhecer teórico está em jogo um posicionamento frente a um valor, sendo apenas em relação a valores que a alternativa de aprovar e desaprovar faz sentido. | ||
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| + | 17. O reconhecimento não se impõe a representações preexistentes, | ||
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| + | 18. A teoria de Rickert não resulta do estudo das coisas mesmas, mas de uma dedução infundada e carregada de pressupostos dogmáticos, | ||
| + | * citação: caracterizar o juízo como comportamento distinto da representação não significa, como em Brentano, ver nele outro tipo de relação da consciência com seus objetos, afirmação tida por demasiado presuntiva. | ||
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| + | 19. Investiga-se a que gênero de processos psíquicos pertence o juízo completo, quando se distingue de modo geral os estados em que nos comportamos de modo impassível e contemplativo daqueles em que tomamos interesse pelo conteúdo da consciência como conteúdo de valor, pretendendo-se apenas estabelecer um fato que nem sequer uma teoria puramente sensualista poderia contestar. | ||
| + | * citação de Rickert reproduzindo, | ||
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| + | 20. A prova de que Rickert reivindica inadvertidamente a intencionalidade brentaniana está em seu uso contraditório do conceito de representação, | ||
| + | * citação: um conhecer que representa necessita de uma realidade independente do sujeito cognoscente, | ||
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| + | 21. Permanece em aberto por que Rickert não aplica ao conceito de representação o mesmo rigor descritivo empregado na definição do juízo, questão respondida pela constatação de que ele está previamente guiado pela tese de que conhecer não pode ser representar, | ||
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| + | 22. Rickert é impedido de ver o caráter cognitivo primário da representação por pressupor um conceito mítico de representar, | ||
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| + | 23. A cegueira diante da intencionalidade decorre do pressuposto equivocado de estar em jogo uma teoria da relação entre físico e psíquico, quando na verdade se exibe simplesmente uma estrutura do próprio psíquico, devendo-se assegurar a estrutura dos comportamentos sem qualquer dogma epistemológico, | ||
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| + | 24. No trato dos comportamentos, | ||
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| + | **c) A constituição fundamental da intencionalidade enquanto tal** | ||
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| + | 25. O que se apreendeu até aqui sobre a intencionalidade permanece formalmente vazio, exigindo-se doravante o exame livre de sua coerência estrutural, sem pano de fundo de teorias realistas ou idealistas da consciência, | ||
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| + | 26. A aparente vacuidade tautológica da tese fenomenológica da intencionalidade, | ||
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| + | **α) O percebido do perceber: o ente em si mesmo (coisa ambiente, coisa natural, coisidade)** | ||
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| + | 27. Ao caracterizar a intencionalidade como estrutura do comportamento e não como relação objetiva ocasional entre físico e psíquico, torna-se necessário examinar sua constituição fundamental, | ||
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| + | 28. Sem preconceitos, | ||
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| + | 29. É possível ainda descrever a cadeira quanto ao seu peso, cor, altura, deslocabilidade, | ||
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| + | 30. O percebido em si mesmo é simultaneamente coisa ambiente e coisa natural, surgindo a dificuldade de compreender a relação entre essas duas estruturas coisais de um mesmo ente, evidenciando-se que a dureza como característica material se apresenta primeiramente sob a caracterização ambiental de desconforto, | ||
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| + | 31. É possível ainda descobrir, na coisa natural, a materialidade e a extensão que lhe pertencem, o fato de que todo extenso é colorido e toda cor possui extensão, e a mobilidade local do material e extenso, determinações que constituem a coisidade enquanto tal, estruturas legíveis a partir do próprio dado. | ||
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| + | 32. Nos três casos considerados trata-se do ente percebido em si mesmo, tal como pode ser encontrado por um simples tomar conhecimento, | ||
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| + | 33. Contra a interpretação epistemológica e psicológica corrente, segundo a qual em primeira instância haveria apenas sensações de cor às quais se acrescentariam outros elementos, reivindica-se a pura ingenuidade que vê imediatamente a cadeira mesma, incluindo nesse ver simples as correlações estruturais da coisidade, que não são invenções nem construções, | ||
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| + | **β) O percebido do perceber: o como do ser-intencionado (a percebidade do ente, o caráter de estar-corporalmente-aí)** | ||
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| + | 34. O percebido em sentido estrito, para a fenomenologia, | ||
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| + | 35. O ser-percebido e a estrutura da percebidade não pertencem à cadeira enquanto cadeira, mas ao percebimento enquanto tal, isto é, à intencionalidade, | ||
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| + | 36. Independentemente de teorias, deve-se buscar o percebido enquanto tal não na cadeira intencionada em si, mas no como de seu ser-intencionado, | ||
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| + | 37. Ao envisar a ponte de Weidenhausen, | ||
| + | * a corporeidade constitui um modo superlativo da autodoação de um ente; | ||
| + | * o dado ele mesmo não precisa ser corporalmente dado, mas o corporalmente dado é sempre dado ele mesmo. | ||
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| + | 38. O intencionar vazio é o modo de representar algo ao modo de simplesmente pensar nele ou recordá-lo, | ||
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| + | 39. A distinção entre intencionar vazio e representação intuitiva aplica-se não só à percepção sensível mas a todos os atos, exemplificada pela proposição 1 + 2 é 2 + 1, que pode ser repetida cegamente ou realizada com insight, mediante um envisar originário no qual cada passo se cumpre nas próprias determinações intencionadas, | ||
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| + | 40. A percepção de uma imagem, exemplificada pelo cartão-postal da ponte de Weidenhausen, | ||
| + | * é preciso rejeitar com veemência a tentativa de tomar a apreensão de imagem como paradigma para esclarecer toda percepção de objeto, como se, ao ver uma casa, primeiro se percebesse internamente uma imagem que depois se apreenderia como retratando a casa transcendente; | ||
| + | * tal transposição não corresponde aos achados fenomenológicos simples e conduz ainda a uma dificuldade adicional, pois, se todo conhecimento fosse apreensão de uma imagem-objeto como retrato imanente de uma coisa transcendente, | ||
| + | * a razão decisiva para rejeitar essa transposição não é o regresso ao infinito, mas o fato de contrariar frontalmente todo achado fenomenológico: | ||
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| + | 41. Reafirma-se que o momento autêntico da percebidade do percebido é sua presença corporal na percepção, | ||
| + | * ao circundar um armário, os aspectos mudam continuamente, | ||
| + | * não é a adumbração que se intenciona, mas a coisa percebida mesma, sempre em uma adumbração, | ||
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| + | 42. Também a coisa-imagem, | ||
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| + | **γ) Indicação inicial do modo fundamental da intencionalidade como pertencimento mútuo entre intentio e intentum** | ||
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| + | 43. Dentro dessa multiplicidade de modos de representação existe uma interrelação estrutural específica, | ||
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| + | 44. É possível complicar essas conexões de cumprimento recorrendo a uma cópia colocada ao lado do original, estabelecendo-se uma continuidade estrutural entre cópia, retrato original e modelo, de modo que, para comprovar a autenticidade da cópia, não se recorre ao modelo, mas ao próprio retrato original enquanto imagem do modelo; essas estruturas de comprovação percorrem todos os atos de apreensão, mostrando-se o percebido em sua percebidade, | ||
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| + | 45. Essas continuidades estruturais e níveis de cumprimento, | ||
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| + | 46. Estabelece-se assim uma afinidade inerente entre o modo como algo é intencionado, | ||
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| + | 47. A diferença entre essa análise e a de Brentano reside em que este viu apenas a intentio, a noese, e a diversidade de seus modos, mas não o noema, o intentum, permanecendo incerto quanto ao chamado objeto intencional, | ||
| + | * a intencionalidade em Brentano identifica-se assim com o próprio psíquico, cujo caráter permaneceu indeterminado, | ||
| + | * fase ainda não superada pela fenomenologia, | ||
| + | * Husserl e Scheler buscam superar essa restrição psíquica em direções distintas, concebendo a intencionalidade, | ||
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| + | 48. Não é a intencionalidade enquanto tal que é metafisicamente dogmática, mas o que se constrói sob sua estrutura ou nela se deixa por uma tendência tradicional a não questionar aquilo de que ela é estrutura, devendo a regra metodológica limitar-se ao que se mostra, por mais escasso que seja, de modo a permitir ver, através da própria intencionalidade, | ||
| + | * a intencionalidade não constitui explicação última do psíquico, mas via inicial de superação da aplicação acrítica de realidades tradicionalmente definidas, como o psíquico, a consciência, | ||
| + | * intencionalidade é, por isso, a última palavra a ser usada como slogan fenomenológico, | ||
| + | * permanece obscuro o pertencimento do intentum à intentio e o modo como o ser-intencionado de um ente se relaciona a esse ente, questão só passível de avanço mediante o seguimento concreto da intencionalidade, | ||
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