obra:ga19:estudos:negacao
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| obra:ga19:estudos:negacao [14/08/2026 14:30] – created - external edit 127.0.0.1 | obra:ga19:estudos:negacao [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== Negação como relação ===== | ||
| + | //DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.// | ||
| + | **Negação como relação: a interpretação heideggeriana de [[p> | ||
| + | |||
| + | **I. Introdução** | ||
| + | |||
| + | 1. A interpretação heideggeriana de Sofista 257b3–259d1, | ||
| + | |||
| + | 2. A análise exige inicialmente situar os grandes temas do Sofista, reconstruir a tese heideggeriana, | ||
| + | |||
| + | **II. Uma visão geral dos temas** | ||
| + | |||
| + | 3. Na digressão ontológica do Sofista, o Estrangeiro de Eleia investiga as relações entre os gêneros fundamentais — Ser, Movimento, Repouso, Mesmo e Diferente — e estabelece uma distinção decisiva entre um não-ser absoluto, impossível de dizer ou pensar, e um não-ser relativo que, em determinado sentido, também é. | ||
| + | |||
| + | 4. O ser é definido como [[f> | ||
| + | |||
| + | 5. A determinação platônica do ser como capacidade de agir e padecer possui um caráter produtivo que articula héteron, dýnamis e [[f> | ||
| + | * O gênero do movimento funciona exemplarmente para mostrar a eficácia relacional do héteron. | ||
| + | * A diferença não destrói os termos relacionados, | ||
| + | |||
| + | 6. A descrição das relações entre os gêneros procura explicar por que determinadas coisas podem relacionar-se e outras não, mas a própria relacionalidade constitui a essência das coisas, pois cada ente somente pode ser aquilo que é ao diferenciar-se de outros, fazendo identidade e diferença complementarem-se mutuamente na constituição do real. | ||
| + | |||
| + | 7. O héteron pode ser compreendido como um ser relativo cuja modalidade própria de relação se realiza através do “não”, pois a negação efetua uma diferenciação pela qual a identidade se constitui via negationis, sem que essa negação deva ser reduzida a oposição vazia, já que funciona como relação complementar de contrariedade e permite uma nova concepção das enunciações negativas. | ||
| + | |||
| + | 8. Compreender o não-ser relativo como Diferente significa atribuir-lhe estrutura relacional, pois A é A justamente em relação àquilo que não é, de modo que o “não-ser” de B relativamente a A pode ser teoricamente reformulado como um “ser-com”, | ||
| + | |||
| + | 9. A fragmentação, | ||
| + | |||
| + | 10. A nova concepção do Diferente torna novamente inteligível a relação entre ser e não-ser, pois o não-ser pode tornar-se objeto do discurso sem violar a proibição parmenidiana justamente porque não equivale ao nada absoluto, mas ao Outro em relação a determinado ser. | ||
| + | |||
| + | **III. A interpretação de Heidegger** | ||
| + | |||
| + | **III.1 O “não” como desvelamento das próprias coisas** | ||
| + | |||
| + | 11. A interpretação heideggeriana da negação enquanto héteron procura revelar seu caráter desvelador mediante uma leitura fenomenológica abrangente do Sofista. | ||
| + | |||
| + | 12. O héteron é compreendido como princípio que se relaciona com todas as coisas via negationis, de modo que o novo sentido platônico do não-ser não possui a força de fazer desaparecer própria do nada absoluto, mas a capacidade de mostrar ou desvelar através da negação. | ||
| + | * A negação implica relação, pois o héteron estabelece vínculos precisamente ao negar. | ||
| + | * A diferença não é simplesmente identificada à negação; ao contrário, a negação é compreendida a partir da diferença como relação que faz aparecer uma diversidade relacional. | ||
| + | * O ato de negar revela simultaneamente o vínculo relacional e aquilo que é negado. | ||
| + | |||
| + | 13. Desvelar significa tornar visíveis tanto a conexão entre as coisas quanto sua especificidade própria, fazendo aparecer uma conexão-na-diversidade, | ||
| + | |||
| + | 14. A concepção heideggeriana da negação como desvelamento deriva de sua interpretação da Ideia platônica, segundo a qual cada gênero é outro porque possui em si a visibilidade do ser-outro, sendo a própria [[f> | ||
| + | |||
| + | 15. A leitura de Platão através de categorias aristotélicas permite a Heidegger interpretar o “não” como potência, dýnamis, do prós ti, isto é, como presença do ser-em-relação-a, | ||
| + | |||
| + | 16. A crítica a Platão incide sobre a insuficiente elaboração das diferentes modalidades de oposição, pois Platão procura demonstrar sobretudo que o héteron é um ser, enquanto Aristóteles desenvolveria de maneira mais precisa a diferenciação dos tipos de oposição; ainda assim, Platão teria isolado justamente o aspecto revelador da negação, decisivo para a fenomenologia. | ||
| + | |||
| + | 17. A crítica heideggeriana ultrapassa a concepção grega do ser como presença e manifestação e atinge também a própria fenomenologia, | ||
| + | * Somente a [[f> | ||
| + | * A oposição meramente excludente contém um momento de desaparecimento, | ||
| + | * A enantíōsis corresponde à oposição vazia vinculada ao nada, enquanto a [[f> | ||
| + | * O outro substantivo distingue-se, | ||
| + | |||
| + | 18. A determinação do outro como substantivo e da antítese como relação preenchida exige explicitar aquilo que efetivamente é mostrado pelo ato negativo. | ||
| + | |||
| + | **III.2 [[f> | ||
| + | |||
| + | 19. A apóphasis mostra as próprias coisas, tôn pragmátōn, | ||
| + | |||
| + | 20. O lógos grego é interpretado como manifestação, | ||
| + | |||
| + | 21. A existência grega profundamente inserida no discurso implica também aprisionamento nele, razão pela qual o esforço filosófico grego procura superar as tendências deformadoras e encobridoras do lógos mediante um ver puro e não contaminado associado ao [[f> | ||
| + | |||
| + | **III.3 Héteron como prós ti** | ||
| + | |||
| + | 22. O caráter relacional do héteron é enfatizado mediante sua identificação com o prós ti, isto é, com uma intencionalidade relacional segundo a qual dois termos somente podem ser diferentes em virtude da relação que os vincula. | ||
| + | * Aquilo que é outro somente pode ser aquilo que é em relação a algum outro. | ||
| + | * A identidade de A é garantida por sua diferença relativamente a não-A. | ||
| + | * A diferença, ao excluir a identidade entre os termos, participa constitutivamente da determinação da identidade de cada um. | ||
| + | * O “não” deixa de designar um campo vazio de nada arbitrário e torna-se sempre o “não” de algum outro concreto, héteron állou tinos. | ||
| + | |||
| + | 23. A estrutura relacional descoberta por Platão impede que tanto o héteron quanto a negação, compreendida como antítese, sejam reduzidos à simples oposição separadora. | ||
| + | |||
| + | **III.4 A relação entre héteron e kínēsis: a função dialética da negação** | ||
| + | |||
| + | 24. O héteron, e não a kínēsis, desempenha para Heidegger a função de motor relacional fundamental, | ||
| + | |||
| + | 25. A presença disseminada do héteron revela simultaneamente a onipresença de um não-ser reinterpretado como contrariedade complementar, | ||
| + | * A negação possui caráter produtivo e uma função purificadora. | ||
| + | * É necessário superar as teorias tradicionais do conhecimento e do juízo para distinguir o “não” que, enquanto outro, faz aparecer da negação meramente excludente que faz desaparecer. | ||
| + | |||
| + | 26. Na perspectiva fenomenológica, | ||
| + | * A negação fenomenológica permite conceituar positivamente aquilo que já foi visto. | ||
| + | * O caráter desvelador da negação constitui simultaneamente a essência e o limite da dialética grega. | ||
| + | * Embora Hegel também atribua valor positivo à negação, sua dialética produz estruturas através de um processo, enquanto a interpretação fenomenológica heideggeriana privilegia o desvelamento imediato de um conteúdo já dado. | ||
| + | |||
| + | 27. A oposição entre desvelamento fenomenológico e dialética suscita a questão de saber se a própria dialética hegeliana não visa igualmente ao desvelamento e, sobretudo, por que a função platônica da negação deveria ser excluída da dialética apesar da centralidade que tal função possui na filosofia de Platão. | ||
| + | |||
| + | **III.5 A estrutura do héteron** | ||
| + | |||
| + | 28. A concepção do héteron como natureza composta de partes, apresentada em Sofista 257c7 e seguintes, é esclarecida por Heidegger mediante a etimologia de katakermatízein, | ||
| + | |||
| + | 29. A particularização da phýsis thatérou mostra que o héteron, ao contrário da oposição vazia, concretiza-se em relações determinadas, | ||
| + | |||
| + | 30. As partes do héteron relacionam-se entre si mediante alteridade, de maneira que a própria Ideia do Diferente possui internamente uma estrutura relacional, possibilidade que poderia ter sido aprofundada mediante comparação com o [[p> | ||
| + | |||
| + | **III.6 A estrutura do [[f> | ||
| + | |||
| + | 31. A investigação da alteridade permite abordar o não-ser como Outro do ser, exigindo para isso esclarecer a estrutura da antíthesis e sua função na nova determinação ontológica da negação. | ||
| + | |||
| + | 32. Pela antítese, aquilo que é negado torna-se simultaneamente outro e contraposto, | ||
| + | * A proveniência fornece o conteúdo substantivo ou identitário. | ||
| + | * A alteridade estabelece a diversidade enquanto oposição complementar. | ||
| + | * O héteron não se reduz a nenhum dos dois termos opostos nem à soma deles, mas constitui a própria relação complementar produzida pela potência do prós ti. | ||
| + | * Nessa relação, ambos os termos mantêm plena dignidade de presença e de ser, diferentemente da oposição vazia. | ||
| + | |||
| + | 33. A natureza do mē ón é compartilhada por todos os entes e apresenta estruturalmente a forma da antíthesis. | ||
| + | |||
| + | **IV. Sofista 257b9–c3, de Platão** | ||
| + | |||
| + | 34. A afirmação platônica de que a partícula negativa não significa simplesmente o contrário, mas algo diferente daquilo a que se antepõe ou das coisas designadas pelas palavras subsequentes, | ||
| + | * A passagem antecede a análise da comunhão dos gêneros, koinōnía tôn genôn, e da fragmentação da natureza do héteron. | ||
| + | * A nova ontologia do Diferente transforma também a compreensão do lógos, cuja interação entre Formas torna-se possível graças à alteridade. | ||
| + | |||
| + | 35. As partículas negativas mē e ou não designam necessariamente contrariedade, | ||
| + | * A nova compreensão explica a possibilidade não contraditória das proposições negativas. | ||
| + | * O não-ser relativo pode ser dito precisamente porque não equivale ao nada absoluto. | ||
| + | |||
| + | 36. A negação não implica necessariamente contrariedade entre o ato de negar e aquilo que é negado, mas implica necessariamente diversidade, | ||
| + | * Ontologicamente, | ||
| + | * Semanticamente e logicamente, | ||
| + | |||
| + | 37. A análise de Denis O’Brien distingue modalidades progressivas da negação, desde a simples ausência de identidade entre sujeito e objeto, passando pela ausência de identidade acompanhada de ausência de participação e chegando à oposição entre gêneros contrários, | ||
| + | |||
| + | 38. A crítica de Monique Dixsaut dirige-se às interpretações de Sofista 257b9–c3 construídas mediante categorias aristotélicas, | ||
| + | |||
| + | 39. A interpretação representada por Francis Macdonald Cornford, Denis O’Brien, Luc Brisson e Francesco Fronterotta distingue dois sentidos de ser — existência e identidade — para esclarecer a relação entre ser, negação e diferença. | ||
| + | * Se “é” significa existência, | ||
| + | * Se “é” significa identidade, sua negação não é contraditória, | ||
| + | * A passagem de Parmênides a Platão corresponderia à passagem de um ser unitário para duas funções, ser existencial e ser idêntico, sendo este último dialeticamente relacionado ao Diferente. | ||
| + | * O não-ser platônico não nega a existência, | ||
| + | |||
| + | 40. A interpretação sintática inaugurada por Gwilym Ellis Lane Owen e desenvolvida pela Escola de Oxford compreende o significado de um termo por suas possíveis extensões, distinguindo o não-ser absoluto parmenidiano, | ||
| + | |||
| + | 41. A interpretação de Dixsaut, próxima em vários aspectos da de Stanley Rosen e parcialmente convergente com Heidegger, destaca a capacidade desveladora e indicativa da predicação negativa, pela qual aquilo que é negado é simultaneamente mostrado dentro de um processo dialético. | ||
| + | * A negação não determina necessariamente um único objeto, mas pode indicar uma multiplicidade indeterminada de outros. | ||
| + | * A proposição negativa não desempenha apenas função determinativa, | ||
| + | * As expressões negativas convocam novas perguntas e argumentos, manifestando diretamente uma potência dialética. | ||
| + | |||
| + | **IV.1 As partes do Diferente** | ||
| + | |||
| + | 42. A afirmação de que a oposição entre uma parte do Outro e a natureza do ser possui tanta realidade quanto o próprio ser suscita o problema de como os gêneros, por definição extremamente gerais, podem ser divididos em partes e de como o Diferente pode permanecer uma única natureza, mía [[f> | ||
| + | |||
| + | 43. A doutrina das partes procura explicar simultaneamente que o Diferente somente é diferente em relação a outros, que possui múltiplas modalidades e que apenas uma de suas partes — aquela contraposta especificamente ao Ser — pode ser identificada como não-ser. | ||
| + | |||
| + | 44. A analogia com o conhecimento permite compreender a unidade diferenciada do héteron, pois assim como o conhecimento é uma única natureza composta de ramos particulares com denominações específicas, | ||
| + | * Há uma parte do Diferente relativa ao não-belo, outra relativa ao não-justo e assim sucessivamente. | ||
| + | * Essas partes negativas expressam positivamente a alteridade relativamente a outros gêneros. | ||
| + | * A oposição torna-se apenas uma entre as diversas modalidades de relação que constituem o Diferente. | ||
| + | |||
| + | 45. Cada parte da alteridade possui sua natureza integralmente determinada pelo ser-outro relativamente a alguma natureza específica, | ||
| + | |||
| + | 46. A operação negativa é compreendida por Dixsaut como processo dialético e não simplesmente como relação lógica, pois o não-ser surge da antítese específica entre o ser e uma parte do Uno diferente do ser, fazendo dessa parte um não-ser por meio do próprio processo relacional. | ||
| + | * As partes do Diferente tornam-se momentos de uma relação recíproca e assimétrica. | ||
| + | * A negação articula simultaneamente separação e oposição. | ||
| + | * A função dialética encontra-se vinculada à função ontológica, | ||
| + | |||
| + | 47. A fragmentação do Diferente indica, segundo Cornford, sua constituição como relação entre os gêneros e portanto sua extensão sobre todo o domínio do ser, enquanto a transformação do conceito de eînai torna o próprio ser capaz de tecer relações e estabelecer comunicação entre os diversos gêneros que constituem o real. | ||
| + | |||
| + | 48. A coexistência estrutural entre Ser e Diferente, embora recusada por muitos intérpretes, | ||
| + | * A interpretação torna visível a pluralidade intrínseca do próprio ser, concebido como relação. | ||
| + | * A fragmentação do Diferente permite ao Estrangeiro afirmar o ser do não-ser como apenas uma de suas partes. | ||
| + | * O não-ser pensável e exprimível é o Outro do ser, não seu oposto absoluto. | ||
| + | * A oposição entre ser e não-ser deixa de constituir necessidade absoluta e torna-se um caso particular de relação. | ||
| + | |||
| + | **IV.2 Relação através da negação** | ||
| + | |||
| + | 49. A ontologia relacional pode ser radicalizada para sustentar uma determinação recíproca dos contrários, | ||
| + | * Sócrates pode não ser nem bom nem mau, mas precisa ser bom ou não-bom, sem que isso viole o princípio de não-contradição. | ||
| + | * A definição platônica opera através da relação entre opostos, fazendo a negação estabelecer justamente um vínculo com aquilo que pretende negar. | ||
| + | * Os opostos deixam de funcionar como seres absolutos isolados e tornam-se contrários inferenciais cuja determinação depende de implicação recíproca. | ||
| + | * O não-bom constitui a parte do Diferente colocada diante do bom, mas essa antítese deve ser interpretada como conexão mediante negação e não como separação absoluta. | ||
| + | |||
| + | 50. A articulação entre Mesmo e Diferente exige superar a concepção dualista que isola os termos opostos e compreender a negação como uma modalidade da relacionalidade constitutiva da dýnamis do ser. | ||
| + | * A relação não constitui elemento intermediário externo entre dois termos, mas integra o próprio ser deles ao estabelecer simultaneamente sua identidade e sua diferença. | ||
| + | * Não há simplesmente A sem B, mas A-com-B e B-com-A dentro de uma estrutura relacional de multiplicidade e diferença. | ||
| + | |||
| + | 51. A identidade deixa, nessa perspectiva, | ||
| + | * A dialética mostra a coexistência das diferenças ao contrapô-las mediante o “não” e simultaneamente produzir complementação. | ||
| + | * A oposição torna-se relação em vez de separação. | ||
| + | * Essa estrutura pode ser denominada dualidade relacional, na qual os entes permanecem distintos justamente porque participam reciprocamente de uma multiplicidade relacional. | ||
| + | |||
| + | **V. Conclusão: avaliação da interpretação de Heidegger** | ||
| + | |||
| + | 52. A avaliação final da leitura heideggeriana deve reconhecer simultaneamente suas fragilidades e os elementos inovadores que merecem reconsideração crítica. | ||
| + | |||
| + | **V.1 O desprezo pela dialética** | ||
| + | |||
| + | 53. Segundo Francisco Gonzalez, o diálogo filosófico entre Platão e Heidegger é prejudicado pela insuficiente consideração heideggeriana da função fundamental desempenhada pela dialética no pensamento platônico. | ||
| + | |||
| + | 54. A recusa heideggeriana da função dialética da negação privilegia seu aspecto fenomenológico desvelador, embora o próprio desvelamento possa ser compreendido, | ||
| + | |||
| + | 55. A dialética hegeliana revela através da síntese aquilo que já estava presente de maneira abstrata e isolada na tese, enquanto Heidegger rejeita sobretudo a dependência do desvelamento em relação a um processo temporal, concebendo a manifestação como acontecimento imediato no qual, ao ser posto não-A, A também se mostra imediatamente. | ||
| + | |||
| + | 56. A produtividade também está presente na perspectiva heideggeriana, | ||
| + | |||
| + | 57. A purificação platônica encontra-se articulada ao procedimento elêntico e à sofística nobre, mas a interpretação heideggeriana tende a isolá-la do processo no qual ocorre. | ||
| + | * A maiêutica articula análise da posição do interlocutor, | ||
| + | * A manifestação imediata da verdade exige previamente um procedimento capaz de conduzir ao ponto em que o salto emancipador possa acontecer. | ||
| + | * Procedimento e salto desvelador não são incompatíveis, | ||
| + | * A crítica heideggeriana à ausência de temporalidade em Platão perde força se a filosofia platônica já integrar processos temporais a momentos súbitos de revelação. | ||
| + | |||
| + | 58. A dialética platônica é reduzida por Heidegger ao sentido fenomenológico do fazer-ver aquilo que propriamente se mostra nos entes, interpretação que apreende apenas uma dimensão do método platônico e deixa em segundo plano a relação entre desvelamento e procedimento pela qual se forma uma concepção determinada da verdade, do aperfeiçoamento humano e da pólis mediante a prática filosófica. | ||
| + | |||
| + | **V.2 Negação como “desvelamento”** | ||
| + | |||
| + | 59. A interpretação heideggeriana constitui uma alternativa tanto às leituras fundadas nos diferentes sentidos do ser quanto às interpretações dialéticas e sintáticas da negação, e sua contribuição fundamental reside em reconhecer na própria negação — e não apenas na verdade — um caráter revelador, ainda que sua dimensão dialética permaneça insuficientemente considerada. | ||
| + | |||
| + | 60. A integração do caráter desvelador da negação ao processo dialético permitiria compreender de maneira filosoficamente fecunda a relação entre conhecimento enquanto procedimento temporal e verdade enquanto momento instantâneo de descontinuidade, | ||
| + | |||
| + | 61. A interpretação heideggeriana da negação platônica permite compreender a resposta de Platão à sofística porque negar não equivale a falsificar: o discurso falso encobre algo ao fazer aparecer aquilo que não é, enquanto a negação revela a relação com aquilo que é negado e, através dessa relação, pode desvelar a verdade. | ||
| + | * O caráter revelador da negação permite ainda apreender a relacionalidade entre os gêneros e entre todos os entes. | ||
| + | * A comunhão dos gêneros pode ser compreendida como um mostrar-se deles em comunidade. | ||
| + | * O caráter transcategorial do Diferente confere dimensão reveladora a toda a comunicação dos gêneros. | ||
| + | * A recorrência do desvelamento em diferentes problemas do Sofista evidencia a presença disseminada da negação como relação. | ||
| + | |||
| + | 62. A leitura heideggeriana oferece a possibilidade de compreender a filosofia platônica como modelo de uma metafísica das relações, na qual o héteron ilumina as conexões entre os entes e mostra que negar não significa instaurar oposição isolante, mas estabelecer relação complementar no interior do Diferente. | ||
| + | * A caracterização do héteron como prós ti exprime uma determinação fundamental da dýnamis. | ||
| + | * Essa determinação fornece simultaneamente um novo sentido da negação e uma chave interpretativa que merece consideração cuidadosa. | ||
| + | |||
| + | 63. Uma interpretação de Platão capaz de superar o dualismo tradicional em favor de uma dualidade relacional entre os diferentes encontra importante apoio na compreensão heideggeriana da negação como desvelamento e do héteron como ser relacional. | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
