obra:ga19:estudos:falsidade
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| + | ===== Falsidade ===== | ||
| + | //DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.// | ||
| + | **Orthologia peri to me on: Heidegger sobre a noção de falsidade no Sofista de Platão** | ||
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| + | **I. “Livrar-se das proposições”** | ||
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| + | 1. A questão decisiva do [[p> | ||
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| + | 2. A rejeição heideggeriana da teoria da correspondência e da localização da verdade no juízo aparece também em Ser e tempo (Sein und Zeit) e em Lógica: a questão da verdade, onde, a partir de Aristóteles, | ||
| + | * O noein não encobre nem falsifica propriamente, | ||
| + | * A possibilidade da falsidade nasce da estrutura sintética do logos, que deixa ver algo como algo. | ||
| + | * O logos não constitui o lugar originário da verdade, mas tampouco o lugar autônomo da falsidade, pois esta depende necessariamente do próprio ente acerca do qual algo pode ser afirmado. | ||
| + | * Nas preleções sobre o Sofista, a falsidade é assim elevada ao nível ontológico, | ||
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| + | **II. “A maneira correta de abordar os não-entes”** | ||
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| + | 3. Nas considerações introdutórias às Preleções sobre o Sofista, a verdade é determinada como desocultamento (Unverborgenheit) pertencente primordialmente aos próprios entes, enquanto o logos, entendido como apreensão desveladora, | ||
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| + | 4. A dificuldade surge quando o logos precisa dizer o não-ser, porque todo legein ti, ao falar de alguma coisa, já coafirma que aquilo de que fala é algo e é uno, tornando problemática a própria possibilidade de dizer me on sem convertê-lo imediatamente em ente. | ||
| + | * A questão deixa de ser apenas se o não-ser pode ser dito e passa a envolver a constituição do próprio logos capaz de torná-lo inteligível. | ||
| + | * A formulação heideggeriana identifica o problema como orthologia tou me ontos, isto é, como “a maneira correta de abordar os não-entes” (das rechte Ansprechen des Nichtseienden). | ||
| + | * O problema da falsidade exige, portanto, compreender simultaneamente como o não-ser pode possuir estatuto ontológico e como o logos pode estruturar-se de maneira a dizê-lo. | ||
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| + | 5. Como o logos é um deloun, um fazer-aparecer ou revelar, o logos pseudes apresenta uma estrutura paradoxal: é um deixar-ver que encobre, uma abertura que simultaneamente bloqueia aquilo que deveria mostrar. | ||
| + | * A possibilidade de abordar o não-ser depende da própria constituição do logos. | ||
| + | * O logos falso somente é possível se os não-entes puderem de algum modo ser. | ||
| + | * A investigação da falsidade articula inseparavelmente o ser do pseudos e a estrutura do logos, ainda que Heidegger por vezes oscile entre esses dois níveis. | ||
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| + | **III. A tripla koinonia** | ||
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| + | 6. A tentativa heideggeriana de resolver o paradoxo da falsidade mediante a constituição do logos organiza-se em três estágios de [[f> | ||
| + | * O primeiro estágio, onomástico, | ||
| + | * O segundo analisa o legomenon, aquilo que é dito e descoberto como ente, distinguindo uma koinonia intencional entre logos e on e uma koinonia lógica na qual algo é abordado como algo. | ||
| + | * O terceiro estágio, delótico, examina o próprio ato de desvelar e pergunta pela qualidade do logos enquanto deloun. | ||
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| + | **III.1 Primeiro estágio: onomástico** | ||
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| + | 7. Na interpretação de Sofista 262a, onoma é compreendido como aquilo que torna manifesto o pragma, enquanto rhema manifesta a praxis, de modo que o primeiro mostra aquilo de que se trata e o segundo explicita o acontecer ou agir concernente a esse algo. | ||
| + | * Heidegger evita traduzir diretamente onoma por “substantivo” e rhema por “verbo”, | ||
| + | * Apesar disso, atribui ao rhema uma determinação fortemente aristotélica, | ||
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| + | 8. O caráter desvelador do logos depende da symploke entre onoma e rhema, pois somente quando nomes e verbos são combinados ocorre uma presentificação efetivamente desveladora. | ||
| + | * A simples enumeração de nomes ou verbos não constitui ainda logos completo. | ||
| + | * Heidegger considera, contudo, o deloun mais originário que essa composição linguística. | ||
| + | * O fazer-aparecer é elevado à condição de determinação constitutiva do próprio ser-aí ([[lx> | ||
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| + | 9. A análise filológica de Sofista 262c indica que as expressões isoladas “caminha, corre, dorme” pertencem ao conjunto dos verbos, enquanto “leão, cervo, cavalo” pertencem ao conjunto dos nomes, e que nenhum desses grupos, tomado separadamente, | ||
| + | * O primeiro e menor logos surge somente quando ocorre a mistura entre as duas classes de expressões. | ||
| + | * A construção platônica privilegia assim a constituição proposicional do logos, em contraste com a tentativa heideggeriana de fazer do deloun uma estrutura previamente dada. | ||
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| + | 10. O termo [[f> | ||
| + | * A oposição ousia ontos/me ontos remete às distinções anteriores entre diferentes sentidos de ser. | ||
| + | * Tanto o ser verdadeiro quanto certa forma relativa de não-ser podem ser chamados entes. | ||
| + | * Heidegger tende a tratar o diálogo como unidade conceitualmente homogênea e, com isso, minimiza as variações semânticas do termo “ser”. | ||
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| + | 11. Ao traduzir ousia ontos e me ontos como presença do ente e do não-ente, Heidegger omite significativamente a referência platônica à praxis e à apraxia, deslocando a passagem de uma análise da combinação de nomes e verbos para uma oposição antecipada entre logos revelador e logos falso. | ||
| + | * Em Platão, conjuntos isolados de verbos não mostram se uma ação ocorre ou não, assim como conjuntos isolados de nomes também não constituem logos. | ||
| + | * A condição decisiva é a combinação entre onoma e rhema. | ||
| + | * Na reconstrução heideggeriana, | ||
| + | * A supressão da dimensão verbal torna possível antecipar uma concepção de falsidade que o texto ainda não havia estabelecido. | ||
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| + | 12. Heidegger insiste que a symploke não deve ser entendida como simples soma de onoma e rhema e atribui primazia ao deloun, embora a sintaxe grega com prin indique que a combinação entre nomes e verbos precede o ato completo de revelar. | ||
| + | * A principal justificativa para a prioridade heideggeriana é a própria noção de deloun: algo deve já estar presente para poder ser revelado. | ||
| + | * Entretanto, o texto platônico chama onoma e rhema de dois tipos de delomata, indicando que a relação entre nomeação, predicação e manifestação é mais complexa. | ||
| + | * Afirmar que a nomeação isolada não possui caráter desvelador entra em tensão com a classificação dessas unidades como modos primários pelos quais os entes podem ser ditos. | ||
| + | * A leitura heideggeriana exige, portanto, uma construção conceitual que o texto grego não exprime de maneira transparente. | ||
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| + | 13. A interpretação segundo a qual Platão teria pretendido afirmar a prioridade existencial do desvelamento sobre a composição proposicional permanece filologicamente frágil, pois o próprio modo de expressão platônico oferece pouco apoio direto a essa reconstrução. | ||
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| + | **III.2 Segundo estágio: intencional e lógico** | ||
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| + | 14. O primeiro estágio da análise desloca a falsidade do plano onomástico para o domínio dos fenômenos, e o nível “lógico” heideggeriano não corresponde à estrutura proposicional formada pela combinação de sujeito e predicado, mas ao plano do legomenon enquanto ente unitário ainda não articulado. | ||
| + | * O [[f> | ||
| + | * Platão designaria essa unidade pelo perí hou, aquilo acerca do qual se fala. | ||
| + | * Todo logos possui um “sobre o quê” que coincide com seu tinos, isto é, com aquilo a que intencionalmente se dirige. | ||
| + | |||
| + | 15. A estrutura fundamental do logos é a intencionalidade pela qual algo é abordado como algo, e sua possibilidade depende de haver entes capazes de aparecer como diferentes daquilo que são. | ||
| + | * Somente se um ente puder mostrar-se como algo que ele não é pode haver logos capaz de descobri-lo ou encobri-lo dessa maneira. | ||
| + | * A possibilidade do falso é assim transferida da composição linguística para a própria estrutura ontológica dos entes. | ||
| + | * O problema do logos falso converge com o problema do ser do não-ser. | ||
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| + | 16. Ao deslocar novamente a falsidade para a esfera do ente, a análise enfraquece a promessa inicial de explicá-la mediante a tripla koinonia, pois o segundo estágio já faz a estrutura sintética do logos coincidir com a ontologia do não-ser, tornando o terceiro estágio pouco decisivo para uma explicação adicional. | ||
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| + | **III.3 Terceiro estágio: delótico** | ||
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| + | 17. No estágio delótico, o pseudos é compreendido como engano ([[lx> | ||
| + | * Toda modificação do legein continua sendo modificação de um legein ti. | ||
| + | * O deloun nunca desaparece por completo, porque o logos não pode transformar-se em puro não-dizer ou ausência absoluta de manifestação. | ||
| + | * O logos pode tornar-se não-desvelador apenas sob a forma de encobrimento, | ||
| + | * A falsidade deixa, assim, de ser falta absoluta de revelação e torna-se uma modalidade deformada do próprio revelar. | ||
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| + | 18. Da estrutura delótica resulta que todo logos é necessária e invariavelmente desvelador ou distorcedor, | ||
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| + | **IV. A presença de [[f> | ||
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| + | 19. Como o engano não pertence à simples symploke de onoma e rhema, embora não possa ocorrer sem ela, sua origem é procurada no próprio legomenon e no ti que nele se manifesta. | ||
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| + | 20. O legomenon, enquanto ti e on, encontra-se numa dynamis koinonias com o Mesmo, tauton, e o Outro, heteron, de maneira que a verdade ou falsidade dependem da forma como essas determinações aparecem no ente revelado. | ||
| + | * Quando tauton está presente no ente, o ente é mostrado como aquilo que ele próprio é. | ||
| + | * O desvelamento que apresenta o ente em sua mesmidade consigo mesmo constitui [[lx> | ||
| + | * Quando heteron participa do ente mostrado, este pode aparecer como outro que si mesmo. | ||
| + | * Mostrar algo como diferente daquilo que ele é constitui encobrimento, | ||
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| + | 21. A falsidade passa a ser explicada ontologicamente pela presença de tauton e heteron no legomenon enquanto on, pois o ente previamente dado pode ser desvelado como idêntico a si mesmo ou como outro daquilo que é. | ||
| + | * Heidegger procura preservar rigorosamente o logos como abertura daquilo que já está presente. | ||
| + | * A presença ([[lx> | ||
| + | * A falsidade é assim retirada novamente da relação proposicional e situada na maneira como o próprio ente é manifestado. | ||
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| + | **IV.1 A leitura heideggeriana de 263b** | ||
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| + | 22. No final das preleções surge uma quarta koinonia, na qual o legomenon, tomado como totalidade previamente dada, entra em comunhão com tauton ou heteron. | ||
| + | * Teeteto sentado diante do Estrangeiro é compreendido como unidade previamente dada e como perí hou, aquilo acerca do qual o discurso fala. | ||
| + | * A categoria moderna de “sujeito” não é completamente eliminada, mas desvalorizada como categoria desgastada da lógica. | ||
| + | * O problema consiste em verificar se essa noção de totalidade não articulada encontra apoio efetivo no texto platônico. | ||
| + | |||
| + | 23. Em Sofista 263b, o logos verdadeiro diz as coisas que são acerca de Teeteto, enquanto o falso diz coisas diferentes daquelas que são, apresentando como sendo acerca dele aquilo que não é. | ||
| + | * A passagem mantém uma estrutura relacional explícita entre aquilo que é dito e aquilo acerca de que se diz. | ||
| + | * O perí sou possui função decisiva porque determina o campo relativo dentro do qual uma afirmação pode ser verdadeira ou falsa. | ||
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| + | 24. Heidegger interpreta a formulação do logos verdadeiro como manifestação dos entes segundo tauton e a do logos falso como manifestação segundo heteron, atribuindo à presença do Mesmo caráter constitutivo da verdade e à presença do Outro caráter constitutivo da falsidade. | ||
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| + | 25. A reconstrução heideggeriana exige, contudo, uma forte torção sintática, porque tanto o logos verdadeiro quanto o falso possuem objetos diretos e, se hos estin for identificado a tauton no primeiro caso, a estrutura paralela obrigaria a compreender o logos falso como aquele que apresenta coisas diferentes como idênticas, não simplesmente como aquele que apresenta entes enquanto diferentes. | ||
| + | * O resultado contradiz a própria formulação heideggeriana segundo a qual o falso mostra o ente como heteron. | ||
| + | * A estrutura proposicional do texto resiste, portanto, à redução da falsidade à simples presença ontológica do Outro. | ||
| + | |||
| + | 26. A omissão heideggeriana do perí sou é igualmente problemática, | ||
| + | * As expressões “entes acerca de ti” e “coisas diferentes dos entes acerca de ti” pressupõem uma articulação predicativa relativa a Teeteto. | ||
| + | * Perí sou não pode referir-se apenas a uma totalidade unitária previamente dada, mas a Teeteto enquanto sujeito acerca do qual múltiplas determinações podem ou não ser verdadeiras. | ||
| + | * A passagem enfraquece, assim, a concepção de um legomenon inteiramente não articulado. | ||
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| + | 27. Em Platão, verdade e falsidade não decorrem simplesmente da presença isolada de tauton ou heteron, mas da relação entre o que é dito e aquilo que efetivamente é acerca do sujeito, exigindo pelo menos alguma estrutura de correspondência. | ||
| + | * Essa necessidade entra em conflito com a concepção heideggeriana do logos como puro desvelamento de uma totalidade previamente dada. | ||
| + | * Para preservar sua posição, Heidegger desloca então o potencial de engano para o próprio heteron. | ||
| + | * Os exemplos platônicos de alteridade, contudo, não sustentam que a alteridade em si mesma seja enganadora. | ||
| + | |||
| + | **IV.2 A interpretação heideggeriana de [[f> | ||
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| + | 28. A investigação dialética do Sofista estabelece que cada coisa é outra relativamente às demais não por sua natureza categorial isolada, mas por participar da Ideia do Outro, e Heidegger interpreta essa participação como posse da “visibilidade do ser-outro”. | ||
| + | * Cada [[f> | ||
| + | * Essa possibilidade é associada à dynamis koinonias. | ||
| + | * A Ideia é reinterpretada fenomenologicamente como visibilidade da alteridade. | ||
| + | |||
| + | 29. A leitura de heteron como estrutura de visibilidade capaz de sustentar o engano encontra apoio sobretudo na etimologia heideggeriana de idea e não em formulações explícitas do próprio Platão. | ||
| + | * O Sofista não afirma que heteron implique engano ou Täuschung. | ||
| + | * A alteridade abre logicamente a possibilidade da falsidade, mas não se identifica com falsificação. | ||
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| + | 30. Quando o Movimento participa do Outro e é dito “não o Mesmo”, a presença de heteron apenas estabelece que Movimento difere da Mesmidade, sem introduzir qualquer forma de engano. | ||
| + | * A alteridade torna o Movimento separado do Mesmo. | ||
| + | * Dizer corretamente que Movimento não é o Mesmo constitui uma proposição verdadeira. | ||
| + | * A simples presença de heteron não pode, portanto, funcionar como causa suficiente da falsidade. | ||
| + | |||
| + | 31. O mesmo ocorre em proposições negativas como “Sócrates não é belo”, nas quais a antítese não significa o contrário absoluto do ser, mas somente aquilo que é outro relativamente a determinada propriedade. | ||
| + | * Heteron e antithesis podem estruturar uma negação perfeitamente verdadeira. | ||
| + | * A relação com o Outro não implica necessariamente distorção ou encobrimento. | ||
| + | * O fato de a falsidade depender de alteridade não autoriza identificar a alteridade enquanto tal ao engano. | ||
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| + | 32. A interpretação heideggeriana tem o mérito de destacar o potencial desvelador do logos platônico e os problemas ontológicos envolvidos no paradoxo da falsidade, mas sua luta contra a lógica proposicional moderna leva a minimizar justamente as passagens em que Platão torna indispensável a estrutura proposicional da verdade e da falsidade. | ||
| + | * O paradoxo da falsidade possui efetivamente implicações ontológicas que não podem ser reduzidas à teoria moderna da proposição. | ||
| + | * Entretanto, algumas categorias da lógica proposicional continuam necessárias para compreender adequadamente a orthologia peri to me on. | ||
| + | * Eliminar inteiramente essas categorias compromete a interpretação da ontologia platônica, porque o próprio Sofista articula o ser do não-ser à maneira pela qual algo é predicado acerca de algo. | ||
| + | * A limitação fundamental da leitura heideggeriana reside, assim, não em ter ontologizado excessivamente a falsidade em si mesma, mas em fazê-lo à custa da estrutura proposicional que Platão conserva como condição de sua inteligibilidade. | ||
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