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| + | ===== DILTHEY ===== | ||
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| + | 1. No início do século XX, Kassel era uma cidade industrial sem universidade situada entre Marburgo e Göttingen, circunstância que levou à criação, em 1912, de uma Sociedade de Arte e Ciência destinada a promover cursos e conferências de professores universitários visitantes para atender aos interesses intelectuais do público culto, contexto no qual, após Georg Simmel e Franz Rosenzweig, Martin Heidegger foi convidado por Johannes Boehlau para ministrar um minicurso cujo título inicialmente proposto foi “[[lx> | ||
| + | * O convite chegou a Heidegger por intermédio do filho de Boehlau, estudante de Direito em Marburgo, onde a crescente reputação filosófica de Heidegger já se fazia sentir. | ||
| + | * O título proposto vinculava diretamente o Dasein histórico (geschichtliches Dasein) ao conhecimento historiológico ou científico da história (historische Erkenntnis). | ||
| + | |||
| + | 2. O título inicialmente escolhido para as conferências de Kassel evidencia simultaneamente a intenção de Heidegger de desenvolver, | ||
| + | * História (Geschichte) passa a indicar o acontecer histórico vivido, o ser-histórico, | ||
| + | * Essa diferenciação desenvolve a distinção anterior entre histórico-realizacional (vollzugsgeschichtlich) e histórico-objetivo (objektsgeschichtlich), | ||
| + | |||
| + | 3. A distinção entre história vivida (Geschichte) e história objetivamente conhecida (Historie) encontra seu núcleo na formulação de Yorck von Wartenburg segundo a qual “nós mesmos somos história” (Wir selbst sind Geschichte), | ||
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| + | 4. As conferências de Kassel ocupam uma posição intermediária entre dois momentos fundamentais da gênese de Ser e tempo, retomando, de um lado, os problemas da crise das ciências e da história presentes em “O conceito de tempo” e, de outro, os desenvolvimentos fenomenológicos do curso “História do conceito de tempo”, nos quais se radicalizam a questão do ser ([[lx> | ||
| + | * A primeira metade das conferências relaciona-se ao chamado projeto diltheyano de Ser e tempo, marcado pelas questões da crise das ciências e da história. | ||
| + | * A segunda metade aproxima-se do projeto fenomenológico de 1925, no qual a crítica à negligência da questão do ser ([[lx> | ||
| + | * Categorias provenientes de Dilthey e Yorck, como temporalidade, | ||
| + | |||
| + | 5. A importância das conferências de Kassel não reside apenas em seu papel conceitual na formação da ontologia temporal de Ser e tempo, mas também na tentativa de transpor investigações filosóficas altamente especializadas para os problemas científicos, | ||
| + | * A crise das ciências é compreendida não como motivo de resignação, | ||
| + | * A história intelectual da Alemanha e os debates contemporâneos sobre a teoria da relatividade e as visões de mundo são mobilizados a partir da situação histórica concreta do presente. | ||
| + | * A filosofia universitária não deveria simplesmente produzir filósofos profissionais, | ||
| + | |||
| + | **A pesquisa de Wilhelm Dilthey e a luta atual por uma visão histórica de mundo** | ||
| + | |||
| + | **Comunicado no Kasseler Post, 15 de abril de 1925** | ||
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| + | 6. A questão filosófica fundamental da existência espiritual contemporânea (Dasein) consiste em determinar o sentido e a possibilidade de uma existência histórica ([[lx> | ||
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| + | 7. A história passou a ocupar o lugar anteriormente reservado à natureza como fundamento da reflexão sobre as visões de mundo, mas a consciência da relatividade histórica das culturas, radicalizada por Oswald Spengler, pode produzir resignação, | ||
| + | * A concepção spengleriana considera cada cultura um organismo fechado, dotado de duração limitada e de valores e verdades condicionados por sua situação temporal. | ||
| + | * A relativização integral das criações culturais ameaça paralisar a atividade produtiva do presente ao submetê-la incessantemente à comparação com realizações passadas. | ||
| + | * Dilthey assume importância decisiva porque, após o colapso da filosofia hegeliana, recoloca radicalmente a questão da história no âmbito das ciências humanas históricas. | ||
| + | |||
| + | 8. A importância filosófica de Dilthey ultrapassa suas obras mais conhecidas, como Vivência e poesia e Vida de Schleiermacher, | ||
| + | * A fenomenologia constitui o horizonte filosófico no qual a questão diltheyana pode ser retomada e aprofundada. | ||
| + | * A questão do tempo põe também em contato a investigação filosófica com os desenvolvimentos contemporâneos da física e da teoria da relatividade. | ||
| + | |||
| + | 9. A introdução à filosofia científica contemporânea não deve limitar-se ao conhecimento de nomes, escolas ou tendências, | ||
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| + | **I** | ||
| + | |||
| + | 10. O problema aparentemente abstrato da visão histórica de mundo contém a questão fundamental do sentido da vida humana, pois perguntar pela realidade implica inevitavelmente perguntar pelo ser do próprio ser humano, e a posição central ocupada por Dilthey nessa investigação coincide com uma transformação profunda da maneira de formular os problemas filosóficos e com uma crise produtiva que atravessa todas as ciências. | ||
| + | * Na física, a teoria da relatividade transforma os fundamentos da compreensão da natureza. | ||
| + | * Na matemática, | ||
| + | * Na biologia, procura-se superar o mecanicismo. | ||
| + | * Nas ciências históricas, | ||
| + | * Na teologia protestante, | ||
| + | * A crise científica não representa ruptura arbitrária, | ||
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| + | 11. A investigação deve inicialmente esclarecer o significado de “visão histórica de mundo” (historische [[lx> | ||
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| + | 12. O tratamento das conferências exige, portanto, uma determinação preliminar do tema, do modo de abordagem e da articulação interna das investigações subsequentes. | ||
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| + | **Visão histórica de mundo** | ||
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| + | 13. Uma visão de mundo não consiste simplesmente em uma representação teórica da natureza, mas em um saber acerca da vida e do próprio ser-no-mundo ([[lx> | ||
| + | * A possibilidade histórica de uma visão de mundo autônoma torna-se particularmente evidente no Renascimento, | ||
| + | * Pode-se distinguir uma visão de mundo pré-científica, | ||
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| + | 14. Uma visão histórica de mundo surge quando o conhecimento histórico determina a interpretação do mundo e do Dasein (Dasein), de modo que a história (Geschichte) deixa de ser apenas algo conhecido e passa a penetrar a consciência como realidade constitutiva da própria existência, | ||
| + | * O Humanismo e a Reforma contribuíram para o desenvolvimento da crítica histórica ao retornarem às formas originárias do cristianismo. | ||
| + | * O despertar das consciências nacionais também impulsionou a investigação das origens próprias dos povos. | ||
| + | * A consciência histórica propriamente dita somente se constitui quando a própria realidade é compreendida como situada dentro de sua história. | ||
| + | * A vigilância histórica não é uma propriedade automaticamente dada à vida, mas uma tarefa que deve ser cultivada. | ||
| + | |||
| + | 15. Na visão histórica de mundo, o conhecimento histórico (geschichtliches Wissen) torna-se princípio de compreensão da totalidade dos assuntos humanos e transforma a história em história universal, permitindo perguntar pelo sentido da história e pelos fins da existência (Existenz) que podem ser extraídos de sua orientação para o futuro. | ||
| + | * Kant, Herder, Humboldt e Hegel conceberam o desenvolvimento histórico como passagem progressiva da coerção à liberdade. | ||
| + | * Essa concepção criou condições para a constituição científica da pesquisa histórica fundada na crítica das fontes. | ||
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| + | 16. O período entre 1780 e 1840 liberou forças intelectuais extraordinárias, | ||
| + | * A Escola de Marburgo tomou a Crítica da razão pura como paradigma de uma fundamentação filosófica das ciências matemáticas da natureza. | ||
| + | * A filosofia deixou de pretender dominar ou superar as ciências particulares e passou a investigar principalmente suas condições epistemológicas. | ||
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| + | 17. O desenvolvimento independente das ciências históricas tornou insuficiente uma teoria filosófica modelada exclusivamente pelas ciências naturais, e a crescente investigação histórica concreta deslocou o problema dos fundamentos formais para o problema mais radical dos fundamentos materiais do próprio ser-histórico ([[lx> | ||
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| + | 18. A filosofia moderna da história recebeu impulsos decisivos de Dilthey, embora tenha compreendido insuficientemente a direção própria de seu pensamento e contribuído para que sua problemática mais profunda permanecesse encoberta. | ||
| + | |||
| + | 19. A luta por uma visão histórica de mundo não consiste primordialmente em disputar diferentes imagens históricas do mundo, mas em esclarecer o próprio sentido do ser-histórico (Geschichtlichsein), | ||
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| + | 20. A retomada crítica das questões de Dilthey, apoiada na fenomenologia, | ||
| + | * A questão filosófica deve ultrapassar Dilthey perguntando se os meios conceituais disponíveis em sua obra eram suficientes para resolver o problema por ele descoberto. | ||
| + | * A análise da temporalidade do Dasein conduz também à consideração filosófica da teoria da relatividade. | ||
| + | * A investigação retorna finalmente a Dilthey para avaliar criticamente o conjunto de sua obra à luz da historicidade do Dasein. | ||
| + | |||
| + | 21. A finalidade dessa investigação consiste em instaurar uma relação efetiva com as próprias coisas e despertar a consciência para o trabalho produtivo realizado silenciosamente pelas ciências modernas, cuja seriedade oferece um contraponto à resignação cultural. | ||
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| + | **II** | ||
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| + | 22. A significação filosófica da vida de Dilthey encontra-se menos em acontecimentos biográficos exteriores do que na vida interior expressa em suas questões e obras, razão pela qual sua trajetória deve ser considerada a partir de sua biografia, de seu mundo intelectual e espiritual, das forças decisivas que atuaram sobre sua formação e da produção que delas resultou. | ||
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| + | 23. Nascido em 1833, filho de pastor, Dilthey estudou inicialmente teologia e posteriormente filosofia e ciências históricas, | ||
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| + | 24. O mundo intelectual e espiritual constituiu para Dilthey a forma própria de existência, | ||
| + | * O projeto de escrever uma história do cristianismo ocidental foi abandonado durante os estudos sobre a Idade Média. | ||
| + | * A oposição entre fé e conhecimento conduziu Dilthey a privilegiar a investigação aberta e permanentemente inacabada. | ||
| + | * Da teologia permaneceram impulsos decisivos para a compreensão científica da vida humana e de sua história. | ||
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| + | 25. O afastamento progressivo da teologia permite compreender a relação de Dilthey com três forças históricas decisivas de seu tempo: o positivismo, | ||
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| + | 26. Do positivismo francês, Dilthey acolheu a crítica à metafísica, | ||
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| + | 27. Da escola histórica, Dilthey assimilou a capacidade de pensar historicamente e de experimentar a força viva do passado espiritual, experiência que lhe permitiu transformar o próprio mundo da história no fundamento da pergunta radical pela historicidade. | ||
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| + | 28. A aproximação de Dilthey com Kant decorreu da pergunta pela essência do conhecimento, | ||
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| + | 29. A abertura de Dilthey a tudo aquilo que possuía conteúdo efetivo e sua rejeição de pensamentos vazios afastados das próprias coisas permitiram renovar uma problemática fundamental, | ||
| + | * A fragmentação e o caráter inacabado de suas publicações contribuíram para a demora no reconhecimento de sua importância. | ||
| + | * A apropriação produtiva de Dilthey exige não a repetição literal de suas formulações, | ||
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| + | **III** | ||
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| + | 30. A compreensão das obras fragmentárias de Dilthey depende da explicitação de sua questão fundamental, | ||
| + | |||
| + | 31. Desde os primeiros trabalhos sobre a ética e a hermenêutica de Schleiermacher, | ||
| + | * A hermenêutica de Schleiermacher aparece como teoria universal da compreensão. | ||
| + | * A tese de habilitação sobre a consciência moral recoloca o problema do próprio ser do ser humano. | ||
| + | * Os estudos sobre Novalis, Hölderlin e Goethe procuram compreender indivíduos históricos concretos a partir de seu centro vital. | ||
| + | * A biografia de Schleiermacher e os trabalhos sobre as ciências do homem, da sociedade e do Estado preparam a Introdução às ciências humanas. | ||
| + | |||
| + | 32. A Introdução às ciências humanas procura fundamentar o conjunto das ciências da sociedade e da história contra sua submissão à metafísica naturalista, | ||
| + | * Os estudos antropológicos posteriores procuram determinar historicamente diferentes concepções do ser humano. | ||
| + | * As investigações sobre a realidade do mundo exterior, a psicologia descritiva e analítica, a individualidade e a história do idealismo alemão permanecem vinculadas ao mesmo problema fundamental. | ||
| + | * O contato de Dilthey com as Investigações lógicas de Husserl contribuiu para uma nova transformação de seu pensamento a partir de 1905. | ||
| + | |||
| + | 33. A multiplicidade aparentemente dispersa da produção diltheyana encontra sua unidade não em um sistema conceitual fechado, mas em um questionamento vital acerca do sentido da história e, por consequência, | ||
| + | * Perguntar pelo ser-histórico significa localizar a realidade na qual a história possa mostrar, a partir de si mesma, o sentido de seu ser. | ||
| + | * A crise de uma ciência indica que seus conceitos fundamentais precisam ser retomados a partir dos fenômenos. | ||
| + | |||
| + | 34. Dilthey procura acessar o sentido do ser da história por três vias fundamentais — a história das ciências, a epistemologia e a psicologia —, sendo as duas primeiras fundadas na terceira e dependendo da concepção específica de psicologia elaborada em sua obra. | ||
| + | |||
| + | 35. A via da história das ciências não pretende simplesmente reconstruir o desenvolvimento das disciplinas, | ||
| + | |||
| + | 36. A via epistemológica também se orienta pela compreensão da vida e não pela mera demarcação metodológica entre ciências naturais e humanas, pois Dilthey procura apreender a realidade histórica em sua própria efetividade e compreender o conhecimento histórico como forma privilegiada de autoconhecimento humano. | ||
| + | * A preocupação principal não consiste em classificar disciplinas ou construir uma teoria formal dos métodos científicos. | ||
| + | * O ser humano caracteriza-se não apenas pela consciência do mundo, mas por uma relação de autoconhecimento constitutiva dessa consciência. | ||
| + | * A influência retroativa das teorias formalistas de Windelband e Rickert contribuiu para que algumas das intenções mais próprias de Dilthey permanecessem não realizadas. | ||
| + | |||
| + | 37. As duas primeiras direções da pesquisa diltheyana convergem para a apreensão e explicitação do fenômeno da vida, finalidade igualmente perseguida pela psicologia de Dilthey contra as formas tradicionais nas quais o ser próprio da vida desaparece. | ||
| + | |||
| + | **IV** | ||
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| + | 38. A questão fundamental de Dilthey dirige-se ao conceito de vida e exige que a vida seja primeiramente tornada acessível em sua originariedade antes de ser conceitualmente determinada, | ||
| + | * A psicologia é reconduzida à antropologia enquanto investigação das estruturas fundamentais da existência humana. | ||
| + | * A influência de Brentano reforça a prioridade da descrição das estruturas psíquicas sobre sua explicação causal. | ||
| + | * As estruturas da vida não são formas classificatórias externas, mas pertencem à própria unidade vital da realidade psíquica. | ||
| + | |||
| + | 39. A psicologia descritiva e analítica de Dilthey diferencia-se da psicologia positivista e naturalista porque rejeita a transferência imediata dos métodos físicos para o psíquico e considera metodologicamente ilegítima qualquer construção baseada em hipóteses que não tenham sido precedidas pela intuição da própria realidade investigada. | ||
| + | * A psicologia explicativa procura formular leis mediante a mensuração de regularidades. | ||
| + | * Sem uma investigação prévia do ser do psíquico, suas hipóteses permanecem apenas hipoteticamente certas. | ||
| + | * Uma psicologia desse tipo não pode constituir a ciência fundamental das ciências humanas. | ||
| + | |||
| + | 40. A psicologia construtiva inspirada pelas ciências naturais reduz a vida psíquica a elementos últimos, sobretudo impressões sensoriais, procurando reconstruir fenômenos como vontade ou ódio mediante combinações desses elementos, enquanto a perspectiva de Dilthey insiste na prioridade do contexto vital originário sobre qualquer decomposição atomística. | ||
| + | |||
| + | 41. A análise diltheyana parte do todo da vida psíquica como realidade originariamente dada e entende a decomposição analítica não como separação de elementos independentes, | ||
| + | * A visão não resulta da soma de sensações, | ||
| + | * A recordação não deriva da associação mecânica de elementos, pois a associação já pressupõe a unidade originária da memória. | ||
| + | |||
| + | 42. O contexto psíquico fundamental constitui-se pela mesmidade do si-próprio em correlação recíproca com o mundo, sendo cada momento da consciência estruturado simultaneamente por comportamentos cognitivos, afetivos e volitivos que não se relacionam causalmente, | ||
| + | * A vida é sempre vida em um mundo e seu experimentar é uma autoexperiência do ser humano definido por esse mundo. | ||
| + | * A vida com os outros não deveria ser derivada posteriormente de um suposto isolamento originário da consciência, | ||
| + | * Dilthey não levou suficientemente adiante essa dimensão do ser-com, concentrando-se sobretudo no caráter adquirido e histórico do contexto vital. | ||
| + | |||
| + | 43. A recepção neokantiana da investigação de Dilthey deformou sua problemática ao substituir a pergunta pelo ser histórico por uma distinção formal entre o procedimento individualizante da história e o procedimento generalizante das ciências naturais, eliminando precisamente a tentativa diltheyana de constituir uma psicologia não naturalista. | ||
| + | * A generalidade matemática e a generalização física possuem sentidos fundamentalmente distintos, impossibilitando uma simples analogia metodológica. | ||
| + | * A exigência formal de formação conceitual de Rickert permanece vazia quando separada da relação efetiva da ciência com seu objeto. | ||
| + | * Toda transformação científica decisiva nasce de uma transformação da relação com a própria coisa investigada. | ||
| + | |||
| + | 44. A avaliação crítica da pesquisa de Dilthey exige determinar até onde ele avançou e em que ponto permaneceu insuficiente, | ||
| + | |||
| + | **V** | ||
| + | |||
| + | 45. Uma visão histórica de mundo deve fundar-se na investigação da historicidade ([[lx> | ||
| + | * Dilthey alcançou a realidade propriamente histórica ao identificar o Dasein humano (menschliches Dasein) como realidade viva, livre e histórica. | ||
| + | * Permaneceu, contudo, sem formular explicitamente a questão da própria historicidade, | ||
| + | * A fenomenologia fornece os meios para formular de maneira explícita essa questão ontológica. | ||
| + | |||
| + | 46. A compreensão da fenomenologia pode ser articulada pela análise de sua atitude fundamental, | ||
| + | |||
| + | 47. A atitude fundamental da fenomenologia exprime-se na máxima “às coisas mesmas” (zu den Sachen selbst), segundo a qual a realidade investigada deve ser conduzida à doação originária para que o sentido de seu ser possa ser apreendido nela mesma, em oposição à tendência histórica da filosofia de operar com conceitos herdados sem verificar sua adequação originária. | ||
| + | * O acesso ao simples, originário e genuíno é dificultado pela tendência cotidiana de permanecer no complexo, derivado e não genuíno. | ||
| + | * A filosofia tradicional renova frequentemente doutrinas anteriores sem renovar radicalmente a forma de perguntar. | ||
| + | * A fenomenologia exige a recondução dos conceitos às próprias coisas das quais devem receber sua legitimidade. | ||
| + | |||
| + | 48. A fenomenologia nasceu menos como programa teórico do que como realização concreta de investigações elementares, | ||
| + | * Motivos tradicionais continuam atuando no interior da fenomenologia e podem dificultar seu acesso genuíno aos fenômenos. | ||
| + | * A apropriação do passado requer liberar-se criticamente das formas não questionadas da tradição. | ||
| + | * Não existe uma escola fenomenológica homogênea, mas direções de trabalho submetidas à crítica recíproca e à demonstração nas próprias coisas. | ||
| + | |||
| + | 49. O avanço decisivo da fenomenologia ocorreu com as Investigações lógicas de Husserl, cuja importância não pode ser apreendida por mera exposição doutrinária, | ||
| + | |||
| + | 50. A intencionalidade e a intuição categorial constituem descobertas decisivas para a retomada fenomenológica da questão de Dilthey, pois a intencionalidade revela que todo pensar, querer e experimentar é sempre direcionado a algo, tornando possível investigar o ente tal como se mostra em seu ser e, assim, fundamentar cientificamente a pergunta pelo ser dos entes. | ||
| + | * A intencionalidade permite apreender simultaneamente o ato e aquilo para o qual ele se dirige. | ||
| + | * O mundo experimentado pode ser interrogado quanto ao seu ser-aí (Da-sein), possibilitando ver os entes em seu ser. | ||
| + | * A filosofia recupera assim a possibilidade de investigar os diferentes domínios de ser e fornecer às ciências suas determinações fundamentais. | ||
| + | * A tarefa universitária da fenomenologia consiste em formar pesquisadores capazes de compreender radicalmente as questões próprias de suas disciplinas. | ||
| + | |||
| + | 51. A intuição categorial possibilita demonstrar o sentido do ser mesmo quando este não é acessível à intuição sensível, permitindo distinguir de maneira rigorosa o ente daquilo que se exprime quando se afirma que algo “é”. | ||
| + | |||
| + | 52. A fenomenologia deve conduzir os conceitos filosóficos diretamente àquilo que neles é visado, permitindo que o fenômeno se mostre a partir de si mesmo, mas sua primeira configuração permaneceu excessivamente vinculada à psicologia tradicional e o próprio Husserl teria interpretado inadequadamente sua descoberta ao apresentá-la como aperfeiçoamento da psicologia. | ||
| + | |||
| + | **VI** | ||
| + | |||
| + | 53. Embora Dilthey tenha identificado o Dasein humano (menschliches Dasein) como o ente propriamente histórico e explicitado algumas estruturas da vida, não perguntou pelo sentido do ser desse Dasein e, por isso, tampouco pôde responder de maneira radical ao significado do ser-histórico, | ||
| + | * A determinação tradicional do ser humano como animal racional reúne sensibilidade, | ||
| + | * Mesmo a caracterização fenomenológica do ser humano como unidade de vivências centradas no eu permanece insuficiente enquanto não se interroga o ser desse centro. | ||
| + | |||
| + | 54. A determinação preliminar do ser humano deve partir fenomenologicamente do Dasein cotidiano (alltägliches Dasein), pois precisamente aquilo que parece mais próximo e evidente encontra-se facticamente encoberto pelas formas tradicionais de questionamento. | ||
| + | |||
| + | 55. A concepção cartesiana do ser humano como ego ou coisa pensante (res cogitans) transforma a consciência em um interior isolado diante de uma realidade exterior e conduz a epistemologia moderna ao falso problema de explicar como o sujeito alcança o objeto, enquanto a doação originária do Dasein consiste em ser-em-um-mundo (In-einer-Welt-sein). | ||
| + | * A vida não está simplesmente ao lado de um mundo, mas possui seu mundo como horizonte aberto e descoberto. | ||
| + | * Mesmo o ser vivo animal deve ser compreendido a partir da relação originária com seu mundo circundante. | ||
| + | * Objetos simplesmente subsistentes estão presentes ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 56. O ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) manifesta-se originariamente não por conhecimento teórico, mas pelo trato prático e pela ocupação com as coisas, de modo que o mundo circundante ([[lx> | ||
| + | * O espaço imediato do mundo circundante é articulado pelo trato ([[lx> | ||
| + | * A espacialidade geométrica surge apenas mediante procedimentos abstrativos realizados sobre esse espaço originariamente vivido. | ||
| + | |||
| + | 57. O Dasein da vida caracteriza-se também pela presença de outros entes dotados do mesmo caráter de ser, de maneira que a existência humana é essencialmente ser-uns-com-os-outros e compartilhar um mesmo mundo e um mesmo espaço. | ||
| + | |||
| + | 58. O ser-no-mundo é simultaneamente ser-com-os-outros, | ||
| + | * O mundo circundante (Umwelt) é apreendido pela circunvisão prática ([[lx> | ||
| + | * A atitude teórica surge mediante uma reorientação ([[lx> | ||
| + | * A ciência nasce dessa autonomização do olhar em relação à ocupação cotidiana. | ||
| + | |||
| + | 59. Na cotidianidade, | ||
| + | * O impessoal ([[lx> | ||
| + | * A absorção nas ocupações mundanas manifesta a tendência do Dasein a decair de si próprio e existir de maneira imprópria ou inautêntica ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 60. A linguagem cotidiana evidencia a queda do Dasein na publicidade porque o discurso, cuja função originária consiste em tornar algo manifesto aos outros, pode degenerar em falação (Gerede), na qual aquilo que se diz adquire validade pela repetição enquanto se afasta progressivamente das próprias coisas. | ||
| + | * A falação sustenta-se frequentemente no ouvir-dizer e dispensa o contato originário com aquilo de que se fala. | ||
| + | * Quanto mais a falação domina, mais o mundo e o próprio Dasein ficam encobertos. | ||
| + | * Esse encobrimento constitui uma fuga do Dasein de si mesmo para a publicidade e terá importância decisiva para a compreensão do tempo. | ||
| + | |||
| + | 61. As estruturas analisadas não são atos ou vivências isoladas de consciência, | ||
| + | |||
| + | 62. A tentativa de compreender integralmente o Dasein encontra a dificuldade de que a vida permanece sempre incompleta enquanto existe e deixa de existir precisamente quando alcança seu fim, tornando impossível alcançar sua totalidade mediante a observação de uma vida concluída ou pela substituição da própria existência pela existência de outro. | ||
| + | * O Dasein é sempre, em cada caso ([[lx> | ||
| + | * O caráter de ser-sempre-meu ([[lx> | ||
| + | * A pergunta pela totalidade do Dasein exige, portanto, determinar como o Dasein sempre próprio pode ser compreendido integralmente. | ||
| + | |||
| + | **VII** | ||
| + | |||
| + | 63. A circunvisão do Dasein cotidiano é orientada pela interpretação pública do mundo, na qual a existência tende a perder-se e a compreender-se mediante categorias retiradas das coisas mundanas, razão pela qual as definições tradicionais do ser humano como animal racional ou unidade de sensibilidade e razão deixam sem resposta o sentido do ser da totalidade humana. | ||
| + | * A totalidade da vida não pode ser formada pela soma posterior de partes previamente independentes. | ||
| + | * Como numa máquina cuja função total determina o significado de seus componentes, | ||
| + | * A vida permanece sempre projetada para possibilidades ainda não realizadas e, contudo, somente se completa quando todas as possibilidades cessam na morte. | ||
| + | * A morte de outro não pode substituir a própria morte, pois a morte é sempre, em cada caso (jeweilig), a minha morte. | ||
| + | |||
| + | 64. A morte não deve ser concebida como acontecimento exterior que sobrevém ao término de um processo vital, pois pertence permanentemente ao Dasein como sua possibilidade extrema, de modo que o próprio existir é desde sempre a possibilidade de sua própria morte. | ||
| + | * Um acontecimento ([[lx> | ||
| + | * A morte constitui a possibilidade mais extrema da existência e não uma ocorrência acidental acrescentada ao final da vida. | ||
| + | |||
| + | 65. A presença da morte manifesta-se diretamente na fuga cotidiana diante dela, pois sua possibilidade é temporalmente indeterminada e, ao mesmo tempo, absolutamente certa, enquanto a cotidianidade procura neutralizar essa certeza indefinida adiando-a e recusando-se a permanecer diante dela. | ||
| + | |||
| + | 66. A morte mostra-se, portanto, como a possibilidade extrema, indeterminada e certa na qual o Dasein é colocado diante de si mesmo. | ||
| + | |||
| + | 67. A estrutura existencial da morte possui prioridade em relação às interpretações particulares dela decorrentes, | ||
| + | |||
| + | 68. A existência inautêntica ([[lx> | ||
| + | |||
| + | **VIII** | ||
| + | |||
| + | 69. A compreensão do ser do Dasein deve apreendê-lo em sua totalidade, e essa totalidade é delimitada pela morte enquanto possibilidade certa e indeterminada que pertence ao próprio ser da vida humana, diante da qual a cotidianidade adota predominantemente a atitude inautêntica da evasão. | ||
| + | |||
| + | 70. A relação autêntica com a morte exige sustentar essa possibilidade como possibilidade, | ||
| + | * A antecipação da morte não equivale ao suicídio, pois deve preservar a morte precisamente enquanto possibilidade. | ||
| + | * Quando as ocupações e apoios mundanos recuam, o Dasein encontra-se entregue à própria decisão. | ||
| + | * Escolher-se significa recuperar-se da perda na publicidade e escolher a própria capacidade de escolha. | ||
| + | * A escolha da escolha conduz à resolução ([[lx> | ||
| + | * Assumir a própria responsabilidade implica escolher a consciência e reconhecer que toda ação introduz culpa, pois realizar uma possibilidade significa necessariamente excluir outras. | ||
| + | |||
| + | 71. O antecipar-se à possibilidade extrema revela a estrutura temporal do Dasein, pois, enquanto antecipação, | ||
| + | * O futuro não é uma região ainda inexistente na qual o Dasein posteriormente ingressará, | ||
| + | * A culpa conserva o passado no próprio existir. | ||
| + | * A ação resoluta constitui o presente a partir da articulação entre futuro e passado. | ||
| + | * O tempo constitui a totalidade do Dasein e determina seu ser em cada instante. | ||
| + | * A vida humana não transcorre simplesmente no tempo, mas é ela própria tempo. | ||
| + | |||
| + | 72. Na cotidianidade, | ||
| + | * A preocupação cotidiana procura trazer para o presente aquilo que ainda não está disponível. | ||
| + | * A expectativa cotidiana do futuro corresponde a um esquecimento daquilo que se tornou passado. | ||
| + | * O predomínio do presente explica a crescente necessidade de relógios, pelos quais os “agoras” se tornam publicamente disponíveis ao impessoal (das Man). | ||
| + | |||
| + | 73. A gênese do relógio encontra-se na orientação prática da vida cotidiana pelos ciclos naturais e pelas necessidades do convívio, pois manhã, meio-dia e noite são inicialmente pontos de referência das ocupações e somente posteriormente se tornam determinações astronômicas abstratas. | ||
| + | * A definição platônica do tempo a partir do céu conserva uma experiência originária da orientação cotidiana pelos movimentos celestes. | ||
| + | * A necessidade de coordenação no ser-com-os-outros conduziu ao aperfeiçoamento progressivo dos instrumentos de mensuração temporal. | ||
| + | * Quanto mais a existência se absorve nas ocupações, | ||
| + | * A universalização do relógio converte o tempo em presente disponível e permite que a natureza seja objetivamente medida. | ||
| + | |||
| + | 74. O tempo mensurado pelo relógio é o agora público compartilhado no ser-com-os-outros e não o tempo próprio do Dasein, revelando até que ponto a publicidade governa a existência ao transformar a temporalidade em uma sequência comum de instantes pelos quais todos podem orientar-se e ser pressionados. | ||
| + | |||
| + | **IX** | ||
| + | |||
| + | 75. A ciência e a filosofia surgem quando a circunvisão ocupada do Dasein se autonomiza e passa a contemplar o mundo em seu ser, extraindo da experiência cotidiana uma natureza concebida como permanentemente subsistente e submetida a regularidades que devem ser purificadas das contingências do acesso observacional. | ||
| + | |||
| + | 76. A física moderna radicaliza a busca pelas leis invariantes do movimento e a teoria da relatividade deve ser compreendida não como relativização da validade das leis físicas, mas como tentativa de determinar condições de mensuração capazes de apreender a natureza a partir dela mesma. | ||
| + | * O desenvolvimento das geometrias não euclidianas revelou a possibilidade de sistemas geométricos coerentes fundados em diferentes pressupostos. | ||
| + | * A relatividade exige reformular conjuntamente espaço, tempo, matéria e campo de força para conservar a invariância das leis do movimento em diferentes sistemas de referência. | ||
| + | * O tempo medido varia de acordo com o movimento e com as condições do sistema de mensuração. | ||
| + | |||
| + | 77. A teoria da relatividade torna insuficiente a concepção kantiana de tempo ao revelar que o tempo físico é sempre tempo local dependente das condições de medição, sendo a mensuração um modo de tornar algo presente mediante uma medida e um número. | ||
| + | * A descoberta da localidade do tempo torna-se filosoficamente compreensível a partir da tese de que o próprio si-mesmo é temporal. | ||
| + | * O tempo não constitui um recipiente exterior no qual os acontecimentos ocorrem, pois o Dasein é ele próprio tempo e encontra os processos mundanos segundo sua temporalidade. | ||
| + | |||
| + | 78. Mesmo o tempo da natureza não pode ser concebido metafisicamente como absoluto, pois aparece fisicamente como multiplicidade unidimensional e irreversível de momentos anteriores e posteriores, | ||
| + | |||
| + | 79. O tempo científico mensurado é um tempo de mundo no qual todos podem concordar, mas sua impropriedade não consiste, como sustentava Bergson, numa espacialização do tempo, e sim em sua redução à presença do agora. | ||
| + | |||
| + | 80. A primeira determinação científica do tempo recai compreensivelmente sobre o tempo da natureza, como já se encontra em Aristóteles ao defini-lo mediante a contagem do movimento segundo o antes e o depois, mas a tarefa filosófica consiste em compreender o tempo próprio (eigentliche [[lx> | ||
| + | * A concepção aristotélica fundamental permanece determinante também para as compreensões modernas do tempo. | ||
| + | * A dificuldade decisiva consiste em explicar como pode existir um tempo mensurável comum se cada Dasein, em cada caso (jeweilig), é ele próprio temporal. | ||
| + | * Essa questão remete ao modo pelo qual a singularidade do Dasein se articula com o ser-com-os-outros. | ||
| + | |||
| + | 81. As determinações alcançadas acerca do tempo tornam possível formular a questão final acerca do sentido da historicidade (Geschichtlichkeit). | ||
| + | |||
| + | **X** | ||
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| + | 82. A questão própria de Dilthey busca compreender o sentido da história a partir da própria vida, mas, embora tenha reconhecido que a vida possui caráter essencialmente histórico, não perguntou pelo significado ontológico do ser-histórico, | ||
| + | * A investigação da historicidade deve distinguir história e historicidade, | ||
| + | * A história da filosofia constitui o exemplo privilegiado dessa possibilidade. | ||
| + | |||
| + | 83. História ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 84. A ciência histórica (Historie) constitui o conhecimento do acontecido mediante descoberta, crítica, interpretação e exposição das fontes, e sua vinculação terminológica com o próprio acontecer deve-se ao fato de que aquilo que aconteceu conosco permanece conservado em nosso conhecimento histórico. | ||
| + | |||
| + | 85. A história distingue-se do simples movimento porque não consiste numa mudança que ocorre exteriormente no mundo, mas num acontecer que o próprio Dasein é, cuja estrutura fundamental se manifesta no antecipar-se para o futuro, pelo qual o passado é simultaneamente descoberto e carregado. | ||
| + | * O Dasein não apenas sofre acontecimentos, | ||
| + | * O conhecimento de si dentro desse acontecer pertence à própria estrutura da historicidade. | ||
| + | * Somos história (Geschichte) porque somos nosso passado e porque nosso futuro vive a partir desse passado. | ||
| + | * A geração constitui uma forma fundamental do ser-com histórico, pois cada indivíduo pertence a uma geração que o precede, determina seu Dasein e transmite um passado que será levado adiante até a emergência de uma nova geração. | ||
| + | |||
| + | 86. O passado pode tornar-se tema explícito de investigação, | ||
| + | * A concepção spengleriana da cultura como alma orgânica transforma a história em uma espécie de botânica das culturas. | ||
| + | * O presente passa então a ser considerado apenas como uma forma cultural entre outras, sem acesso à dinâmica efetiva da historicidade. | ||
| + | |||
| + | 87. Toda investigação histórica parte inevitavelmente de uma determinada interpretação, | ||
| + | * A história da filosofia neokantiana de Marburgo interpretou frequentemente o passado mediante categorias kantianas. | ||
| + | * A filosofia católica submeteu Aristóteles a categorias tomistas, enquanto a oposição escolar transformava Platão em idealista e Aristóteles em realista. | ||
| + | * A tarefa crítica consiste em libertar a investigação dessas opiniões herdadas e esclarecer as condições que permitem compreender autenticamente o passado. | ||
| + | * A pesquisa filosófica deve exercer uma crítica do presente. | ||
| + | * O passado autenticamente descoberto não é apenas um presente anterior, mas pode revelar as raízes da existência atual e tornar-se força produtiva para o futuro. | ||
| + | * A consciência histórica liberta o passado para o futuro, enquanto épocas aparentemente não históricas constituem apenas modos específicos e impróprios de temporalidade e historicidade. | ||
| + | |||
| + | 88. A história da filosofia constitui um exemplo privilegiado da possibilidade de investigação histórica precisamente porque a fenomenologia, | ||
| + | * O próprio sentido da fenomenologia exige uma renovada meditação sobre sua história e a libertação das tradições não genuínas. | ||
| + | * A apropriação autêntica do passado torna-se condição para um acesso igualmente autêntico às coisas mesmas. | ||
| + | |||
| + | 89. A história da filosofia deve ser reconduzida à questão fundamental do ser dos entes e, em última instância, ao próprio sentido do ser (Sein), pois somente a partir dessa questão se torna inteligível a continuidade histórica que vai da ontologia grega às concepções modernas e fenomenológicas. | ||
| + | * Platão formulou de maneira decisiva a questão do ser em O sofista. | ||
| + | * A tradição passou a considerar o ser como conceito universal indefinível, | ||
| + | * A compreensão grega do ser esteve orientada temporalmente pela presença e pelo presente. | ||
| + | * A aplicação acrítica dessa concepção de ser ao Dasein histórico impede compreender uma realidade cujo modo de ser não consiste em presença permanente. | ||
| + | * Descartes preservou a concepção grega e escolástica do ser ao compreender o “eu sou” segundo o modelo da subsistência presente ([[lx> | ||
| + | * O mesmo esquecimento alcança a fenomenologia quando Husserl deixa sem exame o ser da própria consciência. | ||
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| + | 90. A investigação histórica da filosofia retorna, portanto, à questão do ser (Seinsfrage), | ||
| + | * A lógica deixaria de ser uma sistematização posterior dos procedimentos científicos para tornar-se orientação antecipadora dos conceitos fundamentais. | ||
| + | * A história da filosofia é necessária para uma nova apropriação dos antigos e para recuperar a força de questionamento da filosofia grega. | ||
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| + | 91. Yorck von Wartenburg percebeu talvez com maior radicalidade que Dilthey a necessidade dessa meditação histórica sobre o sentido (Besinnung), | ||
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