husserliana:zahavi:psicopatologia
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| + | ====== Psicopatologia ====== | ||
| + | //ZAHAVI, Dan. Exploring the self: philosophical and psychopathological perspectives on self-experience. Amsterdam: J. Benjamins publ, 2000.// | ||
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| + | **O elo: Filosofia — Psicopatologia — Fenomenologia** | ||
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| + | 1. A aparente independência entre filosofia e psicopatologia torna-se insustentável quando se considera que reflexões filosóficas sobre consciência, | ||
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| + | 2. A relação entre os dois campos pode ser examinada inicialmente a partir da contribuição da filosofia para a psicopatologia, | ||
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| + | **1. A importância da filosofia para a psicopatologia** | ||
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| + | 3. A psicopatologia constituiu-se historicamente em estreita relação com o desenvolvimento da psiquiatria clínica desde a segunda metade do século XIX e, embora por sua origem médica mantenha fronteiras com genética, epidemiologia, | ||
| + | * Sua condição interdisciplinar permite compreender a psicopatologia como campo que reúne diversas abordagens empíricas e teóricas. | ||
| + | * Essa riqueza interdisciplinar é acompanhada, | ||
| + | * A dificuldade decorre sobretudo da ausência de um metamarco capaz de sustentar um discurso unificado, livre de compromissos metafísicos dogmáticos e ao mesmo tempo fiel aos fenômenos investigados. | ||
| + | * A busca por esse discurso comum constituiu a motivação central da Psicopatologia Geral de Karl Jaspers, cuja terceira edição revista, publicada em 1922, procurava superar a dispersão terminológica e doutrinária das diferentes escolas psiquiátricas. | ||
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| + | 4. A necessidade de um quadro conceitual unificado torna particularmente relevante a relação entre filosofia e psicopatologia, | ||
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| + | 5. A psicopatologia pode ser compreendida, | ||
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| + | 6. A familiaridade do psiquiatra com métodos e perspectivas filosóficas e das ciências humanas deveria favorecer uma atitude intelectual curiosa e sofisticada, | ||
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| + | 7. A Psicopatologia Geral estabeleceu uma primeira descrição sistemática dos fenômenos mentais anômalos em contraste com o pano de fundo correspondente da experiência normal, integrando descrições fenomenológicas da experiência subjetiva, análises dos distúrbios da expressão (Ausdruckspsychologie), | ||
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| + | 8. A influência internacional da Psicopatologia Geral permaneceu limitada, sobretudo na França, onde uma tradição clínica descritiva e orientada para casos demonstrava desconfiança em relação à teorização alemã e às classificações abstratas, embora Eugène Minkowski tenha assimilado criticamente Jaspers, a fenomenologia e a filosofia de Bergson e produzido uma das análises mais importantes da esquizofrenia ao reinterpretar o autismo esquizofrênico como perda do “contato vital”, isto é, como perturbação do fluxo intencional pré-reflexivo. | ||
| + | * Essa interpretação afastava-se da definição de Eugen Bleuler, segundo a qual o autismo consistiria em retraimento para uma fantasia ilimitada de pura imanência. | ||
| + | * Minkowski deslocava, assim, a compreensão da esquizofrenia do isolamento em conteúdos internos para uma alteração fundamental da relação pré-reflexiva com o mundo. | ||
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| + | 9. O Tratado das alucinações de Henri Ey, publicado em 1973, constituiu uma contrapartida francesa tardia à Psicopatologia Geral, pois, apesar do título restritivo, apresentou uma descrição sistemática da experiência subjetiva anômala em geral, articulando material clínico, fenomenologia, | ||
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| + | 10. A tradução inglesa da Psicopatologia Geral surgiu apenas cinquenta anos depois da edição alemã original e permaneceu praticamente ignorada nos Estados Unidos, enquanto encontrou recepção significativamente maior na psiquiatria britânica, onde havia maior familiaridade com a literatura psiquiátrica continental. | ||
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| + | 11. Apesar de limitações históricas e da conservação acrítica de alguns conceitos herdados da psiquiatria do século XIX, a Psicopatologia Geral nunca teve explorado internacionalmente seu potencial para fornecer uma base comum ao discurso psicopatológico, | ||
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| + | 12. A psicopatologia contemporânea, | ||
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| + | 13. Um requisito mínimo da psicopatologia consiste em possuir um quadro conceitual capaz de apreender os fenômenos da experiência e do comportamento, | ||
| + | * A pretensão de adotar um discurso “ateórico” oculta compromissos teóricos não examinados acerca da experiência e do mundo. | ||
| + | * A influência do positivismo lógico, particularmente da exigência hempeliana de definições operacionais, | ||
| + | * Como operações propriamente ditas dificilmente podem ser reproduzidas em psicopatologia, | ||
| + | * Noções fundamentais como si mesmo e identidade foram, desse modo, marginalizadas não por sua irrelevância fenomenológica, | ||
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| + | 14. Três domínios fundamentais atravessam e talvez fundamentem toda a psicopatologia contemporânea e permanecem suficientemente irresolvidos para exigir auxílio filosófico: | ||
| + | * A primeira questão concerne ao modo e ao grau em que o psiquiatra consegue acessar a mente do paciente e reconstruir sua experiência, | ||
| + | * A segunda diz respeito a si mesmo, identidade de si, agência, pertencimento das experiências e respectivas dissociações, | ||
| + | * A terceira exige reconsiderar a causalidade mental e a relação mente-cérebro, | ||
| + | * O domínio tácito do fisicalismo produz uma atmosfera científica na qual resultados empíricos aparecem como objetivamente indiscutíveis porque os pressupostos teóricos que os sustentam permanecem invisíveis e, portanto, protegidos de crítica substantiva. | ||
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| + | 15. A insuficiência conceitual da psicopatologia contemporânea produz um discurso híbrido no qual descrições clínicas são misturadas com conceitos funcionalistas, | ||
| + | * A inferência defeituosa não pertence necessariamente à fenomenologia da formação delirante, mas deriva antes de uma hipótese patogenética. | ||
| + | * A mistura entre descrição fenomenológica e explicação causal introduz opacidade referencial, | ||
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| + | 16. Desenvolvimentos mais recentes oferecem sinais promissores de reintegração de conceitos filosóficos à psiquiatria, | ||
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| + | 17. A psiquiatria não enfrenta apenas problemas factuais e empíricos, pois sua própria prática classificatória pressupõe conceitos filosóficos como realidade, racionalidade, | ||
| + | * Classificar determinada experiência como delírio, alucinação, | ||
| + | * A clareza terminológica depende de clareza conceitual, e esta exige avaliação crítica dos fundamentos do próprio discurso científico. | ||
| + | * A filosofia pode contribuir positivamente mediante conceitos mais adequados e negativamente mediante a exposição dos pressupostos sobre realidade, consciência e conhecimento científico que a psiquiatria tende a tomar como evidentes. | ||
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| + | **2. A importância da psicopatologia para a filosofia** | ||
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| + | 18. A contribuição da psicopatologia para a filosofia também pode ser distinguida em uma dimensão crítica, capaz de testar e desafiar análises filosóficas, | ||
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| + | 19. A procura por contraexemplos constitui um método filosófico tradicional para testar a validade de análises universalizantes, | ||
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| + | 20. A filosofia contemporânea, | ||
| + | * Um exemplo radical imagina duas pessoas molecularmente idênticas cujos hemisférios cerebrais são separados dos corpos, mantendo comunicação por transmissores de rádio. | ||
| + | * Posteriormente, | ||
| + | * A hipótese sustenta que duas pessoas poderiam então possuir experiências não apenas qualitativamente semelhantes, | ||
| + | * A simples imaginabilidade dessa situação seria utilizada como argumento para sua possibilidade metafísica e como contraexemplo à tese de que toda experiência pertence necessariamente a um sujeito singular. | ||
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| + | 21. A inferência direta da imaginabilidade para a possibilidade metafísica é filosoficamente problemática, | ||
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| + | 22. Experimentos de pensamento só podem possuir valor filosófico se forem conduzidos com rigor comparável ao dos experimentos científicos, | ||
| + | * Quando demasiados parâmetros são modificados simultaneamente, | ||
| + | * O conhecimento insuficiente pode produzir a falsa impressão de ter sido concebido um estado de coisas possível quando uma análise mais informada revelaria sua incoerência. | ||
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| + | 23. Imaginar uma vela queimando no vácuo ou uma barra de ouro flutuando sobre a água não basta para demonstrar a existência de mundos possíveis nos quais essas situações ocorram conservando intactas todas as propriedades relevantes, pois é necessário distinguir fantasias vagamente concebidas de cenários rigorosamente pensados e, consequentemente, | ||
| + | * Quanto maior a ignorância acerca dos fatos relevantes, mais fácil se torna imaginar situações porque os elementos que impediriam sua possibilidade permanecem desconhecidos. | ||
| + | * A ausência de conhecimento de uma impossibilidade não constitui evidência positiva de possibilidade. | ||
| + | * Experimentos de pensamento excessivamente extravagantes podem gerar falsa impressão de compreensão simplesmente pela vivacidade da fantasia, sem fornecer fundamento confiável para conclusões filosóficas. | ||
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| + | 24. Diante da quantidade de condições que um experimento de pensamento precisa satisfazer para ser conclusivo, fenômenos extraordinários efetivamente encontrados no mundo podem fornecer testes conceituais mais confiáveis do que ficções, pois seus contextos são conhecidos e sua existência real elimina o risco de que o caso utilizado como contraexemplo esconda uma impossibilidade lógica ou metafísica. | ||
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| + | 25. Casos excepcionais continuam indispensáveis para impedir que regularidades meramente acidentais sejam confundidas com estruturas profundas da realidade, mas fenômenos psicopatológicos reais podem cumprir essa função crítica de maneira mais fecunda do que fantasias extremas, ao desafiar diretamente pressupostos consolidados acerca da unidade da mente, da privacidade da experiência, | ||
| + | * Psicopatologia, | ||
| + | * Despersonalização, | ||
| + | * Esses fenômenos podem oferecer mais conhecimento sobre estruturas da consciência e do si mesmo do que experimentos de pensamento envolvendo recombinações cerebrais imaginárias. | ||
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| + | 26. Fenômenos patológicos não são, entretanto, filosoficamente transparentes, | ||
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| + | 27. Permanece igualmente em aberto qual importância filosófica deve ser atribuída aos fenômenos anômalos, pois estes podem ser considerados casos marginais que confirmam uma regra geral ou, de maneira mais radical, variações capazes de mostrar que a normalidade tomada como ponto de partida constitui apenas uma possibilidade entre outras. | ||
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| + | 28. Ainda que não seja necessário exigir que uma teoria filosófica explique completamente todos os fenômenos desviantes, torna-se inaceitável descartá-los por serem patológicos ou empíricos, pois qualquer teoria satisfatória deve ao menos permanecer compatível com sua existência e ser capaz de acomodá-los sem negar implicitamente sua possibilidade. | ||
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| + | 29. A psicopatologia não desempenha apenas função crítica ao desafiar lugares-comuns filosóficos, | ||
| + | * A normalidade cotidiana pode ser tão onipresente que suas condições fundamentais deixam de ser tematizadas. | ||
| + | * Wittgenstein e Heidegger reconhecem como tarefa filosófica tornar visíveis aspectos fundamentais da existência e da realidade que são tão evidentes que deixam de ser percebidos em sua importância. | ||
| + | * Alterações psicopatológicas profundas podem revelar justamente essas condições silenciosas da experiência normal. | ||
| + | * Estruturas de intencionalidade, | ||
| + | * A atenção recorrente dos principais representantes da fenomenologia aos fenômenos psicopatológicos decorre dessa capacidade reveladora das experiências anômalas. | ||
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| + | **3. A contribuição da fenomenologia** | ||
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| + | 30. A fenomenologia mostra-se particularmente apta a funcionar como interlocutora filosófica da psiquiatria porque uma compreensão adequada de transtornos como despersonalização, | ||
| + | * Explicar causalmente um transtorno pressupõe primeiro descrever corretamente como ele é vivido pelo sujeito. | ||
| + | * Uma descrição inadequada do fenômeno compromete inevitavelmente qualquer explicação posterior, tornando-a irrelevante ou enganosa. | ||
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| + | 31. O problema já aparece na própria classificação nosográfica, | ||
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| + | 32. A descrição rigorosa da experiência vivida constitui precisamente uma das tarefas centrais da fenomenologia, | ||
| + | * A situação contemporânea da psicopatologia, | ||
| + | * A fenomenologia oferece recursos para distinguir aquilo que pertence efetivamente à manifestação do fenômeno daquilo que lhe é acrescentado por teorias explicativas anteriores à investigação. | ||
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| + | 33. A relevância fenomenológica torna-se ainda mais evidente quando se consideram categorias experienciais profundamente afetadas por diferentes transtornos psicopatológicos, | ||
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| + | 34. A própria fenomenologia, | ||
| + | * Sua relevância contemporânea depende da capacidade de confrontar problemas e resultados provenientes de outras tradições filosóficas e científicas. | ||
| + | * Esse diálogo também exige que conceitos fenomenológicos sejam formulados, quando possível, de maneira menos tecnicamente fechada, permitindo sua compreensão por pesquisadores que não dominam previamente sua terminologia especializada. | ||
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| + | 35. A filosofia analítica da mente apresenta sinais promissores de aproximação ao recuperar como problemas filosoficamente legítimos a subjetividade, | ||
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| + | 36. Outro desenvolvimento favorável ocorre entre filósofos formados na tradição analítica e influenciados por Kant, Wittgenstein, | ||
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| + | 37. O aprofundamento da comunicação entre fenomenologia, | ||
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