husserliana:zahavi:hl:realismo
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| + | ====== Realismo ====== | ||
| + | //ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, | ||
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| + | 1. A fenomenologia confronta o [[f> | ||
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| + | **6.1 O fim da fenomenologia** | ||
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| + | 2. Em O fim da fenomenologia, | ||
| + | * Husserl não teria conseguido definir com clareza o destino, o método, o alcance e os compromissos metafísicos da fenomenologia. | ||
| + | * A permanência contemporânea da fenomenologia seria, nessa perspectiva, | ||
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| + | 3. A retórica de Sparrow aproxima-se da de Tom Rockmore, que atribui a Husserl incapacidade de esclarecer a fenomenologia, | ||
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| + | 4. A interpretação de Sparrow de Merleau-Ponty converte equivocadamente o caráter permanentemente autocrítico da fenomenologia e a impossibilidade de uma redução completa em afirmações de que tanto a fenomenologia quanto a própria redução seriam impossíveis. | ||
| + | * Merleau-Ponty caracteriza a fenomenologia como meditação incessantemente renovada, e não como empreendimento incapaz de começar. | ||
| + | * A impossibilidade da redução completa decorre da finitude de sujeitos que jamais podem romper definitivamente seus vínculos com a vida pré-reflexiva e mundanamente situada. | ||
| + | * A reflexão permanece ligada à vida irrefletida como sua situação inicial, constante e final. | ||
| + | * A redução pode ser efetivada repetidamente mediante certo distanciamento da imersão mundana, mesmo que jamais possa produzir uma perspectiva absoluta “de lugar nenhum”. | ||
| + | * A incompletude da redução torna visíveis os fios intencionais que ligam sujeito e mundo e não impede que Heidegger, segundo Merleau-Ponty, | ||
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| + | 5. A principal crítica metodológica de Sparrow consiste em considerar fatal a ausência, em Husserl, de uma codificação definitiva do método fenomenológico comparável às regras cartesianas, | ||
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| + | 6. A argumentação de Sparrow oscila entre três teses dificilmente conciliáveis: | ||
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| + | 7. Quando reconhece uma unidade metodológica, | ||
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| + | 8. O preço dessa unidade metodológica seria, segundo Sparrow, a renúncia à metafísica e, consequentemente, | ||
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| + | 9. A própria argumentação de Sparrow termina, contudo, afirmando que a [[lx> | ||
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| + | 10. A exigência de consenso metodológico rígido como condição para reconhecer a existência de uma tradição filosófica é excessiva, pois aplicada consistentemente dissolveria também teoria crítica, hermenêutica, | ||
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| + | 11. Divergências interpretativas acerca de grandes filósofos tampouco demonstram necessariamente confusão conceitual, podendo antes refletir a amplitude e profundidade de obras que continuam capazes de sustentar interpretações concorrentes e renovadas discussões. | ||
| + | * A adoção coerente do critério purista obrigaria a rejeitar também Platão, Aristóteles, | ||
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| + | 12. A conclusão central de Sparrow permanece a de que a fenomenologia seria incapaz de alcançar realismo metafísico porque, apesar de seu retorno “às coisas mesmas”, continuaria confinada ao domínio fenomenal e presa ao horizonte kantiano. | ||
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| + | 13. A saída proposta consiste em abandonar a fenomenologia em favor do realismo especulativo, | ||
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| + | **6.2 Realismo especulativo** | ||
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| + | 14. O realismo especulativo recebeu seu nome da conferência realizada no Goldsmiths College, em Londres, em 2007, com Ray Brassier, Iain Hamilton Grant, Graham Harman e Quentin Meillassoux, | ||
| + | * Suas referências filosóficas abrangem autores tão diferentes quanto Whitehead, Latour, Heidegger, Churchland, Metzinger, Sellars, Nietzsche, Levinas, Badiou e Schelling. | ||
| + | * A unidade inicial da corrente é sobretudo negativa: a rejeição do correlacionismo. | ||
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| + | 15. O correlacionismo sustenta que subjetividade e objetividade não podem ser compreendidas isoladamente porque pensar e ser, sujeito e objeto, encontram-se internamente relacionados e somente são acessíveis dentro de sua correlação. | ||
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| + | 16. Nessa perspectiva, | ||
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| + | 17. A genealogia especulativa atribui a Kant a inauguração dessa orientação, | ||
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| + | 18. Os realistas especulativos descrevem essa transformação como “catástrofe kantiana” e acusam a fenomenologia de prolongá-la ao fazer da correlação entre mundo e consciência um princípio filosófico central. | ||
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| + | 19. A fenomenologia husserliana explicita precisamente essa correlação ao compreender a epoché transcendental como acesso à relação constitutiva entre mundo e consciência do mundo e ao rejeitar a possibilidade de um ser-em-si completamente desvinculado de toda consciência possível. | ||
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| + | 20. Heidegger também formula uma versão correlacionista ao sustentar que mundo e ser-aí ([[lx> | ||
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| + | 21. O realismo especulativo pretende romper esse círculo e recuperar um “grande exterior” absoluto, existente independentemente de qualquer pensamento, acesso ou relação com sujeitos. | ||
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| + | 22. Contra a advertência kantiana de não ultrapassar especulativamente os limites da experiência, | ||
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| + | 23. Sparrow atribui à especulação a capacidade exclusiva de fundamentar filosoficamente o realismo, embora não forneça justificação suficiente para que somente uma metodologia especulativa pudesse cumprir essa tarefa. | ||
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| + | 24. Graham Harman procura desfazer o “duopólio humano-mundo” mediante uma ontologia igualitária na qual relações humanas com o mundo e relações entre quaisquer entidades ocupem exatamente o mesmo estatuto filosófico. | ||
| + | * A abertura perceptiva humana, a corrosão de calcário por ácido e uma luta entre orangotangos constituiriam relações ontologicamente equivalentes. | ||
| + | * Não haveria fundamento para atribuir maior complexidade filosófica à relação humana com um macarrão do que à própria rede de relações em que o macarrão participa. | ||
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| + | 25. A equiparação harmaniana entre relações causais não humanas e relações [[lx> | ||
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| + | 26. Objetos como lareiras, cortadores de grama ou carne em decomposição possuiriam uma “infinitude interior”, | ||
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| + | 27. O [[f> | ||
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| + | 28. Harman também reconhece a dificuldade e em outros momentos rejeita tanto o excepcionalismo humano quanto o pampsiquismo pela pressuposição compartilhada de que a psique ocuparia posição privilegiada na constituição do universo. | ||
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| + | 29. A consciência deveria ser tratada apenas como um tipo de objeto entre muitos, sem prioridade ontológica especial, enquanto propriedades como “sinceridade” seriam atribuídas igualmente a pedras, poeira, seres humanos, papagaios e baleias. | ||
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| + | 30. A missão exclusiva da filosofia tornar-se-ia então um “realismo estranho”, | ||
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| + | 31. Apesar de sua crítica ao subjetivismo correlacionista, | ||
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| + | 32. A coisa descrita pelas ciências naturais seria ainda uma coisa dependente de nossas formas de conhecimento, | ||
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| + | 33. O resultado é uma forma extrema de inacessibilidade: | ||
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| + | 34. O uso prático de um martelo e sua contemplação teórica seriam igualmente distorções da realidade própria do martelo, que permaneceria retirada de qualquer relação na qual entrasse. | ||
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| + | 35. Essa retração não seria peculiar à cognição humana, pois todos os objetos permaneceriam igualmente ocultos uns aos outros em relações como vento e banana, granizo e barraca, pedra e janela ou chama e algodão. | ||
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| + | 36. A retração estende-se inclusive ao interior das coisas, de modo que nenhum objeto teria contato integral sequer com seus próprios componentes. | ||
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| + | 37. A crítica harmaniana segundo a qual a fenomenologia ficaria aprisionada ao fenômeno descreve, ironicamente, | ||
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| + | 38. Meillassoux adota posição diferente ao utilizar a ciência para atacar o correlacionismo, | ||
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| + | 39. Uma afirmação como a de que a Terra se formou há bilhões de anos seria, segundo essa crítica, dividida pela fenomenologia entre um significado realistamente imediato e uma interpretação transcendental segundo a qual seria verdadeira apenas “para nós”. | ||
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| + | 40. Meillassoux considera esse acréscimo inadmissível e defende que fidelidade à ciência exige aceitar suas proposições ancestralmente orientadas em sentido literal e exclusivamente realista. | ||
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| + | 41. A ciência forneceria, portanto, acesso a uma realidade irredutível ao correlacionismo, | ||
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| + | 42. Paralelamente, | ||
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| + | 43. Esse “hipercaos” permitiria até mudanças arbitrárias das leis naturais, gerando tensão significativa com a pretensão simultânea de assegurar a estabilidade epistêmica da ciência matemática e seu acesso ao ancestral. | ||
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| + | 44. Brassier radicaliza ainda mais o anti-correlacionismo mediante um cientificismo eliminativista que pretende destruir a imagem manifesta do mundo e levar o projeto iluminista à sua consumação metafísica. | ||
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| + | 45. O realismo brassieriano culmina em niilismo, pois uma realidade independente da mente seria indiferente à existência humana e destituída dos valores, significados e finalidades com que se procura torná-la habitável. | ||
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| + | 46. Reconhecer a ausência fundamental de sentido e finalidade do universo seria, nesse quadro, sinal de maturidade intelectual, | ||
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| + | 47. A posição gera uma tensão interna entre a celebração normativa da maturidade intelectual e a negação ontológica da realidade de sentido, significado, | ||
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| + | **6.3 Formas de realismo** | ||
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| + | 48. A ameaça especulativa à fenomenologia torna-se menos decisiva quando se reconhece que algumas de suas intuições sobre transcendência e alteridade já foram desenvolvidas criticamente dentro da própria tradição fenomenológica. | ||
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| + | 49. Merleau-Ponty, | ||
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| + | 50. Levinas também critica a intencionalidade objetivante por reduzir aquilo que é estrangeiro ao familiar e sustenta que a verdadeira alteridade do outro excede conceituação e categorização, | ||
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| + | 51. Independentemente da validade dessas críticas a Husserl, sua presença mostra que a preocupação com transcendência, | ||
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| + | 52. Harman acusa a fenomenologia de considerar pseudoproblema a disputa entre realismo e antirrealismo e de confundir objetos meramente intencionais com objetos reais, já que amor, ódio e medo podem dirigir-se a entidades inexistentes. | ||
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| + | 53. A inferência é inválida porque do fato de alguns objetos intencionais não existirem não se segue que todos sejam irreais ou inexistentes. | ||
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| + | 54. Husserl já rejeitava nas Investigações lógicas a separação simplista entre objeto intencional e objeto real, sustentando que, quando aquilo que é intencionado existe efetivamente, | ||
| + | * A identidade entre objeto intencional e objeto efetivo não implica que toda intenção possua objeto existente. | ||
| + | * Elimina-se apenas a necessidade de postular um segundo objeto intermediário entre consciência e coisa real. | ||
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| + | 55. A afirmação harmaniana de que toda fenomenologia seria essencialmente idealista também encontra dificuldade histórica, pois numerosos integrantes dos círculos de Munique e Göttingen — Reinach, Pfänder, Scheler, Stein, Geiger, Hildebrand e Ingarden — defenderam posições explicitamente realistas e receberam com desapontamento a virada transcendental husserliana. | ||
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| + | 56. A questão filosoficamente mais importante não é, porém, apenas histórica, mas consiste em determinar quão antirrealista é o idealismo fenomenológico, | ||
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| + | 57. A crítica especulativa acerta ao reconhecer a enorme disseminação do correlacionismo, | ||
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| + | 58. A presença contemporânea desse correlacionismo pode ser exemplificada pelo percurso filosófico de Hilary Putnam, especialmente em sua crítica do representacionalismo perceptivo e do realismo metafísico. | ||
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| + | 59. A concepção tradicional da percepção introduz uma interface mental entre mente e mundo e explica a intencionalidade por meio de representações internas que mediariam o acesso cognitivo aos objetos. | ||
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| + | 60. Putnam rejeita essa imagem e procura recuperar o “realismo natural” da experiência ordinária, segundo o qual sujeitos efetivamente percebem o mundo exterior e não uma tela mental interna. | ||
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| + | 61. Superar a interface representacional significa compreender a percepção em termos transacionais: | ||
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| + | 62. A consciência encontra-se, | ||
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| + | 63. A experiência perceptiva deve, portanto, ser concebida como apresentacional: | ||
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| + | 64. O realismo metafísico, | ||
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| + | 65. Essa posição associa conhecimento a espelhamento fiel de uma realidade completamente independente de qualquer pensamento ou experiência, | ||
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| + | 66. A metáfora do cortador de biscoitos preserva, contudo, a pressuposição ingênua de que pelo menos categorias como “objeto” ou “substância” possuiriam interpretação absoluta fornecida pela própria realidade. | ||
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| + | 67. Rejeitar essa pressuposição não significa sustentar que tudo seja linguagem ou construção, | ||
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| + | 68. A pretensão de uma descrição científica absoluta obtida a partir de uma perspectiva sem localização é ilusória, pois não se pode retirar todas as crenças e conceitos do mundo para compará-los externamente com uma realidade despida de qualquer articulação cognitiva. | ||
| + | |||
| + | 69. Os esquemas conceituais não criam o mundo, mas tampouco o espelham passivamente, | ||
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| + | 70. A alternativa putnamiana — denominada em diferentes momentos realismo interno, natural, pragmático ou do senso comum — procura superar tanto o realismo metafísico clássico quanto o idealismo subjetivo e evitar simultaneamente metafísica reacionária e relativismo irresponsável. | ||
| + | |||
| + | 71. A recusa do realismo metafísico é compatível com realismo empírico porque determinadas formas cientificistas de metafísica podem, paradoxalmente, | ||
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| + | 72. O realismo metafísico pode, desse modo, repetir precisamente o gesto idealista que pretendia combater ao transformar uma perspectiva teórica restrita em medida exclusiva daquilo que merece ser reconhecido como real. | ||
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| + | 73. Quando Putnam afirma que kantianos, pragmatistas e fenomenólogos preservam melhor o realismo natural do que alguns autoproclamados realistas metafísicos, | ||
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| + | 74. O abandono tardio por Husserl do termo “idealismo” para descrever sua própria posição não indica renúncia ao idealismo transcendental, | ||
| + | |||
| + | 75. Levinas caracteriza adequadamente essa diferença ao observar que o idealismo husserliano não descreve um sujeito fechado sobre seus próprios estados, mas uma subjetividade intencionalmente aberta a tudo aquilo que pode aparecer. | ||
| + | |||
| + | 76. Se idealismo significa acesso apenas a estados subjetivos e realismo significa que o mundo possui natureza determinada não criada causalmente pela subjetividade, | ||
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| + | 77. A redução transcendental não anula nem desvaloriza mundo, seres humanos, interações sociais, pensamentos e ações, mas procura compreendê-los em seu sentido constitutivo. | ||
| + | |||
| + | 78. O realismo natural da atitude cotidiana permanece inteiramente preservado: viver como ser humano num mundo existente é algo de que não há dúvida, embora a tarefa filosófica consista em compreender a legitimidade dessa evidência aparentemente óbvia. | ||
| + | |||
| + | 79. A existência do mundo dada numa experiência contínua e concordante não é posta em dúvida pela fenomenologia, | ||
| + | |||
| + | 80. O idealismo transcendental contém, nesse sentido, o realismo natural e procura explicitar o sentido pré-filosófico do mundo sem absolutizá-lo metafisicamente como realidade completamente independente de toda correlação possível. | ||
| + | |||
| + | 81. A pretensão do realismo especulativo de monopolizar o realismo torna-se particularmente problemática diante da diversidade de seus próprios resultados: Harman combina realismo com ceticismo radical, Meillassoux combina racionalismo matemático com hipercaos e Brassier converte realismo em niilismo eliminativista. | ||
| + | |||
| + | 82. Caso realismo signifique preservar a realidade dos objetos cotidianos e do mundo efetivamente experienciado, | ||
| + | |||
| + | **6.4 Neurociência cognitiva e neokantismo** | ||
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| + | 83. As ambiguidades do realismo não pertencem apenas ao realismo especulativo, | ||
| + | |||
| + | 84. Frith, Metzinger e Hohwy interpretam diferentes versões da codificação preditiva como fundamento para um neuro-representacionalismo radical segundo o qual não apenas o acesso ao mundo seria mediado por representações neurais, mas o próprio mundo experienciado seria construção representacional cerebral. | ||
| + | * O cérebro utilizaria recursos sobretudo para processar entradas inesperadas e minimizar erros de previsão. | ||
| + | * Modelos internos das causas prováveis das estimulações sensoriais permitiriam antecipar sinais futuros. | ||
| + | * Divergências entre previsão e entrada sensorial produziriam erros utilizados para revisar os modelos. | ||
| + | * O cérebro funcionaria como órgão de teste permanente de hipóteses. | ||
| + | |||
| + | 85. Como o cérebro somente teria acesso aos efeitos internos da estimulação sensorial, as causas externas permaneceriam ocultas e todas as evidências cognitivamente disponíveis seriam internas ao sistema neural. | ||
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| + | 86. A experiência consciente seria então simulação cerebral: não se perceberia diretamente o mundo, mas um modelo interno projetado para fora e confundido, na vida cotidiana, com a própria realidade. | ||
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| + | 87. Cores constituem exemplo privilegiado dessa concepção, | ||
| + | |||
| + | 88. O mesmo raciocínio é estendido a todos os demais objetos familiares: rosa visualmente percebida, cubo de gelo tocado e melodia escutada seriam construções internas geradas pelo cérebro. | ||
| + | |||
| + | 89. O neuro-representacionalismo rejeita, por isso, qualquer acoplamento direto entre mente e mundo e afirma uma fronteira absoluta entre interior e exterior que incluiria até mesmo o próprio corpo entre as causas distais ocultas da estimulação. | ||
| + | |||
| + | 90. Embora essa concepção produza um dualismo epistemológico e admita explicitamente consequências céticas, seus defensores procuram preservar a existência de um mundo externo mediante afirmações causais ou critérios pragmáticos de êxito preditivo. | ||
| + | |||
| + | 91. Para Frith, a correspondência verdadeira entre modelo interno e realidade exterior torna-se secundária diante da eficácia prática da previsão e do controle. | ||
| + | |||
| + | 92. A genealogia dessa posição remete frequentemente a Hermann von Helmholtz, considerado precursor da percepção como inferência inconsciente das causas das sensações e, portanto, como forma de teste de hipóteses. | ||
| + | |||
| + | 93. Helmholtz também participa do neokantismo fisiológico e encontra em Johannes Müller a ideia de que as propriedades das causas externas não são fielmente transmitidas à consciência porque a experiência depende decisivamente da estrutura fisiológica dos órgãos sensoriais. | ||
| + | |||
| + | 94. A sensação seria imediatamente uma modificação dos nervos, interpretada posteriormente pela imaginação e pela razão como propriedade de corpos exteriores. | ||
| + | |||
| + | 95. Helmholtz aceita essa tese e considera que as transformações produzidas pelo sistema nervoso impedem qualquer semelhança necessária entre causa externa e efeito consciente. | ||
| + | |||
| + | 96. A sensação funcionaria como signo da ação exercida pelo objeto, sem precisar assemelhar-se a ele, assim como uma palavra pode designar uma coisa sem possuir semelhança com aquilo que significa. | ||
| + | |||
| + | 97. A fisiologia pareceria, assim, confirmar cientificamente a tese kantiana de que se conhece apenas aquilo que aparece segundo nossas formas de representação e não a realidade independente da mente enquanto coisa em si ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 98. A existência do mundo externo seria então inferida como causa hipotética das excitações nervosas por um raciocínio inconsciente semelhante a uma inferência à melhor explicação. | ||
| + | |||
| + | 99. A codificação preditiva contemporânea já foi interpretada como atualização da revolução copernicana kantiana por conceber percepção como atividade construtiva e orientada por hipóteses, embora sua naturalização evolucionária e neurocomputacional possa entrar em tensão com o caráter transcendental do próprio Kant. | ||
| + | |||
| + | 100. A crítica clássica de Jacobi identifica uma dificuldade fundamental nessa estrutura: Kant declara incognoscíveis as coisas em si, mas continua precisando pressupô-las como causas de representações, | ||
| + | |||
| + | 101. A coisa em si torna-se, desse modo, pressuposição simultaneamente necessária e incompatível com o próprio sistema: sem ela não se entra no kantismo, mas com ela não se consegue permanecer coerentemente nele. | ||
| + | |||
| + | 102. Fichte acolhe essa crítica, e Hegel radicaliza-a ao considerar a coisa em si resultado vazio de uma abstração produzida pelo próprio pensamento quando se eliminam todas as determinações pelas quais algo pode aparecer à consciência. | ||
| + | |||
| + | 103. O neokantismo fisiológico de Friedrich Albert Lange reproduz inicialmente a tese de Helmholtz de que os sentidos fornecem apenas efeitos internos das coisas, convertendo o mundo experienciado em produto da constituição fisiológica. | ||
| + | |||
| + | 104. O raciocínio consequente conduz, porém, a uma dificuldade decisiva: olhos, órgãos sensoriais, nervos e cérebro também são elementos do mundo experienciado e, segundo a própria teoria, deveriam ser apenas imagens ou signos imperfeitos de algo desconhecido. | ||
| + | |||
| + | 105. Se a organização fisiológica produz tanto sensações quanto conceitos de matéria e realidade externa, permanece-se inevitavelmente dentro do domínio das próprias representações, | ||
| + | |||
| + | 106. A investigação fisiológica dos sentidos, concebida como sustentação materialista da teoria do conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 107. Lange permanece ambivalente acerca da coisa em si: em alguns momentos a postula como causa externa inferida das aparências; | ||
| + | |||
| + | 108. Mach dá um passo adicional ao eliminar inteiramente a coisa em si e sustentar que os objetos da experiência não são representações de um mundo exterior oculto, mas complexos de sensações, | ||
| + | |||
| + | 109. A trajetória do neokantismo fisiológico revela uma dificuldade para os neuro-representacionalistas contemporâneos: | ||
| + | |||
| + | 110. Se cientistas são sujeitos humanos igualmente encerrados em suas simulações neurais, permanece sem explicação como poderiam transcender seus próprios modelos internos para alcançar a realidade física tal como seria em si mesma. | ||
| + | |||
| + | 111. Teorias científicas poderiam ser, dentro desse quadro, construções cognitivas tão dependentes do cérebro quanto qualquer outra experiência, | ||
| + | |||
| + | 112. O recurso à evolução não resolve o problema porque afirmar que representações confiáveis foram selecionadas por favorecerem sobrevivência já pressupõe conhecimento confiável do mundo evolutivo usado como fundamento da explicação. | ||
| + | |||
| + | 113. A intersubjetividade tampouco oferece saída imediata, pois, num modelo neurocêntrico e desencarnado que problematiza a existência do mundo exterior, a própria existência de outros sujeitos se torna epistemicamente tão incerta quanto qualquer outro objeto externo. | ||
| + | |||
| + | 114. Admitir simplesmente a falibilidade humana e considerar a ciência nossa melhor hipótese disponível não responde à dificuldade específica, | ||
| + | |||
| + | 115. A dificuldade mais profunda consiste em que a própria neurociência utilizada para justificar a desconfiança da percepção depende empiricamente da percepção de cérebros, equipamentos, | ||
| + | |||
| + | 116. Se martelos, laranjas e passaportes perceptivamente dados são construções cerebrais, então o cérebro visualmente percebido numa cirurgia ou numa imagem neurocientífica deveria pertencer ao mesmo mundo representacionalmente construído. | ||
| + | |||
| + | 117. A tentativa de desacreditar globalmente a percepção com base em descobertas neurocientíficas torna-se circular porque essas descobertas pressupõem precisamente a validade perceptiva que pretendem enfraquecer. | ||
| + | |||
| + | 118. O problema fundamental deixa então de ser como sair epistemicamente do cérebro e passa a ser como se poderia ter entrado nele, isto é, como seria possível conhecer a existência e a estrutura do cérebro se todos os meios perceptivos de acesso estivessem previamente desacreditados. | ||
| + | |||
| + | 119. O neuro-representacionalismo precisa, portanto, preservar arbitrariamente o cérebro como exceção real dentro de um mundo de aparências, | ||
| + | |||
| + | 120. O dilema é inevitável: | ||
| + | |||
| + | 121. Uma teoria em que a cognição esteja integralmente confinada de acordo com essas condições encontra dificuldades até para formular coerentemente sua própria justificação. | ||
| + | |||
| + | 122. É necessário, | ||
| + | |||
| + | 123. Hohwy interpreta a teoria de Friston como exigindo fronteira rígida entre sistema cognitivo e ambiente, incompatível com concepções estendidas, corporificadas e enativas da mente. | ||
| + | |||
| + | 124. Clark, ao contrário, considera a minimização do erro preditivo compatível com cognição situada, corporificada e distribuída e nega que ela introduza barreira representacional entre mente e mundo. | ||
| + | |||
| + | 125. Nessa interpretação, | ||
| + | |||
| + | 126. Propostas mais recentes procuram aproximar ainda mais os princípios de Friston do enativismo e eliminar resíduos representacionalistas, | ||
| + | |||
| + | 127. As objeções anteriores dirigem-se, portanto, sobretudo à leitura representacionalista da codificação preditiva e perdem força diante de alternativas não representacionalistas. | ||
| + | |||
| + | 128. A epistemologia neuro-representacionalista pode aparentar fundamento científico mais sólido que o idealismo de Husserl, mas preserva precariamente tanto o mundo cotidiano quanto a própria realidade científica e se aproxima da definição kantiana de idealismo empírico, segundo a qual somente a existência própria seria imediatamente experienciada e a existência das coisas exteriores apenas inferida. | ||
| + | |||
| + | 129. Husserl, apesar do idealismo transcendental, | ||
| + | |||
| + | 130. Ao rejeitar a coisa em si (Ding an sich), Husserl elimina a razão para diminuir o mundo experienciado como realidade “meramente para nós”, porque o mundo capaz de aparecer na percepção, | ||
| + | |||
| + | 131. Postular por detrás desse mundo uma realidade inteiramente transcendente a toda aparição, experiência e evidência teórica constitui, para Husserl, uma proposição vazia e contraditória. | ||
| + | |||
| + | 132. A crítica husserliana ao neokantismo fisiológico de Helmholtz funciona, nesse sentido, como argumento indireto em favor do próprio idealismo transcendental. | ||
| + | |||
| + | 133. Em Ideias I, Husserl rejeita a hipótese de que o objeto percebido seja apenas sinal subjetivo ou imagem ilusória de uma causa física verdadeira e oculta. | ||
| + | |||
| + | 134. Essa hipótese ignora a diferença categorial entre percepção, | ||
| + | |||
| + | 135. Formas signitivas e pictóricas de intencionalidade pressupõem a percepção e, portanto, não podem explicar originariamente como a percepção alcança seu objeto. | ||
| + | |||
| + | 136. A teoria também ignora que a coisa cotidiana percebida é precisamente a mesma coisa investigada pela física: planetas observados, água bebida, flores admiradas e objetos manipulados são aqueles aos quais a ciência atribui massa, temperatura, | ||
| + | |||
| + | 137. Não existem dois objetos ontologicamente separados — um objeto fenomenal intramental e um objeto físico extramental —, mas uma única coisa transcendente capaz de receber determinações sensíveis e teóricas distintas e compatíveis. | ||
| + | |||
| + | 138. A imagem manifesta e a imagem científica não precisam contradizer-se, | ||
| + | |||
| + | 139. O mundo científico não se situa ocultamente por trás ou abaixo do mundo cotidiano, mas constitui a mesma realidade manifesta ampliada e articulada mediante recursos teóricos científicos. | ||
| + | |||
| + | 140. Heidegger formula essa posição ao rejeitar a ideia de um fenômeno atrás do qual se esconderia outra realidade, pois aquilo que o fenômeno oferece é precisamente a própria coisa em sua manifestação. | ||
| + | |||
| + | 141. Definir o realmente real como causa desconhecida das experiências ou como realidade absolutamente independente de toda participação cognitiva conduz ao ceticismo em vez de assegurar a objetividade. | ||
| + | |||
| + | 142. Não existe perspectiva externa a partir da qual se possa comparar o objeto tal como aparece com o mesmo objeto completamente desvinculado de qualquer aparição ou apreensão. | ||
| + | |||
| + | 143. A objetividade envolve constitutivamente subjetividade e intersubjetividade, | ||
| + | |||
| + | 144. A concepção husserliana de realidade permanece intramundana e rejeita a hipótese cética de que mesmo a manifestação idealmente concordante do mundo pudesse ser compatível com uma realidade totalmente diferente em si mesma. | ||
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| + | **6.5 Fenomenologia e ciência** | ||
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| + | 145. A objeção da ancestralidade pretende mostrar que o correlacionismo seria incompatível com descobertas científicas acerca de épocas anteriores à existência de qualquer sujeito e, caso isso fosse verdadeiro, funcionaria como redução ao absurdo da posição fenomenológica. | ||
| + | |||
| + | 146. A exigência meillassouxiana de uma realidade existente independentemente de ser atualmente pensada não contradiz, porém, Husserl, que admite explicitamente que aquilo que pertence ao mundo em si mesmo é como é independentemente de qualquer sujeito particular tornar-se ou não consciente disso. | ||
| + | |||
| + | 147. Husserl não sustenta que objetos só existam enquanto efetivamente percebidos ou pensados e chegou inclusive a tratar diretamente do problema da constituição do mundo natural pré-histórico. | ||
| + | |||
| + | 148. A geologia e a paleontologia mostram um passado natural que ultrapassa amplamente a história individual e generativa, incluindo eras glaciais, períodos anteriores à vida orgânica e momentos anteriores à própria formação da Terra. | ||
| + | |||
| + | 149. O a priori correlacional permanece compatível com essa ancestralidade porque a realidade de algo não requer que esteja atualmente sendo conhecida por determinado sujeito nem que qualquer sujeito exista simultaneamente ao acontecimento. | ||
| + | |||
| + | 150. Um passado sem sujeitos é perfeitamente inteligível enquanto passado de um mundo no qual posteriormente surgem sujeitos capazes de reconstruí-lo racionalmente mediante experiências e inferências. | ||
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| + | 151. Uma natureza puramente material pode ocupar os períodos mais antigos da história do universo desde que pertença ao horizonte de um mundo posteriormente constituível por uma subjetividade capaz de reconstruir regressivamente esses períodos. | ||
| + | |||
| + | 152. Husserl aceita, portanto, a existência do universo anterior à consciência e sua possível persistência posterior ao desaparecimento da vida e rejeita como idealismo psicológico absurdo qualquer tentativa de fazer o ser do mundo depender do surgimento filogeneticamente tardio da humanidade. | ||
| + | |||
| + | 153. A verdade dessas afirmações científicas e a objetividade das reconstruções continuam, contudo, correlacionadas à consciência capaz de justificá-las. | ||
| + | |||
| + | 154. Formulações de Ser e tempo (Sein und Zeit) podem ser compreendidas em sentido semelhante quando Heidegger afirma que, sem ser-aí (Dasein), não haveria independência, | ||
| + | |||
| + | 155. A verdade existe enquanto desvelamento somente enquanto existe ser-aí capaz de descobrir os entes, razão pela qual as leis de Newton não eram “verdadeiras” antes de sua descoberta no sentido de desvelamento, | ||
| + | |||
| + | 156. A distinção entre perspectiva empírica e transcendental permite dizer que objetos existiam antes e continuarão existindo depois dos seres humanos, enquanto o próprio sentido de “independência da mente” permanece inteligível apenas dentro de um horizonte correlacional. | ||
| + | |||
| + | 157. A independência mental constitui, nesse sentido, uma realização de sentido: na ausência absoluta de qualquer mente não haveria sequer a distinção significativa entre dependência e independência mentais. | ||
| + | |||
| + | 158. O presente constitui o ponto historicamente originário a partir do qual o passado ancestral é reconstruído, | ||
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| + | 159. Dizer que afirmações ancestrais são verdadeiras “para nós” não acrescenta uma limitação relativista peculiar, mas reconhece que toda verdade disponível é necessariamente verdade acessível dentro de práticas epistêmicas e não comparável a uma suposta verdade situada fora de qualquer perspectiva possível. | ||
| + | |||
| + | 160. Nem vida cotidiana nem prática científica permitem abandonar inteiramente a finitude e obter uma perspectiva absolutamente “de lugar nenhum”, razão pela qual geologia e astrofísica não eliminam por si mesmas a dimensão correlacional do conhecimento. | ||
| + | |||
| + | 161. A acusação de arrogância dirigida ao correlacionismo pode ser invertida, pois realistas especulativos não apenas afirmam conhecer aquilo que supostamente transcende qualquer acesso humano, mas em alguns casos reivindicam conhecimento absoluto, como indica o próprio projeto de Meillassoux de pensar “depois da finitude”. | ||
| + | |||
| + | 162. O correlacionismo pode, ao contrário, representar reconhecimento filosófico da finitude e do caráter perspectivo de todo conhecimento. | ||
| + | |||
| + | 163. Apesar das controvérsias interpretativas acerca da relação entre mundo perceptivo e mundo científico em Husserl, permanece constante sua recusa de que as ciências naturais alcancem uma realidade transfenomenal inteiramente desconectada da correlação intencional. | ||
| + | |||
| + | 164. Não é possível observar lateralmente as próprias experiências para verificar se correspondem a uma realidade situada fora de qualquer experiência, | ||
| + | |||
| + | 165. Todo acesso epistêmico à realidade é perspectivo, | ||
| + | |||
| + | 166. Essa posição não implica hostilidade à ciência, pois Husserl aceita a possibilidade do conhecimento científico, | ||
| + | |||
| + | 167. A incompatibilidade surge quando o realismo científico acrescenta a tese metafísica de que a realidade investigada pela ciência seria absolutamente independente das perspectivas experienciais e teóricas por meio das quais se torna cognoscível. | ||
| + | |||
| + | 168. Husserl também rejeitaria qualquer associação entre realismo científico e cientificismo que transformasse os métodos das ciências naturais na única via legítima de acesso epistêmico e declarasse inexistente tudo aquilo que não pudesse ser descrito por seu vocabulário. | ||
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| + | 169. O realismo especulativo enfrenta então um dilema: se simplesmente entrega à ciência a autoridade para decidir questões filosóficas profundas, sua crítica ao correlacionismo apenas repete argumentos cientificistas já formulados por autores anteriores, como Russell. | ||
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| + | 170. Russell já sustentava que astronomia e geologia refutariam Kant e Hegel ao mostrarem que a mente surgiu tardiamente num universo cujos processos anteriores não dependiam dela, de modo que o realismo especulativo pouco acrescentaria se apenas reiterasse essa inferência. | ||
| + | |||
| + | 171. Caso os realistas especulativos não se limitem a deferir à ciência, precisam oferecer argumentos propriamente filosóficos e, especialmente, | ||
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| + | 172. O tratamento da filosofia da ciência em Meillassoux permanece insuficiente, | ||
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| + | 173. A avaliação crítica do realismo especulativo revela credenciais realistas duvidosas, que variam do ceticismo harmaniano e sua reintrodução de algo semelhante ao domínio noumênico kantiano até o niilismo radical de Brassier, permanecendo em aberto a coerência dessas posições. | ||
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| + | 174. O realismo especulativo também permanece epistemologicamente subdeterminado porque, enquanto Husserl chega às suas teses sobre realidade mediante análise sistemática da intencionalidade e mesmo realistas científicos reconhecem a necessidade de explicar como conhecimento de uma realidade independente da mente é possível, os realistas especulativos oferecem pouco em termos de teoria do conhecimento capaz de justificar suas próprias afirmações metafísicas. | ||
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| + | 175. A grande divergência entre Harman, Meillassoux e Brassier também coloca em questão a própria unidade do rótulo “realismo especulativo”, | ||
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| + | 176. A simples referência a um “compromisso com a especulação” apenas repete o problema de sua legitimidade, | ||
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| + | 177. A pretensão de que o realismo especulativo inaugure novos avanços no pensamento da realidade e represente simultaneamente o “fim da filosofia” permite uma inversão irônica da acusação inicialmente dirigida à fenomenologia: | ||
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