husserliana:zahavi:hl:internalismo
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| husserliana:zahavi:hl:internalismo [14/08/2026 09:54] – created - external edit 127.0.0.1 | husserliana:zahavi:hl:internalismo [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Internalismo, | ||
| + | //ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, | ||
| + | |||
| + | 1. A máxima délfica “conhece-te a ti mesmo” adquire novo sentido na fenomenologia transcendental: | ||
| + | 2. A adesão explícita de Husserl ao idealismo transcendental não confirma automaticamente as acusações de internalismo e solipsismo, pois a investigação de sua concepção madura da relação entre consciência e mundo conduz justamente à conclusão oposta. | ||
| + | |||
| + | **4.1 Internalismo e solipsismo metodológico** | ||
| + | |||
| + | 3. “Internalismo” e “externalismo” designam famílias de posições distintas, razão pela qual qualquer classificação exige especificar qual dimensão está em questão, podendo-se começar pela distinção de Rowlands entre a tese da posse e a tese da localização. | ||
| + | * A tese da posse afirma que um fenômeno mental pode pertencer ao sujeito independentemente de qualquer característica situada além de seus limites. | ||
| + | * A tese da localização afirma que todo fenômeno mental se encontra espacialmente dentro dos limites do sujeito que o possui ou experimenta. | ||
| + | 4. O externalismo pode rejeitar somente a tese da posse ou ambas as teses, permitindo distinguir um externalismo de conteúdo, segundo o qual o conteúdo mental depende de fatores ambientais embora os processos mentais possam continuar internamente localizados, | ||
| + | * O externalismo de conteúdo não implica, por si só, que a mente “não esteja na cabeça”. | ||
| + | * O externalismo de veículo sustenta uma tese mais radical: percepção e cognição são transações com o mundo, não processos puramente internos. | ||
| + | 5. Rowlands classifica Husserl como internalista cartesiano e Sartre como externalista radical, porque Sartre rejeita tanto a posse quanto a localização internas dos conteúdos mentais e interpreta a intencionalidade como abertura vazia da consciência ao ser transcendente. | ||
| + | * Para Sartre, consciência não contém dados sensoriais, qualia ou representações que façam mediação com o mundo. | ||
| + | * As propriedades fenomênicas pertencem às próprias coisas mundanas e não a entidades localizadas dentro da cabeça. | ||
| + | 6. Dreyfus também interpreta Husserl como internalista e solipsista metodológico, | ||
| + | * O problema resultante seria precisamente tentar reconstruir posteriormente a relação [[lx> | ||
| + | * A superação dessa dificuldade exigiria rejeitar a tese de que a referência a objetos depende de representações internas. | ||
| + | 7. A crítica de Dreyfus apoia-se sobretudo em sua interpretação husserliana da [[lx> | ||
| + | * A redução seria um procedimento de purificação que excluiria os componentes exteriores ou transcendentes e desviaria a atenção dos objetos mundanos e das experiências psicológicas concretas para representações mentais abstratas. | ||
| + | * O resultado seria uma fenomenologia interessada apenas naquilo que permanece internamente depois que o mundo e as questões de existência foram postos entre parênteses. | ||
| + | 8. A interpretação fregeana do noema desenvolvida por Føllesdal e adotada por Dreyfus concebe o noema como estrutura abstrata mediante a qual a mente se refere aos objetos, transformando Husserl no precursor de uma teoria geral da representação mental. | ||
| + | 9. A interpretação da redução como exclusão dos objetos transcendentes articula-se diretamente à concepção fregeana do noema, pois a primeira isolaria os conteúdos internos e a segunda identificaria nesses conteúdos semânticos a mediação necessária para que a consciência alcance seus supostos objetos exteriores. | ||
| + | 10. Carman e McIntyre também combinam a interpretação fregeana do noema com uma leitura internalista de Husserl, segundo a qual conteúdos mentais internos tornariam possível a referência a objetos exteriores mesmo quando estes não existissem. | ||
| + | * McIntyre entende a epoché e a redução como exclusão de tudo o que é extramental. | ||
| + | * O solipsismo metodológico husserliano seria, nessa leitura, ainda mais radical do que o de teorias representacionalistas contemporâneas. | ||
| + | 11. McIntyre reconhece, contudo, que a própria fenomenologia husserliana contém elementos incompatíveis com um internalismo estrito, especialmente a análise dos demonstrativos e da percepção como intencionalidade dirigida a este objeto singular, e não apenas a qualquer objeto que satisfaça determinada descrição. | ||
| + | * Referências demonstrativas dependem de circunstâncias concretas do sujeito, da ocasião e da situação ambiental. | ||
| + | * Tais fatores pragmáticos e contextuais parecem incompatíveis com uma teoria em que toda referência seja determinada exclusivamente pelo conteúdo fenomenológico interno. | ||
| + | 12. Mesmo a ampliação husserliana do conteúdo fenomenológico para incluir horizontes, experiências anteriores e contextos não solucionaria, | ||
| + | 13. Dreyfus, Carman e McIntyre, apesar de divergirem em sua avaliação final, compartilham uma insatisfação fundamental com a maneira pela qual a fenomenologia transcendental supostamente conceberia a relação entre mente e mundo. | ||
| + | 14. A classificação de Husserl como internalista pode ser contestada mediante uma interpretação alternativa do noema, associada sobretudo a Drummond e Sokolowski, que se harmoniza melhor com uma concepção não internalista da epoché e da redução e permite posteriormente reconsiderar o próprio idealismo transcendental e a acusação de solipsismo metodológico. | ||
| + | |||
| + | **4.2 Intencionalidade e noema** | ||
| + | |||
| + | 15. A chamada interpretação da Costa Oeste, associada a Føllesdal, Dreyfus, Miller, Smith e McIntyre, entende o noema como significado ou sentido abstrato distinto tanto do ato quanto do objeto e mediador da relação intencional entre ambos. | ||
| + | * A intencionalidade é modelada segundo a referência linguística fregeana: assim como uma expressão alcança sua referência por meio do sentido, a consciência alcançaria o objeto por meio do noema. | ||
| + | * O noema seria aquilo mediante o qual, e não aquilo para o qual, a consciência se dirige. | ||
| + | 16. A interpretação da Costa Leste, defendida por Sokolowski, Drummond, Hart e Cobb-Stevens, | ||
| + | * O noema não é significado ideal, conceito, proposição ou entidade interposta entre sujeito e objeto. | ||
| + | * Trata-se do próprio objeto considerado fenomenologicamente: | ||
| + | * A redução não desvia o olhar do objeto mundano para uma representação mental, mas permite considerar o próprio objeto como correlato de sua maneira de ser intencionado e dado. | ||
| + | 17. Nessa leitura apresentacionalista, | ||
| + | 18. A diferença entre objeto e noema é, portanto, uma diferença estrutural ou de modo de consideração e não uma diferença ontológica entre duas entidades, pois o mesmo objeto pode ser considerado primeiramente na atitude direta e depois reflexivamente em seus modos de autodoação. | ||
| + | 19. As teorias da intencionalidade costumam distinguir modelos diádicos, em que ato e objeto se relacionam diretamente, | ||
| + | 20. O modelo brentaniano enfrenta a dificuldade de explicar experiências dirigidas a objetos inexistentes, | ||
| + | * Se tanto percepção quanto alucinação fossem dirigidas a objetos intencionais de estatuto especial, o mundo real somente seria alcançado através de um véu de intermediários. | ||
| + | 21. Husserl evita essa dificuldade ao compreender a intencionalidade não como relação ordinária com objeto extraordinário, | ||
| + | * Na alucinação de um elefante cor-de-rosa, | ||
| + | * Apesar disso, o ato continua dirigido intencionalmente a um objeto transcendente. | ||
| + | * Não é necessário atribuir qualquer espécie peculiar de existência ao objeto inexistente para preservar a intencionalidade. | ||
| + | 22. A interpretação fregeana sustenta que apenas uma teoria mediacional do noema explicaria satisfatoriamente a alucinação, | ||
| + | 23. Essa defesa da interpretação fregeana reproduz a estrutura do argumento da ilusão ou da alucinação, | ||
| + | * A chamada tese conjuntiva explica o sucesso perceptivo como soma de um componente compartilhado com o fracasso e outro exclusivo dos casos bem-sucedidos. | ||
| + | 24. Aplicada à fenomenologia, | ||
| + | 25. Como o argumento da ilusão é contestado por externalistas e antirrepresentacionalistas, | ||
| + | 26. A. D. Smith sustenta que percepção e alucinação diferem intrinsecamente como experiências, | ||
| + | * Cada cogito possui seu cogitatum determinado e o percebe segundo uma modalidade particular. | ||
| + | * Perceber não significa apenas perceber determinado tipo de coisa, mas esta coisa individual. | ||
| + | 27. O exemplo de duas latas idênticas de sopa Heinz substituídas sem conhecimento do observador mostra que experiências dirigidas a objetos numericamente diferentes não possuem completa identidade de sentido, mesmo quando o sujeito acredita estar vendo o mesmo objeto. | ||
| + | 28. A mesma consequência vale para a relação entre percepção e alucinação: | ||
| + | 29. Consideradas em seu desenvolvimento temporal e em seus horizontes de experiências possíveis, percepção e alucinação deixam inclusive de ser fenomenologicamente indiscerníveis, | ||
| + | * A diferença não depende de um observador exterior situado além da experiência. | ||
| + | * Ela emerge intra e interexperiencialmente no curso temporal da própria vida consciente. | ||
| + | 30. A dificuldade aparente de afirmar que o noema seja o próprio objeto quando a alucinação não possui objeto pode ser enfrentada reconhecendo-se que as experiências alucinatórias continuam essencialmente dirigidas e envolvidas com o mundo, apresentando-o de maneira errônea e não como se fossem experiências completamente desligadas de qualquer realidade. | ||
| + | 31. Hopp ressalta que uma alucinação somente pode constituir erro sobre o mundo porque permanece minimamente acerca dele, enquanto Drummond observa que mesmo uma miragem envolve elementos efetivamente existentes, como o deserto, apresentados de maneira divergente daquela em que realmente existem. | ||
| + | * Intencionar algo inexistente pode fracassar em determinado nível de referência e continuar bem-sucedido em outros. | ||
| + | * Mesmo objetos imaginários como Pégaso extraem materiais e significações do mundo efetivo. | ||
| + | 32. A interpretação da Costa Leste pode, assim, conservar uma teoria diádica da intencionalidade sem regressar a Brentano, pois o ato consciente permanece diretamente aberto ao mundo e o conteúdo é o próprio objeto enquanto intencionado, | ||
| + | 33. O significado permanece mundano e correlacionado à mente, não encerrado nela nem situado num domínio ideal separado, e a perspectiva particular sob a qual o objeto aparece não converte o acesso numa mediação representacional indireta. | ||
| + | 34. As dificuldades colocadas pelas alucinações não são, portanto, decisivas contra a interpretação da Costa Leste, apesar da importância atribuída a elas pelos defensores da interpretação fregeana. | ||
| + | 35. As duas interpretações do noema apoiam-se em diferentes conjuntos de passagens husserlianas, | ||
| + | 36. Ideias III pode parecer apoiar a leitura fregeana ao distinguir a investigação fenomenológica da consciência de coisas físicas da investigação ontológica das próprias coisas e ao incluir como correlato o percebido-enquanto-percebido, | ||
| + | 37. A famosa análise de Ideias I segundo a qual a árvore física pode queimar enquanto a árvore-percebida-enquanto-tal não pode queimar parece igualmente sugerir uma diferença categorial entre o objeto simples e seu sentido noemático. | ||
| + | 38. A interpretação da Costa Leste responde que a diferença de predicados continua válida mesmo se o noema for o próprio objeto enquanto intencionado, | ||
| + | 39. Passagens posteriores de Husserl rejeitam explicitamente a ideia de que a consciência se relacione ao objeto transcendente “por meio” de um sentido noemático imanente, qualificando essa formulação como problemática e, rigorosamente, | ||
| + | 40. Fink, em interpretação endossada pelo próprio Husserl, distingue o noema psicológico, | ||
| + | * Na atitude transcendental, | ||
| + | * A diferença entre noema e objeto transforma-se numa articulação interna à própria estrutura noemática. | ||
| + | 41. Bernet identifica em Ideias I ao menos três sentidos distintos de noema — aparição concreta, significado ideal e objeto constituído —, indicando que a ambiguidade textual ajuda a explicar a coexistência de interpretações divergentes. | ||
| + | 42. Ströker considera [[lx> | ||
| + | 43. Qualquer interpretação adequada do noema deve, portanto, ser integrada a uma interpretação global da filosofia transcendental husserliana, | ||
| + | |||
| + | **4.3 Idealismo transcendental** | ||
| + | |||
| + | 44. Se o internalismo significa que o acesso ao mundo depende de representações internas das quais primeiro se teria consciência, | ||
| + | * O noema é o próprio objeto mundano enquanto intencionado. | ||
| + | * O significado não está na mente, mas encontra-se incorporado ao mundo e correlacionado à subjetividade. | ||
| + | * Como seres intencionais, | ||
| + | 45. A objeção segundo a qual o idealismo transcendental revelaria um internalismo mais profundo exige examinar diretamente o significado do idealismo husserliano em vez de simplesmente deduzi-lo da terminologia tradicional. | ||
| + | 46. Não há dúvida de que Husserl considerava o idealismo transcendental inseparável da fenomenologia, | ||
| + | 47. Essa identificação não autoriza importar definições tradicionais de “idealismo”, | ||
| + | 48. A tentativa de reduzir o idealismo husserliano à defesa da existência de objetos ideais ou universalidades é insuficiente, | ||
| + | 49. O idealismo transcendental é simultaneamente antirrepresentacionalista, | ||
| + | * Um homúnculo interior que examinasse imagens precisaria reconhecer que elas representam objetos externos, exigindo novas representações e produzindo regressão infinita. | ||
| + | * Semelhança não basta para constituir representação, | ||
| + | * Uma imagem só funciona representacionalmente quando é apreendida conscientemente como imagem. | ||
| + | 50. Toda teoria representacional da percepção pressupõe, portanto, justamente aquilo que pretende explicar, pois é necessário perceber inicialmente o objeto que funcionará como signo ou imagem para posteriormente conferir-lhe função representativa. | ||
| + | 51. A percepção não oferece imagens internas das coisas, mas as próprias coisas em presença corporal, enquanto pensamento e imaginação podem intencionar objetos ausentes. | ||
| + | * O traço definidor da percepção é a apresentação do próprio objeto e não a apresentação de um signo que substitui uma realidade desconhecida. | ||
| + | 52. O idealismo husserliano deve ser compreendido a partir dessa rejeição rigorosa do representacionalismo, | ||
| + | 53. Consciência e ser real não constituem domínios independentes que ocasionalmente entram em relação, mas pertencem a priori um ao outro, e não faz sentido admitir simultaneamente uma série de aparições perfeitamente coerentes sem objeto correspondente ou um objeto real absolutamente incapaz de manifestar-se. | ||
| + | 54. [[lx> | ||
| + | 55. Philipse e A. D. Smith interpretam essa relação constitutiva como dependência metafísica e, por isso, consideram Husserl um idealista metafísico. | ||
| + | 56. Philipse atribui a Husserl um idealismo redutivo segundo o qual o mundo seria ontologicamente dependente da consciência como sua projeção. | ||
| + | 57. A. D. Smith reconhece corretamente que a fenomenologia transcendental investiga não apenas sentidos objetivos, mas também o que significa determinada classe de objeto existir realmente, e interpreta a realidade como ideal regulador de confirmação intersubjetiva última. | ||
| + | 58. Smith conclui, contudo, que Husserl seria um idealista absoluto para quem fatos físicos supervêm a fatos experienciais e nada existiria na ausência de consciência, | ||
| + | 59. A dependência metafísica não pode ser entendida como causalidade, | ||
| + | 60. Tampouco a dependência constitutiva pode ser entendida como redução, pois Husserl rejeita explicitamente o fenomenalismo e sustenta que a análise física de uma coisa conduz a átomos e moléculas, não a estados conscientes. | ||
| + | * A natureza é realidade verdadeira em sentido pleno. | ||
| + | * Explicar coisas, átomos e processos naturais como abreviações para sensações constitui, para Husserl, um erro extremo. | ||
| + | * Uma coisa material é um tipo de ser inteiramente diferente de uma vivência. | ||
| + | 61. A interpretação da dependência como superveniência parece inicialmente mais promissora porque permitiria distinguir objeto e consciência, | ||
| + | 62. Transformar constituição em fundação ou superveniência apagaria ainda a diferença entre idealismo transcendental e idealismo metafísico que Husserl preserva deliberadamente. | ||
| + | 63. A interpretação deflacionária segundo a qual o idealismo transcendental seria apenas metodológico e a subjetividade constituiria unicamente o sentido do mundo também é insuficiente, | ||
| + | 64. O idealismo de Husserl é transcendental, | ||
| + | * Seu adversário principal não é o materialismo, | ||
| + | * Nenhum objeto efetivo é pensável sem subjetividade efetiva capaz de realizá-lo cognitivamente. | ||
| + | * Inversamente, | ||
| + | 65. Algumas formulações de Ideias I parecem perturbar essa reciprocidade ao afirmar que a consciência pura poderia subsistir mesmo se o mundo fosse aniquilado, tornando o ser da consciência absoluto e necessário e o do mundo contingente e relativo. | ||
| + | 66. A hipótese da aniquilação do mundo não deve, porém, ser interpretada como ceticismo global segundo o qual o mundo poderia aparecer exatamente como aparece sem realmente existir, pois Husserl considera contraditória a possibilidade de experiências perfeitamente coerentes e racionalmente motivadas coexistirem com a inexistência do mundo correspondente. | ||
| + | 67. A função dessa hipótese é preservar a possibilidade de formas não intencionais de consciência, | ||
| + | * Experiências perceptivas genuínas envolvem a presença do objeto percebido e não podem ocorrer sem ele. | ||
| + | * Entretanto, formas de consciência podem existir sem um sistema coerente de objetivação mundana, como poderia ocorrer em experiências infantis muito primitivas ou em determinados estados psicóticos. | ||
| + | 68. A análise de Ideias I permanece problemática ao inferir da possível desintegração da experiência de objetos a possível destruição da experiência do mundo, porque a falibilidade acerca de coisas singulares não pode ser simplesmente transferida para a totalidade mundana. | ||
| + | 69. Husserl posteriormente reconhece que a possibilidade de duvidar de cada objeto particular pressupõe o ser do mundo e não autoriza a transformação da própria totalidade mundana em objeto de dúvida equivalente. | ||
| + | 70. Outra formulação problemática de Ideias I consiste em descrever a subjetividade transcendental como região independente de ser, expressão que sugere indevidamente uma ontologia regional da consciência comparável à das coisas físicas ou dos objetos ideais. | ||
| + | 71. As imagens cartesianas de uma consciência fechada devem ser relativizadas pelas próprias continuações dos textos, nas quais essa esfera não é espacialmente exterior a nada nem possui fronteiras que a separem de outras regiões. | ||
| + | * A relação entre ser transcendental e ser transcendente não pode ser adequadamente expressa pelas metáforas espaciais de interior e exterior. | ||
| + | * A subjetividade transcendental não é uma região adicional do ser, mas o dativo da manifestação no qual relações entre regiões podem tornar-se acessíveis. | ||
| + | 72. Conceber a relação constitutiva como superveniência perde precisamente essa função transcendental da subjetividade enquanto condição de manifestação. | ||
| + | 73. A concentração de Ideias I no sujeito solitário também torna incompleta sua apresentação do idealismo, mas essa limitação não expressa a posição definitiva de Husserl, que já reconhecia em 1913 a significação transcendental da intersubjetividade e pretendia desenvolvê-la em Ideias II. | ||
| + | * O atraso de quase quarenta anos na publicação de Ideias II contribuiu decisivamente para a recepção do idealismo husserliano como solipsista. | ||
| + | * Na concepção madura, a comunidade intersubjetiva de sujeitos corporificados desempenha função transcendental fundamental. | ||
| + | 74. A caracterização do sujeito como ser absoluto deve ser compreendida a partir da fenomenologia do tempo e da autodoação, | ||
| + | 75. A análise da consciência interna do tempo constitui a dimensão verdadeiramente absoluta porque esclarece simultaneamente como objetos temporais aparecem e como o próprio fluxo experiencial se manifesta para si mesmo. | ||
| + | 76. A consciência reflexiva de si funda-se numa autodoação pré-reflexiva anterior, pois um ato só pode tornar-se objeto de reflexão porque já estava previamente consciente e dado antes de ser tematizado. | ||
| + | * A vida experiencial é intrinsecamente automanifestante. | ||
| + | * O fluxo temporal não necessita de um segundo fluxo para aparecer a si mesmo, pois sua automanifestação é constitutiva de sua própria estrutura. | ||
| + | 77. O caráter absoluto da subjetividade significa, portanto, ser-para-si, | ||
| + | 78. Sartre emprega uma concepção semelhante do absoluto ao afirmar que a consciência, | ||
| + | 79. Michel Henry radicaliza essa linha ao distinguir manifestação objetiva e automanifestação subjetiva e sustentar que a primeira pressupõe a segunda, interpretando a subjetividade absoluta como autoafecção imediata, não objetivante e passiva. | ||
| + | 80. Embora Husserl também tenha associado o absoluto à autossuficiência da automanifestação, | ||
| + | |||
| + | **4.4 Facticidade e constituição** | ||
| + | |||
| + | 81. A afirmação de que nada real ou objetivo poderia existir sem consciência não equivale à tese mais forte de que a consciência seja condição suficiente para tudo o que existe, sendo necessário distinguir cuidadosamente necessidade transcendental e poder metafísico de produção. | ||
| + | * A consciência pode ser condição necessária da manifestação sem constituir por si só condição suficiente da existência concreta de todas as coisas. | ||
| + | * O transcendental não é uma causa capaz de criar o restante do ser a partir de si mesmo. | ||
| + | 82. O fato de Husserl frequentemente afirmar que o objeto “se constitui” na consciência indica justamente que a constituição não é fabricação unilateral, mas relação correlacional na qual toda aparição é aparição de algo para alguém. | ||
| + | 83. A intencionalidade contém simultaneamente um dativo e um genitivo da manifestação: | ||
| + | 84. O ego concreto não pode ser pensado isoladamente daquilo que lhe é estranho, pois pertence à essência da intencionalidade que a consciência seja consciência de algo que não é ela mesma. | ||
| + | * Nenhum eu é concebível sem um não-eu ao qual esteja intencionalmente relacionado. | ||
| + | * Eu e alteridade são estruturalmente inseparáveis, | ||
| + | 85. A linguagem husserliana de doação de sentido (Sinngebung) pode sugerir um sujeito ativo que impõe arbitrariamente estruturas ao mundo, mas a análise madura reconhece explicitamente que toda atividade egológica pressupõe passividade, | ||
| + | 86. O eu concreto contém um núcleo de hyle que não é ego e, contudo, lhe pertence essencialmente, | ||
| + | 87. O esquema inicial segundo o qual sensações sem significado somente se tornariam intencionais mediante uma interpretação objetivante mostrou-se fenomenologicamente problemático porque experiências ordinárias já se apresentam significativas e conteúdos absolutamente sem sentido dificilmente poderiam orientar ou restringir sua própria interpretação. | ||
| + | 88. Husserl abandona progressivamente a separação rígida entre sensação e intenção e passa a reconhecer o dado sensível como intrinsecamente significativo e aberto ao mundo, embora permaneça a diferença entre uma pré-doação ainda indeterminada e sua apreensão plena como objeto. | ||
| + | * Pode-se distinguir ouvir um aumento de intensidade sonora de ouvir um automóvel aproximando-se. | ||
| + | * Pode-se distinguir sentir uma dor localizada de apreendê-la como picada de uma agulha. | ||
| + | 89. O abandono do sensualismo torna ainda mais claro que o idealismo husserliano não deriva um mundo dotado de sentido a partir de dados sensoriais originalmente destituídos de significado. | ||
| + | 90. A constituição tampouco permite deduzir conteúdos concretos a partir de estruturas formais do ego, e a insistência husserliana na facticidade serve precisamente para impedir essa interpretação. | ||
| + | 91. A impressão originária apresenta-se ao ego como algo já dado e estrangeiro (ichfremd), e a espontaneidade da consciência não cria o novo conteúdo sensível, mas desenvolve e articula aquilo que inicialmente recebe. | ||
| + | 92. A hyle constitui domínio de facticidade que escapa ao controle do ego e se oferece passivamente sem sua participação ativa, tornando-se um dos fatos primordiais dos quais dependem mundo e intersubjetividade. | ||
| + | 93. A constituição pode, assim, ser compreendida como envolvendo duas fontes primordiais — ego e não-eu — inseparáveis e abstratas quando consideradas isoladamente. | ||
| + | * Ambos são momentos estruturais irredutíveis do processo pelo qual algo chega à manifestação. | ||
| + | * Husserl chega a identificar o não-eu com o mundo e a falar de um “não-eu transcendental”. | ||
| + | 94. A subjetividade é condição necessária, | ||
| + | 95. Essa concepção aproxima-se de Merleau-Ponty, | ||
| + | 96. O reconhecimento da facticidade ainda permite perguntar se Husserl não chega finalmente a abandonar até mesmo a autossuficiência da automanifestação da consciência, | ||
| + | 97. A análise da consciência interna do tempo revela apenas estruturas formais abstratas, pois a tríade protensão-impressão originária-retenção necessita de conteúdo sensível e não pode funcionar sem a afetividade que fornece aquilo que efetivamente preenche a temporalização. | ||
| + | 98. A fenomenologia da consciência temporal deve, portanto, ser complementada por uma fenomenologia da associação, | ||
| + | 99. A automanifestação parece então caminhar sempre conjuntamente com uma heteromanifestação, | ||
| + | 100. O reconhecimento do mundo como não-eu transcendental e da facticidade como componente da constituição não reconduz Husserl ao realismo metafísico, | ||
| + | 101. Sartre capta essa posição ao afirmar que Husserl simultaneamente recusa dissolver as coisas na consciência e recusa tratá-las como absolutos independentes que posteriormente entrariam em relação com ela: consciência e mundo são dados conjuntamente, | ||
| + | 102. A distinção de Allais entre propriedades manifestas e propriedades essencialmente manifestas esclarece a posição husserliana, | ||
| + | 103. A lição fundamental da intencionalidade consiste em que existe algo transcendente à consciência, | ||
| + | * Dependência em relação à consciência não significa localização intramental. | ||
| + | * Objetos podem possuir suas propriedades mesmo quando não estão sendo atualmente experienciados. | ||
| + | * Podem existir antes do surgimento e depois do desaparecimento de determinados sujeitos empíricos. | ||
| + | * Sua transcendência consiste em ocuparem espaço público e serem intersubjetivamente acessíveis, | ||
| + | 104. A investigação da intencionalidade oferece simultaneamente conhecimento sobre a mente e sobre o estatuto da realidade porque ambas se encontram correlacionadas, | ||
| + | 105. O correlacionismo recusa tanto um mundo em si independente de toda consciência quanto uma consciência única dentro da qual o mundo seria simples conteúdo, sustentando antes uma dependência mútua entre consciência e mundo, sujeito e objeto, eu e mundo. | ||
| + | 106. O idealismo transcendental husserliano não reduz objetos à mente nem afirma que eles supervenham a processos mentais, mas sustenta sua dependência constitutiva da subjetividade transcendental sem fazer dessa subjetividade sua causa produtora. | ||
| + | * A consciência não determina por que a água é composta de hidrogênio e oxigênio. | ||
| + | * Constituição significa permitir que aquilo que é constituído apareça, se desenvolva e se manifeste como aquilo que é. | ||
| + | 107. Heidegger formula esse sentido ao esclarecer que “constituir” não significa fabricar ou produzir, mas deixar que o ente se mostre em sua objetividade. | ||
| + | 108. Depois da redução, sentido de ser ([[lx> | ||
| + | 109. A apresentabilidade pertence filosoficamente ao próprio ser, porque a possibilidade de manifestação requer um dativo para o qual as coisas podem aparecer, sem que esse dativo seja responsável por criá-las. | ||
| + | |||
| + | **4.5 Além do internalismo e do externalismo** | ||
| + | |||
| + | 110. A classificação tradicional que opõe Husserl como internalista a Heidegger e Merleau-Ponty como externalistas é simplificadora porque ignora tanto os elementos não internalistas de Husserl quanto aspectos do próprio Heidegger incompatíveis com um externalismo tradicional. | ||
| + | 111. Heidegger sustenta que a percepção é intrinsecamente intencional independentemente da existência efetiva do objeto e rejeita compreender a intencionalidade como relação externa entre sujeito psíquico e objeto físico. | ||
| + | * A intencionalidade pertence ao próprio perceber, seja a percepção verdadeira ou ilusória. | ||
| + | * A vida possui autossuficiência ([[lx> | ||
| + | 112. Se externalismo significar reduzir intencionalidade a covariações causais externas, nenhum dos principais fenomenólogos seria externalista, | ||
| + | 113. McDowell combina explicitamente um externalismo do significado e da mente com simpatias pelo idealismo transcendental pós-kantiano, | ||
| + | 114. A distinção de Anthony Rudd entre externalismo realista e externalismo kantiano mostra que ambos ligam constitutivamente mente e mundo, mas o segundo acrescenta que o próprio mundo fenomenal também depende da mente. | ||
| + | 115. A fenomenologia radicaliza essa orientação ao rejeitar como sem sentido a coisa em si ([[lx> | ||
| + | 116. A pergunta tradicional sobre se a intencionalidade é determinada por fatores internos ou externos à mente torna-se instável quando o externalismo sustenta justamente que o mundo não é exterior à mente e quando o internalismo pode ampliar suficientemente sua noção de mente para incluir relações mundanas. | ||
| + | 117. A análise heideggeriana do ser-aí ([[lx> | ||
| + | * Conhecer não significa retornar com um objeto capturado para um “gabinete” interno da consciência. | ||
| + | * Perceber, conservar e compreender ocorrem enquanto o ser-aí permanece originariamente junto às coisas. | ||
| + | 118. As categorias de interior e exterior não conseguem, portanto, caracterizar adequadamente a relação entre ser-aí e mundo, porque aquele já habita entre as coisas e não possui um interior isolado do qual pudesse posteriormente sair. | ||
| + | 119. Merleau-Ponty expressa a mesma dissolução da oposição ao afirmar que interior e exterior são inseparáveis, | ||
| + | 120. Essa crítica à divisão entre interioridade psíquica e exterioridade física já aparece nas Investigações lógicas e torna-se ainda mais explícita depois da virada transcendental husserliana. | ||
| + | 121. Para Husserl, dizer que o ego transcendental não possui exterior não significa absorver o mundo na consciência, | ||
| + | 122. A consciência não é recipiente nem lugar especial, mas abertura intencional, | ||
| + | 123. A inserção de Husserl no debate internalismo-externalismo torna-se, assim, conceitualmente enganosa, pois esse debate tende a conservar as próprias metáforas espaciais que a fenomenologia procura desmontar. | ||
| + | 124. A redução transcendental elimina o dualismo entre mente autocontida e mundo sem mente e conduz a uma investigação da fenomenalidade anterior à distinção entre interior psíquico e exterior físico, isto é, do campo no qual qualquer coisa pode manifestar-se. | ||
| + | |||
| + | **4.6 Intersubjetividade e o transcendental** | ||
| + | |||
| + | 125. Mesmo abandonada a acusação de internalismo, | ||
| + | 126. A intersubjetividade não constitui problema periférico acrescentado posteriormente à fenomenologia transcendental, | ||
| + | 127. A relação de Husserl com Kant desenvolveu-se de uma rejeição inicial, influenciada por Brentano, para o reconhecimento de afinidades profundas entre ambos os projetos, sobretudo depois que a redução fenomenológica revelou a dimensão originária das formações de conhecimento. | ||
| + | 128. Husserl reconhece explicitamente que sua utilização do termo “transcendental” retoma um conceito kantiano e atribui à revolução copernicana de Kant o mérito de inaugurar uma ciência filosófica voltada à constituição do sentido do mundo. | ||
| + | 129. A aproximação com Kant é particularmente importante contra interpretações psicologistas da fenomenologia, | ||
| + | 130. Na Crise, Husserl caracteriza a fenomenologia como forma final (Endform) da filosofia transcendental e adota uma concepção mais ampla do transcendental como reflexão radical sobre a base em primeira pessoa de todas as formações de conhecimento. | ||
| + | 131. Essa concepção permite incluir Descartes, Berkeley e Hume, além de Kant, na história do motivo transcendental, | ||
| + | 132. Husserl critica Kant por uma epistemologia ainda metafisicamente contaminada, | ||
| + | 133. A diferença metodológica aparece especialmente na oposição entre o caminho kantiano “de cima”, regressivo e construtivo, | ||
| + | * A fenomenologia exige evidência intuitiva das estruturas constituintes. | ||
| + | * A dedução transcendental kantiana permanece excessivamente distante da análise concreta da consciência. | ||
| + | 134. A fenomenologia representa, portanto, um modelo transcendental fundamentado na evidência e na intencionalidade, | ||
| + | 135. A consciência transcendental não é um polo formal morto de identidade, mas vida concreta que precisa ser analisada em suas diferentes modalidades, | ||
| + | 136. Essa ampliação inclui as ciências humanas, a socialidade, | ||
| + | 137. Interpretar a subjetividade transcendental como ego isolado torna impossível conhecer transcendentalmente si mesmo e o mundo, razão pela qual Husserl chega a caracterizar seu projeto como uma filosofia transcendental sociológica. | ||
| + | 138. A fenomenologia transforma-se, | ||
| + | 139. A redução à subjetividade transcendental é simultaneamente redução à intersubjetividade transcendental, | ||
| + | 140. A subjetividade transcendental, | ||
| + | 141. A conclusão das análises constitutivas exige reconhecer a socialidade intersubjetiva transcendental como solo no qual verdade e ser verdadeiro encontram sua origem intencional. | ||
| + | 142. Como a fenomenologia é transcendental precisamente por investigar a constituição da transcendência, | ||
| + | 143. A transcendência do mundo constitui-se por meio dos outros e da co-subjetividade generativamente constituída, | ||
| + | 144. A subjetividade estrangeira constitui a transcendência primordial, pois todas as demais transcendências, | ||
| + | 145. O outro é, assim, o “primeiro outro” em sentido constitutivo, | ||
| + | 146. A objetividade constitui-se concretamente quando o encontro com outros permite reconhecer a própria perspectiva como apenas uma entre muitas perspectivas possíveis sobre o mesmo mundo. | ||
| + | * Experimentar que outros percebem os mesmos objetos transforma coisas meramente “para mim” em objetos potencialmente acessíveis a todos. | ||
| + | * Torna-se possível distinguir o objeto enquanto tal de seu modo contingente de aparecer a determinada perspectiva. | ||
| + | 147. A experiência de ser percebido pelo outro também desempenha função decisiva, pois a autoconsciência mediada pela alteridade permite reconhecer-se como alter ego para outro sujeito e instituir uma simetria entre múltiplos eus que percebem reciprocamente uns aos outros como estrangeiros. | ||
| + | 148. A validade objetiva “para todos” depende dessa intersubjetividade e culmina idealmente numa concordância intersubjetiva ilimitada, não havendo realidade verdadeira filosoficamente significativa além daquela que resistiria ao processo indefinido de investigação e confirmação comum. | ||
| + | 149. Essa concepção aproxima-se de Peirce, para quem a própria ideia de realidade implica uma comunidade ilimitada capaz de aumento progressivo de conhecimento e cuja investigação tenderia, em princípio, a um resultado final independente das particularidades individuais. | ||
| + | 150. A ligação entre intersubjetividade e objetividade aparece já nos textos próximos de Ideias I, nos quais Husserl considera que o sujeito constituinte deve ser corporificado e situado no próprio mundo objetivo que constitui. | ||
| + | 151. Como a objetividade é intersubjetivamente constituída e a intersubjetividade requer sujeitos corporificados e inseridos no mundo, a constituição do mundo implica uma mundanização da própria subjetividade transcendental. | ||
| + | 152. A subjetividade transcendental deve, portanto, apreender-se também como ser mundano para poder constituir um mundo objetivo, tese dificilmente conciliável com um solipsismo metodológico ou com uma consciência autossuficiente. | ||
| + | 153. A posição madura husserliana preserva a ideia de que realidade é sempre realidade para uma subjetividade, | ||
| + | 154. Nos últimos escritos, essa interdependência alcança sua formulação mais radical: nenhum sujeito pode ser o que é sem os outros, nenhum absoluto concebível é solus ipse e a coexistência intencional entre sujeitos constitui um fato primordial metafísico (Urtatsache). | ||
| + | 155. Uma natureza absolutamente autossubsistente também perde sentido, pois a natureza somente é pensável como mundo circundante de sujeitos corporificados e como correlato de uma intersubjetividade transcendental. | ||
| + | 156. A coexistência de si mesmo, outros e natureza assume, finalmente, o estatuto de facticidade irredutível cuja fundamentação ulterior seria desprovida de sentido. | ||
| + | 157. O fato de a análise transcendental terminar reconhecendo um mundo compartilhado pode parecer retorno circular à ingenuidade pré-filosófica da qual partiu, mas esse retorno pode ser interpretado como êxito filosófico, | ||
| + | 158. Reconhecer transcendentalmente a equiprimordialidade de sujeito e mundo difere radicalmente de simplesmente pressupor uma realidade independente previamente existente na qual sujeitos se encontrariam. | ||
| + | 159. Analogamente, | ||
| + | 160. A análise constitutiva diferencia diversos níveis — temporal, corporal, pré-linguístico, | ||
| + | 161. O desenvolvimento da fenomenologia husserliana afasta-se significativamente das formulações de §49 de Ideias I e obriga a reconsiderar a própria definição de transcendentalidade. | ||
| + | 162. De Palma nega que Husserl seja filósofo transcendental porque define transcendentalidade como investigação regressiva das condições de possibilidade da experiência e considera indispensável ultrapassar a própria experiência para deduzir essas condições. | ||
| + | 163. Como Husserl rejeita esse método regressivo, enfatiza passividade e facticidade e trata a consciência como condição necessária mas não suficiente, De Palma conclui que sua fenomenologia deveria ser classificada como empirismo eidético. | ||
| + | 164. Essa conclusão depende de uma definição excessivamente estreita do transcendental, | ||
| + | 165. O transcendental husserliano pode ser compreendido como radicalização, | ||
| + | * Radicalização, | ||
| + | * Reformulação, | ||
| + | * Ampliação, | ||
| + | 166. A investigação husserliana da normalidade mostra concretamente essa ampliação, | ||
| + | 167. A divergência somente possui peso constitutivo quando ocorre com aqueles de quem se espera concordância, | ||
| + | 168. O aprofundamento posterior leva Husserl a distinguir diferentes formas de normalidade, | ||
| + | 169. O encontro com uma normalidade estrangeira transforma a própria concepção de objetividade porque revela que aquilo que parecia simplesmente “o mundo” era correlato de um sistema particular de normalidade, | ||
| + | 170. A discrepância entre normalidades distintas pode motivar a busca de uma verdade válida para todas as comunidades e, desse modo, participar da constituição da objetividade científica. | ||
| + | 171. Torna-se necessário distinguir uma objetividade normal, correlacionada a uma intersubjetividade limitada, de uma objetividade rigorosa, correlacionada idealmente à totalidade ilimitada de sujeitos racionais. | ||
| + | 172. Diferentes níveis de normalidade correspondem, | ||
| + | 173. A filosofia transcendental husserliana reconhece ainda a finitude do sujeito transcendental mediante a pluralidade dos sujeitos e a dimensão diacrônica ou generativa da intersubjetividade. | ||
| + | 174. Cada sujeito aprende o que conta como normal por intermédio dos outros e participa de uma tradição na qual realizações de gerações anteriores continuam operando em sua experiência presente. | ||
| + | * O sujeito é “filho de seu tempo” e herdeiro de comunidades anteriores. | ||
| + | * Mesmo aquilo que parece próprio e originariamente instituído encontra-se parcialmente fundado nas tradições de antepassados e contemporâneos. | ||
| + | 175. A vida normal é, nesse sentido, vida generativa, e cada pessoa é histórica por pertencer a uma comunidade que permanece através do tempo. | ||
| + | 176. A constituição da objetividade culmina num processo histórico de intersubjetividade transcendental no qual sucessivas gerações instituem sistemas de normas e sedimentam estruturas de validade transmitidas como tradição. | ||
| + | 177. Não existe um mundo absolutamente fixo e independente dessas transformações, | ||
| + | 178. A noção de intersubjetividade generativa incorpora nascimento e morte às condições transcendentais de constituição do mundo, em vez de tratá-los como fatos empíricos contingentes exteriores à filosofia. | ||
| + | 179. O sujeito pertence necessariamente a uma cadeia histórica de gerações e recebe um mundo já dotado de sentidos que se originam num passado anterior à sua existência individual. | ||
| + | 180. Participar plenamente da constituição generativa de uma objetividade requer consciência da pertença a essa cadeia transgeracional de nascimento, tradição e morte. | ||
| + | 181. Foucault reconhece na fenomenologia uma forma moderna de reflexão que simultaneamente diferencia e aproxima o transcendental e o empírico, restaurando contra o positivismo a dimensão transcendental e tornando-a concreta mediante corpo e cultura. | ||
| + | 182. A temporalização da subjetividade transcendental compromete a divisão rígida entre transcendental e empírico porque entrelaça questões de validade e gênese e aproxima a fenomenologia de análises empíricas do ser humano. | ||
| + | 183. Essa proximidade torna a fenomenologia mais aberta ao diálogo e à contestação das ciências empíricas, sem obrigá-la a reduzir-se a antropologia. | ||
| + | 184. Embora Foucault apresente seu projeto como alternativa à fenomenologia centrada num sujeito constituinte, | ||
| + | 185. A Crise mobiliza deliberadamente uma reflexão histórico-teleológica para motivar a fenomenologia transcendental e investigar a gênese da situação científica e filosófica contemporânea. | ||
| + | 186. Entidades ideais e teorias científicas possuem origem histórica, e a investigação transcendental deve realizar uma arqueologia das camadas sedimentadas de sentido que sustentam as realizações científicas atuais. | ||
| + | 187. A linguagem, sobretudo a escrita, desempenha papel transcendental decisivo porque permite que sentidos sejam comunicados para além da presença pessoal imediata, transmitidos entre gerações e incorporados a um patrimônio coletivo de conhecimento. | ||
| + | * A escrita transforma comunicação em uma modalidade virtual. | ||
| + | * Torna possível uma comunidade histórica aberta e potencialmente ilimitada. | ||
| + | * Funciona como reservatório de memória coletiva sem o qual teorias acumuladas durante séculos seriam impossíveis. | ||
| + | 188. A fenomenologia transcendental não procura, por isso, um conjunto fixo e estático de categorias a priori, mas reconhece que a própria constituição possui caráter aberto, histórico e dinamicamente transformável. | ||
| + | 189. Foucault também busca uma história das condições de possibilidade do conhecimento, | ||
| + | 190. Na concepção foucaultiana, | ||
| + | 191. O transcendental pode, nessa concepção husserliana, | ||
| + | 192. Husserl distingue-se ainda de Foucault por compreender a transformação histórica segundo certa orientação teleológica e conservar um universalismo racionalista incompatível com uma concepção das epistemes como formações puramente descontínuas submetidas a rupturas contingentes. | ||
| + | 193. A ampliação husserliana do transcendental para corporeidade, | ||
| + | 194. O idealismo transcendental husserliano procura preservar objetividade e transcendência do mundo experienciado, | ||
| + | 195. O mundo é, além disso, correlato de uma comunidade intersubjetiva de sujeitos corporificados, | ||
| + | 196. A concepção husserliana do transcendental não representa simplesmente retorno a Kant, mas antecipa temas que adquirirão presença significativa tanto na filosofia continental quanto na filosofia analítica do século XX. | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
