husserliana:zahavi:hl:desafio-naturalista
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| + | ====== Desafio naturalista ====== | ||
| + | //ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, | ||
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| + | 1. A máxima délfica [[f> | ||
| + | 2. Uma transformação marcante da filosofia do século XX pode ser descrita como passagem de um antinaturalismo explicitamente defendido no início do século por pensadores como Frege e Husserl para uma situação contemporânea em que o naturalismo passou a funcionar, sobretudo na filosofia analítica, como posição metafísica presumida por padrão. | ||
| + | * A recusa do naturalismo tende atualmente a ser apresentada como se conduzisse necessariamente a alguma modalidade de dualismo cartesiano de substâncias. | ||
| + | * A conhecida interpretação do século XX como passagem de uma filosofia da subjetividade para uma filosofia da linguagem pode, nesse sentido, ser complementada ou substituída pela narrativa de uma virada do antinaturalismo para o naturalismo. | ||
| + | 3. O naturalismo contemporâneo não significa simplesmente rejeitar o sobrenatural, | ||
| + | * O compromisso metodológico sustenta que procedimentos e justificações legítimos são aqueles das ciências naturais e que todo conhecimento genuíno deve ser objetivamente obtido por seus métodos, privilegiando perspectivas de terceira pessoa e rejeitando apelos metodológicos à primeira pessoa. | ||
| + | * O compromisso ontológico sustenta que a realidade contém somente entidades, propriedades e estruturas reconhecidas ou reconhecíveis pelas ciências naturais. | ||
| + | * Consciência, | ||
| + | 4. A virada naturalista possui consequências metafilosóficas profundas ao reconfigurar a relação entre filosofia e ciência, como mostra a concepção de Francis Crick segundo a qual problemas da consciência deveriam ser resolvidos experimentalmente e não por argumentação filosófica geral. | ||
| + | * A investigação da consciência seria fundamentalmente científica e os filósofos não possuiriam privilégio especial para tratá-la. | ||
| + | * A história da filosofia revelaria, nessa perspectiva, | ||
| + | * A filosofia da mente poderia contribuir provisoriamente como parceira subordinada, | ||
| + | 5. Mesmo que nem todos os naturalistas aceitem uma subordinação tão radical da filosofia, o naturalismo inevitavelmente pressiona a pretensão de que a filosofia, inclusive a fenomenologia, | ||
| + | 6. O confronto com o naturalismo acompanha a fenomenologia desde o início, atravessando a crítica husserliana ao psicologismo nas Investigações lógicas, o manifesto Filosofia como ciência rigorosa, as aulas Natureza e espírito e a Crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, | ||
| + | * A questão não admite resposta simples porque tanto “fenomenologia” quanto “naturalização” podem receber sentidos distintos. | ||
| + | * A posição de Husserl também é menos unilateral do que uma oposição imediata entre fenomenologia e ciência natural faria supor, pois depende diretamente de sua concepção madura da filosofia transcendental. | ||
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| + | **5.1 Naturalizando a fenomenologia** | ||
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| + | 7. A tentativa de aproximar análises fenomenológicas e modelos naturalistas da consciência ganhou novo impulso decisivo com Francisco Varela, particularmente após a publicação de A mente incorporada, | ||
| + | * A obra articulou recursos provenientes do budismo, da fenomenologia e das pesquisas de Varela e Maturana sobre [[f> | ||
| + | * Merleau-Ponty foi apresentado como precursor de uma iluminação recíproca entre experiência vivida, psicologia e neurofisiologia. | ||
| + | * A influência dessa obra tornou-se especialmente visível nas abordagens contemporâneas das “4Es”, segundo as quais a cognição é corporificada, | ||
| + | 8. Varela posteriormente redefiniu a neurofenomenologia como abordagem da ciência cognitiva na qual dados produzidos por análises fenomenologicamente disciplinadas da experiência e resultados experimentais da neurociência cognitiva possuem estatuto equivalente e se constrangem reciprocamente. | ||
| + | * Uma teoria científica abrangente da consciência não pode limitar-se aos processos subpessoais que sustentam a experiência e ignorar as qualidades e estruturas da própria experiência. | ||
| + | * A proposta pretende incorporar procedimentos fenomenológicos diretamente aos protocolos experimentais da investigação neurocientífica. | ||
| + | 9. A neurofenomenologia desencadeou intenso debate acerca da relação entre fenomenologia e ciência cognitiva e, mais especificamente, | ||
| + | 10. Outro marco desse debate foi Naturalizando a fenomenologia, | ||
| + | * A ciência cognitiva ultrapassou o behaviorismo ao investigar processos internos, mas explicar o que ocorre “dentro da caixa-preta” ainda não significa explicar aquilo que ocorre “para a caixa-preta”. | ||
| + | * Uma teoria da cognição que não esclarece como é ser uma mente cognoscente continua incompleta como teoria da consciência. | ||
| + | 11. A insuficiência pode ser caracterizada pelo “hiato explicativo” de Joseph Levine entre processos neurofisiológicos descritos em terceira pessoa e experiências conhecidas em primeira pessoa, cuja permanência revela uma ruptura teoricamente insatisfatória entre níveis neurobiológico e experiencial. | ||
| + | 12. As abordagens corporificadas, | ||
| + | 13. Para desempenhar essa função, porém, a fenomenologia teria primeiro de ser naturalizada mediante sua integração num quadro explicativo que eliminasse dualismos ontológicos e tornasse suas propriedades contínuas com aquelas admitidas pelas ciências naturais. | ||
| + | 14. A tentativa de articular fenomenologia e ciência empírica também aparece no “método natural” de Flanagan, que concebe neurociência, | ||
| + | 15. A proposta de Roy, Petitot, Pachoud e Varela é mais radical porque identifica fenomenologia especificamente com a tradição filosófica fenomenológica, | ||
| + | * Essa posição contrasta com concepções em que “fenomenologia” designa apenas relatos introspectivos acerca de como determinada experiência é vivida. | ||
| + | * Também se contrapõe às posições de Metzinger, segundo as quais a ciência empírica não teria qualquer necessidade de recorrer a um programa fenomenológico filosoficamente desacreditado. | ||
| + | * A naturalização deveria simultaneamente produzir uma teoria mais adequada da mente, que não ignorasse a subjetividade, | ||
| + | 16. O objetivo último dessa proposta consiste em demonstrar que experiências familiares na perspectiva de primeira pessoa podem receber investigação e explicação integralmente natural-científicas. | ||
| + | 17. A proposta dividiu opiniões e, mesmo entre fenomenólogos favoráveis à ideia de uma colaboração indispensável com a ciência cognitiva, permaneceu uma dificuldade evidente: mostrar que a experiência pode ser descrita sistemática e intersubjetivamente não basta para demonstrar que sua dimensão fenomenológica seja integralmente naturalizável, | ||
| + | 18. Roy, Petitot, Pachoud e Varela respondem observando que Husserl distingue ciências eidéticas axiomáticas, | ||
| + | * O antinaturalismo husserliano seria, nessa interpretação, | ||
| + | * Apesar de sua formação matemática, | ||
| + | 19. Os progressos posteriores das ciências matemáticas tornariam obsoleta essa limitação histórica porque modelos morfodinâmicos poderiam formalizar matematicamente as essências vagas da dimensão experiencial. | ||
| + | * A possibilidade de matematizar descrições fenomenológicas removeria um dos principais obstáculos à sua integração ao quadro geral das ciências naturais. | ||
| + | * Uma vez produzida a reconstrução matemática, | ||
| + | |||
| + | **5.2 O antinaturalismo de Husserl** | ||
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| + | 20. A interpretação anterior identifica equivocadamente o fundamento do antinaturalismo husserliano, | ||
| + | 21. Em Filosofia como ciência rigorosa, o naturalismo é caracterizado como filosofia fundamentalmente defeituosa por pretender naturalizar tanto idealidade e normatividade quanto a própria consciência. | ||
| + | 22. A naturalização das verdades e leis ideais da lógica fracassa porque reduz necessidade lógica a necessidade empírica e normatividade a causalidade, | ||
| + | * Uma epistemologia naturalizada que pretenda justificar cientificamente o próprio conhecimento científico torna-se autorrefutante e produz uma espécie de “suicídio cognitivo”. | ||
| + | 23. A naturalização integral da consciência também fracassa porque não consegue fazer justiça à sua especificidade e tende a tratá-la como objeto mundano comparável, | ||
| + | * A consciência não é apenas objeto no mundo, mas sujeito para o mundo e condição necessária para que qualquer ente possa aparecer como objeto dotado de determinado sentido. | ||
| + | * A limitação decisiva do naturalismo consiste, portanto, numa “cegueira para o transcendental”. | ||
| + | 24. A recusa de tratar a consciência como ocorrência objetiva ao lado das coisas mundanas não representa defesa de qualia irredutíveis ou de dualismo substancial, | ||
| + | * Essa pressuposição impede compreender a significação epistemológica e ontológica da perspectiva de primeira pessoa. | ||
| + | * Tentar explicar como se conhece o mundo concebendo o agente epistêmico simplesmente como objeto mundano causalmente relacionado a outros objetos pressupõe aquilo que deveria ser esclarecido. | ||
| + | 25. O problema da consciência deve ser situado num horizonte transcendental mais amplo, no qual a teoria da intencionalidade não esclarece apenas a estrutura da subjetividade, | ||
| + | * A possibilidade de apropriação consciente do mundo revela algo acerca do mundo, não apenas acerca da mente. | ||
| + | * A consciência constitui a dimensão na qual o mundo pode manifestar-se e articular-se, | ||
| + | 26. Diante da diferença entre a explicação fenomenológica de como a subjetividade constitui objetividade e a explicação naturalista de como a subjetividade emerge num mundo objetivo, não basta declarar causalidade, | ||
| + | 27. As ciências positivas pressupõem seu domínio de objetos e procuram produzir conhecimento rigoroso acerca dele, enquanto a filosofia questiona criticamente os próprios fundamentos da experiência e do pensamento científico e investiga como esse conhecimento se torna possível. | ||
| + | 28. A filosofia possui finalidades e exigências metodológicas próprias, condensadas por Husserl na redução fenomenológica, | ||
| + | * Toda ciência positiva parte de um campo de doação previamente disponível sem investigar as condições de sua própria disponibilidade. | ||
| + | * Toda investigação orientada a objetos pressupõe um horizonte de inteligibilidade que permite aos objetos aparecerem como possíveis alvos de investigação. | ||
| + | * Examinar essas condições exige uma reflexão anterior ao conhecimento natural e situada num plano distinto daquele das ciências naturais. | ||
| + | 29. A caracterização da atitude fenomenológica como orientação “antinatural” do pensamento expressa justamente a ausência de continuidade simples entre filosofia transcendental e ciência natural. | ||
| + | 30. A ciência não é mera coleção de proposições justificadas, | ||
| + | 31. Merleau-Ponty ressalta que a ciência, ao privilegiar unilateralmente a terceira pessoa, esquece a experiência pré-científica em primeira pessoa continuamente pressuposta pela própria prática científica. | ||
| + | * Instrumentos, | ||
| + | * A consciência não é obstáculo à objetividade, | ||
| + | * A oposição simples entre primeira e terceira pessoa é enganosa porque toda descrição objetiva de terceira pessoa é produzida por uma comunidade de sujeitos conscientes. | ||
| + | * Não existe perspectiva absolutamente “de lugar nenhum”; a objetividade resulta da triangulação e articulação intersubjetiva de perspectivas. | ||
| + | 32. A principal incompatibilidade entre fenomenologia e naturalismo não decorre do fisicalismo e não seria eliminada pela adoção de emergentismo ou dualismo de propriedades, | ||
| + | * A tese de que somente fatos acessíveis às ciências naturais são realmente objetivos deixa sem esclarecimento o próprio sentido filosófico de realidade e objetividade. | ||
| + | * O naturalismo também mina sua própria posição ao não explicar adequadamente as realizações experienciais e cognitivas que tornam possível sua perspectiva sobre o mundo. | ||
| + | 33. A fenomenologia pretende explicitar esses pressupostos tácitos do naturalismo e considera tal esclarecimento filosoficamente mais fundamental que qualquer explicação produzida dentro do próprio horizonte naturalista. | ||
| + | 34. A oposição ao naturalismo integral aproxima Husserl das escolas idealistas alemãs, descritas em carta a Rickert como aliadas numa luta comum contra o naturalismo contemporâneo, | ||
| + | 35. A fenomenologia transcendental foi, por isso, frequentemente concebida como disciplina autônoma cuja investigação das condições de possibilidade do conhecimento e da experiência possui estatuto diferente daquele das ciências positivas. | ||
| + | * Murray sustenta que descrições fenomenológicas e explicações neurobiológicas não podem ser simplesmente combinadas como metodologias complementares, | ||
| + | * A diferença não concerne apenas aos objetos examinados, mas à orientação teórica fundamental entre filosofia e ciência. | ||
| + | * Naturalizar a fenomenologia, | ||
| + | 36. A aparente incompatibilidade entre fenomenologia e naturalização não encerra, contudo, a questão, porque outras concepções de naturalização podem preservar dimensões que a proposta reducionista inicial elimina. | ||
| + | |||
| + | **5.3 Fenomenologia transcendental e psicologia fenomenológica** | ||
| + | |||
| + | 37. Abandonar as aspirações transcendentais da fenomenologia para facilitar sua naturalização significaria abandonar grande parte de sua especificidade filosófica, | ||
| + | * O naturalismo não consegue solucionar o problema transcendental husserliano e pode, ao contrário, aprofundar a crise diagnosticada na Crise das ciências europeias. | ||
| + | * Isso não impede, entretanto, que “naturalização” receba sentidos alternativos. | ||
| + | 38. Uma primeira alternativa consiste em compreender a naturalização não como abandono do transcendental, | ||
| + | 39. Borrett, Kelly e Kwan concebem essa relação segundo o modelo dados-explicação, | ||
| + | 40. Essa concepção permanece excessivamente modesta porque a fenomenologia não fornece apenas descrições mais refinadas de um explanandum previamente definido, mas desenvolve análises teóricas próprias capazes de contestar modelos existentes, questionar pressuposições de fundo e até transformar aquilo que deverá ser explicado. | ||
| + | 41. O intercâmbio produtivo exige influência em ambas as direções, numa “iluminação mútua” em que investigações fenomenológicas informam a ciência e resultados empíricos podem aperfeiçoar, | ||
| + | * O imperativo de retornar “às coisas mesmas” exige deixar que os próprios fenômenos orientem as teorias. | ||
| + | * Pesquisadores empíricos podem perceber riquezas e variações fenomênicas negligenciadas por uma filosofia exclusivamente de gabinete. | ||
| + | 42. Uma primeira objeção pergunta como descobertas acerca de mecanismos neuronais subpessoais poderiam modificar descrições fenomenológicas em primeira pessoa orientadas pelo significado vivido para o sujeito. | ||
| + | 43. Resultados neurocientíficos podem em certos casos motivar uma revisão fenomenológica, | ||
| + | * A descoberta subpessoal não demonstra por si mesma complexidade fenomenológica e não pode obrigar diretamente a revisão descritiva. | ||
| + | * Como não existe isomorfismo simples entre os níveis subpessoal e pessoal, qualquer modificação fenomenológica precisa finalmente ser justificada em termos experienciais. | ||
| + | 44. A contribuição empírica mais diretamente relevante à fenomenologia provém sobretudo de disciplinas que produzem descrições no nível da pessoa, como psicopatologia, | ||
| + | 45. Os distúrbios neuropsicológicos da consciência corporal fornecem material capaz de aprofundar análises fenomenológicas clássicas, como exemplifica o caso de Ian Waterman estudado por Jonathan Cole, que perdeu tato e propriocepção abaixo do pescoço e precisou reconstruir de modo laborioso seu controle corporal. | ||
| + | * A análise clínica pode ser confrontada produtivamente com as investigações de Husserl e Merleau-Ponty sobre o corpo vivido. | ||
| + | 46. As alterações esquizofrênicas da experiência de si e da intencionalidade descritas por Minkowski, Blankenburg, | ||
| + | 47. As investigações desenvolvimentais de Rochat, Reddy, Hobson e Carpenter acerca das formas primitivas de compreensão social infantil podem ser comparadas às análises de Scheler, Stein, Husserl e Merleau-Ponty acerca de empatia, emparelhamento e intercorporeidade. | ||
| + | 48. A ciência empírica pode oferecer resultados que a fenomenologia precisa acomodar e que eventualmente exigem revisão de suas análises, enquanto a fenomenologia pode esclarecer pressupostos conceituais da ciência e contribuir para a criação de novos paradigmas experimentais. | ||
| + | 49. Gallagher denomina “carregamento frontal da fenomenologia” a estratégia pela qual resultados e distinções fenomenológicas são incorporados desde o início ao desenho experimental, | ||
| + | 50. A investigação da autoconsciência fornece exemplo dessa estratégia, | ||
| + | * Uma análise fenomenológica da autoconsciência pré-reflexiva pode orientar experimentos destinados a detectar formas mais primitivas de experiência de si, como a consciência corporal proprioceptiva. | ||
| + | * O procedimento não pressupõe dogmaticamente resultados fenomenológicos, | ||
| + | 51. As pesquisas sobre neurônios-espelho constituem outro campo de interação, | ||
| + | 52. A aproximação entre neurônios-espelho e fenomenologia deve permanecer cautelosa porque Husserl rejeita interpretar a relação entre si mesmo e outro simplesmente como espelhamento e porque modelos fenomenológicos pessoais e mecanismos neurofisiológicos subpessoais não podem ser comparados por isomorfismo direto. | ||
| + | * As diferenças podem servir para reexaminar pressupostos conceituais presentes na literatura neurocientífica. | ||
| + | * Resultados acerca dos neurônios-espelho não confirmam simplesmente a fenomenologia nem são confirmados por ela. | ||
| + | * Uma formulação mais adequada considera que esses resultados podem complementar descrições fenomenológicas ao esclarecer possíveis mecanismos envolvidos na relação empática. | ||
| + | 53. Uma segunda objeção aponta a aparente incompatibilidade entre análises eidéticas a priori da fenomenologia e resultados empíricos a posteriori da ciência cognitiva. | ||
| + | 54. No quadro husserliano, | ||
| + | * Mesmo evidências aparentemente apodíticas podem revelar-se enganosas quando confrontadas por evidências ulteriores capazes de desfazê-las. | ||
| + | 55. Supostos contraexemplos empíricos a teses eidéticas precisam, portanto, ser examinados seriamente, e casos excepcionais podem ser especialmente úteis para testar conceitos e intuições fenomenológicas. | ||
| + | 56. Experimentos mentais podem desempenhar essa função somente quando respeitam restrições tão rigorosas quanto experimentos reais, pois a ignorância de condições relevantes facilita imaginar cenários aparentemente possíveis que uma análise mais informada posteriormente revela incoerentes. | ||
| + | 57. Casos reais provenientes da psicopatologia, | ||
| + | 58. Uma terceira objeção observa que a colaboração proposta mantém fenomenologia e ciência empírica como disciplinas distintas e não esclarece suficientemente aquilo que torna a fenomenologia propriamente transcendental. | ||
| + | 59. Uma análise eidética e a priori da consciência experiencial ainda pode permanecer no âmbito da psicologia, razão pela qual é necessário retomar a distinção husserliana entre psicologia fenomenológica e fenomenologia transcendental. | ||
| + | 60. A caracterização inicial da fenomenologia como psicologia descritiva nas Investigações lógicas foi rapidamente abandonada por Husserl, mas revela a proximidade e a dificuldade de estabelecer uma separação absoluta entre ambas. | ||
| + | 61. Husserl considera a fenomenologia livre de preconceitos naturalistas fundamento de uma psicologia verdadeiramente científica e distingue posteriormente duas modalidades de investigação da consciência: | ||
| + | 62. A psicologia fenomenológica investiga a consciência intencional de modo não redutivo, respeitando suas características específicas e a perspectiva de primeira pessoa, mas permanece dentro da atitude natural e constitui uma análise regional-ontológica da consciência. | ||
| + | 63. A fenomenologia transcendental investiga a consciência em sua função constitutiva como condição de possibilidade de significado, | ||
| + | 64. Apesar dessa diferença de agenda, análises transcendentais e psicológicas podem influenciar-se reciprocamente porque o sujeito transcendental e o sujeito empírico não são dois sujeitos diferentes, mas duas apreensões do mesmo sujeito. | ||
| + | * O sujeito transcendental é considerado em sua função constitutiva originária. | ||
| + | * O sujeito empírico é esse mesmo sujeito autoapreendido e interpretado como objeto no mundo. | ||
| + | 65. A mudança entre experiência transcendental e experiência psicológica de si ocorre mediante transformação de atitude e conserva a identidade do eu, revelando a objetivação psicológica como auto-objetivação da própria subjetividade transcendental. | ||
| + | 66. Uma descrição adequada da intencionalidade perceptiva poderia, idealmente, ser a mesma em seu conteúdo descritivo e receber posteriormente interpretação transcendental ou objetivante segundo a atitude assumida. | ||
| + | 67. A psicologia fenomenológica pode possuir função propedêutica porque uma investigação suficientemente radical das estruturas da consciência, | ||
| + | 68. Husserl chega a defender um paralelismo entre psicologia fenomenológica e fenomenologia transcendental, | ||
| + | 69. Nas Meditações cartesianas e na Crise, a separação rígida entre psicologia e fenomenologia transcendental perde ainda mais importância porque a própria psicologia da consciência contém uma dimensão transcendental que permanece oculta apenas enquanto ela conserva sua ingenuidade natural. | ||
| + | * Há uma aliança interna indissolúvel entre psicologia e filosofia transcendental. | ||
| + | * Uma psicologia conduzida concretamente e de maneira suficientemente radical pode abrir caminho para a própria filosofia transcendental. | ||
| + | 70. Essa relação permite admitir que descobertas das ciências positivas, especialmente da psicopatologia e da psicologia do desenvolvimento quando baseadas em análises rigorosas dos fenômenos, possam ser incorporadas e modificar investigações da subjetividade transcendental. | ||
| + | * A abertura harmoniza-se com o procedimento husserliano “de baixo para cima” e com a crescente inclusão das dimensões social, histórica, cultural e linguística. | ||
| + | 71. A posição de Bennett e Hacker fornece contraste importante ao separar principialmente investigação filosófica e investigação empírica, atribuindo à filosofia o domínio do sentido e das possibilidades lógicas e às ciências o domínio dos fatos. | ||
| + | * A filosofia esclareceria os limites do que pode ser coerentemente pensado e dito mediante análise dos conceitos e do uso linguístico competente. | ||
| + | * Questões conceituais precederiam qualquer investigação científica e erros conceituais inevitavelmente contaminariam problemas e experimentos empíricos. | ||
| + | 72. Bennett e Hacker concebem a relação entre filosofia e ciência como unidirecional: | ||
| + | * Confundir teorias metafísicas ou epistemológicas com hipóteses empiricamente refutáveis equivaleria a ignorar a diferença categorial entre filosofia e ciência. | ||
| + | * A aplicação científica de conceitos previamente esclarecidos não produziria retroação capaz de modificar a análise filosófica original. | ||
| + | 73. Essa resposta protege a autonomia da filosofia diante do naturalismo, | ||
| + | 74. Tomar o uso linguístico ordinário como guia principal ou exclusivo para investigar a mente também é excessivamente restritivo porque a linguagem comum incorpora pressuposições da metafísica do senso comum e pode ocultar dimensões reveladas apenas por análises fenomenológicas específicas, | ||
| + | * Essa orientação pode favorecer uma espécie de inércia semântica e conservadorismo conceitual. | ||
| + | |||
| + | **5.4 Naturalismo fenomenológico** | ||
| + | |||
| + | 75. Duas concepções de naturalização da fenomenologia podem inicialmente ser distinguidas: | ||
| + | * A primeira é inadequada porque substitui esclarecimentos transcendentais por explicações natural-científicas, | ||
| + | * A segunda conserva a autonomia da fenomenologia e promove intercâmbio produtivo no qual análises fenomenológicas questionam pressupostos científicos e contribuem para novos desenhos experimentais, | ||
| + | * A interpretação dos resultados empíricos sempre depende de quadros teóricos e, portanto, atenção às ciências não implica aceitar automaticamente suas pressuposições metafísicas ou epistemológicas. | ||
| + | * A fenomenologia pode ser informada pelo melhor conhecimento científico disponível e continuar tendo finalidade transcendental distinta daquela das ciências empíricas. | ||
| + | 76. A limitação dessa proposta moderada consiste em deixar intactas as próprias concepções de naturalismo e análise transcendental, | ||
| + | 77. O próprio projeto de Naturalizando a fenomenologia continha elementos de uma alternativa mais profunda ao propor reexaminar os limites do conceito usual de naturalização e reformular as noções modernas de natureza, objetividade, | ||
| + | * A objetividade científica não exigiria necessariamente crença numa realidade absolutamente independente do observador. | ||
| + | * A mecânica quântica e o princípio de incerteza de Heisenberg são mobilizados para conceber o conhecimento físico como conhecimento intersubjetivamente válido de fenômenos físicos. | ||
| + | * As análises husserlianas e merleau-pontyanas do corpo vivido indicariam um domínio em que análise transcendental e descrição natural se encontram intrinsecamente articuladas. | ||
| + | * O projeto complementar planejado por Varela, jamais realizado devido à sua morte, receberia significativamente o título Fenomenologizando a ciência natural. | ||
| + | 78. A tentativa mais abrangente de realizar essa orientação encontra-se em Mente na vida, de Evan Thompson, que confronta cognitivismo, | ||
| + | 79. A abordagem enativa pretende superar a distância entre vida experiencial em primeira pessoa e processos neurofisiológicos descritos em terceira pessoa mediante uma investigação em que fenomenologia e ciência experimental se esclarecem e restringem reciprocamente. | ||
| + | 80. Thompson atribui à fenomenologia papel mais radical do que simplesmente fornecer descrições do explanandum, | ||
| + | * Uma das ambições centrais consiste em tornar inteligível a “vida interior” dos sistemas biológicos. | ||
| + | 81. A orientação encontra precedente em A estrutura do comportamento, | ||
| + | * A filosofia transcendental precisa ser redefinida de maneira a levar o mundo real em consideração. | ||
| + | * A alternativa entre explicação científica externa e reflexão fenomenológica interna deve ser recusada porque rompe artificialmente a relação viva entre consciência e natureza. | ||
| + | * Torna-se necessário buscar uma dimensão anterior à oposição entre objetivismo e subjetivismo. | ||
| + | 82. A autopoiese e a auto-organização desempenham função central nessa abordagem porque organismos vivos possuem formas emergentes de individualidade e unidade diferentes das entidades meramente físicas. | ||
| + | * Mesmo em nível metabólico, | ||
| + | * Ser indivíduo significa constituir um polo de si numa relação dinâmica com a alteridade. | ||
| + | * A diferenciação entre organismo e ambiente não equivale a independência, | ||
| + | 83. Thompson define cognição amplamente como conduta orientada por significados e normas que o organismo produz a partir de sua própria autonomia e atividade sensório-motora auto-organizada. | ||
| + | * Tudo aquilo que possui valência para um organismo pressupõe uma forma elementar de interioridade. | ||
| + | * A interioridade da vida funciona como precursora da interioridade consciente. | ||
| + | * Vida e mente compartilham propriedades organizacionais, | ||
| + | 84. Uma concepção biologicamente fundada de cognição que incorpore significação pode aproximar biologia, subjetividade e fenomenologia e dissolver parte da lacuna que outras teorias tratam como irredutível. | ||
| + | * O “problema difícil” da consciência de Chalmers pressuporia uma ruptura radical entre vida e consciência e, por isso, estaria formulado de maneira inadequada. | ||
| + | * A articulação entre mente e natureza exige redefinir os dois polos e não apenas construir uma ponte entre domínios previamente separados. | ||
| + | 85. Mente na vida desenvolve e corrige A mente incorporada ao abandonar a interpretação anterior de Husserl como cartesiano, representacionalista e solipsista metodológico e incorporar mais profundamente conceitos como fenomenologia estática, genética e generativa, [[lx> | ||
| + | 86. Thompson reconhece explicitamente que sua interpretação inicial de Husserl era limitada por conhecimento insuficiente das fontes e fortemente influenciada pelas leituras críticas de Heidegger e Dreyfus, tornando necessária uma reavaliação da relação entre fenomenologia husserliana e ciência cognitiva a partir da totalidade da obra. | ||
| + | 87. A resposta de Thompson ao antinaturalismo husserliano começa pela distinção entre o naturalismo reducionista criticado por Husserl e uma concepção contemporânea não redutiva de natureza na qual fenomenologia e biologia podem permanecer em igualdade metodológica. | ||
| + | * A natureza contemporânea já não precisa ser concebida como simples agregado de objetos externamente justapostos. | ||
| + | * Parte das críticas husserlianas dirigia-se a uma configuração histórica da ciência natural que sofreu transformações importantes. | ||
| + | 88. A aproximação preserva, porém, a crítica husserliana ao objetivismo e reconhece o estatuto transcendental da consciência como condição de possibilidade da manifestação de qualquer objeto. | ||
| + | * A objetividade não é simplesmente realidade pronta anteriormente à relação cognitiva, mas algo constituído. | ||
| + | * Essa tese é incorporada explicitamente pela abordagem enativa. | ||
| + | 89. A segunda alternativa de naturalização consiste, portanto, em reconsiderar simultaneamente aquilo que se entende por natural e transcendental, | ||
| + | * Uma transformação suficientemente profunda desse conceito poderia repercutir sobre a própria ciência natural. | ||
| + | 90. A tarefa é extremamente exigente, mas possui precedentes históricos, | ||
| + | 91. As transformações da física teórica do início do século XX podem também exigir revisão das concepções científicas tradicionais de subjetividade, | ||
| + | * A objetividade absoluta e final torna-se um ideal impossível quando toda observação permanece vinculada a uma posição determinada. | ||
| + | * A ciência não pode pretender acessar um objeto absolutamente desprovido de qualquer traço de situação humana mediante um intelecto puro e não situado. | ||
| + | 92. A possibilidade de Husserl aceitar uma naturalização assim reformulada pode ser sugerida por sua afirmação de que natureza não é concebível sem espírito ([[lx> | ||
| + | 93. A consideração transcendental da corporeidade e da intersubjetividade levou Husserl a incorporar dimensões sociais, históricas, | ||
| + | 94. A intensa reformulação fenomenológica da relação entre transcendental e empírico permite questionar se a objeção clássica à naturalização da fenomenologia, | ||
| + | 95. As duas alternativas não reducionistas de naturalização — colaboração recíproca entre fenomenologia e ciências empíricas e reformulação conjunta dos conceitos de natureza e transcendentalidade — não precisam ser consideradas excludentes e podem ser desenvolvidas simultaneamente. | ||
| + | 96. Qualquer avaliação acerca de a fenomenologia naturalizada ser desejável ou constituir erro categorial depende, em última instância, de especificar rigorosamente qual concepção de fenomenologia e qual modalidade de naturalização estão efetivamente em questão. | ||
| + | |||
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