husserliana:zahavi:fenomenologia-naturalizada
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| + | ====== Fenomenologia naturalizada ====== | ||
| + | //Dan Zahavi in SCHMICKING, Daniel; GALLAGHER, Shaun. Handbook of Phenomenology and Cognitive Science. Dordrecht: Springer Science+Business Media B.V, 2010.// | ||
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| + | 1. A filosofia do século XX transitou de uma forte rejeição inicial ao naturalismo, | ||
| + | * O movimento filosófico migrou de uma virada linguística inicial para uma virada em direção ao naturalismo como viés metafísico dominante. | ||
| + | * A rejeição do naturalismo passou a ser frequentemente associada, no debate analítico, a formas obsoletas de dualismo cartesiano de substâncias. | ||
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| + | 2. A adesão ao naturalismo implica um direcionamento metafilosófico voltado às ciências naturais e à autoridade das descrições científicas sobre a realidade, o que pressiona e coloca em questão a capacidade da filosofia e da fenomenologia de realizarem contribuições autônomas ao estudo da realidade. | ||
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| + | **Fenomenologia Naturalizada** | ||
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| + | 3. A tensão entre os estudos científicos e filosóficos da consciência evidencia-se na postura de cientistas que consideram a mente um problema estritamente experimental, | ||
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| + | 4. Diante do desafio colocado pela diversidade das posições naturalistas, | ||
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| + | **Antinaturalismo de Husserl** | ||
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| + | 5. O antinaturalismo de Husserl caracteriza-se pela denúncia de que a naturalização da idealidade gera o ceticismo e de que a naturalização da consciência é um equívoco categorial, sustentando que a fenomenologia investiga a consciência de modo irredutível às explicações das ciências naturais. | ||
| + | * A crítica de Husserl ao psicologismo na obra Investigações Lógicas demonstra que reduzir ideais e normas a fatos naturais conduz inevitavelmente ao ceticismo. | ||
| + | * O acolhimento às ciências naturais ocorre estritamente dentro do seu domínio próprio, rejeitando-se suas incursões especulativas em temas de epistemologia e filosofia da natureza. | ||
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| + | 6. O fracasso do naturalismo ao tratar da consciência decorre do fato de tomá-la como um mero objeto ocorrente no mundo, falhando em reconhecer a sua dimensão transcendental constitutiva enquanto sujeito para o mundo ([[lx> | ||
| + | * A psicologia experimental e a física naturalista reificam a consciência ao equipará-la a fenômenos físicos ou objetos materiais comuns. | ||
| + | * A limitação crucial do naturalismo reside na sua incapacidade intrínseca de contemplar a dimensão transcendental da subjetividade. | ||
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| + | 7. A virada copernicana kantiana e a fenomenologia subsequente direcionaram o foco analítico para a investigação da perspectiva em primeira pessoa e das estruturas da consciência não como fins em si mesmos, mas como investigação filosófico-transcendental das condições de possibilidade para o aparecimento dos objetos. | ||
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| + | 8. Os compromissos metodológicos e metafísicos do naturalismo vinculam-se ao realismo metafísico, | ||
| + | * O compromisso metodológico restringe os critérios de justificação válida àqueles empregados exclusivamente pelas ciências naturais. | ||
| + | * O compromisso metafísico defende um monismo ontológico no qual todas as coisas existentes possuem unicamente propriedades naturais. | ||
| + | * O realismo metafísico assume ser possível separar radicalmente as propriedades intrínsecas das coisas em si e as propriedades projetadas pelo sujeito. | ||
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| + | 9. A fenomenologia contesta a premissa de que a ciência possa fornecer uma visão neutra ou desengajada a partir de lugar nenhum, sustentando a impossibilidade teórica de contemplar a experiência de fora para verificar sua correspondência com uma natureza pré-existente. | ||
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| + | 10. A atividade científica é compreendida pela fenomenologia como uma postura teórica específica exercida por sujeitos encarnados, tornando a consciência um requisito prévio indispensável para a própria constituição da objetividade e do conhecimento científico. | ||
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| + | 11. A filosofia se diferencia da atitude naturalista por não tomar o mundo como um dado prévio indubitável, | ||
| + | * A atitude natural aceita passivamente o mundo exterior como uma realidade dada e pronta para a investigação factual. | ||
| + | * A investigação epistemológica antecede todo o conhecimento natural por direcionar-se ao campo de doação pressuposto, | ||
| + | * A caracterização da atitude fenomenológica como não natural enfatiza a ausência de uma continuidade direta entre a reflexão filosófica e a ciência empírica. | ||
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| + | 12. A relação entre as ciências positivas e a filosofia fenomenológica envolve uma distinção absoluta e não apenas relativa, visto que as ciências positivas são ônticas e investigam os entes (das [[lx> | ||
| + | * As ciências empíricas dividem-se regionalmente na investigação de domínios específicos de entes. | ||
| + | * A proximidade disciplinar entre teologia e química ocorre por ambas tratarem de entes, diferindo da tarefa fundamental da filosofia sobre o Ser (Sein). | ||
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| + | **Filosofia Transcendental e Psicologia Filosófica** | ||
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| + | 13. O obstáculo fundamental para a conciliação entre fenomenologia e naturalismo não reside no materialismo reducionista, | ||
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| + | 14. Uma proposta modesta de naturalização envolve o diálogo produtivo e o intercâmbio entre a fenomenologia e as ciências empíricas, permitindo que a descrição da experiência vivida se beneficie da complexidade dos fenômenos concretos investigados pela ciência. | ||
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| + | 15. Embora o objetivo final da fenomenologia seja o esclarecimento filosófico-transcendental, | ||
| + | * A fenomenologia oferece descrições estruturais da percepção, | ||
| + | * As descrições no nível do indivíduo advindas da psicopatologia, | ||
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| + | 16. O projeto de iluminação mútua estabelece uma via de mão dupla na qual as distinções fenomenológicas auxiliam a investigação empírica da mente, enquanto as descobertas científicas motivam a reavaliação e o refinamento das descrições da experiência vivida. | ||
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| + | 17. A neuroprenomenologia propõe treinar sujeitos experimentais para descreverem rigorosamente suas experiências, | ||
| + | * As categorias descritivas obtidas via relatos refinados de primeira pessoa são validadas de forma intersubjetiva. | ||
| + | * A identificação de múltiplos mecanismos subpessoais serve como motivação para reexaminar a experiência, | ||
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| + | 18. A abordagem da fenomenologia antecipada propõe utilizar os conceitos e análises da fenomenologia sobre a consciência pré-reflexiva diretamente na elaboração dos designs experimentais empíricos. | ||
| + | * O redirecionamento dos testes de autorreconhecimento no espelho para a avaliação de formas mais primitivas de autoconsciência proprioceptiva exemplifica a aplicação do design antecipado. | ||
| + | * O método pressupõe um movimento dialético contínuo entre os insights fenomenológicos prévios e os ensaios empíricos preliminares. | ||
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| + | 19. Husserl estabeleceu uma distinção entre a fenomenologia transcendental e a psicologia fenomenológica, | ||
| + | * A psicologia fenomenológica atua no âmbito da atitude natural como uma psicologia filosófica voltada à perspectiva de primeira pessoa. | ||
| + | * A fenomenologia transcendental busca compreender a dimensão constitutiva da subjetividade enquanto condição de possibilidade para a verdade e a aparição. | ||
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| + | 20. A existência de um paralelismo entre a psicologia fenomenológica e a fenomenologia transcendental permite que análises e dados empíricos desenvolvidos na atitude natural possam influenciar e alimentar a reflexão sobre a subjetividade transcendental. | ||
| + | * A mudança de atitude possibilita a transição metodológica entre o estudo eidetico-empírico da psique e a investigação transcendental. | ||
| + | * O estudo intencional da mente guarda uma dimensão transcendental latente que se revela ao superar a ingenuidade naturalista. | ||
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| + | 21. Os trabalhos de Merleau-Ponty demonstram uma integração contínua entre a reflexão fenomenológica e os dados das ciências humanas e biológicas, | ||
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| + | 22. A fenomenologia merleau-pontyana sustenta que a relação com o não fenomenológico e o ser natural deve integrar a própria investigação filosófica, | ||
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| + | 23. A postura que estabelece uma separação categórica entre filosofia e ciência — atribuindo à primeira apenas a análise lógica e conceitual do sentido — resulta em um direcionamento unidirecional estéril que rejeita o impacto dos dados empíricos sobre os conceitos filosóficos. | ||
| + | * A filosofia é definida sob essa ótica restritiva como uma disciplina voltada exclusivamente aos limites conceituais do sentido e do nonsense. | ||
| + | * A crítica à neurociência contemporânea aponta a persistência de um legado criptocartesiano que apenas substituiu a mente imaterial pelo cérebro físico, mantendo o dualismo estrutural. | ||
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| + | 24. A rejeição do isolamento conceitual rigoroso permite reconhecer que os dados empíricos podem desafiar e corroborar as análises fenomenológicas, | ||
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| + | 25. O diálogo produtivo com as ciências não exige a abdicação do caráter transcendental da fenomenologia, | ||
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| + | **Naturalismo Filosófico** | ||
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| + | 26. A avaliação das propostas de naturalização exige a rejeição da versão radical que busca dissolver a fenomenologia na ciência empírica, preservando-se a proposta modesta de intercâmbio crítico e iluminação mútua. | ||
| + | * O projeto radical de naturalização elimina o método filosófico transcendental ao tentar substituí-lo por esquemas explicativos naturais. | ||
| + | * O projeto modesto estabelece uma cooperação na qual a fenomenologia elucida os pressupostos científicos e a ciência empírica fornece dados para a revisão das análises da experiência. | ||
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| + | 27. O debate sobre a naturalização da fenomenologia requer o reexame do próprio conceito de natureza, expandindo-o para além das restrições do realismo metafísico de modo a acolher dimensões como sentido, contexto, perspectivas e cultura. | ||
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| + | 28. A noção de transcendental na fenomenologia husserliana sofreu transformações profundas ao reconhecer que o sujeito constituinte é necessariamente um ser corpóreo e socialmente inserido no mundo. | ||
| + | * O sujeito só é capaz de constituir a realidade objetiva por estar encarnado e situado no próprio mundo constituído. | ||
| + | * A constituição da objetividade exige a relação essencial do sujeito com uma pluralidade intersubjetiva de outros sujeitos encarnados. | ||
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| + | 29. A reflexão fenomenológica diferencia-se do modelo kantiano ao fundir o empírico e o transcendental através da temporalidade, | ||
| + | * A consideração do tempo e da facticidade reinsere a história e a existência empírica no âmbito da investigação transcendental. | ||
| + | * O alargamento do domínio transcendental fortalece a análise fenomenológica, | ||
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| + | 30. A naturalização da fenomenologia em um sentido amplo exige a revisão conceitual contínua das fronteiras entre o empírico e o transcendental, | ||
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