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| + | ====== João Carlos Correia – Alfred Schutz ====== | ||
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| + | Desde logo, destaca-se a sua contribuição para a reflexão sobre a Epistemologia e Metodologia das Ciências Sociais. À luz de Schutz é possível percebemos de um modo mais claro a actualidade da distinção entre as sociologias compreensivas, | ||
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| + | Por um lado, na sequência deste pensamento pioneiro, Schutz defendeu a distinção entre ciências naturais e ciências sociais com base no facto de que as segundas lidam com acontecimentos e relações pré-significativas para os actores evolvidos, argumentou que os processos compreensivos são centrais para que os actores sociais possam interpretar significativamente o mundo e finalmente e defendeu que o método da compreensão enquanto abordagem da subjectividade do actor era indispensável para as ciências sociais. Porém, se era evidente para Schutz que a acção social é eminentemente significativa, | ||
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| + | Para Schutz, a salvaguarda do ponto de vista subjectivo é a única garantia de que a realidade social não será substituída por um mundo construído pelo observador (Schutz, 1975 a: 8). Só que esta garantia abre um acréscimo de dúvidas e de problemas: haverá instrumentos do ponto de vista subjectivo que permitam criar constructos de segundo grau dotados de validade científica com base em constructos de senso comum que traduzem o significado subjectivo das acções dos agentes no mundo da vida? A resposta schutziana é positiva porém implica, desde logo, um compromisso com a necessidade de clarificar a origem do sentido, o papel da consciência na atribuição de sentido, o esclarecimento do próprio conceito de sentido e da motivação da acção. Tal domínio conduzirá Schutz a procurar muitas das respostas necessárias em Bergson, e, sobretudo em Husserl. Desde o seu primeiro livro que Schutz tornará bem claro que a teoria sociológica deve começar por estudar a interpretação da experiência pessoal e alheia; o conceito e a interpretação de significado; | ||
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| + | Da tradição weberiana, Schutz transporta consigo a ideia de acção subjectivamente significativa. Da tradição husserliana, | ||
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| + | Em segundo lugar, descobrimos na obra de Schutz uma fonte de possível inspiração para estudos culturais de fundamentação construtivista. Com Schutz, esclarecemo-nos sobre o papel que a Fenomenologia de Husserl pode desempenhar na descrição do mundo da vida e como a compreensão das múltiplas realidades sociais fundamentada na influência do Pragmatismo Americano (William James) se torna uma referência fértil para numerosos estudos e reflexões relacionadas com o pluralismo das sociedades complexas. Schutz aprofundou de modo particularmente hábil o conceito de âmbito de significado finito como as numerosas realidades que constituem o mundo da vida e que são olhadas como reais enquanto se dirige para elas a atenção da consciência: | ||
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| + | Compreendemos, | ||
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| + | Outro domínio onde importa exaltar a influência de Schutz é Teoria da Comunicação. À partida, Alfred Schutz é talvez um dos teóricos que, de modo mais directo ou indirecto, influenciou os estudos sobre comunicação na constituição da sociabilidade, | ||
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| + | Apesar de, em Schutz, a inter-subjectividade ser anterior à comunicação, | ||
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| + | De acordo com este ponto de vista, a Teoria da Comunicação de Alfred Schutz inclui uma concepção da natureza humana e da sua relação com o mundo da vida que privilegia a intersubjectividade. Neste plano incluem-se uma descrição de como a acção social é sempre dirigida a outrem e de como a linguagem desempenha um papel essencial neste processo. | ||
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| + | A Fenomenologia Social permitiu, ainda, a abertura de uma linha de investigação no domínio dos media e da construção da realidade de um modo que já foi abordado e muito trabalhado por Gaye Tuchman e que prosseguiu nos anos seguintes com Adoni e Mane, e com alguns rumos da investigação italiana. Schutz oferece uma reflexão sólida que caracteriza a comunicação como um fenómeno mundano ao qual se acede pela sua análise como acção humana e que, para uma compreensão correcta, carece de ser articulado com o funcionamento do mundo da vida quotidiana. Trata-se de uma hipótese que necessita de um aprofundamento teórico cuidado e que aponta para uma abordagem fenomenológica na Teoria da Notícia. Como se trata de um caminho que possui algumas veredas inexploradas aqui convirá falar em termos de um projecto. Assim, ter-se-á em conta o modo como o jornalista se afirma como um profissional da atitude natural e o modo como “atitude natural” é reproduzida nas rotinas jornalísticas através de processos de tipificação. Repara-se também como essa atitude natural é objecto de um treino vigoroso a fim de fim de responder a uma exigência profissional incontornável que permite que o jornalismo possa reivindicar um certo conceito de proximidade e de pertença: a reprodução impessoal de uma linguagem que se pretende que seja tanto quanto possível idêntica à do cidadão médio Por outro lado, destaca-se como essa «atitude natural» apesar de se poder relacionar com as potencialidades democráticas do senso comum e do «espírito público» também corre o risco de generalizar um certo conformismo lógico que penetra na vida quotidiana. Nessa medida, permite abrir uma reflexão sobre o jornalista como observador do mundo social, sobre a objectividade do relato jornalístico, | ||
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| + | Na Estética, como teórico apaixonado pela música e pela literatura deixou textos interessantíssimos que aliás estão a originar novas linhas de investigação seja nos Estudos Literários seja na Musicologia. Enquanto teórico da literatura, Schutz foi um hábil estudioso de Goethe e é autor de um texto famoso “Don Quixote and the problem of reality” (cfr. Schutz, 1976: 135-158) abordado pelo prisma das realidades múltiplas. Neste texto, o mundo da cavalaria sonhado pelo louco Quixote é analisado como uma província finita de significado, | ||
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| + | No campo da música formulou um conjunto de ensaios importantes como “Mozart and philosophers” ou “Making Music Together: a study in social relationship» (Schutz, 1976: 159-178; 179-200) os quais, conforme se verificou posteriormente, | ||
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| + | Finalmente, há a referir a existência de um investigação no plano da Teoria Política: esta pode passar pela afirmação de uma concepção de cidadania mas que implica que se dê uma muito especial atenção ao pluralismo identitário das sociedades complexas. Graças a Schutz, é possível afirmar um certo estilo de Fenomenologia que não enfatiza apenas a dimensão constituída do mundo da vida, mas antes aceita a diferenciação entre e dentro dos diversos mundos da vida; que mantém a distanciação em relação aos preconceitos adoptados na atitude natural vividos na quotidianeidade; | ||
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| + | Em Schutz delineia-se uma via na qual se torna claro o carácter construído dos diferentes modos de realização da ordem social. Não se nega a sua força objectiva, mas simultaneamente a todo o tempo se admite a sua relatividade. A Fenomenologia social parece permitir o diálogo e o entendimento entre as formas de vida sem necessitar de idealizar o mundo da vida como uma espécie de modelo de um espaço de entendimento utópico. Finalmente, esta atenção ao carácter construído dos diferentes modos de realização da ordem social torna a obra de Schutz profundamente aplicável às condições da modernidade tardia ou da pós-modernidade (não nos parece útil desenvolver uma discussão extensa sobre a aplicabilidade e pertinência destas categorias classificatórias) designadamente pelo facto de exprimir uma sensibilidade à fragmentação cultural que a caracteriza. Isto é particularmente visível nos seus trabalhos sobre a emigração, | ||
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| + | Em Schutz, o facto de as comunidades (ou sejam, os grupos sociais e culturais que são a expressão concreta do mundo da vida) serem sempre olhadas como estranhas pelos outros que lhe são próximos e implicarem, por sua vez, uma estranheza em relação a esses mesmos próximos, faz com que o mundo da vida perca a sua evidência. Na verdade, a evidência existe e Schutz não a nega. Porém é completamente limitada, só é evidente para os que a consideram enquanto tal e como tal. Cada realidade – e elas são múltiplas como o autor nunca se esquecerá de lembrar – é também um âmbito de significado finito e, consequentemente, | ||
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| + | Nesse sentido, esta linha de desenvolvimento fundada em Alfred Schutz pode constituir uma alternativa válida a dois modos de idealização da sociabilidade: | ||
| + | * um primeiro que idealiza o mundo da vida em nome da tradição ( por exemplo, Gadamer no contexto de uma leitura particular da hermenêutica filosófica) ou em nome do progresso e do entendimento futuro (Habermas e Apel), tentando nele encontrar seja o chão que permite relativizar a racionalidade iluminista seja a instância onde se funda o princípio da resistência e da amplificação de acções comunicativas que culminarão num consenso ideal; | ||
| + | * um segundo o modo de idealização da sociabilidade que enfatiza ponto de vista do sistema, e que acentua a componente da autoreferencialidade e da negação da entropia. Refiro-me à obra de Parsons e de Luhmann, na senda de Durkheim, Malinowsky, Radcliff-Brown e outros grandes nomes da tradição funcionalista. | ||
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| + | Existe na obra de Schutz um equilíbrio que permite pensar na tentativa de fundação de um individualismo situado (na verdade, embora Schutz se centre frequentemente na análise da consciência individual, tal parece muito mais uma tentativa de esclarecer os processos relacionados com a experiência subjectiva antes de exibir os aspectos sociais marcadamente inerentes dessa experiência), | ||
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| + | //João Carlos Correia. Comunicação e Sociedade: A Fenomenologia de Alfred Schutz. Covilhã, 2002// | ||
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