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| + | ====== A Filosofia de Edmund Husserl (1961) ====== | ||
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| + | //Edições da Revista " | ||
| + | //Lisboa, 1961// | ||
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| + | Apresentamos aqui um resumo geral, quase esquemático, | ||
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| + | **I.— Vida e obras: ** — Edmund Husserl nasceu em Prossnitz, na Morávia (antigo império Austro-Húngaro, | ||
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| + | O contato com Brentano marcou nele uma fase nova e decisiva: | ||
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| + | Entusiasmado pela Filosofia, resolveu dedicar-se exclusivamente a ela, mas no impulso veemente de lhe encontrar uma fundamentação, | ||
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| + | O seu estilo é, em geral, difuso e implicado, através das inúmeras obras, por muitas repetições. Revela, no entanto, grande impulso de rigor e seriedade, aliado a uma notável penetração analítica. Na sua vida particular, Husserl foi crente e honesto. Sobretudo nos últimos anos, mostrou particular simpatia pela Igreja católica, na qual contudo não chegou a entrar oficialmente. Sua esposa veio depois a converter-se ao catolicismo. | ||
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| + | **2. — Fim em vista: ** — Numa época em que Marx se impressionava sobretudo pela miséria social, Husserl, mais intelectualista, | ||
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| + | **3. — Características da verdadeira fundamentação: | ||
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| + | 1) Deve ser «a priori», isto é, independente da experiência, | ||
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| + | 2) Esta aprioridade implica, desde já, uma plena ausência de pressupostos. Temos que proceder com inteira liberdade, sem nos deixarmos influenciar por qualquer opinião dominante, quer cientifica, quer filosófica, | ||
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| + | 3) Finalmente, o fundamento radical tem que ser evidente por si mesmo: «É patente que eu, em consequência de ser um filósofo que pretende começar pelos fundamentos, | ||
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| + | **4. — Psicologismo e anti-psicologismo: | ||
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| + | Mas, já enquanto escrevia a Filosofia da Aritmética, | ||
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| + | Husserl continua a sua argumentação afirmando que se dá precisamente o contrário: As ciências práticas e empíricas é que dependem das teoréticas ou racionais, e não vice-versa. O «ato» depende pois das leis do «conteúdo», | ||
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| + | A ciência racional por excelência é a Lógica (lagos significa «razão»). É portanto no âmbito da Lógica que reside o último fundamento. Ê apenas neste sentido que Husserl se pode dizer um «logicista». A Lógica absolutamente fundamentadora não é porém uma Lógica meramente normativa ou regulativa da retidão do pensamento. Tal função, segundo Husserl, nem é especificamente determinativa da Lógica como tal, embora lhe pertença também. A «Lógica da contradição» postula uma «Lógica da verdade», mais profunda e radical. É no domínio desta última que se manifesta o impulso reflexo de evidenciação que nos põe em contato com as «coisas», de modo que aquilo que se vê não possa ser de outra maneira. Este impulso lógico equivale à Selbstbesinnung de que já falamos; será cada vez mais racionalizado, | ||
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| + | 5. — Evidência apodíctica: | ||
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| + | l) Noção de evidência: lista noção está relacionada com os conceitos de «intenção» e «intuição». Existe apenas uma «intenção significativa» (Bedeutungsintention), | ||
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| + | 2) Espécies de evidência: — Husserl diversifica fundamentalmente a evidência não a partir do sujeito, mas do objeto. Os objetos podem ser sensíveis, categoriais e universais; temos assim três modos fundamentais de evidência. | ||
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| + | O «objeto sensível» é uma singularidade empírica, por exemplo, o prado que está diante de mim, e determina a intuição sensível. | ||
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| + | O «objeto categorial» é, primariamente, | ||
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| + | Finalmente, os «objetos universais», | ||
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| + | Qualquer destes objetos pode ainda ser apreendido dum modo imediato, ou seja, com a presença do objeto por si mesmo, ou «na sua mesma corporeidade» (leibhaft), — e de um modo indireto, isto é, por meio de uma imagem ou recordação. Só no primeiro caso temos uma «intuição originária», | ||
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| + | 3) Graus de evidência: — Nas suas diferentes modalidades especificativas, | ||
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| + | Sendo a intuição o preenchimento da intenção, será mais ou menos perfeitamente evidente, segundo a plenitude do preenchimento. Assim, quando uma esfera está presente, o objeto pensado intencionalmente é a «esfera». Mas nem todos os elementos desta intenção se encontram preenchidos, | ||
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| + | Husserl reconhece que esta adequação plena é um estado-limite que de fato nunca se atinge. Mas o filósofo deve procurar, pelo menos, conseguir aquela adequação que lhe mostre, como absolutamente excluída, a possibilidade do contraditório daquilo de que tem evidência. Só deste modo se atingirá um fundamento que não poderá deixar de ser considerado como primordial. | ||
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| + | A grande preocupação de Husserl, sempre insatisfeito na ânsia duma evidência cada vez mais plena, será levar-nos a uma atitude em que a adequação de que se falou seja o mais plena possível, para que se comece por um fundamento de consistência insofismável. Tal é a razão da sua fenomenologia. | ||
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| + | **6. — Noção geral de fenomenologia: | ||
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| + | A palavra «fenomenologia» c de formação mais recente. Parece ter sido usada, pela primeira vez, só em 1761, por Lambert que tratou da «fenomenologia, | ||
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| + | **7. — A elaboração da fenomenologia: | ||
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| + | 1) Epoché ( èpoché ) e redução: — Espontaneamente vivemos na «atitude natural» (natürliche Einstellung), | ||
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| + | Há qualquer coisa mais evidente do que o objeto exterior: É a própria consciência do objeto exterior. Esta impõe-se apodicticamente: | ||
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| + | Tal «suspensão» designou-a Husserl pela equivalente palavra grega, «epoché» (èpoché). Os antigos pirrônicos usaram-na também corno fundamento do cepticismo que defenderam. Husserl, porém, de modo nenhum quer aderir ao cepticismo. Não pretende duvidar de nada. Praticando a «epoché», | ||
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| + | Temos assim, por um lado, a realidade transcendente que corresponde às coisas enquanto existentes fora ou para além da consciência; | ||
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| + | 2) Redução psicológica e redução transcendental: | ||
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| + | Temos, primeiramente, | ||
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| + | Husserl exige, por isso, uma redução transcendental. Na «redução psicológica» não se põe ainda «entre parênteses» a existência «natural» ou «mundana» do eu nem dos seus atos, ou «vivências» (Erlebnis) que conservam um caráter psicológico. Precisamos de atingir a «consciência transcendental», | ||
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| + | Na «consciência puta» ou «transcendental», | ||
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| + | Descartes chegara ao ego cogito, mas não entrara nele, porque não operou a «redução transcendental». Por isso, teve que deduzir tudo o mais a partir da realidade natural do eu. Husserl explorará as riquezas insondáveis deste «eu puro», só inteligível na explicitação do seu conteúdo interno. O fundamento inicial será portanto não apenas o ego cogito, mas o ego cogito cogitatum. | ||
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| + | 3) Objeto intencional: | ||
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| + | Como fundo, ou elementos primordiais, | ||
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| + | Em ordem a esta manifestação, | ||
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| + | A «intencionalidade» parte do «eu» e invade temporalmente os «dados materiais», | ||
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| + | No «nóema» há também elementos que acompanham apenas os especificamente designativos, | ||
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| + | Os elementos especificamente designativos formam uma parte central do «nóema», | ||
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| + | Husserl chegou assim, como ele mesmo se exprime, a um «idealismo» transcendental fenomenológico». Este «idealismo» mantém-se, contudo, apenas na «atitude transcendental». Na «atitude natural», a realidade é concebida como existente em si, independentemente da consciência: | ||
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| + | 4) Intersubjetividade — Atingida esta depuração «transcendental», | ||
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| + | Quando a objetividade se fundamenta pela relação a um objeto exteriormente imposto, basta provar esta imposição como necessária, | ||
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| + | Ora, segundo Husserl, graças a uma espécie de sentimento interior, ou «intropatia» (Einfühlung), | ||
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| + | **8. — 0 caráter metodológico da fenomenologia: | ||
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| + | Em primeiro lugar, a fenomenologia é um método de evidenciarão, | ||
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| + | Em segundo lugar, a fenomenologia é um método descritivo. Uma vez atingida essa atitude reflexa, o filósofo, e o cientista em geral, só têm que contemplar e descrever aquilo que se lhes depara na consciência transcendentalmente pura. Nesta acepção, a fenomenologia é, para Husserl, uma «disciplina puramente descritiva que explora, pela intuição pura, o campo da consciência transcendentalmente pura» ((Ib., § 59, p. 141)). | ||
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| + | A dedução não é inteiramente rejeitada, mas desempenha apenas um papel acessório enquanto pode contribuir para colocar o fenomenólogo na presença intuitiva do objeto. O método fenomenológico, | ||
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| + | Este método descritivo apresenta-se como um complemento necessário da atitude de evidenciação, | ||
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| + | O caráter descritivo do método fenomenológico, | ||
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| + | **9. — Conclusão: ** — Com a sua fenomenologia quis Husserl estabelecer o fundamento radical da Filosofia e de todo o saber humano. Internado na «atitude fenomenológica» ou «transcendental», | ||
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| + | Husserl teve, de fato, muitos entusiastas do método fenomenológico; | ||
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| + | A «atitude natural» tem de ser, sem dúvida, elevada a um estado de eliminação de todos os preconceitos e depurada numa séria crítica reflexiva; mas não tanto que se suprima a base essencial da reflexão humana que é a existência exterior à mesma consciência reflexa. Assim concebida, a «atitude natural» não é «ingênua», | ||
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| + | Pelo contrário, a fenomenologia como método «descritivo» teve ampla aplicação, | ||
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| + | Não foi só o método descritivo, ou analítico-reflexivo, | ||
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| + | O apelo filosófico, | ||
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