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| + | ====== REFLEXÕES FENOMENOLÓGICAS SOBRE A TEORIA DO SUJEITO (2) (1990) ====== | ||
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| + | ==== Le statut du phénoménologique ==== | ||
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| + | === ÉPOKHÈ n. 1 === | ||
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| + | //A liberdade humana já se manifesta na reflexividade do Eu, nessa estrutura complexa da consciência, | ||
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| + | * A liberdade humana já se manifesta na reflexividade do Eu, nessa estrutura complexa e particularmente emaranhada da consciência. | ||
| + | * No olhar " | ||
| + | * O Eu pode, sem dúvida, ser descrito de certa maneira, pode ser fixado pela descrição como o " | ||
| + | * Do ponto de vista do ato, tem-se o direito fenomenologicamente de dizer que o Eu " | ||
| + | * Contudo, o Eu não aparece como um momento " | ||
| + | * O Eu não se forma como se houvesse uma sequência de atos que todos comportariam em si um raio de Eu que formariam um Eu, é antes a unidade prévia do Eu que é a pressuposição a partir da qual uma sequência de atos pode ocorrer. | ||
| + | * O Eu precede a diversidade de cada raio de Eu apto a agir. | ||
| + | * Não se consegue pensar verdadeiramente o Eu quando ele é tomado apenas como momento descritivo de consumador de ato. | ||
| + | * O Eu anima, como o " | ||
| + | * A questão sobre o que é positivamente o Eu pode parecer deslocada e de difícil relevância para uma reflexão pedagógica. | ||
| + | * O Eu é considerado, | ||
| + | * A isolação individual do homem deve ser interrogada, | ||
| + | * O problema do Eu não é, portanto, um problema indiferente e exterior, tendo, pelo contrário, apesar de seu caráter formal, uma significação eminente. | ||
| + | * Isso se deve também ao fato de que as interpretações mais concretas da vida, onde o homem é tomado como pessoa, como unidade da história de uma vida, operam sempre com estruturas egoicas formais, e se servem de uma compreensão do Eu não explicitada, | ||
| + | * Questiona-se primeiramente: | ||
| + | * Primeiramente, | ||
| + | * O presente da minha vida não é preenchido por um vivido isolado, sendo uma anomalia se toda a intensidade da vida se concentra em um único ato; habitualmente, | ||
| + | * Nesses vividos, o Eu " | ||
| + | * A vigilância, | ||
| + | * Contudo, ele não é então um Eu quíntuplo ou sêxtuplo, mas o Eu uno em vários raios de Eu. | ||
| + | * O " | ||
| + | * O raio de Eu parece ser um momento de vivido. | ||
| + | * Tomado como raio de Eu, o Eu ocorre também em certa medida no tempo dos vividos, no fluxo de vivido, encontrando ali, a cada vez, um local, uma posição temporal. | ||
| + | * Além disso, não é apenas um momento de presente que pode ser preenchido por vários " | ||
| + | * Por exemplo, eu acompanho uma demonstração, | ||
| + | * Encontramos uma sequência temporal de raios de Eu que se implicam uns aos outros em um tema comum. | ||
| + | * O Eu não permanece apenas o que é " | ||
| + | * Os numerosos vividos singulares são abrangidos pela unidade do interesse comum egoico, do qual formam os elos. | ||
| + | * Esses interesses do Eu podem finalmente ultrapassar a esfera dos atos e se tornar direções de interesses constantes; neles pode se formar um estilo, uma estrutura habitual do Eu. | ||
| + | * Na pedagogia, essa distinção é utilizada incessantemente, | ||
| + | * A educação visa ser um efeito ordenador e instrutivo do educador sobre o educando de tal sorte que o aluno queira essa instrução, | ||
| + | * Mas em tudo isso, o Eu é considerado apenas a partir de um modo derivado da egoicidade. | ||
| + | * A essência do Eu não é reconhecida primeiramente onde o raio de Eu ou a tomada de posição egoica (a habitualidade) determinam o ponto de vista da questão. | ||
| + | * O raio de Eu é um momento de vivido, e no raio de Eu, o Eu, por assim dizer, se " | ||
| + | * Certamente, ainda se tem alguma consciência da diferença entre o raio de Eu e o Eu. | ||
| + | * O raio de Eu faz parte do vivido, mas não o próprio Eu. | ||
| + | * É por isso que se fala, como Husserl, por exemplo, de uma " | ||
| + | * Isso não significa para Husserl que o Eu seria, por exemplo, um objeto exterior " | ||
| + | * O Eu se mantém " | ||
| + | * São apenas seus raios de ato, suas consumações de atos egoicos que passam no fluxo temporal interno, enquanto ele próprio se defronta com esse fluxo. | ||
| + | * Husserl tenta apreender fenomenologicamente a pretensa transcendência do Eu (que se encontra na direção oposta à da coisa " | ||
| + | * Por exemplo, no ato de compreender, | ||
| + | * Esse caráter habitual do eu perdura, mesmo que não possa ser atualizado sem interrupção. | ||
| + | * Aqui se pode ver, mais ou menos, como o Eu guarda o tempo sem nadar sempre no fluxo do tempo, sem durar sempre, sem persistir continuamente. | ||
| + | * Mas a questão permanece aberta se a relação do Eu com o tempo é assim suficientemente compreendida. | ||
| + | * Incontestavelmente, | ||
| + | * Mas para Husserl, a base dessa distinção é em última análise a " | ||
| + | * Nas Lições são distinguidos com muita insistência a " | ||
| + | * Essa distinção tem uma longa história, cuja origem se encontra na problemática do tempo e da alma. | ||
| + | * O sentido do problema já está perdido quando, em Agostinho, o tempo conhece sua primeira subjetivação decisiva e é de certa forma assinalado à // | ||
| + | * A separação cartesiana da //res extensa// e da //res cogitans// é uma perda suplementar do problema do tempo, assim como a distinção leibniziana entre o movimento interno da mônada e o movimento externo (mecânico) das substâncias reunidas. | ||
| + | * Por fim, encontra-se em Kant uma subjetivação do espaço e do tempo pelo fato de serem determinados como formas a priori da pura sensibilidade do sujeito humano finito, com esta importante diferença, contudo, que o espaço é a forma que precede toda experiência da objetividade externa, e o tempo é a forma pura do " | ||
| + | * A diferença fenomenológica entre tempo externo e interno é a conclusão da longa história de uma perda, apesar das análises sutis que se possa dedicar a ela. | ||
| + | * A perda não designa nunca uma negligência ou inaptidão dos pensadores aos quais se acreditaria superior (rejeitando a crítica arrogante como ridícula e absurda), pois o que animou o poder histórico do pensamento durante séculos nunca se reduz a um erro humano demasiadamente humano. | ||
| + | * O problema da perda é uma questão destinal, e o poder destrutivo do tempo não se manifesta apenas na erosão das montanhas, na secagem dos oceanos, no resfriamento de constelações visíveis, mas também na " | ||
| + | * A distinção que a fenomenologia pretende fazer entre tempo " | ||
| + | * O homem " | ||
| + | * Contudo, diz-se também, a postura " | ||
| + | * Tempo subjetivo e objetivo se separam, superando-se a amálgama e a mistura " | ||
| + | * O tempo externo é para nós infinito e está em curso, pois por mais que olhemos para trás, que repensemos em sentido contrário, não podemos fixar um começo nem um fim. | ||
| + | * Por outro lado, o tempo interno é um conjunto consciente finito, não se podendo remontar indefinidamente em nossas lembranças, | ||
| + | * E, voltados para o futuro, vamos em direção a uma morte certa, e contudo angustiante. | ||
| + | * Mas, na verdade, no desdobramento fenomenológico do tempo em tempo " | ||
| + | * Ao fazer isso, na verdade, apenas se redobrou o processo temporal, e se pressupôs um conjunto de processos " | ||
| + | * Ao tentar pensar a sequência dos eventos em sentido contrário, recaiu-se novamente na sucessão. | ||
| + | * Isso significa que se continua fundamentalmente a pensar o tempo como a continuação de momentos-de-agora, | ||
| + | * E isso se trai justamente na interpretação da temporalidade do Eu. | ||
| + | * O Eu é, entendemos, " | ||
| + | * A base a partir da qual são interpretadas a temporalidade e a atemporalidade do Eu é, em princípio, a sequência intratemporal. | ||
| + | * Enquanto o Eu é mantido no horizonte desse ponto de partida (// | ||
| + | * Certamente, entra em linha de conta, além disso, o Eu como condição da unidade objetiva, mas a " | ||
| + | * O ser-eu do Eu é compreendido como se fosse um traço de estilo fundamental do qual dependem em seguida as outras habitualidades, | ||
| + | * A identidade do Eu não pode, contudo, jamais ser apreendida a partir do fenômeno da " | ||
| + | * A egoicidade do Eu é tanto uma pressuposição para a possibilidade de as posturas egoicas se fixarem, quanto uma pressuposição da unidade de todo objeto. | ||
| + | * A interpretação do " | ||
| + | * Isso é bem-sucedido para o raio de Eu, mas fracassa para o caráter habitual do Eu. | ||
| + | * Pois o Eu não é nem um momento " | ||
| + | * A utilidade de toda essa polêmica reside na necessidade de examinar e buscar qual sentido tem o discurso (//Rede//) que a respeito do Eu se serve das proposições sobre o " | ||
| + | * De fato, aí reside o coração do problema. | ||
| + | * Convencido de continuar e desenvolver os motivos fundamentais kantianos, Fichte, nos projetos e retomadas incessantes de sua " | ||
| + | * O fato não designa o fato no sentido do positivismo, | ||
| + | * O fato é antes o título principial do Não-Eu posto pelo Eu absoluto. | ||
| + | * O ato produtivo de pôr, que o Eu consuma, é o fato-ação. | ||
| + | * A essência do Eu, compreendida especulativamente, | ||
| + | * O Eu não é o que as coisas são. | ||
| + | * Deve-se, em suma, afastar-se da concepção do Ser da qual nos servimos a propósito dos entes-coisas, | ||
| + | * O que o Eu " | ||
| + | * Esse //pathos// fichtiano da liberdade no fundo da metafísica da consciência liberou o formidável fluxo de pensamento que encerrou, na filosofia de Hegel e de Schelling, uma era do mundo. | ||
| + | * As ideias de Fichte significam antes de tudo uma repetição de problemas antigos, e a interpretação de Hegel por Croce e Gentile, que prevaleceu, por exemplo, na Itália, foi uma interpretação do idealismo alemão por conceitos fichtianos. | ||
| + | * A posição fundamental de Fichte se caracteriza por uma espécie de " | ||
| + | * Assim como na teologia negativa Deus não é determinado pela via da analogia que ultrapassa e aumenta os atributos finitos, mas pela via da negação e da anulação das determinações finitas (e de cada um de seus contrários), | ||
| + | * Mas ali o finito não é apenas aquilo a partir do qual se segue o ímpeto (// | ||
| + | * O Eu absoluto "não é", se: " | ||
| + | * Mas precisamente essa " | ||
| + | * O abandono desse exame resulta no fato de que o ser da verdade não coloca mais um problema legítimo, e, por conseguinte, | ||
| + | * As categorias ontológicas são elaboradas apenas em relação ao que está ali, ao que subsiste, ao disponível (//das Vorhandene// | ||
| + | * A egoicidade do Eu é caracterizada apenas " | ||
| + | * Sem dúvida, ela é compreendida como o que tem mais subsistência, | ||
| + | * Mas esse subsistente e sempre presente (// | ||
| + | * O mais subsistente não " | ||
| + | * O princípio da subjetividade, | ||
| + | * Seu paradoxo ontológico é manifestamente mais complexo e labiríntico do que os simples emaranhamentos de reflexões de que se falava anteriormente. | ||
| + | * Voltando a coisas mais simples, talvez na reflexividade se ganhe uma compreensão do Eu elementar, que precede toda explicação ontológica. | ||
| + | * A reflexão é uma possibilidade familiar, sendo um modo de expressividade da consciência de si. | ||
| + | * Essa tese se opõe à concepção fenomenológica habitual, segundo a qual a " | ||
| + | * Não existe absolutamente nenhuma consciência temática das coisas sem co-saber do Eu por ele mesmo. | ||
| + | * Mas como é esse co-saber? | ||
| + | * Co-saber não é um saber que uma coisa-alma, que o Eu, tem de si ou sobre si, de tal sorte que se poderia distinguir o Eu em si e o saber que ele tem de si mesmo. | ||
| + | * O Eu não é de forma alguma exterior à consciência de si; a consciência de um si (// | ||
| + | * Todas as descrições são falsas se o saber da consciência de si é em suma subsumido sob o conceito geral de saber. | ||
| + | * A árvore que vemos ou tocamos é indiferente à questão de saber se a conhecemos ou não, ou se por nosso conhecimento ela se tornará ou não " | ||
| + | * A árvore é totalmente independente do conhecimento que podemos ter dela. | ||
| + | * E ela pode ter essa independência porque o " | ||
| + | * A árvore se mostra como crescendo segundo uma impressão determinada de seu aspecto, e isso em relação a todo ente que está reunido com ela na esfera da presença. | ||
| + | * Pelo fato de a árvore " | ||
| + | * Distingue-se com razão a própria árvore de nossa " | ||
| + | * Essa distinção não tem a princípio nada a ver com aquela que separa real e imaginação. | ||
| + | * A árvore que representamos é a árvore efetivamente real. | ||
| + | * O objeto é a coisa (//Ding//). | ||
| + | * Não se pode aqui explicar o que significa para o ser de um ente que um ente se torne " | ||
| + | * O que quer que seja, encontramo-nos, | ||
| + | * Uma coisa pode se tornar objeto; isso não significa, contudo, que se ponha em seu próprio ser uma necessidade. | ||
| + | * Não é necessário que o ser em si e o ser para nós de uma coisa coincidam. | ||
| + | * Pelo contrário, os verdadeiros problemas de conhecimento só podem ser explicitados quando a objetividade do ente mantém um questionamento aberto e não se é invadido precipitadamente por um idealismo superficial que nivelaria de forma não crítica a coisa e o objeto. | ||
| + | * Mas o que acontece com a consciência de si? | ||
| + | * É uma " | ||
| + | * Pode-se com razão distinguir um Eu em si e um Eu consciente? | ||
| + | * De forma alguma: o Eu só existe como saber de si. | ||
| + | * O co-saber da consciência de si não tem, por assim dizer, outro conteúdo que o próprio co-saber. | ||
| + | * O Eu é, desde o início, já uma relação a si. | ||
| + | * O caráter relacional não intervém na consciência de si apenas com a reflexão expressa, ele já se encontra sempre ali. | ||
| + | * Em outras palavras, o Eu não é uma " | ||
| + | * Em relação à coisa, as relações, como é mais frequentemente admitido, são algo secundário: | ||
| + | * A categoria aristotélica da relação (//pros ti//) pressupõe a primeira categoria, a //ousia//, a substância. | ||
| + | * Mas talvez a substancialidade em sua estrutura constitutiva seja já " | ||
| + | * Kant classifica a categoria da substância no grupo das " | ||
| + | * Mas o Eu é uma relação bem mais radicalmente. | ||
| + | * Sem dúvida, não é uma relação de alguma forma " | ||
| + | * A reflexão — enquanto modo de expressividade da consciência de si — atualiza apenas o incansável se-relacionar-a-si-mesmo do Eu, sua autoafirmação, | ||
| + | * A consciência de si, se a proposição for bem compreendida, | ||
| + | * Isso significa também: não existe previamente um Eu unívoco e simples e depois vários Eu(s) na formação de vários níveis de reflexão que se retomam uns aos outros, mas que estão reunidos e unidos. | ||
| + | * O Eu é, antes, originalmente já disperso e, no entanto, uno. | ||
| + | * Ele é uma unicidade múltipla em si que não encontra a multiplicidade simplesmente disposta em si, mas que sempre a produz, enquanto ele " | ||
| + | * O Eu é um jogo de relações de reflexão. | ||
| + | * A propósito das retomadas repetidas de reflexão de que se falava, pode-se dizer agora: na reflexividade se anuncia, mesmo que seja apenas um traço, a liberdade humana. | ||
| + | * É, de certa forma, independentemente de todo material objetivo, independentemente de todo " | ||
| + | * A liberdade, tomada como jogo da reflexão, não é, sem dúvida, a liberdade humana no sentido próprio, mas é a pura liberdade, o autocomeço puro e o produzir no domínio da consciência. | ||
| + | * Contudo, a questão permanece aberta sobre se e como essa via da metafísica da consciência, | ||
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| + | //ÉPOKHÈ. Le statut du phénoménologique. Grenoble: Millon, 1990. v. N. 1.// | ||
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