| Atalhemos imediatamente uma falsa interpretação. Que Sócrates medite sobre as coisas da vida usual não quer dizer que medite somente sobre o homem e seus atos. Comumente se tomou nesse sentido o testemunho de Aristóteles. No entanto, o vocábulo grego êthos tem um sentido infinitamente mais amplo que o que damos hoje à palavra “ética”. O ético compreende, antes de tudo, as disposições do homem na vida, seu caráter, seus costumes e, naturalmente, também o moral. Em verdade, poder-se-ia traduzir por “modo ou forma” de vida, no sentido profundo da palavra, diferentemente da simples “maneira”. Pois bem: Sócrates adota um novo modo de vida: a meditação sobre o que são as coisas da vida. Com isso, o “ético” não está primariamente naquilo sobre o que medita, mas no fato mesmo de viver meditando. As coisas da vida não são o homem; mas são as coisas que se dão em sua vida e das que essa depende. Fazer que a vida do homem dependa de uma meditação sobre elas não é meditar sobre o moral, diferentemente do natural: é, simplesmente, fazer da meditação o êthos supremo. Dito em outros termos: a sabedoria socrática não recai sobre o ético, mas é, em si mesma, ética. Que de fato aplicasse sua meditação com preferência às virtudes cívicas é coisa por demais secundária. O essencial é que o intelectual deixou de ser um vagabundo que vive nas estrelas para transformar-se em homem sábio. A Sabedoria como ética: aí está a obra socrática. No fundo, uma nova vida intelectual. | Atalhemos imediatamente uma falsa interpretação. Que Sócrates medite sobre as coisas da vida usual não quer dizer que medite somente sobre o homem e seus atos. Comumente se tomou nesse sentido o testemunho de Aristóteles. No entanto, o vocábulo grego êthos tem um sentido infinitamente mais amplo que o que damos hoje à palavra “ética”. O ético compreende, antes de tudo, as disposições do homem na vida, seu caráter, seus costumes e, naturalmente, também o moral. Em verdade, poder-se-ia traduzir por “modo ou forma” de vida, no sentido profundo da palavra, diferentemente da simples “maneira”. Pois bem: Sócrates adota um novo modo de vida: a meditação sobre o que são as coisas da vida. Com isso, o “ético” não está primariamente naquilo sobre o que medita, mas no fato mesmo de viver meditando. As coisas da vida não são o homem; mas são as coisas que se dão em sua vida e das que essa depende. Fazer que a vida do homem dependa de uma meditação sobre elas não é meditar sobre o moral, diferentemente do natural: é, simplesmente, fazer da meditação o êthos supremo. Dito em outros termos: a sabedoria socrática não recai sobre o ético, mas é, em si mesma, ética. Que de fato aplicasse sua meditação com preferência às virtudes cívicas é coisa por demais secundária. O essencial é que o intelectual deixou de ser um vagabundo que vive nas estrelas para transformar-se em homem sábio. A Sabedoria como ética: aí está a obra socrática. No fundo, uma nova vida intelectual. |