| Se nos voltarmos para o Heidegger de Sein und Zeit, veremos que, nele, não há privilégio para a atividade de fazer-obra. Pelo contrário, ela é relegada à vida cotidiana, que é, por definição, inautêntica, e é explicitamente declarado que essa atividade só pode dar origem a uma historicização inautêntica. De modo mais geral, podemos ver hoje, graças à publicação das palestras de Marburg, antes de Sein und Zeit, que a distinção heideggeriana entre o inautêntico e o autêntico deve muito à distinção que Aristóteles fez na Ética a Nicômaco entre a atividade de produzir obras ou efeitos — poiesis — e a atividade da praxis entendida como a conduta da existência humana individual entre outras existências. É essa conduta que, de acordo com Aristóteles, torna possível atingir ou não a eudaimonia, a realização individual. Mas somente outros depois dele poderão testemunhar essa conquista e contar a história. Nesse ponto, parece-me que a Ética a Nicômaco deve ser vista em relação ao que a Poética nos ensina sobre o mythos — em particular, o enredo trágico. | Se nos voltarmos para o Heidegger de Sein und Zeit, veremos que, nele, não há privilégio para a atividade de fazer-obra. Pelo contrário, ela é relegada à vida cotidiana, que é, por definição, inautêntica, e é explicitamente declarado que essa atividade só pode dar origem a uma historicização inautêntica. De modo mais geral, podemos ver hoje, graças à publicação das palestras de Marburg, antes de Sein und Zeit, que a distinção heideggeriana entre o inautêntico e o autêntico deve muito à distinção que Aristóteles fez na Ética a Nicômaco entre a atividade de produzir obras ou efeitos — poiesis — e a atividade da praxis entendida como a conduta da existência humana individual entre outras existências. É essa conduta que, de acordo com Aristóteles, torna possível atingir ou não a eudaimonia, a realização individual. Mas somente outros depois dele poderão testemunhar essa conquista e contar a história. Nesse ponto, parece-me que a Ética a Nicômaco deve ser vista em relação ao que a Poética nos ensina sobre o mythos — em particular, o enredo trágico. |