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estudos:schuback:schuback-199832-33-nao-nicht

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 +===== "NÃO" (1998:32-33) =====
 +“Por que há alguma coisa e não antes o nada?” Esta famosa interrogação de Leibniz sobre o sentido de ser acontece, para Schelling, em toda a sua força de realidade no encontro com a indeterminação radical a que o homem está lançado. Pois o que este encontro propicia é a “negatividade” principial do devir. Em sua negatividade, a indeterminação instaura o homem como aquele que, em tudo o que faz e realiza, está sempre a perguntar pelo sentido de ser. O não é, aqui, doação, doação de sentido. Schelling afirmou, repetidamente e de variadas formas, que todo começo é filho de um não. É mister, todavia, evitar que o sentido doador do não seja apreendido, do ponto de vista ôntico, como um ainda-não que, necessariamente, deve deixar de ser não. Assim é que se costuma conceber, no âmbito das invenções, em que se diz que a necessidade é sempre perene, o homem é que ainda-não havia obtido os meios para supri-la. Este ainda-não é mera questão de tempo. Mas de que tempo? É mera questão do tempo das execuções e dos preenchimentos. O não doador, implícito à indeterminação, é, bem ao contrário, um “não” que jamais pode ser preenchido, que jamais pode deixar de ser não. Desta forma, trata-se de um não que, em cada princípio e começo, ganha força de negatividade, ou seja, retrai-se em si mesmo de modo a tornar-se ainda mais não. Se considerarmos tudo o que surge e começa como um “sim”, podemos então dizer que todo sim carrega em seu fundo um não cuja tendência é aprofundar a sua “negatividade”. Este não que está sempre a se dizer em cada sim, é o não de uma condição, da con-dição de ser. Rainer Maria Rilke, num dos Sonetos a Orfeu, faz aparecer a dimensão singular deste não nos seguintes versos:
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 +“Sê — e sabe, ao mesmo tempo, da condição do não-ser
 +Fundamento infinito da tua vibração interior
 +A fim de que, nesta única vez, a realizes por completo”.
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 +A condição do não-ser, que sempre se diz conjuntamente em todo ser, não constitui, simplesmente, uma “lembrança” de não ter sido “antes” de ser. Assim entendida, a condição não passaria de mera formalidade, de mero estado ou camada que se abandona, inteiramente, no momento em que alcança um novo estado ou camada. Não-ser diría apenas um “não-mais” e, portanto, um não mais ser não. O não da condição de ser, ao contrário, aprofunda-se como não em tudo o que vem a ser. Este não que sempre condiz em cada sim de um começo é a base do sentido schelligniano de origem. Muito longe de um ponto de partida, Schelling apreende origem como o salto de ser no ser, o seu fundo sem fundo, que só é fundamento ao aprofundar o seu não. Para determinar o sentido deste não originário, que se “desenvolve” em sua negatividade justo quando vem a ser, Schelling usou dois termos principais: passado e fundamento. Considerando que o passado constitui o modo de concreção mais imediato do fundamento e a dimensão cronológica do tempo em que, de forma imediata, se apresenta a realidade do devir, ele deve ser o nosso ponto de partida em direção ao sentido de fundamento enquanto aprofundamento no ser do próprio não.
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 +[SCHUBACK, Marcia S. C. O Começo de Deus. A filosofia do devir no pensamento tardio de F.W.J. Schelling. Petrópolis: Editora Vozes, 2021]
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