estudos:romano:em:experiencia
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| + | ===== Experiência ===== | ||
| + | (ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32) | ||
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| + | **A EXPERIÊNCIA COMO PROVA DO INEXPERIMENTÁVEL** | ||
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| + | 1. O Evento é, como tal, inexperimentável, | ||
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| + | 2. Interroga-se se o Evento não deve, ao mesmo tempo, ser experimentado de algum modo por aquele a quem sobrevém, questionando-se se o conceito empirista de experiência é o único possível, e se não haveria, paradoxalmente, | ||
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| + | **a. — O problema do sentido fenomenológico primeiro da experiência** | ||
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| + | 3. Antes de responder o que significa experiência, | ||
| + | * O verbo ter traduz a ideia de uma acumulação possível, como se as experiências, | ||
| + | * Bem diversa é a ideia sugerida pela expressão fazer uma experiência: | ||
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| + | 4. A etimologia confirma esse sentido: experiência provém do latim experiri, provar, cujo radical periri remete à raiz indo-europeia PER, através, que se atualiza numa multiplicidade de formações lexicais aparentemente estranhas entre si — o inimigo e o perigo (periculum), | ||
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| + | 5. Esse perigo consiste em que, arriscando-se em primeira pessoa, o sujeito se engaja, coloca-se em jogo naquilo que o constitui essencialmente até sua própria ipseidade, sendo a experiência esse risco de exposição ao que atinge em pleno coração — ao Evento que, destinando-se insubstituivelmente, | ||
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| + | 6. Dos dois conceitos de experiência — ter experiências, | ||
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| + | **b. — A ex-per-iência como travessia e perigo** | ||
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| + | 7. A experiência, | ||
| + | * Pouco importa, para que se possa falar de experiência em geral, que o Evento seja exterior ou sobrevenha por acaso, como um golpe do destino, ou que seja o mais interior, aquele para o qual se está mais preparado, sendo a travessia de si a si indissociável de um risco e de uma transformação que é advento de si em si na diferença absoluta consigo mesmo, desde o salto primeiro (Ursprung) do Evento. | ||
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| + | 8. O que importa para a determinação do sentido primeiro da experiência é que a todo Evento, por mais preparado que esteja, pertence um caráter de primeira vez (Erstmaligkeit) que deixa inteiramente exposto e como nu diante de sua novidade radical, sendo, ao contrário do fato intramundano que se repete, o Evento sempre necessariamente único, jamais visto duas vezes — o que se manifesta ao mais alto grau na morte, experiência jamais feita, feita pela primeira e última vez simultaneamente. | ||
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| + | 9. Segue-se dessa primeira caracterização que a ex-per-iência não ensina nada no sentido de tornar possível a aquisição e a acumulação de conhecimentos empíricos, sendo sempre insubstituível e incomparável com a de outrem, não significando senão essa transformação de si, ao risco de si mesmo, a partir dos Eventos, de modo que ninguém pode ensinar sua experiência a outrem, senão apenas o próprio Evento, que ensina a nós mesmos a nós mesmos, sem transmitir qualquer conhecimento, | ||
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| + | 10. Se a ex-per-iência nada ensina no sentido de disponibilizar conhecimentos, | ||
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| + | 11. Inversamente, | ||
| + | * Fazer uma ex-per-iência é compreender-se de outro modo à luz do que sobrevém, cumprindo uma travessia ao perigo de si, supondo toda ex-per-iência, | ||
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| + | 12. Se a ex-per-iência, | ||
| + | * A transformação indissociável da compreensão não significa a passagem de uma vivência (Erlebnis) a outra no interior de um sujeito, mas aquilo que faz, depois, poder-se dizer que essa doença transformou, | ||
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| + | 13. Decorre disso que a compreensão não vem depois da experiência como resultado ou consequência sua, sendo antes seu movimento mais interior, pois a ex-per-iência, | ||
| + | * Compreender um Evento passado é também compreender o que dele separa, compreender o que, por movimento da própria ex-per-iência, | ||
| + | * Permanece a interrogar, mais precisamente, | ||
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