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estudos:romano:em:alteridade

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 +===== Alteridade =====
 +(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32)
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 +**IPSEIDADE E ALTERIDADE: OS FENÔMENOS DO LUTO E DO ENCONTRO**
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 +1. Ao nascer, o Adveniente recebe o mundo de tal maneira que nunca se encontra nele sozinho, pertencendo originariamente à aventura humana uma relação constitutiva com o outro — não no sentido de uma constituição ontológica formal, como o Mit-sein heideggeriano, mas enquanto é sempre a partir de Eventos que o outro se manifesta como tal.
 +  * Com a irrupção do outro no mundo, no Evento do encontro, o mundo inteiro se transfigura, tal como o exprime Kafka ao dizer que um mundo desmorona e outro se edifica; o mesmo ocorre com a morte do outro e o Evento do luto, no qual a retirada do mundo alheio arrasta consigo, irremediavelmente, o mundo próprio.
 +  * Encontro e luto atestam assim o entrelaçamento inextricável dos mundos, um no outro.
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 +2. A interpretação desses fenômenos não visa analisar situações contingentes escolhidas ao acaso, mas prosseguir o questionamento sobre o sentido evental da ipseidade, investigando em que medida esses fenômenos, aparentemente relativos ao outro, podem fornecer resposta à pergunta sobre quem se é.
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 +**a. — O luto e a separação**
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 +3. O luto constitui a experiência absoluta da separação, não uma separação contingente e reversível, mas uma separação em si mesma absoluta e irremediável, que advém no tempo e dele recebe seu selo, sendo a temporalidade a única dimensão segundo a qual tal separação absoluta é possível; nele, o defunto é aquele que nos deixou porque o próprio tempo em que ainda estava presente tornou-se inacessível.
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 +4. Enquanto fato, a morte do outro é inexperimentável, pois morrer é deixar de estar neste mundo, perdendo-se o mundo como tal, perda que, acompanhada de sinais corporais, não pode ser objeto de experiência própria, permanecendo o espectador irremediavelmente exterior a esse nada que constitui a morte — nada tanto mais impressionante quanto menos visível a morte se mostra.
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 +5. Pensar o luto como separação absoluta exige que o desaparecimento do outro acarrete não apenas a perda da pessoa amada, mas também a perda de si mesmo, num sentido forte de morte verdadeira: morre-se à pessoa amada e, através dessa primeira morte, morre-se a si mesmo, isto é, àquele que só se podia ser insubstituivelmente para ela.
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 +6. No Evento do luto, como em todo Evento, está em jogo a própria ipseidade, pois assim como o Evento do encontro abre o mundo próprio às dimensões do mundo do outro, o Evento do luto fecha esse mundo e, em seguida, o mundo próprio, com a constelação de possibilidades que só eram próprias por terem advindo do encontro com o outro.
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 +7. O luto é esse morrer a... o outro que suportam os que ficam, redobramento que não deve ser entendido como um efeito produzido pela morte alheia, mas como fenômeno pertencente ao mais originário do luto, tal como o formula Proust ao afirmar que só uma verdadeira morte a si mesmo poderia consolar da morte alheia.
 +  * A ligação intrínseca entre a morte ao outro e a morte a si mesmo constitui o sentido evental do luto, muito embora Proust confira a esse morrer redobrado um sentido exclusivamente empírico de esquecimento inexorável, apoiado na tese de um eu como sucessão de eus plurais e de um tempo como sucessão rapsódica de instantes descontínuos.
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 +8. Nenhum escritor talvez tenha descrito com maior profundidade o sofrimento da separação do que Proust, que, no entanto, pensando como empirista, acredita que a experiência, por sua mera repetição, ensina algo sobre o porvir, concluindo do caso de Gilberte que toda antecipação da separação acaba por realmente separar — conclusão que a morte de Albertine virá desmentir.
 +  * Se o fato é repetível e o Evento é único, o luto de Albertine não é o de Gilberte, sendo cada luto único e incomparável, pois são os próprios possíveis compartilhados com o outro que desabam com o mundo do amor.
 +  * A revelação dessa morte confronta o narrador com o Evento puro, cuja originariedade — imprevisível e irremediável — havia sido dissimulada pela teoria do hábito e pelos artifícios da dor, revelando um excedente do real sobre o possível irredutível a toda antecipação.
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 +9. Elevando-se provisoriamente acima dessa psicologia empirista e associacionista, Proust nota que o sofrimento do luto não decorre de lembranças precisas ou de vivências presentes, mas do próprio mundo da pessoa amada, cuja retirada esvazia a própria vida, tal como o comparável recolhimento total do mar deixando na praia os vestígios de sua presença.
 +  * A experiência da perda e do luto não se reduz a vivências psicológicas, sendo sentida em sua maior intensidade justamente onde falta a lembrança, prova de um Evento inexperimentável que faz vacilar toda a aventura, tal como o exprime o narrador ao afirmar que o mundo não é criado de uma vez por todas para cada um.
 +  * As lembranças podem ser causa psicológica do sofrimento da separação, mas não sua origem evental, a qual é o que permite que essas lembranças nos atinjam, como o resume a imagem de Albertine enquanto continente de todas as coisas cuja desaparição faz desabar o mundo inteiro que lhe pertencia.
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 +10. É falso afirmar, como Heidegger, que a morte do outro nada ensina ao Dasein sobre sua própria morte, ocorrendo antes o contrário: na prova do luto, o morrer a... o outro revela-se indissociável de uma morte a si mesmo, desmoronamento dos possíveis que só eram possíveis em vista do outro e por sua presença — o que explica por que também a separação amorosa, em que o outro não morre efetivamente mas está como morto, reveste os caracteres essenciais do luto como separação absoluta, sem que se trate aqui de uso metafórico do termo.
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 +11. Perda mais profunda que toda perda empírica, o luto constitui uma perda paradoxal — não a perda do que se tem, mas a perda do que em nada pertence a si mesmo e cuja perda, contudo, não se pode suportar sem perder-se com ele — pois com esse Evento retorna a própria ipseidade, já que esta não se dá fora da relação com o outro instaurada pelo encontro; o que morre de si com a morte do outro é a singularidade-para-o-outro, advinda do Evento em que se anuda a aventura comum.
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 +12. A relação amorosa é exemplar, embora não exclusiva, sendo encontro de duas histórias em que ambos estão em jogo em sua ipseidade, pensável apenas mediante a possibilidade de compossíveis entrelaçados numa única história incomparável, sem jamais formarem uma unidade fusional, valendo o conceito de amor tanto para o eros quanto para a philia, na medida em que ambos visam o outro diretamente e não suas qualidades.
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 +13. Essa morte ao outro como morte a si mesmo, esse desenlace das eventualidades que articulavam a aventura comum, é comparada por Proust à dor dos amputados no membro fantasma, embora a dor amorosa, ao contrário desta, não seja localizável, mas onipresente, reacesa pelos ínfimos detalhes em que o mundo antigo subitamente reluz, constituindo uma ferida da qual não se cura, podendo coexistir num mesmo Adveniente feridas múltiplas correspondentes a lutos e mortes sucessivas ao outro.
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 +**b. — O encontro**
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 +14. Se há sempre uma primeira vez em todo encontro, não há um primeiro encontro propriamente dito, pois a história do Adveniente já se apresenta escandida por múltiplos encontros imemoriais, o mundo recelando sempre já, no jogo de seus possíveis, os compossíveis advindos de uma relação continuada com o outro, o que soma à dificuldade de compreender essa primeira vez como caráter evental decisivo do encontro.
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 +15. O encontro é o Evento pelo qual o outro faz irrupção pela primeira vez no mundo, reconfigurando suas possibilidades intrínsecas, excedendo, mesmo quando provocado, toda iniciativa e dando-se apenas por excedente, tal como o exprime Hugo von Hofmannsthal ao evocar o mistério de Eros que sempre nos espera e permanece velado, não sendo o encontro nunca de nossa alçada.
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 +16. A experiência do inapreensível exprime-se no assombro, expresso pelos poetas na mistura de terror quase sagrado e espanto, como no oxímoro de Cesare Pavese sobre o horror e a maravilha ao evocar seu encontro com Constance Dowling — experiências do assombro por aquilo que nunca se deixa apreender, mas dispõe de nós ao nos expor ao inexperimentável.
 +  * O encontro verdadeiro nunca se reduz à sua efetuação como fato, advindo sempre no segredo e na latência, de modo que não somos jamais seus contemporâneos, apercebendo-nos dele apenas depois, segundo um a posteriori transcendental essencial à sua textura evental.
 +  * A todo encontro verdadeiro pertence essencialmente uma não-simultaneidade que o distingue da apresentação factual de dois seres, sendo a primeiríssima vez de um amor ou de uma amizade sempre já perdida, não por falha empírica de memória, mas porque o Evento do encontro não se reduz a essa apresentação factual.
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 +17. Essa evidência retrospectiva do encontro não prescinde do assombro, pois inicialmente o encontro rompe toda familiaridade com o mundo antigo e suspende toda base no mundo, expondo ao risco de uma alteridade que se furta a todo domínio, risco não intramundano mas de um bouleversement radical do próprio mundo, avento de um novo mundo que Kafka evoca como desmoronamento e edificação simultâneos.
 +  * Como o nascimento, o bouleversement dos possíveis eventuais no encontro transcende toda experiência empirista e, portanto, toda lembrança, tratando-se aqui não de um esquecimento deficiente mas essencial, próprio à eventualidade mesma desse Evento.
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 +18. O encontro não é tanto presentação quanto futurição, não tendo sentido senão pelas possibilidades que reserva e que lhe conferem sua carga de porvir, sendo a primeira vez do Evento uma vez de todas as vezes, pois o encontro só é verdadeiramente tal, e só aparece retrospectivamente como tal, se tiver um destino ulterior que não se esgota no face a face inicial, constituindo assim um encontro continuado.
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 +19. Somente o Evento do encontro abre a área de jogo dos possíveis — o mundo — onde o outro pode aparecer com seu sentido próprio, supondo o fenômeno do encontro que o outro tenha precedido a própria iniciativa num movimento de aproximação, iniciativa esta subordinada, por sua vez, à precedência impessoal do Evento que sozinho pode dessaisir de poderes na prova do assombro.
 +  * Há aqui uma dupla dissimetria em que a livre iniciativa de um precede a do outro e vice-versa, reciprocidade na dissimetria que, contudo, é sempre fenômeno secundário, sendo o originariamente dado, em todo encontro, essa precessão do outro e essa heteronomia pela qual ele se revela excedendo toda apreensão.
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 +20. Questiona-se se não seria antes o outro a abrir o espaço do encontro, uma vez que dele parece receber-se a própria história; contudo, o Evento da revelação do outro não é o próprio outro tal como revelado a partir desse Evento, o que se ilustra pela forma impessoal com que o haver-lugar do encontro de Frédéric e Madame Arnoux é primeiramente expresso em L'Éducation sentimentale.
 +  * O deslumbramento precede aqui o olhar e o conduz ao encontro do visível, sendo a impossibilidade de distinguir alguém, o impessoal isso foi do Evento, o que precede e transcende a presença carnal do outro, que é primeiramente oculto e, no entanto, reconhecido por uma espécie de memória de cego.
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 +21. Ainda que o outro tenha precedido de sua livre iniciativa, para ter um porvir e ser verdadeiramente encontro, abrindo um destino ulterior à luz do qual ganha sentido, o encontro não se esgota no choque inicial do face a face, mas continua a se produzir advindo do porvir que abre e possibilizando os possíveis eventuais, sem o que se esgotaria assim que começado.
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 +22. Não decorre dessas considerações sobre o caráter perpetuamente em suspenso do encontro que a amizade ou o amor por ele possibilitados não sejam efetivos e plenamente realizados no presente, mas apenas que nunca se esgotam nele, na medida em que a alteridade do outro o transcende temporalmente.
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 +23. Que possa haver algo como uma história singular de dois seres, que não seja a soma de suas histórias individuais, só se compreende se o Evento — o encontro — possibiliza o possível anteriormente a todo projeto próprio, confirmando e aprofundando assim as análises da Eventalidade: todo possível eventual é de encontro, e todo encontro é advento continuado de possibilidades.
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 +24. A neutralidade transcendental do mundo não contradiz a afirmação de que o encontro significa a irrupção de um outro mundo no mundo próprio do Adveniente, repousando essas formulações na tese de que as possibilidades que articulam o mundo próprio não são originariamente próprias, tornando-se tais apenas por apropriação, sendo originariamente neutras como o próprio mundo que configuram; do mesmo modo, o mundo do outro, que se anuncia no encontro ou é irremediavelmente retirado no luto, só se configura a partir de Eventos fundadores para o outro.
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 +25. O encontro dá acesso a certos possíveis que só advêm por ele — travar conhecimento, partilhar tempo, construir amizade ou amor —, possíveis que não são de início próprios, tornando-se tais apenas quando apropriados; mas o encontro não se limita a introduzir o outro no mundo próprio, dando também acesso ao mundo do outro, a essa maneira única que ele tem de se apropriar da totalidade do possível e de o redesdobrar em um novo projeto de mundo.
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 +26. O mundo próprio não designa o mundo isolado em si do solipsismo, mas o mundo que, por ser originariamente aberto pelo Evento, pode ser objeto de certa apropriação compreensiva, distinguindo-se assim do mundo do outro em virtude da constelação única de possibilidades advindas insubstituivelmente de Eventos; há, contudo, um único e mesmo mundo a partir do qual os mundos podem diferir, como outras tantas maneiras de se apropriar, a partir de histórias singulares e dissemelhantes, de um mesmo mundo-em-comum.
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