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 +====== Imaginação ======
 +//RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.//
  
 +**A imaginação no discurso e na ação**
 +
 +**Para uma teoria geral da imaginação**
 +
 +  * A questão central consiste em saber se a concepção de imaginação elaborada em uma teoria da metáfora, centrada na inovação semântica, pode ser generalizada para além da esfera primordial do discurso.
 +  * A investigação insere-se no projeto mais amplo de uma poética da vontade, avançando apenas do plano teórico ao plano prático para testar a pretensão de universalidade de uma teoria inicialmente constituída no âmbito da linguagem.
 +  * A primeira parte examina as dificuldades clássicas da filosofia da imaginação e apresenta o vínculo entre imaginação e inovação semântica, elaborado no quadro da teoria da metáfora, como ponto inicial do desenvolvimento.
 +  * A segunda parte trata da passagem da esfera teórica à esfera prática, considerando fenômenos em que a ficção redescreve a ação existente, integra-se ao projeto da ação individual ou engendra o campo da ação intersubjetiva.
 +  * A terceira parte aborda diretamente o imaginário social, tomando ideologia e utopia como figuras decisivas da função prática da imaginação e como repetição ampliada das ambiguidades e aporias iniciais do problema.
 +  * A investigação filosófica da imaginação encontra desde o início obstáculos, paradoxos e fracassos que ajudam a explicar o relativo eclipse contemporâneo desse problema.
 +  * A má reputação da imagem decorre de seu uso abusivo no empirismo, do descrédito do psicologismo na semântica contemporânea, da recusa behaviorista da entidade mental privada e da vulgarização filosófica da criatividade.
 +  * A resistência filosófica ao retorno da imaginação apoia-se em uma dúvida mais profunda sobre a unidade do fenômeno designado por esse termo, como já indicava Gilbert Ryle em The Concept of Mind.
 +  * A imaginação pode designar a evocação arbitrária de coisas ausentes, mas existentes em outro lugar, sem confusão com as coisas presentes.
 +  * A imaginação também pode designar retratos, quadros, desenhos e diagramas que possuem existência física própria e substituem representativamente as coisas figuradas.
 +  * A imagem pode ainda designar ficções que não evocam coisas ausentes, mas coisas inexistentes, desde sonhos até invenções literárias como dramas e romances.
 +  * A imagem aplica-se finalmente ao domínio das ilusões, nas quais representações de coisas ausentes ou inexistentes são tomadas como reais pelo sujeito no momento em que se entrega a elas.
 +  * A heterogeneidade entre consciência de ausência e crença ilusória, entre ausência de presença e pseudopresença, torna problemática a unidade do conceito de imaginação.
 +  * As teorias tradicionais não esclarecem essa equivocidade radical, mas elegem um uso paradigmático e produzem concepções unívocas e rivais da imaginação, distribuídas entre os eixos presença-ausência e consciência fascinada-consciência crítica.
 +  * No eixo do objeto, a imagem oscila entre a presença enfraquecida da percepção em Hume e a alteridade do ausente em Sartre, abrindo o campo das imaginações reprodutora e produtora.
 +  * No eixo do sujeito, a imaginação varia entre a confusão ilusória com o real, denunciada por Pascal e tematizada por Spinoza, e a distância crítica capaz de neutralizar a existência, como na redução transcendental husserliana.
 +  * O campo arruinado da teoria da imaginação deixa em aberto se suas aporias derivam de uma falha filosófica ou de uma característica estrutural da própria imaginação.
 +
 +**I. A imaginação no discurso**
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 +  * A teoria da metáfora oferece novo acesso ao fenômeno da imaginação ao deslocar o problema da percepção para o uso da linguagem e para a inovação semântica própria do discurso metafórico.
 +  * A imagem não deve ser derivada da percepção nem concebida como cena mental diante de um espectador interior, pois as imagens são faladas antes de serem vistas.
 +  * A derivação linguística da imagem exige examinar a imagem poética como algo produzido pelo poema enquanto obra de discurso, mediante o retentissement ou ressonância das coisas ditas.
 +  * O funcionamento da metáfora permanece mal compreendido quando é reduzido a desvio nominal, pois ela consiste antes em uso desviante de predicados no interior da frase inteira.
 +  * A metáfora nasce de uma impertinência predicativa que produz choque entre campos semânticos e suscita uma nova pertinência predicativa no nível da frase inteira.
 +  * A abordagem predicativa desloca a atenção do simples deslocamento de sentido na denominação para a reestruturação de campos semânticos.
 +  * A teoria da metáfora interessa à filosofia da imaginação porque a emergência de uma nova significação a partir da ruína da predicação literal exige a mediação específica da imaginação.
 +  * A semelhança metafórica não deve ser entendida como associação mecânica de ideias, mas como aproximação que abole uma distância lógica entre campos semânticos e produz a centelha de sentido da metáfora.
 +  * A imaginação é a apercepção súbita de uma nova pertinência predicativa, isto é, a capacidade de ver-como e de reestruturar campos semânticos.
 +  * A teoria kantiana do esquematismo é recuperada quando a imaginação é concebida como método para dar imagem a uma significação emergente, e não como conteúdo mental derivado da percepção.
 +  * A imaginação esquematiza a atribuição metafórica, oferecendo imagem a uma significação nascente antes que a imagem seja uma percepção enfraquecida.
 +  * O aspecto quase sensorial da imagem se esclarece pela fenomenologia da leitura, na qual o esquema metafórico produz ressonâncias, desperta lembranças e reativa campos sensoriais adjacentes.
 +  * A imagem poética é imagem ligada pela dicção, e o poeta engendra imagens por meio da linguagem.
 +  * O efeito de ressonância não é secundário, pois a imagem suspende a significação em uma atmosfera neutralizada de ficção, abrindo o livre jogo com possibilidades novas de ser no mundo.
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 +**II. A imaginação na charneira do teórico e do prático**
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 +**1. A força heurística da ficção**
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 +  * A aplicação da teoria semântica da imaginação fora do discurso exige reconhecer que a inovação semântica da metáfora já possui uma força referencial.
 +  * O uso poético da linguagem parece inicialmente sem referência, sobretudo porque a imaginação neutraliza toda posição de existência.
 +  * A neutralização imaginativa da tese do mundo é a condição negativa para liberar uma referência de segundo grau, pela qual o discurso poético deixa dizer a pertença ontológica do ser humano ao mundo da vida.
 +  * A ficção possui dupla valência referencial, pois aponta para outro lugar ou para lugar nenhum e, justamente por designar o não lugar, pode redescrever indiretamente a realidade.
 +  * A teoria dos modelos permite aproximar modelos científicos e ficções poéticas, pois ambos possuem força heurística capaz de suspender descrições anteriores e abrir novas dimensões da realidade.
 +  * A tradição que reduz a imagem a percepção enfraquecida resiste ao paradoxo segundo o qual a anulação da percepção pode aumentar a visão das coisas.
 +  * A noção de aumento icônico mostra que a imagem recria a realidade em nível mais alto de realismo, mediante abreviações e articulações que refazem a percepção ordinária.
 +  * As transições do discurso à práxis derivam da saída da ficção para fora de si mesma, segundo o princípio do aumento icônico.
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 +**2. Ficção e narrativa**
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 +  * A primeira passagem do teórico ao prático ocorre quando a ficção redescreve a própria ação humana.
 +  * A narrativa fornece à ficção técnicas de abreviação, articulação e condensação pelas quais a ação humana é recriada e redescrita com força de aumento icônico.
 +  * A Poética de Aristóteles mostra que a tragédia só imita a ação porque a recria em uma ficção bem composta, tornando a poesia mais filosófica do que a história ao unir muthos e mimèsis.
 +  * A estrutura narrativa não se reduz ao jogo combinatório de possibilidades formais, pois o ato narrativo aplica uma ficção regulada ao diverso da ação humana e redescreve seu campo prático.
 +  * O relato funciona como procedimento de redescription, no qual a estrutura narrativa possui função heurística e a ação humana constitui o referente.
 +  * A função mimética da ficção ainda permanece limitada, pois redescreve a ação já existente e não basta para uma poética da ação.
 +  * A imaginação ultrapassa a mimese ao exercer uma função projetiva pertencente ao próprio dinamismo do agir.
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 +**3. Ficção e poder-fazer**
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 +  * A fenomenologia do agir individual mostra que não há ação sem imaginação, seja no projeto, na motivação ou na experiência do poder de fazer.
 +  * O projeto implica uma esquematização antecipadora dos fins e meios, na qual diversos cursos possíveis de ação são ensaiados e jogados como possibilidades práticas.
 +  * O jogo pragmático do projeto e o jogo narrativo do relato trocam esquemas, pois o projeto recebe do relato poder estruturante e o relato recebe do projeto capacidade de antecipação.
 +  * A imaginação oferece o espaço comum em que motivos heterogêneos, como desejos, exigências éticas, costumes sociais e valores pessoais, podem ser comparados e mediados.
 +  * A forma condicional da linguagem exprime a neutralização hipotética pela qual o desejo se torna figurável no campo comum da motivação.
 +  * A imaginação permite experimentar o próprio poder de fazer, pois a certeza do “eu posso” é mediada por variações imaginativas como “eu poderia” ou “eu poderia ter feito de outro modo”.
 +  * A progressão da esquematização dos projetos à figurabilidade dos desejos e às variações imaginativas do “eu posso” aponta para a imaginação como função geral do possível prático.
 +  * A fenomenologia da ação individual permite discernir a imaginação como livre jogo do possível, mas ainda não basta para pensar a imaginação da liberdade em sua dimensão social.
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 +**4. Ficção e intersubjetividade**
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 +  * O passo decisivo em direção ao imaginário social exige pensar as condições de possibilidade da experiência histórica em geral.
 +  * A experiência histórica possui constituição analógica porque o campo temporal próprio se liga a outros campos temporais pela relação de emparelhamento ou Paarung.
 +  * O fluxo histórico engloba contemporâneos, predecessores e sucessores, exigindo categorias de ação comum que ultrapassam as categorias da ação individual.
 +  * A conexão interna da história pressupõe um princípio transcendental de analogia, segundo o qual cada outro pode exercer a função do “eu” e imputar a si mesmo sua experiência.
 +  * A analogia entre eu e outro não é argumento por semelhança, mas transferência direta da significação “eu” aos contemporâneos, predecessores e sucessores.
 +  * A imaginação intervém como condição transcendental da experiência histórica, pois permite transferir imaginativamente meu “aqui” para o “lá” de outrem.
 +  * O transferir-se imaginativamente para o lugar de outrem constitui a raiz da intropatia, que pode assumir tanto formas de amor quanto de ódio.
 +  * A imaginação opera como esquematismo da intersubjetividade, mantendo vivas as mediações históricas e institucionais que sustentam o vínculo social.
 +  * A sociedade burocrática tende a transformar o “nós” em “eles” e a simular a causalidade das coisas, ameaçando abolir a diferença entre curso da história e curso das coisas.
 +  * A imaginação produtora deve lutar contra a entropia das relações humanas, preservando a analogia do ego nas relações com contemporâneos, predecessores e sucessores.
 +  * A possibilidade da experiência histórica depende da capacidade de permanecer exposto aos efeitos da história, e a imaginação é o segredo dessa competência.
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 +**III. O imaginário social**
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 +  * A capacidade imaginativa de se expor aos efeitos da história constitui condição fundamental da experiência histórica, mas permanece tão esquecida que aparece apenas como ideal regulador da comunicação.
 +  * O vínculo analógico que faz de cada homem um semelhante só se torna acessível por práticas imaginativas como ideologia e utopia, cada uma marcada por antagonismo e por patologia própria.
 +  * A imaginação produtora só pode ser restituída a si mesma por meio da crítica das figuras semi-patológicas do imaginário social, enfrentando a dupla ambiguidade entre ideologia e utopia e entre seus aspectos construtivos e destrutivos.
 +  * A polaridade entre ideologia e utopia raramente foi tematizada desde Karl Mannheim, apesar de ambas poderem ser compreendidas a partir da não congruência em relação à realidade histórica e social.
 +  * O imaginário social mostra que indivíduos e coletividades se relacionam com a realidade social por figuras de não coincidência, e não por participação imediata e sem distância.
 +  * A análise do imaginário social deve esclarecer a constituição analógica do vínculo social e restituir, ao final, as ambiguidades iniciais da meditação sobre a imaginação.
 +  * A ideologia não pode ser reduzida à distorção e à dissimulação, pois sua eficácia pressupõe a função constituinte do imaginário social na representação que um grupo faz de si mesmo.
 +  * A ideologia nasce da necessidade de um grupo se representar teatralmente a si próprio, confirmando que a sociedade é efeito do simbolismo antes que o simbolismo seja efeito da sociedade.
 +  * A patologia ideológica surge da função de reforço e repetição do vínculo social, pois simplificação, esquematização, estereotipia e ritualização aumentam a distância entre prática real e interpretação coletiva.
 +  * A função de dissimulação domina quando as representações ideológicas são captadas pelo sistema de autoridade, que precisa legitimar-se diante da crença dos indivíduos.
 +  * A ideologia preenche a distância assimétrica entre a pretensão de legitimidade emitida pela autoridade e a crença que lhe responde a partir da base social.
 +  * O conceito marxista de ideologia como inversão ilusória da realidade só se compreende sobre o fundo mais primitivo da constituição simbólica do vínculo social e do vínculo de autoridade.
 +  * A contribuição específica de Marx consiste em mostrar a função justificadora da ideologia diante dos rapports de dominação produzidos pela divisão e luta de classes.
 +  * A relação polar entre ideologia e utopia esclarece tanto a função primordial da ideologia quanto seu modo patológico específico.
 +  * A utopia distingue-se da ideologia por constituir um gênero literário declarado, consciente de si e historicamente ligado a autores identificáveis desde Thomas More.
 +  * A definição da utopia por seu conteúdo revela projetos opostos sobre família, sexualidade, consumo, propriedade, governo e religião, mostrando que sua unidade deve ser buscada em sua função imaginativa.
 +  * A função da utopia deve ser analisada com a mesma complexidade aplicada à ideologia, sem reduzi-la a suas expressões quase patológicas.
 +  * O núcleo da utopia está no não lugar, a partir do qual um olhar novo contesta radicalmente a realidade existente e abre o campo do possível além do real.
 +  * A utopia é a contraparte da ideologia enquanto integração social, pois funciona como subversão social e repensa radicalmente família, consumo, governo, religião e demais instituições.
 +  * A utopia também enfrenta o sistema de autoridade ao expor o excesso de pretensão de legitimidade e ao imaginar modos outros de exercer ou abolir o poder.
 +  * As tentativas de realizar a utopia, do monastério ao kibutz e à comuna hippie, demonstram sua capacidade de instituir modos de vida e enfrentar os paradoxos do poder.
 +  * A patologia da utopia nasce de seu próprio funcionamento positivo, assim como a patologia da ideologia nasce de sua função integradora.
 +  * O salto utópico para outro lugar ou para lugar nenhum pode degenerar em submissão da realidade ao sonho, perfeccionismo, lógica do tudo ou nada, desprezo pelo tempo e cegueira diante das contradições da ação.
 +  * A dupla dicotomia entre ideologia e utopia e entre suas formas construtivas e destrutivas deve ser explicada em termos de imaginação.
 +  * Ideologia e utopia devem ser pensadas juntas em suas modalidades positivas, pois a função integradora da ideologia e a função subversiva da utopia se implicam dialeticamente.
 +  * A ideologia introduz distância no vínculo social ao mediá-lo simbolicamente, enquanto a utopia, mesmo excêntrica, permanece orientada para o humano.
 +  * O jogo cruzado entre ideologia e utopia manifesta duas direções fundamentais do imaginário social: integração, repetição e reflexo, de um lado, e excentricidade, errância e abertura, de outro.
 +  * A tensão entre utopia e ideologia é insuperável, e a distinção entre pensamento ideológico e pensamento utópico só pode ser traçada posteriormente, com base em critérios históricos de sucesso sempre discutíveis.
 +  * A patologia própria de cada polo se compreende quando a imaginação é vista como processo, pois cada direção imaginativa comporta sua disfunção específica.
 +  * A disfunção da ideologia é a distorção e a dissimulação, que se enraízam na função integradora da imaginação e na dialética simbólica entre esconder e mostrar.
 +  * A dissimulação ideológica vinculada aos interesses de uma classe dominante é apenas fenômeno parcial, pois qualquer superestrutura pode funcionar ideologicamente.
 +  * A disfunção da utopia tende à esquizofrenia, pois sua excentricidade oscila entre fantasia e criatividade, fuga e retorno, podendo tanto perder-se no sonho quanto reorientar o aqui e agora.
 +  * As figuras da falsa consciência são o acesso inevitável ao imaginário social, pois o poder criador da imaginação só é apropriado criticamente no confronto com ideologia e utopia.
 +  * O trabalho sobre o imaginário social media as contradições que uma fenomenologia simples da imaginação individual deixa em estado de aporia.