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| + | ====== Distanciamento ====== | ||
| + | //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// | ||
| + | **A função hermenêutica da distanciação** | ||
| + | * O ponto de partida é a antinomia identificada como mola essencial da obra de Gadamer, entre distanciação alienante e pertencimento, | ||
| + | * A tentativa de superar essa alternativa parte da escolha da problemática do texto, que reintroduz uma noção positiva e produtiva da distanciação, | ||
| + | * A problemática do texto se organiza em torno de cinco temas — a efetuação da linguagem como discurso, a efetuação do discurso como obra estruturada, | ||
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| + | **I. A efetuação da linguagem como discurso** | ||
| + | * O discurso, mesmo oral, apresenta um traço primitivo de distanciação sob o título da dialética do acontecimento e da significação, | ||
| + | * O discurso é acontecimento em quatro sentidos: realiza-se temporalmente no presente por oposição à virtualidade da língua; remete a seu locutor por indicadores como os pronomes pessoais, sendo autorreferencial; | ||
| + | * Todo discurso, efetuado como acontecimento, | ||
| + | * Para esclarecer o que é dito, a hermenêutica recorre também à teoria do Speech-Act de Austin e Searle, que distingue o ato locucionário (dizer), o ato ilocucionário (o que se faz ao dizer) e o ato perlocucionário (o que se faz pelo fato de falar), sendo esses três níveis aptos, em ordem decrescente, | ||
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| + | **II. O discurso como obra** | ||
| + | * Três traços distinguem a noção de obra: ser uma sequência mais longa que a frase, suscitando problema de compreensão relativo à totalidade fechada da obra; submeter-se a uma codificação de gênero literário; e receber uma configuração única chamada estilo, sendo composição, | ||
| + | * A noção de obra situa-se como mediação prática entre a irracionalidade do acontecimento e a racionalidade do sentido, pois a estilização advém no seio de uma situação estruturada mas aberta, cumulando o estilo os dois caracteres de acontecimento e sentido, como observa W. K. Wimsatt em The Verbal Icon. | ||
| + | * A noção de sujeito do discurso recebe estatuto novo quando o discurso se torna obra: a categoria de autor, exemplificada pelo modelo do artesão e pela construção do objeto matemático conforme G. G. Granger, corresponde à individualidade da obra, sendo autor e obra estritamente correlativos, | ||
| + | * A objetivação do discurso na obra estruturada obriga a repensar inteiramente a oposição diltheyana entre compreender e explicar, pois a explicação torna-se o caminho obrigatório da compreensão sem eliminá-la, | ||
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| + | **III. A relação da palavra e da escrita** | ||
| + | * A passagem da palavra à escrita não introduz apenas a fixação do acontecimento de discurso, mas torna o texto autônomo em relação à intenção do autor, de modo que a significação verbal do texto e a significação mental do autor seguem destinos diferentes, permitindo reconhecer à Verfremdung um sentido positivo distinto da conotação de decadência que lhe dá Gadamer, pois a " | ||
| + | * A obra literária deve poder se descontextualizar tanto do ponto de vista psicológico quanto sociológico para se deixar recontextualizar em nova situação, e o discurso escrito suscita um público virtualmente ilimitado, diferentemente da situação dialogal, de modo que a distanciação, | ||
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| + | **IV. O mundo do texto** | ||
| + | * Diferentemente da hermenêutica romântica e de Dilthey, centradas na compreensão de uma vida estranha através das objetivações da escrita, e também às antípodas do estruturalismo, | ||
| + | * A referência se transforma quando o discurso se torna texto: enquanto no discurso oral a referência se resolve na função ostensiva compartilhada pelos interlocutores, | ||
| + | * Essa dimensão referencial original da obra de ficção e de poesia coloca o problema hermenêutico mais fundamental: | ||
| + | * O mundo do texto constitui uma nova distanciação, | ||
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| + | **V. Compreender-se diante da obra** | ||
| + | * A quarta dimensão do texto é a mediação pela qual nos compreendemos a nós mesmos, marcando a entrada em cena da subjetividade do leitor, a quem a obra se destina não por situação dialogal dada, mas por um vis-à-vis instaurado pela própria obra. | ||
| + | * A apropriação (Aneignung) está dialeticamente ligada tanto à distanciação própria da escrita, sendo compreensão à distância e não afinidade afetiva com a intenção do autor, quanto à objetivação própria da obra, respondendo ao sentido e não ao autor, de modo que não nos compreendemos senão pelo grande desvio dos signos de humanidade depositados nas obras de cultura. | ||
| + | * A apropriação tem por correlato aquilo que Gadamer chama a coisa do texto e que aqui se chama o mundo da obra, de modo que compreender é compreender-se diante do texto, recebendo dele um si mesmo mais vasto, sendo o si constituído pela coisa do texto e não o texto constituído pelo sujeito. | ||
| + | * Assim como o mundo do texto só é real na medida em que é fictício, a subjetividade do leitor só advém a si mesma na medida em que é suspensa e potencializada pelas variações imaginativas do ego, o que exige uma crítica interna do conceito de apropriação, | ||
| + | * A dialética da objetivação e da compreensão, | ||
