estudos:ricoeur:tempo-relato:metamorfoses-intriga
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:ricoeur:tempo-relato:metamorfoses-intriga [08/07/2026 12:26] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:ricoeur:tempo-relato:metamorfoses-intriga [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Metamorfoses da Intriga ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit II. Paris: Ed. du Seuil, 1984.// | ||
| + | |||
| + | * A precedência da compreensão narrativa na ordem epistemológica só pode ser sustentada se lhe for reconhecida uma amplitude tal que a torne merecedora de servir de original ao que a narratologia pretende simular, sendo essa tarefa difícil porque a teoria aristotélica da intriga foi concebida numa época em que apenas tragédia, comédia e epopeia eram gêneros reconhecidos, | ||
| + | * Impõe-se assim investigar a capacidade de metamorfose da intriga além de sua esfera primeira de aplicação na Poética de Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | **Para além do mythos trágico** | ||
| + | * A mise en intriga, definida em seu plano mais formal como dinamismo integrador que extrai de um diverso de incidentes uma história una e completa, abre caminho a transformações regradas que merecem ainda o nome de intrigas, como mostra Paul Veyne ao estender essa noção a componentes tão abstratos da mudança social quanto os da história não factual e da história serial. | ||
| + | * É no domínio do romance moderno que a pertinência do conceito de mise en intriga parece mais contestável, | ||
| + | * O obstáculo maior enfrentado pelo romance foi uma concepção duplamente errônea de intriga, transposta da epopeia e do drama e mutilada pela leitura dogmática das regras aristotélicas na arte clássica francesa, sobretudo quanto à unidade de tempo e à obrigação de começar in medias res. | ||
| + | * Sob tais regras rígidas, a intriga só podia ser concebida como forma facilmente legível, fechada sobre si mesma, o que teve como corolário a emancipação da noção de caráter em relação à de intriga, chegando a fazer-lhe concorrência e mesmo a eclipsá-la inteiramente no romance moderno. | ||
| + | * Três expansões notáveis do gênero romanesco processam-se sob a rubrica do caráter: a extensão da esfera social da ação, ilustrada pelo romance picaresco e pelo romance inglês do século XVIII, que traz para a literatura os homens do povo comum; o romance de formação, que culmina com Schiller e Goethe e se prolonga até o primeiro terço do século XX, centrado na maturação e nas dúvidas da personagem central; e o romance do fluxo de consciência, | ||
| + | * Nada, porém, nessas expansões sucessivas do caráter às custas da intriga escapa ao princípio formal de configuração, | ||
| + | * A verdadeira razão dissimulada da redução da intriga a simples fio da história reside no fato de que, desde o nascimento do romance até o fim do século XIX, um problema mais urgente que o da composição ocupou a cena — o da verossimilhança —, cuja conquista se fez sob a bandeira da luta contra as convenções ligadas à epopeia, à tragédia e à comédia. | ||
| + | * Esses problemas de composição não foram abolidos, mas apenas deslocados, como mostram os procedimentos de Defoe em Robinson Crusoé, que recorre à pseudo-autobiografia, | ||
| + | * Esses romancistas partilhavam, | ||
| + | * É um grande paradoxo que a reflexão sobre o caráter convencional do discurso romanesco tenha conduzido, por fim, a reconhecer o estatuto fundamentalmente fictício do próprio romance, pois a transcrição instantânea da experiência na literatura epistolar não é menos convencional que a memória infalível da pseudo-autobiografia. | ||
| + | * As três etapas do romance — de ação, de caráter, de pensamento — insurgem assim uma dupla história: a da conquista de regiões novas pelo princípio de configuração e a da tomada de consciência crescente do romance como arte da ficção, segundo o título célebre de Henry James, sendo o século XIX marcado por um equilíbrio precário entre a fidelidade à realidade e a consciência do artifício da composição. | ||
| + | * Esse equilíbrio rompeu-se quando a consciência do artifício passou a minar por dentro a motivação realista, levando hoje muitos a sustentar que somente um romance sem intriga, sem personagem e sem organização temporal discernível seria fiel a uma experiência ela mesma fragmentada, | ||
| + | |||
| + | **Perenidade: | ||
| + | * A capacidade de expansão do princípio formal de figuração por intriga foi demonstrada com recurso à história literária do romance, sem que esta possa, contudo, substituir a crítica, cuja função própria é discernir um estilo de desenvolvimento, | ||
| + | * A tradicionalidade permite à crítica situar-se a meio caminho entre a contingência de uma simples história dos gêneros e uma eventual lógica intemporal dos possíveis narrativos, definindo uma ordem transhistórica que atravessa a história de modo cumulativo, mesmo quando comporta rupturas de paradigma. | ||
| + | * A Anatomia da Crítica de Northrop Frye ilustra esse schematismo transhistórico da inteligência narrativa: a teoria dos modos fictionais distribui os heróis segundo seu poder de ação relativamente a nós, em cinco colunas — mito, romance maravilhoso, | ||
| + | * Duas teses anexas corrigem a rigidez dessa classificação: | ||
| + | * A teoria dos símbolos, que percorre um símbolo literário como " | ||
| + | * Três pontos merecem destaque nessa investigação: | ||
| + | |||
| + | **Declínio: | ||
| + | * É preciso agora explorar a ideia oposta — que o esquematismo da inteligência narrativa permite desvios capazes de tornar seu próprio estilo irreconhecível — questionando se a possibilidade de morte do relato deve ser incluída no próprio estilo de sua tradicionalidade. | ||
| + | * Os problemas colocados pela arte de terminar a obra narrativa constituem uma excelente pedra de toque, já que o único traço formal a ser preservado da noção aristotélica de mythos, para além de seus investimentos em diferentes gêneros e tipos, é o critério de unidade e completude, sendo legítimo tomar por sintoma do fim da tradição de mise en intriga o abandono desse critério. | ||
| + | * É preciso distinguir duas questões, uma relativa a mimesis II (configuração) e outra a mimesis III (refiguração): | ||
| + | * A busca de um critério de fechamento em poética enfrenta dificuldades talvez insuperáveis, | ||
| + | * A obra de Frank Kermode, The Sense of an Ending, retoma essa questão a partir dos avatares do tema apocalíptico, | ||
| + | * A transformação qualitativa do paradigma apocalíptico — da fim iminente à fim imanente, convertida em mito da Crise — encontra seu equivalente na crise que afeta a composição literária, sendo a tragédia elisabetana, | ||
| + | * A impossibilidade de concluir torna-se assim sintoma da infirmação do próprio paradigma no romance contemporâneo, | ||
| + | * Essa impossibilidade de saltar absolutamente fora de toda expectativa paradigmática é particularmente notável no tratamento do tempo, pois a rejeição da cronologia não implica a recusa de todo princípio substitutivo de configuração, | ||
| + | * A distinção que Kermode propõe entre o modernismo mais antigo — Pound, Yeats, Eliot, Joyce —, para o qual o passado continua fonte de ordem mesmo escarnecido, | ||
| + | * O próprio Kermode compromete, contudo, a confiança na sobrevivência dos paradigmas ao interpretar a passagem do fim iminente ao fim imanente como obra do " | ||
| + | * Ao contrário de Kermode, que contamina constantemente a ficção literária pelo mito quebrado, Northrop Frye mostra-se mais prudente ao conceder ao mito da Apocalipse apenas estatuto literário, preservando-se aqui, contra a solução prematura de reduzir toda consolação a mentira vital, a possibilidade de outras relações entre ficção e realidade do agir humano. | ||
| + | * Permanece em aberto a possibilidade de recusar o discurso coerente, o que, aplicado ao récit, significaria a morte de todo paradigma narrativo, possibilidade evocada com pavor por Walter Benjamin em Der Erzähler, para quem os homens já não têm experiência a partilhar; ainda assim, é preciso apostar que a exigência de concordância continua a estruturar a expectativa dos leitores e que novas formas narrativas, ainda sem nome, atestarão que a função narrativa pode metamorfosear-se, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
