estudos:ricoeur:tempo-relato:hegel
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| + | ====== Hegel ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.// | ||
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| + | **Renunciar a Hegel** | ||
| + | * A questão que se impõe ao final dos cinco capítulos precedentes é saber se do entrecruzamento entre relato histórico e relato de ficção procede uma consciência histórica unitária capaz de igualar-se à postulação da unicidade do tempo pressuposta por todas as grandes filosofias, questão ancorada nas dificuldades encontradas no capítulo sobre a realidade do passado, cujo fracasso relativo talvez decorra da própria abstração do passado, separado do presente e do futuro. | ||
| + | * Dessa questão nasce a tentação hegeliana: um modo de pensamento que abraçaria passado, presente e porvir como um todo, na saisie da história como totalização mesma do tempo no eterno presente. | ||
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| + | **A tentação hegeliana** | ||
| + | * A história de que trata a filosofia hegeliana não é mais história de historiador, | ||
| + | * A convicção de que a Razão governa o mundo não é, para o filósofo especulativo, | ||
| + | * O percurso da Razão na história articula-se em quatro momentos — fim, meios, material, efetividade —, sendo o primeiro a posição da liberdade como fim último do mundo, momento que permanece abstrato enquanto não articulado com os meios, o material e a efetividade que lhe dão corpo histórico. | ||
| + | * A tese da astúcia da razão intervém no estágio dos meios: toda paixão contém uma intenção sabida e uma intenção ignorada pelo próprio indivíduo, e é essa segunda intenção, inscrita na esfera do Estado, que a Razão do mundo se apropria como meio, sacrificando a particularidade em proveito do universal, papel reservado sobretudo aos " | ||
| + | * O " | ||
| + | * O tempo histórico se sublima na ideia de um " | ||
| + | * A diferença entre passado morto e passado vivo torna-se assim inessencial, | ||
| + | * Essa equação final entre desenvolvimento e presente eterno acaba, contudo, por recusar o caráter insuperável da significância do traço — que significa sem fazer aparecer — e por dissolver, mais que resolver, o problema da relação entre passado histórico e presente, tornando supérfluo o recurso ao grande gênero do Análogo, já que a própria relação de representância perde sua razão de ser. | ||
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| + | **A impossível mediação total** | ||
| + | * Uma crítica a Hegel não pode ser mera expressão de incredulidade quanto à proposição central de que a Razão governa racionalmente o mundo, sendo a perda de credibilidade da filosofia hegeliana da história um verdadeiro acontecimento de pensamento, do qual não se sabe dizer se o produzimos ou se ele simplesmente nos aconteceu. | ||
| + | * O colapso extraordinariamente rápido do hegelianismo é, para a história das ideias, um fato da ordem dos terremotos, ainda que as razões alegadas por seus adversários — Kierkegaard, | ||
| + | * O ponto de ruptura decisivo está na equação final entre o Stufengang der Entwicklung e o presente eterno: já não conseguimos dar o passo que iguala ao presente eterno a capacidade que tem o presente atual de reter o passado conhecido e antecipar o futuro, pois a compreensão de si da consciência histórica nasce precisamente do caráter incontornável dessa diferença que Hegel abole. | ||
| + | * Desfeita essa equação, todas as demais se desfazem em cadeia: já não conseguimos totalizar os espíritos dos povos num único espírito do mundo, como atesta o romantismo ao extrair do Volksgeist hegeliano um poderoso alegato pela diferença; o eurocentrismo morreu com o suicídio político da Europa nas duas guerras mundiais, com a Revolução de Outubro e com a descolonização, | ||
| + | * Igualmente decompõe-se o conglomerado conceitual da " | ||
| + | * O que se abandona, em suma, não são apenas os contrassensos sobre o termo Espírito, mas o próprio canteiro de obras: já não buscamos a fórmula segundo a qual a história do mundo poderia ser pensada como totalidade efetuada, e é o próprio projeto de totalização que rompe entre a filosofia da história e todo modelo de compreensão aparentado à narração e à mise en intriga, pois a astúcia da razão não é a peripécia que englobaria todos os coups de théâtre da história — a efetuação da liberdade não pode ser tida como a intriga de todas as intrigas. | ||
| + | * Esse êxodo para fora do hegelianismo constitui um acontecimento hermenêutico que afeta não a historiografia, | ||
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