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| + | ====== Apologias ao Relato ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.// | ||
| + | **Apologias ao relato** | ||
| + | * A questão do estatuto narrativo da historiografia nunca constituiu diretamente um problema da epistemologia das ciências históricas, | ||
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| + | **O estilhaçamento do modelo nomológico** | ||
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| + | **Uma explicação sem legalidade: William Dray** | ||
| + | * Diante das duas táticas de enfraquecer o modelo nomológico e de apoiar-se no esforço dos historiadores para elevar sua disciplina ao estatuto de ciência, William Dray discerne no descompasso entre o modelo e a metodologia histórica efetiva o sintoma de um erro de base na construção do próprio modelo. | ||
| + | * A obra de Dray, Laws and Explanation in History, testemunha a crise do modelo nomológico ao abrir três frentes relativamente descontínuas: | ||
| + | * A tese negativa segundo a qual explicar não implica recorrer a leis apoia-se nas oscilações entre modelo forte e modelo fraco entre os partidários do modelo de subsunção, | ||
| + | * Duas conclusões emergem dessa crítica: a noção de acontecimento único deve ser entendida relativamente ao nível de precisão escolhido pelo historiador, | ||
| + | * A análise causal, tratada no capítulo IV, constitui alternativa relativamente independente ao modelo de subsunção, | ||
| + | * A prova pragmática relaciona-se à manipulabilidade defendida por Collingwood, | ||
| + | * Muitas leis causais aparentes são, na verdade, generalizações secundárias baseadas em diagnósticos individuais de causalidade já estabelecidos por julgamento, e não o inverso, de modo que não há razão para renunciar à ideia de causa em história desde que se respeite sua lógica particular. | ||
| + | * Duas ressalvas conservatórias impõem-se: as explicações históricas continuam sendo um conjunto logicamente heterogêneo, | ||
| + | * A explicação por razões, aplicável a um leque mais restrito de casos — as ações de indivíduos suficientemente importantes para figurar no relato histórico —, consiste em reconstruir o cálculo pelo qual o agente escolheu seus meios em vista de um fim, à luz das circunstâncias, | ||
| + | * Explicar por razões é também justificar a ação como apropriada, buscando um equilíbrio lógico entre o que foi feito e um cálculo reconstituído, | ||
| + | * A explicação por razões comporta um tipo de generalidade análogo ao que Aristóteles atribuía ao verossímil — o que um homem faria necessária ou verossimilmente —, embora Dray não explore essa intersecção entre teoria da história e teoria do relato. | ||
| + | * A dificuldade maior, não plenamente resolvida por Dray, reside em explicar por razões ações que não podem ser atribuídas a agentes individuais, | ||
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| + | **A explicação histórica segundo Georg Henrik von Wright** | ||
| + | * A crítica do modelo nomológico dá um passo decisivo com von Wright, que conjuga explicação causal e inferência teleológica num modelo misto, a explicação quase causal, reconhecendo a dualidade entre a tradição galileana da explicação causal e a tradição aristotélica da explicação teleológica, | ||
| + | * O modelo lógico parte de estados de coisas genéricos combinados em estados totais ou mundos possíveis, à maneira do mundo do Tractatus de Wittgenstein, | ||
| + | * A distinção entre análise causal, que explora as relações de condicionalidade internas a um sistema, e explicação causal propriamente dita, que busca em que sistema um fenômeno genérico dado pode ser ligado a outro, apoia-se na diferença entre condição suficiente, que rege a manipulação e permite a predição, e condição necessária, | ||
| + | * O passo decisivo é a articulação da explicação causal com a compreensão originária do poder-fazer por meio da noção de intervenção, | ||
| + | * Retomando as distinções de Arthur Danto entre fazer algo e fazer com que algo aconteça, von Wright estabelece que a ação de base identifica o estado inicial de um sistema ao resultado de uma ação em sentido não causal, condição metafísica de liberdade que subordina a causalidade ao agir. | ||
| + | * A explicação teleológica aplica-se às condutas do tipo ação, cujas fases se unificam pela subsunção sob uma mesma intenção, sustentando von Wright, segundo o argumento da conexão lógica, que o vínculo entre razão de agir e ação é intrínseco e não extrínseco, | ||
| + | * Como a intencionalidade de uma conduta é seu lugar numa história (story) concernente ao agente, segundo a referência de von Wright às Investigações Filosóficas de Wittgenstein, | ||
| + | * A explicação causal em história aparece sob duas formas subordinadas a outros tipos de explicação — a busca das condições suficientes e a das condições necessárias —, como ilustra o exemplo das ruínas de uma cidade destruída, em que a causa humeana material só se torna histórica ao se articular com um pano de fundo de rivalidades políticas e consequências não humeanas. | ||
| + | * A explicação quase causal, exemplificada pelo desencadeamento da Primeira Guerra Mundial após o assassinato do arquiduque em Sarajevo, revela-se mais complexa que a explicação por razões de Dray, pois a mediação verdadeira é assegurada por cursos entrelaçados de inferências práticas que geram fatos novos, os quais alimentam por sua vez novas inferências práticas de todas as partes envolvidas. | ||
| + | * A explicação quase causal restitui corretamente vários traços específicos da explicação histórica — a referência a ações humanas atestadas pela convicção do poder-fazer, | ||
| + | * Esse fio condutor que falta ao modelo de von Wright é, segundo a interpretação proposta, a própria intrigue enquanto síntese do heterogêneo, | ||
