estudos:ricoeur:si-mesmo:ipseidade-alteridade
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| + | ====== Ipseidade e Alteridade ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Tr. Lucy Moreira Cesar. Campinas: Papirus, 1991 / RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Editions du Seuil, 1990.// | ||
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| + | * O vínculo dialético entre ipseidade e alteridade é mais fundamental que a articulação entre reflexão e análise, e mais fundamental ainda que o contraste entre ipseidade e mesmidade, sendo o próprio título da obra o lembrete permanente da primazia dessa dialética | ||
| + | * A alteridade não se acrescenta de fora à ipseidade para prevenir o desvio solipsista, mas pertence à teor de sentido e à constituição ontológica da ipseidade, o que distingue fortemente essa terceira dialética daquela entre ipseidade e mesmidade, de caráter disjuntivo | ||
| + | * Para guiar a última etapa da investigação ontológica, | ||
| + | * O caráter especulativo dessa dialética se anunciou primeiro e se projetou retrospectivamente sobre os dois momentos anteriores da investigação ontológica | ||
| + | * A polissemia do Outro resulta do fato de ter sido primeiro o polo do Mesmo a perder sua univocidade, | ||
| + | * O trabalho da alteridade no coração da ipseidade se esclarece pelo jogo entre discurso fenomenológico e discurso ontológico, | ||
| + | * A virtude principal dessa dialética é impedir que o si ocupe o lugar do fundamento, convindo perfeitamente à estrutura última de um si nem exaltado como nas filosofias do Cogito nem humilhado como nas filosofias do anti-Cogito, | ||
| + | * Sugere-se como hipótese de trabalho um tripé da passividade e da alteridade: a passividade do corpo próprio, ou da carne, mediadora entre o si e o mundo; a passividade implicada pela relação do si com o estrangeiro, | ||
| + | * Não se trata de acrescentar níveis aos já percorridos — linguístico, | ||
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| + | **a. O corpo próprio ou a carne** | ||
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| + | * É com esta primeira figura de passividade-alteridade que o reenvio da fenomenologia à ontologia se dá mais facilmente, tendo o caráter enigmático do corpo próprio se manifestado em três ocasiões nos estudos anteriores | ||
| + | * Na análise de Strawson sobre a pessoa como particular de base, perguntava-se como predicados psíquicos e físicos díspares podem ser atribuídos a uma só entidade, sendo então a assertiva de que as pessoas são também corpos tomada como constrangimento da linguagem | ||
| + | * A dupla pertença do corpo próprio ao reino das coisas e ao do si impôs-se de novo na discussão com Donald Davidson, questionando-se como a ação pode constituir um evento do mundo e ao mesmo tempo designar autorreferencialmente seu autor | ||
| + | * A questão da identidade pessoal, levada ao extremo de refinamento por Derek Parfit, recolocou a problemática do corpo próprio ao ligar os critérios corporais e psíquicos da identidade à manutenção de um si ancorado no corpo próprio | ||
| + | * A fenomenologia da passividade ultrapassa o estágio implícito apenas quando se sublinha, no fenômeno global de ancoragem, o traço do sofrimento, revelando o pathos em sua dimensão integralmente passiva | ||
| + | * No tratamento da identidade narrativa observou-se a virtude do relato de conjugar agentes e pacientes, mas seria preciso levar em conta formas mais dissimuladas do sofrer: a incapacidade de narrar, a recusa de narrar, a insistência do inenarrável | ||
| + | * No exame da Regra de Ouro em ética constatou-se a dissimetria fundamental da interação, | ||
| + | * Com a diminuição do poder de agir, sentida como diminuição do esforço para existir, começa o reino próprio do sofrimento, infligido na maior parte pelo homem ao homem, de modo que a passividade do corpo próprio se recobre com a passividade de ser vítima de outrem | ||
| + | * Para articular especulativamente a modalidade de alteridade correspondente a essa passividade, | ||
| + | * A Maine de Biran cabe o mérito de ter aberto o canteiro do corpo próprio, dando dimensão ontológica à sua descoberta fenomenológica ao dissociar existência de substância e ligá-la ao ato, dizendo — je suis, c'est dire je veux, je meus, je fais | ||
| + | * No primeiro grau, o corpo designa a resistência que cede ao esforço, exemplo paradigmático em que o esforço ocupa o lugar da impressão e da sensação de Hume e Condillac, ilustrado pela graça do corpo dançante | ||
| + | * Um segundo grau de passividade é representado pelas idas e vindas dos humores caprichosos, | ||
| + | * Um terceiro grau de passividade é marcado pela resistência das coisas exteriores, atestando-se pelo tato ativo que existir é resistir, revelando-se o corpo próprio como mediador entre a intimidade do eu e a exterioridade do mundo | ||
| + | * O segundo e mais importante marco na via que conduz da filosofia do esforço de Maine de Biran às três grandes filosofias do corpo próprio encontra-se incontestavelmente na fenomenologia de Husserl, cuja contribução a uma ontologia da carne é paradoxalmente mais importante que a de Heidegger | ||
| + | * A distinção entre Leib e Körper, ocupando posição estratégica nas Méditations cartésiennes, | ||
| + | * Apesar de Sein und Zeit romper com a problemática da constituição baseada na intencionalidade da consciência, | ||
| + | * A polaridade carne/corpo deve sua radicalidade à posição estratégica na argumentação das Méditations cartésiennes, | ||
| + | * Fica em aberto se a noção do estrangeiro, | ||
| + | * O que importa reter aqui é a necessidade de distinguir carne e corpo para se poder derivar um gênero único do alter ego a partir do ego, sendo essa distinção produzida no momento crucial da constituição da natureza objetiva a partir da intersubjetividade | ||
| + | * Eu como carne, antes da constituição do alter ego, é o que a estratégia da constituição intersubjetiva da natureza comum exige pensar, sendo a formação do conceito ontológico de carne a divina surpresa dessa empreitada impossível | ||
| + | * A carne revela-se assim o polo de referência de todos os corpos que pertencem a essa natureza própria, pela redução ao próprio da qual seriam excluídos todos os predicados objetivos devidos à intersubjetividade | ||
| + | * A carne é o mais originariamente meu e o mais próximo de todas as coisas, sendo sua aptidão para sentir revelada privilegiadamente no tato, como em Maine de Biran, constituindo o eu enquanto este homem a alteridade prima da carne diante de toda iniciativa | ||
| + | * A carne precede ontologicamente toda distinção entre o voluntário e o involuntário, | ||
| + | * Pergunta-se se a grande descoberta de Husserl pode ser dissociada de seu papel estratégico na fenomenologia transcendental das Méditations cartésiennes, | ||
| + | * O que se diz sobre a distinção entre o aqui e o lá, irredutíveis a toda localização objetiva, ecoa inesperadamente as reflexões de Wittgenstein sobre a não-pertença do sujeito ao sistema de seus objetos | ||
| + | * As notações sobre o contato como forma primordial do sentir, e sobre o mundo enquanto praticável, | ||
| + | * Só quando a ontologia da carne se liberta o quanto possível da problemática da constituição pode-se enfrentar o paradoxo inverso ao da teoria straswsoniana dos particulares de base, a saber, que a carne seja também um corpo entre os corpos | ||
| + | * Assim como é preciso inventar o calendário para correlacionar o agora vivido com um instante qualquer, e o mapa para correlacionar o aqui carnal com um lugar qualquer, é preciso mundanizar a carne para que apareça como corpo entre os corpos, sendo aí que a alteridade de outrem como estrangeiro parece dever ser tida como preliminar à redução ao próprio | ||
| + | * É porque Husserl pensou apenas o outro que eu como um outro eu, e jamais o si como um outro, que não tem resposta ao paradoxo de como minha carne é também um corpo | ||
| + | * Poder-se-ia voltar-se para Être et Temps para elaborar uma ontologia da carne, já que Heidegger, ao substituir a constituição de um mundo na consciência pela estrutura do ser-no-mundo e ao chamar Dasein o ente que não pertence ao conjunto dos entes manejáveis, | ||
| + | * Heidegger deu lugar à afecção (Befindlichkeit), | ||
| + | * Conclui-se que, se há categoria existencial apropriada a uma investigação do si como carne, é a do ser-jogado, jogado-aí, expressão que não sugere nenhuma queda gnóstica mas a facticidade a partir da qual o Dasein se torna encargo para si mesmo, dando à expressão soi-même comme un autre toda a sua força | ||
| + | * Apesar desse aparato nocional apropriado, Heidegger não elaborou a noção de carne como existencial distinto, por várias razões | ||
| + | * A ênfase no medo e na angústia do ser-para-a-morte pode ter negligenciado as instruções que uma fenomenologia do sofrer, só realizada por Michel Henry, seria mais própria a dispensar | ||
| + | * A fenomenologia da espacialidade, | ||
| + | * O tema da encarnação parece sufocado em Être et Temps por depender demasiado das formas inautênticas da preocupação, | ||
| + | * Pergunta-se, | ||
| + | * É toda a frente da ontologia da ipseidade que deve se mover segundo as três dimensões da alteridade | ||
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| + | **b. A alteridade de outrem** | ||
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| + | * A segunda significação da meta-categoria de alteridade — a alteridade de outrem — está estreitamente ligada às modalidades de passividade cruzadas ao longo dos estudos anteriores, atestando uma nova dialética do Mesmo e do Outro em que o Outro pertence à constituição íntima do sentido do Mesmo | ||
| + | * Não há análise anterior em que essa passividade específica do si afetado pelo outro que si não tenha se anunciado | ||
| + | * No plano linguístico, | ||
| + | * No plano da ação, a autodesignação do agente apareceu inseparável da atribuição por um outro que me designa no acusativo, entrelaçando-se ascrição à segunda pessoa e autodesignação no caráter onipessoal do si que circula entre todos os pronomes | ||
| + | * No plano narrativo, o mesmo intercâmbio rege a assunção pelo leitor dos papéis das personagens, | ||
| + | * No plano ético, a afecção de si pelo outro assume traços específicos, | ||
| + | * Coloca-se a questão de qual figura nova de alteridade é convocada por essa afecção do ipse pelo outro que si, e qual dialética do Mesmo e do Outro responde a essa fenomenologia | ||
| + | * É impossível construir essa dialética unilateralmente, | ||
| + | * Retomando a quinta Meditação cartesiana no ponto da redução à esfera do próprio, pergunta-se se essa redução se deixa pensar sem a interferência do estrangeiro, | ||
| + | * A quinta Meditação prossegue o gesto de audácia da Meditação anterior, reduzindo o saber comum sobre outrem ao estatuto de preconceito, | ||
| + | * A única via aberta é constituir o sentido outrem dentro (in) e a partir (aus) do sentido eu, sendo circulares todos os argumentos que pretendem constituir outrem a partir da esfera do próprio | ||
| + | * Que o outro esteja pressuposto desde o início prova-se de várias maneiras: pela epoché inicial, pela própria formação da noção de esfera do próprio (que exige o outro para me ajudar a me reunir e me manter em minha identidade), | ||
| + | * Husserl fala de uma mundanização (Verflechtung) pela qual me percebo como coisa do mundo, entrelaçamento que já implica que minha carne apareça também como corpo aos olhos dos outros | ||
| + | * O fracasso da constituição de outrem foi ocasião de uma descoberta autêntica, paralela à diferença entre carne e corpo, a saber, o caráter paradoxal do modo de doação de outrem, cujas intencionalidades excedem a esfera do próprio na qual se enraízam | ||
| + | * Husserl deu o nome de apresentação a essa doação, para dizer que, diferente da representação por signo ou imagem, é doação autêntica, mas que, diferente da doação originária da carne a si mesma, não permite viver os vividos de outrem, permanecendo o hiato entre presentação de meu vivido e apresentação do teu | ||
| + | * A apresentação consiste num transferimento aperceptivo saído de minha carne, numa apreensão analogizante cujo assento é o corpo de outrem percebido lá, perguntando D. Franck em virtude de que um corpo lá pode receber o sentido de carne e apresentar um outro ego | ||
| + | * A apreensão do corpo lá como carne é a própria apresentação, | ||
| + | * O transferimento não é inferência mas síntese passiva fora do comum, corrigida pela ideia de dissimetria fundamental ligada ao hiato entre apresentação e presentação originária, | ||
| + | * O que se ganha com essas noções de apresentação, | ||
| + | * O transferimento analógico é operação autenticamente produtiva, admitindo que o outro não está condenado a permanecer estrangeiro, | ||
| + | * O transferimento analógico de mim a outrem recruza o movimento inverso de outrem a mim, sem o abolir | ||
| + | * Esse movimento de outrem para mim é o que incessantemente traça a obra de Emmanuel Lévinas, originado numa ruptura no ponto de articulação entre fenomenologia e ontologia dos grandes gêneros — o Mesmo e o Outro | ||
| + | * Em Lévinas, a identidade do Mesmo está ligada a uma ontologia da totalidade nunca assumida pela presente investigação, | ||
| + | * Husserl é implicado nesse efeito de ruptura na medida em que a fenomenologia e a intencionalidade relevam de uma filosofia da representação que, para Lévinas, é idealista e solipsista, escapando o outro a esse regime apenas no plano ético | ||
| + | * Quando o rosto de outrem se ergue diante de mim, não é aparecer que eu possa incluir em minhas representações, | ||
| + | * Diferentemente de Kant, que colocava o respeito à lei acima do respeito às pessoas, em Lévinas o rosto singulariza o mandamento, procedendo sua filosofia de um efeito de ruptura articulado sobre um remanejamento dos grandes gêneros do Mesmo e do Outro | ||
| + | * Porque o Mesmo significa totalização e separação, | ||
| + | * O efeito de ruptura dessa alteridade absoluta procede de um uso da hipérbole — não como figura de estilo mas como prática sistemática do excesso na argumentação filosófica — estratégia apropriada à produção do efeito de ruptura da ideia de exterioridade | ||
| + | * A hipérbole atinge simultaneamente os dois polos do Mesmo e do Outro | ||
| + | * Totalité et Infini coloca primeiro um eu fechado sobre si, separado, dizendo — dans la séparation le moi ignore Autrui —, sendo para tal eu a epifania do rosto uma exterioridade absoluta | ||
| + | * À hipérbole da separação, | ||
| + | * Autrement qu' | ||
| + | * A atribuição à responsabilidade remete a um passado mais velho que todo passado rememorável, | ||
| + | * O paroxismo da hipérbole tem a hipótese extrema de que o Outro não é mais o mestre de justiça mas o ofensor, requerendo mesmo assim o gesto que perdoa e expia, sendo a tese do livro que a ênfase da abertura é a responsabilidade pelo outro até a substituição | ||
| + | * Paradoxalmente, | ||
| + | * O tema da exterioridade só atinge seu termo — o despertar de uma resposta responsável ao apelo do outro — pressupondo uma capacidade de acolhimento, | ||
| + | * Pergunta-se quem distinguirá o mestre do carrasco, e se a voz do Outro que diz Tu ne tueras pas não precisa se tornar minha própria convicção, | ||
| + | * No tema da substituição, | ||
| + | * Confirma-se essa interpretação no papel da categoria do testemunho, que remete ao absoluto — a Hauteur, chamada glória do infinito — e à Exterioridade, | ||
| + | * Esse testemunho não está longe do que se chamou atestação, | ||
| + | * Dessa confrontação entre Husserl e Lévinas resulta que não há contradição em ter por dialeticamente complementares o movimento do Mesmo para o Outro e o do Outro para o Mesmo, deployando-se um na dimensão gnosiológica do sentido e outro na dimensão ética da injunção | ||
| + | * A atribuição à responsabilidade remete ao poder de autodesignação transferido, | ||
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| + | **c. A consciência** | ||
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| + | * Tomar a consciência — no sentido do alemão Gewissen — como lugar de uma forma original de dialética entre ipseidade e alteridade é empreitada eriçada de armadilhas | ||
| + | * O primeiro desafio pergunta se a metáfora da voz e do apelo não se concretiza necessariamente em noções suspeitas como a boa e a má consciência, | ||
| + | * O segundo desafio pergunta se, livre desse jugo, a consciência designa fenômeno distinto da atestação de nosso poder-ser, precisando-se aqui os fenômenos da injunção ou da dívida que a metáfora da voz parece designar | ||
| + | * O terceiro desafio pergunta se a parte de alteridade discernível na injunção ou dívida é outra que a alteridade de outrem, questionando o que legitima atribuir à consciência um lugar distinto no plano dos grandes gêneros | ||
| + | * O primeiro desafio obriga a entrar na problemática da consciência pela porta da suspeita, já que a consciência é o lugar por excelência onde as ilusões sobre si mesmo se misturam à veracidade da atestação | ||
| + | * O suspeito recai sobre o suposto excedente de sentido que a ideia de consciência parece sobrepor aos conceitos maiores da ética — voto de viver-bem, obrigação e convicção —, sem que a consciência precise ser erigida em instância suplementar | ||
| + | * No capítulo de Être et Temps intitulado Gewissen, Heidegger descreveu perfeitamente esse momento de alteridade que distingue a consciência, | ||
| + | * O soi se arranca do on por meio de um grito (Ruf), um apelo (Anruf) indicado pela metáfora da voz, apresentando essa afecção uma dissimetria vertical entre a instância que chama e o si chamado | ||
| + | * A autenticidade desse fenômeno só pode ser reconquistada penosamente, | ||
| + | * A prova da suspeita se revela benéfica para recuperar a capacidade reveladora da metáfora da voz, mobilizando-se a força de denúncia que ressoa, antes do trovão nietzschiano, | ||
| + | * A crítica virulenta da má interpretação da consciência na Phénoménologie de l' | ||
| + | * Essa crítica ataca postulados construídos para a causa, difíceis de reconhecer como o postulado kantiano ou o formalismo kantiano | ||
| + | * O primeiro postulado é que a moralidade, exigindo que o dever se torne real, esvazia de significado a natureza inteira ao condenar o desejo | ||
| + | * O segundo postulado é que a moralidade, não sabendo produzir harmonia entre o dever-ser e o ser, adia infinitamente o momento da satisfação | ||
| + | * O terceiro postulado é que esse acordo de forma e conteúdo, não dado aqui embaixo, é reportado a uma outra consciência, | ||
| + | * Pouco importa que Hegel tenha desfigurado Kant ou Fichte na construção desses postulados, o essencial sendo que ela suscitou uma estratégia de desmantelamento aplicada ao deslocamento equívoco (die Verstellung), | ||
| + | * Toda essa crítica só tem sentido na perspectiva do momento posterior do espírito, culminando os três momentos — visão moral do mundo, deslocamento equívoco, dialética da bela alma e do herói da ação — no título O espírito certo de si mesmo. A moralidade | ||
| + | * Esse encaminhamento faz com que em Hegel ainda ressoe apenas um toque de alarme, antes que estale com Nietzsche o trovão decisivo | ||
| + | * Na segunda dissertação da Genealogia da moral, intitulada A Falta, a má consciência e o que lhe assemelha, retém-se o paralelismo com a crítica hegeliana do deslocamento equívoco, ainda que o tour genealógico se oponha ao tour teleológico | ||
| + | * É problema em Nietzsche saber se o reenvio, assegurado pelo método genealógico, | ||
| + | * A dissertação parece deixar lugar a um conceito neutro de consciência, | ||
| + | * Essa maestria de si — essa mnemotécnica! — tem atrás de si longa história de tormentos e torturas partilhada com o ascetismo, e a má consciência exige um desmantelamento completo, começando pela evocação de Schuld, Schulden, Vergeltung | ||
| + | * A forma mais arcaica de recuperar um crédito é violentar o devedor — La compensation représente donc une invitation et un droit à la cruauté — e — Sans cruauté, pas de fête | ||
| + | * Questiona-se se se deve deixar impressionar pelo tom autoritário de Nietzsche ao proclamar ter descoberto o foco de origem dos conceitos morais, e se se deve tomar ao pé da letra o elogio de um sofrimento que a crueldade do adestramento tornaria pleno de sentido | ||
| + | * O importante é que o adestramento do animal responsável não seja mais creditado à vontade livre nem à espontaneidade absoluta do homem no bem e no mal, invenção temerária e nefasta dos filósofos, ponto anticartesiano e antikantiano | ||
| + | * A armadilha do texto nietzschiano é a de um novo dogmatismo, o da vontade de potência, observando-se contudo que a fluidez da origem, oposta à fixidez do fim, é ocasião de uma nova interpretação (ein Neu-interpretieren) e de um accommodement (ein Zurechtmachen) | ||
| + | * Nietzsche propõe uma dúzia de maneiras de interpretar e arranjar o castigo para fins diferentes, podendo essa sobrecarga de utilidades voltar-se contra o dogmatismo biologizante que impõe ao leitor | ||
| + | * Sem se pronunciar sobre a segunda inocência proclamada ao final da dissertação, | ||
| + | * Para sair do círculo envenenado da boa e da má consciência, | ||
| + | * Esse arrancamento encontra em Heidegger, no capítulo Consciência (Gewissen) da segunda parte de Être et Temps, sua formulação mais radical — L' | ||
| + | * Esse poder-ser atestado pela consciência não é marcado por competência alguma para distinguir o bem do mal, sendo a consciência à sua maneira além do bem e do mal, num efeito da luta contra o pensar-valor dos neokantianos e de Max Scheler | ||
| + | * Quanto ao chamador, não é outro senão o próprio Dasein — Dans la conscience, le Dasein s' | ||
| + | * A novidade reside na explicitação do traço de estranheza pelo qual a consciência se inscreve na dialética do Mesmo e do Outro, fazendo-se aproximação sutil entre a estranheza da voz e a condição decaída do ser-jogado | ||
| + | * A confissão da passividade, | ||
| + | * A introdução tardia da noção de Schuld — dívida — não restitui a essa estranheza conotação ética alguma, insistindo-se em Sein dentro de Schuldigsein — L' | ||
| + | * Heidegger se dissocia do sentido comum de dívida, que supõe ser para com alguém, e reduz a fenômenos vulgares o endividamento relativo ao ser-com preocupado com outrem, dizendo — L' | ||
| + | * Se o ser-em-dívida originário não pode ser determinado pela moralidade, é porque esta já o pressupõe para si mesma | ||
| + | * Heidegger não mostra o caminho inverso, da ontologia à ética, embora pareça prometê-lo no parágrafo 59, ao debater a explicitação vulgar da consciência | ||
| + | * A noção de má consciência é tachada de vulgar por vir tarde demais, faltando-lhe o caráter prospectivo do cuidado; a de boa consciência é afastada como farisaica, pois quem pode dizer je suis bon? | ||
| + | * Heidegger recusa até a consciência como admonição, | ||
| + | * O sentido da atestação fica selado na fórmula — Convocation pro-vocante à l' | ||
| + | * A ligação entre atestação e resolução parece devolver a noção de consciência ao campo da ética, ligando-se a resolução ao ser-para-a-morte, | ||
| + | * Coberta da requisição de outrem e de toda determinação propriamente moral, a resolução permanece tão indeterminada quanto o apelo ao qual responde, remetendo a ontologia fundamental a um situacionismo moral | ||
| + | * A essa des-moralização da consciência opõe-se uma concepção que associa estreitamente o fenômeno da injunção ao da atestação, | ||
| + | * Retoma-se a tríade ética-moralidade-convicção reinterpretada em termos de alteridade: a primeira injunção é ser chamado a viver-bem com e para outrem em instituições justas, existindo também, segundo F. Rosenzweig em L' | ||
| + | * Pela violência que macula as relações de interação, | ||
| + | * A injunção reencontra o fenômeno da convicção, | ||
| + | * O momento de convicção marca um recurso aos recursos ainda inexplorados da ética, aquém da moral mas através dela, invocando-se os traços da phronèsis aristotélica e a exclamação de Heidegger relatada por Gadamer — Mais phronèsis, c'est Gewissen! | ||
| + | * A passividade do ser-enjoint consiste na situação de escuta em que o sujeito ético se encontra em face da voz que lhe é dirigida na segunda pessoa, sendo a alteridade do Outro a contrapartida dessa passividade específica | ||
| + | * Quanto ao terceiro desafio, pergunta-se se esse Outro não é, de uma maneira ou de outra, outrem, contrastando-se a redução heideggeriana da alteridade do apelo à estranheza e à nulidade do ser-jogado com a hipótese de aproximar a alteridade da injunção da de outrem | ||
| + | * Que a consciência seja a voz do Outro no sentido de outrem, Hegel dá a pensar, ligando-se o destino da consciência à reconciliação de duas figuras parciais do espírito — a consciência julgante e a consciência agente — atravessando o fenômeno do desdobramento da consciência toda a Phénoménologie de l' | ||
| + | * A reconciliação última deixa perplexo quanto à identidade desse outro na confissão exprimée par la vision de soi-même dans l' | ||
| + | * Essa equivocidade última quanto ao estatuto do Outro é talvez o que deve ser preservado em última instância, sendo ela decidida em sentido univocamente antropológico na metapsicologia freudiana, onde a consciência moral é outro nome do supereu, ligado às identificações com figuras parentais e ancestrais | ||
| + | * A psicanálise reencontra, em plano de cientificidade, | ||
| + | * A essa explicação genética, legítima em sua ordem, objeta-se que ela não esgota o fenômeno da injunção nem o da dívida, pois se o si não fosse originariamente constituído em estrutura de acolhimento das sedimentações do supereu, a interiorização das vozes ancestrais seria impensável | ||
| + | * O modelo geracional da consciência esconde outra enigma: a figura do ancestral amorça um movimento de regressão sem fim em que o Outro perde progressivamente sua familiaridade inicial, escapando o ancestral ao regime da representação, | ||
| + | * Reservam-se as observações finais à redução, característica da obra de Emmanuel Lévinas, da alteridade da consciência à alteridade de outrem, opondo-se à redução heideggeriana do ser-em-dívida à estranheza da facticidade uma redução simétrica da alteridade da consciência à exterioridade de outrem manifestada em seu rosto | ||
| + | * Contra a alternativa entre a estranheza segundo Heidegger e a exterioridade segundo Lévinas, opõe-se com obstinação o caráter original da terceira modalidade de alteridade, o ser-enjoint como estrutura da ipseidade | ||
| + | * Para justificar o caráter irredutível dessa terceira modalidade, retomam-se, adaptadas, as objeções feitas à explicação genética freudiana do supereu | ||
| + | * Contra Heidegger objeta-se que a atestação é originariamente injunção, sob pena de perder toda significação ética; contra Lévinas objeta-se que a injunção é originariamente atestação, | ||
| + | * Partilhando com Lévinas a convicção de que outrem é o caminho obrigatório da injunção, sublinha-se a necessidade de manter certa equivocidade quanto ao estatuto do Outro, podendo o filósofo confessar não saber se esse Outro é um outrem, os ancestrais sem representação, | ||
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| + | * Conclui-se, em tom de ironia socrática, perguntando se se deve deixar em tal estado de dispersão as três grandes experiências de passividade — do corpo próprio, de outrem, da consciência — que induzem três modalidades de alteridade, considerando essa dispersão conveniente à própria ideia de alteridade, pois só um discurso outro que ele mesmo, parafraseando o Parmênides, | ||
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