estudos:ricoeur:si-mesmo:enunciaciao
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| + | ====== Enunciação e o sujeito falante ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Tr. Lucy Moreira Cesar. Campinas: Papirus, 1991 / RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Editions du Seuil, 1990.// | ||
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| + | **Abordagem pragmática** | ||
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| + | * Após percorrer a via da referência identificante, | ||
| + | * Esse tipo de investigação desloca o centro da problemática do enunciado para a enunciação, | ||
| + | * A confrontação entre a pesquisa referencial e a pesquisa reflexiva deve conduzir a uma teoria integrada do si-mesmo no plano linguístico, | ||
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| + | **1. Enunciação e atos de discurso (speech-acts)** | ||
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| + | * A complicação trazida pela reflexividade no interior da própria referência de certos enunciados evidencia que a abordagem reflexiva não se opõe simplesmente à referencial, | ||
| + | * Na definição clássica do signo como coisa que representa outra coisa, a transparência consiste no apagamento do signo enquanto coisa, apagamento nunca completo, de modo que em certas circunstâncias o signo se opacifica e revela sua estrutura paradoxal de entidade presente-ausente | ||
| + | * A circunstância maior dessa opacidade ocorre quando o fato da enunciação, | ||
| + | * Cabe mostrar como a teoria dos atos de discurso contribui para esse reconhecimento da opacidade e precisar o tipo de sujeito por ela promovido, preparando a confrontação entre as duas linhas da filosofia da linguagem | ||
| + | * A teoria dos atos de discurso, de Austin a Searle, parte da distinção entre performativos e constativos estabelecida em Quand dire, c'est faire | ||
| + | * Os performativos realizam o próprio ato enunciado, como no exemplo da promessa, decisivo para a determinação ética do si-mesmo: dizer "eu prometo" | ||
| + | * Os performativos só têm a virtude de " | ||
| + | * Austin ultrapassa sua própria distinção entre performativo e constativo, abrindo caminho para a teoria dos atos de discurso de Searle, que reconhece níveis hierárquicos distintos em todos os enunciados, ligando o dizer à teoria da ação, já que dizer é também um agir | ||
| + | * Distinguem-se o ato locutório, o ato ilocutório e o ato perlocutório | ||
| + | * O ato locutório é a operação predicativa de dizer algo sobre algo, sendo os locutores, e não os enunciados, que fazem referência e que querem dizer algo | ||
| + | * O ato ilocutório consiste no que o locutor faz ao falar, expresso pela força em virtude da qual a enunciação "vale como" constatação, | ||
| + | * Os enunciados "o gato está no tapete" | ||
| + | * É nesses prefixos que o eu se expressa, revelando uma situação complexa de interlocução em que a um locutor em primeira pessoa corresponde necessariamente um interlocutor em segunda pessoa, de modo que enunciação equivale a interlocução | ||
| + | * "Eu afirmo que" equivale a "eu te declaro que"; "eu prometo que" equivale a "eu te prometo que" | ||
| + | * Todo avanço em direção à ipseidade do locutor tem como contrapartida um avanço comparável na alteridade do parceiro, ainda que a teoria dos atos de discurso ofereça apenas o esqueleto dialógico desses intercâmbios | ||
| + | * A teoria da enunciação de H. Paul Grice completa essa relação alocutiva, definindo toda enunciação como uma intenção de significar que implica a expectativa de que o interlocutor reconheça essa intenção como tal, revelando a interlocução como troca circular de intencionalidades | ||
| + | * Fica assim delineada a contribuição da teoria dos atos de discurso à determinação do si-mesmo, restando examinar criticamente a natureza do sujeito exibido por essa teoria | ||
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| + | **2. O sujeito da enunciação** | ||
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| + | * A vigilância crítica se volta agora para a relação entre a enunciação e o enunciador | ||
| + | * À primeira vista essa relação não parece problemática, | ||
| + | * A presença do enunciador na enunciação parece atestada sem ambiguidade pela possibilidade de acrescentar a fórmula desenvolvida dos performativos explícitos a todo ato ilocutório, | ||
| + | * Essa menção do sujeito no prefixo intensional dos enunciados permite reagrupar sob a pragmática a teoria dos atos de discurso e a teoria dos indicadores, | ||
| + | * A análise dos atos de discurso encontra nos indicadores o complemento necessário para amarrar o enunciador à enunciação, | ||
| + | * O eu é promovido ao primeiro lugar entre os indicadores ao ser posto em relação com o ato de enunciação, | ||
| + | * " | ||
| + | * Tornando-se o eixo do sistema de indicadores, | ||
| + | * A singularidade funcional dos indicadores confirma-se num traço decisivo: enquanto a abordagem referencial privilegia a terceira pessoa, a teoria dos indicadores associada à dos atos de discurso privilegia a primeira e a segunda pessoa e exclui a terceira, retomando o anátema de Benveniste contra a terceira pessoa | ||
| + | * Segundo Benveniste, só a primeira e a segunda pessoa gramaticais merecem esse nome, sendo a terceira a não-pessoa, | ||
| + | * Cabe perguntar se esse pacto entre a enunciação e os indicadores eu-tu, seguidos dos dêiticos isto/ | ||
| + | * Duas ou três notações deveriam ter alertado antes: o termo central da teoria dos atos de discurso é o ato, não o agente, e a força ilocutória é definida por G. G. Granger sem menção expressa ao autor do discurso, o que permite despsicologizar as condições transcendentais da comunicação, | ||
| + | * Uma segunda notação intriga: a reflexividade foi sempre atribuída ao fato da enunciação, | ||
| + | * Récanati afirma sem equívoco que um enunciado é, por sua enunciação, | ||
| + | * Se a reflexividade equivale à autorreferência, | ||
| + | * Perde-se de vista que não são os enunciados nem as enunciações que referem, mas os sujeitos falantes, e que a situação de interlocução só tem valor de evento porque os autores da enunciação, | ||
| + | * Essa deriva da pragmática para um conceito de autorreferência só pode ser contida enfrentando os paradoxos e aporias que se abrem quando se interroga o estatuto do sujeito da enunciação como tal, e não apenas o ato de enunciação tratado como fato mundano, retomando a questão "quem fala?" | ||
| + | * O primeiro paradoxo reside na ambiguidade da expressão " | ||
| + | * Como pronome pessoal do sistema da língua, " | ||
| + | * Ao mesmo tempo, na tomada de palavra efetiva, opera-se a fixação do termo vago a um único enunciador atual, passando-se do ponto de vista paradigmático, | ||
| + | * Uma explicação desse paradoxo dentro da própria pragmática recorre à distinção de Peirce entre tipo e ocorrência (type e token) | ||
| + | * O tipo é da ordem do "a cada vez", a ocorrência da ordem do "uma só vez", e a contradição desaparece se o tipo implica uma escolha obrigatória entre os candidatos ao posto de sujeito falante, de modo que o shifter exerce uma função distributiva, | ||
| + | * Essa distinção entre tipo e ocorrência não elimina todo paradoxo, pois é compatível com uma interpretação da reflexividade como autorreferência a um fato espaço-temporal do mundo, tratando-se então de ocorrências diferentes de um mesmo signo — o ato de enunciação como fato — e visando o eu apenas obliquamente, | ||
| + | * As análises técnicas das expressões chamadas token-reflexives confirmam que a distinção tipo/ | ||
| + | * Esse paradoxo não pode mais ser ocultado ao se confrontar a estranheza da relação entre um locutor singular e a multiplicidade de suas enunciações, | ||
| + | * O paradoxo transforma-se então em aporia — a aporia da ancoragem, sobre a qual Wittgenstein não cessou de voltar do Tractatus às Investigations e ao Cahier bleu —, segundo a qual o ponto de perspectiva privilegiado sobre o mundo que é cada sujeito falante constitui o limite do mundo e não um de seus conteúdos, e no entanto o ego da enunciação aparece no mundo, atestado pela atribuição de um nome próprio ao portador do discurso | ||
| + | * No Cahier bleu, Wittgenstein observa que por " | ||
| + | * Essa aporia ficava oculta numa versão da pragmática em que o reenvio reflexivo se fazia menos ao ego da enunciação do que ao fato da enunciação como evento do mundo, assimilação que deixa de ser possível quando o acento recai sobre o ato no fato da enunciação e sobre o eu-tu nesse ato | ||
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| + | **3. A conjunção das duas vias da filosofia da linguagem** | ||
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| + | * Resolver essa aporia exige fazer convergir as duas vias da filosofia da linguagem — a da referência identificante e a da reflexividade da enunciação —, sendo que ao termo da primeira a pessoa aparecia como particular de base, o ele de quem se fala, e ao termo da segunda o sujeito aparece como o par de quem fala e a quem se fala, excluída a terceira pessoa como não-pessoa | ||
| + | * A convergência se assegura por empréstimos recíprocos: | ||
| + | * Inversamente, | ||
| + | * A noção de autorreferência, | ||
| + | * Antes de indagar se essa mescla entre o eu reflexivo e a pessoa referida não é arbitrariamente constituída, | ||
| + | * O dêitico " | ||
| + | * O que se designa por " | ||
| + | * Sem data, a definição do presente é puramente reflexiva e tautológica — é sempre hoje —, e só se sai dessa tautologia perguntando que dia é hoje, resposta que faz corresponder o presente vivo a um dos dias contados pelo calendário, | ||
| + | * O mesmo vale para " | ||
| + | * O emprego de " | ||
| + | * Dos dêiticos " | ||
| + | * A expressão "eu, L.W.", que tanto intrigava Wittgenstein, | ||
| + | * O ato de nascimento contém uma tríplice inscrição — nome próprio, data e lugar de nascimento — registrada no estado civil, do que resulta o enunciado "Eu, fulano, nascido em..., em...", | ||
| + | * Resta perguntar se essa assimilação entre a pessoa da referência identificante e o eu-ocorrência reflexivo pode se fundar numa realidade mais fundamental | ||
| + | * Essa fundação só pode ser buscada fora da filosofia da linguagem, interrogando-se sobre o tipo de ser capaz de dupla identificação como pessoa objetiva e sujeito reflexivo, direção sugerida pelo próprio fenômeno de ancoragem: a significação irredutível do corpo próprio | ||
| + | * A possibilidade de atribuir à mesma coisa predicados físicos e psíquicos fundava-se numa estrutura dupla do corpo próprio — realidade física observável e pertença à " | ||
| + | * Essa constituição estranha do corpo próprio estende-se ao próprio ato de enunciação, | ||
| + | * Essas reflexões antecipam o momento em que será preciso sair do plano da linguagem, já que o estranho estatuto do corpo próprio remete a uma problemática mais ampla, referente ao estatuto ontológico desse ser que somos, o qual vem ao mundo sob o modo da corporeidade | ||
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