estudos:ricoeur:narrativa-fenomeno
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| + | ====== Narrativa e Fenômeno ====== | ||
| + | //RICŒUR, Paul. A key to Husserl’s Ideas I. Milwaukee: Marquette University Press, 1996.// | ||
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| + | * Em 1950, Ricoeur traduziu para o francês a obra abstrusa de Husserl, Ideas, tornando-se rapidamente uma referência ao fornecer um léxico consistente de equivalentes franceses para a terminologia husserliana e ao oferecer um comentário que impulsionou sua autoridade intelectual entre os estudiosos de Husserl, ambição que logo ultrapassou a exegese filológica ao publicar no mesmo ano Filosofia da Vontade e, posteriormente, | ||
| + | * as obras posteriores incluem Sobre a Interpretação, | ||
| + | * A variação dos títulos ao longo da trajetória indica deslocamentos de interesse, ainda que três motivos permaneçam constantes em toda a obra: a convicção cartesiana quanto ao papel unificador do Cogito, a descoberta fenomenológica da intencionalidade e a ênfase hermenêutica na mediação semiótica e interpretativa | ||
| + | * O percurso intelectual de Ricoeur configura um diálogo vivo com a filosofia contemporânea das últimas cinco décadas, situando-o como testemunha de uma época marcada por um polemos de discursos e por conflitos de interpretação | ||
| + | * Enquanto Sartre costuma ser considerado o último intelectual de sua época, Ricoeur, na expressão de Bernard Stevens, assume o papel de árbitro de sua era, não como mero relator de debates alheios, mas como contribuinte original diante da psicanálise, | ||
| + | * Jean Grondin caracteriza parte da obra de Ricoeur como uma apologética, | ||
| + | * A introdução ao comentário de Ricoeur sobre Ideas não pretende apresentar de modo geral seu pensamento, mas examinar como sua noção de narrativa amplia os limites da fenomenologia ao reformular dois pontos técnicos centrais em Husserl: a síntese passiva e o preenchimento | ||
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| + | **1. O tratamento husserliano da síntese passiva e do preenchimento** | ||
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| + | * A síntese passiva é o conceito com que Husserl explica que a atividade constitutiva da consciência já é atravessada por uma passividade, | ||
| + | * O problema da síntese passiva vincula-se à fenomenologia genética, em oposição à estática, introduzindo a história como tema fenomenológico, | ||
| + | * O problema do preenchimento constitui o teste crucial para uma filosofia centrada na intencionalidade, | ||
| + | * Embora se apoie livremente em Heidegger, Ricoeur mantém papel central para o Cogito, exigindo apresentação mais detalhada dos problemas antes de expor sua solução em termos de narrativa | ||
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| + | **1.1 Síntese passiva** | ||
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| + | * A noção de passividade nunca recebeu tratamento sistemático em Husserl, cabendo aos comentadores elucidá-la: | ||
| + | * Diante da complexidade do problema, adota-se um recorte metodológico restrito à síntese e à gênese passivas, entendendo passividade como o fato de o objeto já se apresentar como totalidade antes de ser intencionado e do Eu já constituir um campo unificado de consciência antes de intencionar, | ||
| + | * A expressão síntese passiva parece ameaçar o núcleo transcendental da fenomenologia, | ||
| + | * A gênese de um ego dentro de um mundo de objetos passivamente constituídos poderia levar a fenomenologia a integrar a história em seu escopo, ainda que Husserl limite essa disseminação da passividade às fronteiras do que pode ser ativamente constituído, | ||
| + | * A síntese passiva, ao integrar uma dimensão genética e histórica, abre a questão da intersubjetividade, | ||
| + | * Essa afirmação central revela o contraste com a posição de Ricoeur: Husserl acredita que tal passividade pode ser recuperada mediante uma dupla redução — isolando primeiro um substrato de " | ||
| + | * Essa segunda estratégia revela a metodologia husserliana de fundo: a passividade do mundo e do Ego é tratada como um conjunto de atividades recuperáveis por um questionamento retrospectivo, | ||
| + | * A explicação husserliana da intersubjetividade articula-se em quatro passos, três deles assumidos como pressupostos: | ||
| + | * O primeiro passo não apresenta grande dificuldade, | ||
| + | * o segundo passo reduz a constituição intersubjetiva à constituição do outro como corpo animado, de modo que, por emparelhamento com outros egos, aprepresento o que eles veem e, assim, um segundo estrato daquilo que percebo como objetivo, recuperando estaticamente a constituição intersubjetiva | ||
| + | * O conceito de apresentação garante que qualquer papel intersubjetivo possa, em princípio, remontar à presença de dois Egos, reduzindo as potencialidades do outro ao que pode ser apresentado através de seu corpo | ||
| + | * A condição de possibilidade da apresentação é a existência de uma esfera de propriedade, | ||
| + | * Como a esfera de propriedade é o lugar em que a gênese passiva e a constituição intersubjetiva podem ser recuperadas como próprias, supõe-se que a passividade do ego e do mundo se decomponha em elementos apresentáveis, | ||
| + | * Husserl qualifica a redução transcendental como abstração que retém um estrato coerente do mundo fenomênico, | ||
| + | * Husserl tenta sustentar duas teses aparentemente antagônicas: | ||
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| + | **1.2. A questão do preenchimento** | ||
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| + | * A noção de intencionalidade só tem relevância se o ato intencional puder ser preenchido; nas Investigações Lógicas, Husserl parte dos atos significativos, | ||
| + | * Reconstruindo o problema a partir de Dreyfus, o significado conferido permanece ideal enquanto o sentido preenchedor deveria dar o " | ||
| + | * A dificuldade decorre da separação husserliana entre sentido e preenchimento, | ||
| + | * Husserl parece reconhecer o problema nas Investigações Lógicas ao admitir que o sentido preenchedor não implica plenitude nem inclui todo o conteúdo do ato intuitivo; Gurwitsch tenta remediar isso com a noção de significado encarnado, ao mesmo tempo sensível e da ordem do sentido | ||
| + | * A introdução do noema em Ideas representa um avanço, cobrindo ao menos três elementos distintos — correlato pontual do ato, sentido ideal e objeto intencional constituído —; no caso da percepção, | ||
| + | * Apesar de a extensão do sentido à percepção abrir caminho para compreender o preenchimento, | ||
| + | * Em obras posteriores, | ||
| + | * Como nenhuma articulação entre intenção e preenchimento é dada em Husserl, Klaus Held vê em Heidegger quem oferece tal articulação, | ||
| + | * a experiência de algo dentro de um mundo-de-trabalho torna inseparável a coisa de seu uso potencial, e a autoconsciência da própria identidade equivale a tomar consciência daquele em função de quem opera a rede de remissões, permitindo à existência humana alcançar a autenticidade ao se desvincular da ação instrumental; | ||
| + | * Apesar de seu fascínio intelectual, | ||
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| + | **2. A narrativa como articulação do fenômeno** | ||
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| + | * A tarefa configuradora da narrativa, do discurso ou da linguagem, fortemente afirmada por Ricoeur, representa um dos raros pontos de encontro entre correntes de pensamento do fim do século — Heidegger, Gadamer, o desconstrucionismo, | ||
| + | * Ainda que Ricoeur não tenha endereçado diretamente os problemas husserlianos da síntese passiva e do preenchimento, | ||
| + | * ao introduzir um viés pragmático na fenomenologia, | ||
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| + | **2.1. A passividade como conquista narrativa** | ||
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| + | * Para estabelecer a ligação entre a narrativa e os problemas husserlianos de passividade e preenchimento, | ||
| + | * o mundo-da-vida não pode ser separado do método que o descobre, método cujo ponto de partida está nas idealizações e objetificações produzidas pela atividade científica e cultural, tornando-o inatingível como presença reatualizável; | ||
| + | * Para compreender esse paradoxo, Ricoeur distingue dois sentidos de originário — ontológico e epistemológico —, sendo o mundo-da-vida, | ||
| + | * Contrariamente a certas formulações de Husserl, o mundo-da-vida — ou a passividade, | ||
| + | * O papel mediador das narrativas responde à alternativa proposta por Gadamer em Verdade e Método entre o distanciamento alienante que permite a objetividade das ciências humanas e o pertencimento que preserva a relação fundamental com nossa concretude histórica | ||
| + | * Ricoeur argumenta longamente, em seu debate com Gadamer, contra essa alternativa, | ||
| + | * A linguagem, sistema anônimo de combinação de signos, só se torna discurso quando os signos são reunidos numa frase proferida por alguém, tornando-se obra sob a responsabilidade de um Cogito que, ao contrário de Atena, não nasce plenamente formado, mas se reconstitui a si mesmo através de suas obras discursivas, | ||
| + | * O Cogito pertence à mesma categoria do autor de uma obra — como artesão, o auctor —, sendo o autor categoria que só surge da interpretação da obra, de modo que há correlação e precedência entre autor e obra, e entre Cogito e pensamento, sendo o Cogito um ser humano individualizado por produzir obras individuais | ||
| + | * Essa visão questiona radicalmente a distinção forte entre explicação e compreensão, | ||
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| + | **2.2 A narrativa como articulação de intenção e ação** | ||
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| + | * Husserl introduziu a noção de noema para resolver a dificuldade do preenchimento sem sucesso pleno; na introdução à sua tradução de Ideas, Ricoeur reconhece a importância central do preenchimento para a fenomenologia transcendental, | ||
| + | * A narrativa em que Ricoeur se apoia pode ser entendida também como reformulação do noema, compreendido em analogia aos atos de fala, pois exibe traços ilocucionários semelhantes aos de um ato de fala completo; a narrativa excede a antiga oratio que apenas veicularia uma ratio preexistente, | ||
| + | * O primeiro nível desse esquema, a Mímesis 1, corresponde ao mundo pré-narrativo que já reclama, em sua própria articulação, | ||
| + | * o primeiro ponto de ancoragem manifesta-se na própria estrutura da ação, organizada em projetos, planos, metas, meios e circunstâncias já compreendidos implicitamente, | ||
| + | * O segundo nível, a Mímesis 2, é o nível propriamente narrativo em que a mediação simbólica da linguagem permite contar uma história, trazendo à tona estruturas simbólicas já corporificadas na vida prática, de modo que as histórias tornam-nos conscientes da articulação narrativa do mundo e constituem uma reserva de narrativas aplicável de volta à vida, possibilitando um aumento icônico do mundo; a Mímesis 3 é justamente esse resultado final, o impacto das narrativas sobre a vida prática, quando o leitor é afetado pela narrativa e age em conformidade | ||
| + | * As narrativas fictícias, como a literatura, apresentam a dificuldade de não se referirem a nada real; Ricoeur resolve isso com a noção de referência de segundo grau: enquanto o discurso oral se apoia numa função ostensiva ligada ao aqui e agora dos falantes, a ficção abole essa referência de primeiro grau para abrir uma referência de segundo grau, remetendo ao ser-no-mundo exposto diante do texto, uma proposta de mundo que se poderia habitar, expressão que remete diretamente a Heidegger e que situa a oferta da literatura no nível do Lebenswelt husserliano e do ser-no-mundo heideggeriano | ||
| + | * A inter-relação desses três níveis mostra que a ficção só se completa na vida e que a vida só se compreende através das histórias que dela se contam, de modo que uma vida examinada, no sentido socrático, é uma vida narrada, abrindo uma dimensão ética em que a narrativa se torna o primeiro laboratório do juízo moral | ||
| + | * Essa ênfase nas narrativas reformula o problema do ato intencional e do preenchimento, | ||
| + | * Ricoeur desloca decisivamente o debate fenomenológico para além das intrincações husserlianas: | ||
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