estudos:ricoeur:mho:pessoal-coletiva
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| + | ====== Memória Pessoal e Coletiva ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire, | ||
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| + | **NOTA DE ORIENTAÇÃO** | ||
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| + | * A questão do sujeito verdadeiro das operações de memória tende a ocupar o primeiro plano na discussão contemporânea, | ||
| + | * A questão assim reformulada torna-se: a quem é legítimo atribuir o pathos correspondente à recepção do souvenir e a praxis que constitui a busca do souvenir, escapando à alternativa paralisante entre memória primordialmente pessoal ou coletiva, já que a atribuição pode se estender a todas as pessoas gramaticais, | ||
| + | * Essa é a primeira hipótese de trabalho; a segunda é que a alternativa da qual se parte é fruto tardio de um duplo movimento posterior à elaboração das problemáticas da prova e da busca do souvenir, remontando à época de Platão e Aristóteles: | ||
| + | * Nem Platão, nem Aristóteles, | ||
| + | * A emergência de uma problemática da subjetividade e progressivamente egológica suscitou tanto a problematização da consciência quanto seu repliegue sobre si mesma, chegando a roçar um solipsismo especulativo, | ||
| + | * Em posição antitética, | ||
| + | * Nessa situação polêmica que opõe uma tradição antiga de reflexividade a uma tradição mais jovem de objetividade, | ||
| + | * A tarefa do filósofo interessado em compreender como a historiografia articula seu discurso ao da fenomenologia da memória é primeiro identificar as razões desse mal-entendido examinando o funcionamento interno de cada discurso, depois lançar pontes entre eles, propondo o conceito de atribuição como conceito operatório capaz de estabelecer comensurabilidade entre as teses opostas, seguido do exame das modalidades de troca entre a atribuição a si e a atribuição a outros. | ||
| + | * O problema das relações entre memória individual e coletiva não se encerra aqui, sendo retomado pela historiografia quando a história, tornando-se sujeito de si mesma, tentar abolir o estatuto de matriz de história ordinariamente reconhecido à memória, tratando-a como objeto do conhecimento histórico, tarefa reservada à filosofia da história na terceira parte da obra. | ||
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| + | **I. A TRADIÇÃO DO OLHAR INTERIOR** | ||
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| + | **1. Agostinho** | ||
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| + | * A defesa do caráter originário e primordial da memória individual ancora-se nos usos da linguagem ordinária e na psicologia sumária que os avaliza, sendo notável, em nenhum outro registro de experiência viva, a adesão tão total do ato de autodesignação do sujeito à visada objetal de sua experiência, | ||
| + | * Três traços sustentam o caráter fundamentalmente privado da memória: primeiro, sua radical singularidade, | ||
| + | * Em seguida, reside na memória o vínculo originário da consciência com o passado — como já dito com Aristóteles e reafirmado com mais força por Agostinho, a memória é do passado, e esse passado é o de minhas impressões, | ||
| + | * Por fim, à memória se prende o sentido da orientação na passagem do tempo, em duplo sentido — do passado ao futuro e do futuro ao passado, através do presente vivo —, sendo sobre esses traços recolhidos da experiência comum que se construiu a tradição do olhar interior, cujas letras de nobreza remontam à Antiguidade tardia cristã, sendo Agostinho ao mesmo tempo sua expressão e seu iniciador, tendo inventado a interioridade sobre o fundo da experiência cristã da conversão, contrastando com a problemática grega e latina do indivíduo e da polis. | ||
| + | * Agostinho conhece o homem interior mas ignora a equação entre identidade, si e memória, invenção posterior de John Locke, o qual por sua vez ignorará o sentido transcendental do sujeito inaugurado por Kant e legado até a filosofia transcendental de Husserl, apogeu da escola do olhar interior e, ao mesmo tempo, impasse em direção à memória coletiva. | ||
| + | * Não é ainda a consciência, | ||
| + | * Citação retomada de Temps et Récit I, a partir de Jean Guitton: "Para mim ao menos, Senhor, eu me esforço nisso e me esforço sobre mim mesmo. Tornei-me para mim mesmo uma terra de dificuldade e de suor, sim, já não são as zonas celestes que agora perscrutamos, | ||
| + | * No Livro X das Confissões, | ||
| + | * Consagra-se a fama do livro à metáfora dos " | ||
| + | * Citação: "todas essas coisas a memória recolhe, para evocá-las de novo quando necessário e repassá-las, | ||
| + | * O exame se concentra na maravilha do chamamento à memória, que se dá "no interior, no pátio imenso do palácio de minha memória" | ||
| + | * A memória é duplamente admirável: por sua amplitude, contendo não só imagens das impressões sensíveis mas também noções intelectuais aprendidas e sabidas, e as próprias paixões da alma, lembrando-se sem alegria da alegria e sem tristeza da tristeza; e por igualar-se ao cogito, pois voltam ao espírito não apenas as imagens das coisas mas os próprios inteligíveis, | ||
| + | * A ameaça do esquecimento não cessa de assombrar esse elogio: o homem interior é o lugar "onde brilha para minha alma o que o espaço não capta, onde ressoa o que o tempo rapace não toma (quod non rapit tempus)" | ||
| + | * A reconhecência de algo rememorado é sentida como vitória sobre o esquecimento: | ||
| + | * Somente a reconhecência atesta, na linguagem e a posteriori, que "ainda não esquecemos completamente aquilo de que ao menos nos lembramos de ter esquecido" | ||
| + | * Diante desse paradoxo — "é a memória que retém o esquecimento" | ||
| + | * Conclui, apesar da incompreensibilidade: | ||
| + | * Ultrapassado esse enigma, a busca de Deus prossegue na memória, mais alto que a memória, pela mediação da busca da vida feliz: " | ||
| + | * Sobre esse fundo de admiração pela memória, tingido de inquietação quanto à ameaça do esquecimento, | ||
| + | * É pela questão da medida dos tempos que Agostinho entra na problemática da interioridade, | ||
| + | * É no espaço interior da alma ou do espírito que se desenrola a dialética entre distenção e intenção, fio condutor da interpretação do Livro XI em Temps et Récit, sendo a distentio, que dissocia as três visadas do presente — presente do passado ou memória, presente do futuro ou espera, presente do presente ou atenção —, distentio animi, valendo dissimilitude de si a si, ligando-se polemicamente a escolha do ponto de vista reflexivo à rejeição da explicação aristotélica da origem do tempo a partir do movimento cósmico. | ||
| + | * Notável que, quanto à polêmica sobre o caráter privado ou público da memória, para Agostinho não seja principalmente ao tempo público, ao tempo da comemoração, | ||
| + | * Permanece o problema de saber se a teoria do triplo presente não confere à experiência viva do presente uma preeminência tal que a alteridade do passado seja afetada, questão posta pelo papel da noção de passagem na descrição da distentio animi: "De onde (unde) e por onde (qua) e para onde (quo) passa?" | ||
| + | * Citação: "O trânsito (transire) do tempo consiste em ir do (ex) futuro por (per) o presente para dentro (in) do passado" | ||
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| + | **2. John Locke** | ||
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| + | * A situação de John Locke na corrente do olhar interior é singular: o eco do platonismo e neoplatonismo, | ||
| + | * Aproxima-se de Descartes quanto à questão do cogito, mas a crítica das ideias inatas o afasta definitivamente, | ||
| + | * Como sublinha Étienne Balibar, tradutor e comentador da obra, a invenção da consciência por Locke tornou-se referência das teorias da consciência de Leibniz, Condillac, Kant, Hegel, até Bergson e Husserl, invenção que surpreende dado o prestígio do cogito cartesiano; mas o sujeito gramatical do cogito não é um self, é um ego exemplar sem diversidade de lugares e momentos, surgindo na fulgurância do instante — pensar sempre não implica lembrar-se de ter pensado. | ||
| + | * Uma série de reduções preliminares desbrava o terreno: onde a filosofia das Meditações é vitória sobre a dúvida, o tratado de Locke é vitória sobre a diversidade; | ||
| + | * Quanto à tríade identidade-consciência-si, | ||
| + | * Locke toma por exemplo um átomo, "corpo persistente de superfície invariável", | ||
| + | * A diferença retorna sob a forma de diferenciação dos tipos de identidade — corpúsculos, | ||
| + | * Citação: "É, penso eu, um ser pensante e inteligente, | ||
| + | * Citação: "Pois a consciência sempre acompanha o pensamento, é o que faz que cada um seja o que chama si mesmo e o que o distingue de todas as outras coisas pensantes" | ||
| + | * À objeção do esquecimento e do sono como interrupções da consciência, | ||
| + | * Locke enfrenta os contraexemplos: | ||
| + | * Resulta que consciência e memória são uma só e mesma coisa, sem consideração por suporte substancial, | ||
| + | * Ainda assim, resta perguntar que alteridade poderia se insinuar nas dobras dessa mesmidade do si. | ||
| + | * Num nível ainda formal, a identidade permanece relação de comparação que tem por contraponto a diversidade; | ||
| + | * Falta uma discussão sobre o estatuto do pronome nominalizado self, ora genérico (the self), ora singular (my self); e, apesar de Locke dissociar ideias e nomes, "a palavra pessoa, tal como a emprego, é o nome deste (this) self" (§ 26), sendo a última palavra do tratado deixada ao nome: "Pois, qualquer que seja a forma como uma ideia complexa é composta, basta que a existência faça dela uma única coisa particular, sob qualquer denominação que seja, para que a continuação da mesma existência preserve a identidade do indivíduo sob a identidade do nome" (§ 29). | ||
| + | * Num nível mais material, a diferença retorna às duas extremidades da paleta de significações da ideia do si idêntico: a diversidade oferece-se à memória como diversidade percorrida e retida de lugares e momentos, tocando um aspecto da vida subjacente à memória que não é outro senão a própria passagem do tempo — a consciência é consciência do que se passa nela — sendo Locke, por não dispor da categoria de intencionalidade, | ||
| + | * A única tensão perceptível é entre a consciência e a vida apesar de sua identificação, | ||
| + | * Na outra extremidade do leque de sinônimos do si, o vocabulário ético evoca torções mais sérias à mesmidade de si a si: notou-se o caráter " | ||
| + | * Coloca-se então a questão de um domínio suscetível de dupla leitura, a partir de si e a partir de outrem, pois quem designa? quem apropria? quem imputa? não se prestam contas também, e talvez primeiro, a outrem? e quem pune e recompensa? qual instância nos Últimos Dias pronunciará o veredicto (sentence) que, segundo Locke, "será justificado pela consciência que todas as pessoas terão então" | ||
| + | * Essa dupla leitura não é a de Locke, sendo o que atrai nesse tratado sobre identidade, consciência e si a intransigência de uma filosofia sem concessão que se deve chamar filosofia do " | ||
| + | * A univocidade dessa filosofia do mesmo confirma-se na comparação entre a conceitualidade do Ensaio e a do Segundo Tratado do governo, onde o leitor é transportado ao coração da pluralidade humana cara a Hannah Arendt, herdeiros de Adão, submetidos aos governantes atuais, interrogando-se sobre a fonte de sua autoridade. | ||
| + | * Citação: "Se não se quer dar um justo motivo de pensar que os governantes deste mundo são apenas produto da força e da violência e que os homens não vivem juntos senão segundo regras diferentes das que valem entre as feras selvagens — onde é o mais forte que prevalece — e se não se quer, portanto, semear assim as sementes de uma discórdia eterna, de palavras, de tumultos, de sedições e de rebeliões [...], é necessário encontrar um outro modo de nascimento do governo..." | ||
| + | * Somos lançados in medias res, num mundo já habitado por homens, governantes, | ||
| + | * Evoca-se sem demora o estado de guerra (capítulo 3), supondo inimizade e destruição, | ||
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| + | **3. Husserl** | ||
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| + | * Husserl é o terceiro testemunho da tradição do olhar interior, sucedendo a Locke, passando por Kant e os pós-kantianos, | ||
| + | * A abordagem aqui difere da de Temps et Récit, orientando-se a atenção para a quinta Meditação cartesiana, onde se enfrenta a passagem da egologia à intersubjetividade, | ||
| + | * A questão que anima essa investigação é em que medida esse recuo para fora da esfera objetal, onde Erinnerung significa souvenir mais que memória, prepara a tese egológica das Meditações cartesianas que barra a via em direção ao " | ||
| + | * As Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo anunciam a cor já no título: a consciência do tempo é declarada íntima, tratando-se, | ||
| + | * Não se retorna às duas descobertas fenomenológicas devidas a Husserl — a diferença entre a " | ||
| + | * A terceira seção das Lições de 1905 encadeia-se à precedente, onde a análise da temporalidade ainda se apoiava sobre "um objeto individual" | ||
| + | * Citação: "É a subjetividade absoluta, e ela tem as propriedades absolutas do que é preciso designar metaforicamente como ' | ||
| + | * A metafórica do fluxo, partilhada com William James e Bergson, autoriza a da fonte, preservando-se um eixo de referência, | ||
| + | * Citação: "O tempo imanente se constitui como um só para todos os objetos e processos imanentes. Correlativamente, | ||
| + | * A persistência do vocabulário da intencionalidade se desdobra entre dois empregos do termo " | ||
| + | * Citação: "É em um único fluxo de consciência que se constitui a um só tempo a unidade temporal imanente do som e a unidade do fluxo da consciência ela mesma" (§ 39), declarando Husserl sua perplexidade: | ||
| + | * Citação: "assim o fluxo é atravessado por uma intencionalidade longitudinal que, no curso do fluxo, se recobre a si mesma continuamente" | ||
| + | * Citação: "O fluxo da consciência imanente constitutiva do tempo não somente é, mas ainda, de forma tão notável e no entanto compreensível, | ||
| + | * Permanece em aberto a questão do horizonte, tendo " | ||
| + | * A dupla valência da " | ||
| + | * Citação: "O tempo imanente se objetiva num tempo dos objetos constituídos nas aparições imanentes, pelo fato de que, na multiplicidade em degradê dos conteúdos de sensação como unidade do tempo fenomenológico [...] aparece uma coiseidade idêntica que em todas as fases se apresenta sem cessar ela mesma em multiplicidades em degradê" | ||
| + | * O primado assim concedido à autoconstituição do fluxo temporal não faz notar de imediato os obstáculos que esse extremo subjetivismo opõe à ideia de uma constituição simultânea da memória individual e da memória coletiva, sendo preciso descobrir que a consciência transcendental constituída em seu fluxo se designa a si mesma como ego transcendental, | ||
| + | * Coloca-se então a questão de saber se esse desconhecimento pontual da ausência não afeta toda a empresa fenomenológica, | ||
| + | * Essa redução da ausência se esboça já na fenomenologia " | ||
| + | * A hipótese interpretativa é que a metacategoria que trabalha para anular essas diferenças é a de " | ||
| + | * Atribui-se ao império dessa metacategoria a tendência geral de reabsorver o souvenir secundário no souvenir primário, verdadeiro anexo temporal do presente, por meio da ideia de retenção de retenções, | ||
| + | * A segunda série de análises, a da posição do souvenir na família das presentificações, | ||
| + | * É esse o caso, ao que parece, com a terceira seção das Lições: a favor da báscula da análise " | ||
| + | * Os pontos de resistência ao triunfo da presença situam-se em várias direções: primeiro no plano último da constituição, | ||
| + | * Ao fim desse percurso, retoma-se a sugestão anterior: a negação da negatividade interna à consciência de si não seria secretamente aparentada à negação do caráter primordial da relação ao estrangeiro na constituição egológica da consciência de si? A questão permanece aberta. | ||
| + | * Deixando-se a leitura das Lições, volta-se à problemática do rapport entre memória individual e coletiva, saltando-se para o outro versante da fenomenologia, | ||
| + | * As Lições não permitiam antecipar o caminho ao fim do qual a experiência temporal poderia se tornar experiência partilhada, partilhando ainda a fenomenologia nesse estágio com o " | ||
| + | * Os últimos parágrafos da quinta Meditação propõem o tema da " | ||
| + | * O preço dessa extensão da fenomenologia ao domínio da vida partilhada é alto: foi preciso radicalizar o idealismo transcendental até o ponto em que o solipsismo é assumido como objeção legítima, representando a " | ||
| + | * Essa passagem obrigatória pela esfera própria é essencial: a constituição de outrem como estrangeiro não marcará o enfraquecimento mas o reforço do transcendentalismo husserliano culminando numa egologia, pois é " | ||
| + | * A redução à esfera própria e a teoria da apercepção analógica constituem os dois pontos de ancoragem obrigatórios para uma fenomenologia posterior da " | ||
| + | * Não se demora mais nas dificuldades ligadas ao acoplamento entre idealismo transcendental e teoria da intersubjetividade, | ||
| + | * Não se esquece a distinção, | ||
| + | * Seja como for dessas dificuldades, | ||
| + | * Por esse transfert analógico, é permitido empregar a primeira pessoa do plural e atribuir a um nós — qualquer que seja seu titular — todas as prerrogativas da memória: mesmidade, continuidade, | ||
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| + | **II. O OLHAR EXTERIOR: MAURICE HALBWACHS** | ||
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| + | * O pensamento de Maurice Halbwachs beneficia-se, | ||
| + | * Deve-se a Halbwachs a audaciosa decisão de atribuir a memória diretamente a uma entidade coletiva chamada grupo ou sociedade, tendo forjado antes de La Mémoire collective o conceito de " | ||
| + | * O passo dado em La Mémoire collective consiste em desimplicar a referência à memória coletiva do próprio trabalho da memória pessoal a recordar seus souvenirs, sendo o capítulo 2, " | ||
| + | * Constitui tema de abertura o apelo ao testemunho dos outros, sendo pelo caminho do chamamento e da reconhecência que se cruza a memória alheia; considerado o testemunho não como proferido para ser recolhido por outro, mas como recebido por mim a título de informação sobre o passado, sendo os primeiros souvenirs assim encontrados os partilhados, | ||
| + | * Os mais notáveis desses souvenirs são os de lugares visitados em comum, oferecendo ocasião privilegiada de se recolocar em pensamento em tal ou qual grupo, passando-se do papel do testemunho no chamamento aos souvenirs que temos como membros de um grupo, exigindo deslocamento de ponto de vista de que somos eminentemente capazes; a classe escolar é a esse respeito lugar privilegiado de deslocamento de pontos de vista da memória, atribuindo todo grupo lugares dos quais se guarda ou forma memória. | ||
| + | * O ensaio entra em fase crítica ao atacar a tese psicologizante, | ||
| + | * Argumento negativo: quando deixamos de fazer parte do grupo em cuja memória tal souvenir se conservava, nossa própria memória se atrofia por falta de apoios exteriores; argumento positivo: "Só nos lembramos com a condição de nos colocarmos no ponto de vista de um ou vários grupos e de nos recolocarmos numa ou várias correntes de pensamento" | ||
| + | * Ataca-se de frente a tese sensualista da origem do souvenir numa intuição sensível conservada tal qual e chamada de volta ao idêntico, tal souvenir sendo não apenas inencontrável mas inconcebível, | ||
| + | * Citação: "É no quadro da família que a imagem se desloca, porque desde o início ela ali estava compreendida e dele nunca saiu" (op. cit., p. 69); e ainda: "O mundo para a criança nunca está vazio de seres humanos, de influências benfazejas ou malignas" | ||
| + | * O que se revela inencontrável e inconcebível é a ideia de uma " | ||
| + | * O ponto forte do capítulo consiste assim na denúncia de uma atribuição ilusória do souvenir a nós mesmos quando pretendemos ser seus possuidores originários. | ||
| + | * Interroga-se se Halbwachs não ultrapassa aqui uma linha invisível, entre a tese "nunca nos lembramos sozinhos" | ||
| + | * Se, em última análise, a ideia da espontaneidade de um sujeito individual de chamamento pode ser denunciada como ilusão, é porque " | ||
| + | * Só há assim dois princípios de encadeamento: | ||
| + | * Resta explicar como o sentimento da unidade do eu deriva desse pensamento coletivo, sendo pelo intermédio da consciência que tomamos a cada instante de pertencer simultaneamente a diversos meios; mas essa consciência só existe no presente, sendo a única concessão do autor dotar cada consciência do poder de se colocar no ponto de vista do grupo e de passar de um grupo a outro — concessão logo retirada, sendo essa última atribuição ainda ilusão resultante de acostumamento à pressão social, que nos faz crer autores de nossas crenças. | ||
| + | * Citação: "É assim que a maioria das influências sociais a que obedecemos mais frequentemente nos permanecem despercebidas" | ||
| + | * Citação: "Não percebemos que ele resulta na realidade de seu conjunto, e que é sempre dominado pela lei da causalidade" | ||
| + | * Questiona-se se esse é o último veredicto desse estudo, por outro lado notável, que ao final se enrijece num dogmatismo surpreendente, | ||
| + | * Encontram-se no próprio texto de Halbwachs recursos de crítica a voltar contra ele, no uso quase leibniziano da ideia de ponto de vista, de perspectiva. | ||
| + | * Citação: " | ||
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| + | **III. TRÊS SUJEITOS DE ATRIBUIÇÃO DO SOUVENIR: EU, OS COLETIVOS, OS PRÓXIMOS** | ||
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| + | * As duas séries de discussão precedentes sugerem uma mesma conclusão negativa: nem a sociologia da memória coletiva nem a fenomenologia da memória individual conseguem derivar da posição forte que cada uma sustenta a legitimidade aparente da tese adversa — coesão dos estados de consciência do eu individual de um lado, capacidade das entidades coletivas de conservar e chamar souvenirs comuns do outro — não sendo simétricas as tentativas de derivação, | ||
| + | * Propõe-se, ao fim dessa investigação sobre aporia maior da problemática da memória, explorar os recursos de complementaridade que as duas abordagens antagônicas escondem, mascarados de um lado pelo preconceito idealista da fenomenologia husserliana, | ||
| + | * A linguagem ordinária, retrabalhada com ferramentas de semântica e pragmática do discurso, oferece socorro precioso com a noção de atribuição a alguém das operações psíquicas, figurando entre os traços notados desde o início o emprego gramatical de possessivos como " | ||
| + | * Foi John Locke quem, valendo-se da flexibilidade da língua inglesa, começou a teorizar essa operação introduzindo a expressão appropriate e jogos semânticos em torno de own, notando que a linguagem jurídica introduz, por seu caráter forensic, certa distância entre a propriedade apropriada e o possuidor, podendo essa expressão associar-se a pluralidade de possuidores (my own self) e ao próprio self nominalizado (the self), juntando-se a apropriação as expressões impute, accountable, | ||
| + | * Tentou-se em Soi-même comme un autre restituir à apropriação parte dessa amplitude a propósito do rapport entre a ação e seu agente, propondo-se agora estendê-la ao souvenir, tanto sob a forma passiva da presença ao espírito do souvenir quanto sob a forma ativa da busca do souvenir, sendo essas operações — pathos e praxis — objeto de atribuição, | ||
| + | * Essa extensão da ideia de apropriação a uma teoria da memória inspira-se na obra de P.F. Strawson, Les Individus, de quem se retém uma tese sobre os rapports entre predicados práticos e psíquicos: pertence a esses predicados, desde que atribuíveis a si mesmo, poderem ser atribuídos a um outro que si, implicando essa mobilidade da atribuição três proposições: | ||
| + | * Segundo a primeira pressuposição, | ||
| + | * A memória é a esse respeito ao mesmo tempo caso particular e caso singular: caso particular, na medida em que os fenômenos mnêmicos são fenômenos psíquicos entre outros, atribuídos a quem quer que seja, a cada um, entrando assim também no tesouro das significações psíquicas que a literatura explora, ora na terceira pessoa do romance, ora na primeira pessoa da autobiografia ("por muito tempo eu me deitei cedo" | ||
| + | * O caso dos fenômenos mnêmicos é singular por mais de um título: a atribuição adere tão estreitamente à afeição constitutiva da presença do souvenir e à ação do espírito para reencontrá-lo que o suspenso da atribuição parece particularmente abstrato, testemunhando a forma pronominal dos verbos de memória essa aderência que faz que lembrar-se de algo seja lembrar-se de si, podendo por isso a distanciação íntima entre o verbo " | ||
| + | * É porém o suspenso da atribuição que torna possível o fenômeno de atribuição múltipla, segunda pressuposição sublinhada por Strawson: se um fenômeno é self-ascribable, | ||
| + | * O que Husserl chama Paarung, " | ||
| + | * Resta a terceira pressuposição: | ||
| + | * No caso do estrangeiro, | ||
| + | * No caso da atribuição a si mesmo, o " | ||
| + | * É essa sutil distanciação que justifica o emprego do próprio termo " | ||
| + | * Sobre esse ponto, as considerações de Husserl na quinta Meditação sobre a dissimetria no preenchimento e as relativas a uma teoria da atribuição múltipla dos predicados psíquicos se recobrem perfeitamente. | ||
| + | * É verdade que o reconhecimento dessa dissimetria no cerne mesmo da atribuição a alguém dos fenômenos mnêmicos parece nos rejeitar em pleno mar, ressurgindo o espectro da discordância entre memória individual e coletiva no momento em que se pensava ter alcançado porto — o que não ocorre se não se separar essa terceira pressuposição das duas precedentes: | ||
| + | * O que distingue a atribuição a si é a apropriação sob o signo da mesmidade, my own, sendo a forma linguística apropriada a autodesignação que, no caso da ação, reveste a forma específica da imputação, | ||
| + | * Sobre o fundo dessas pressuposições encadeadas sobre a noção de atribuição a alguém dos fenômenos psíquicos em geral e mnêmicos em particular, tenta-se aproximar a tese fenomenológica e a tese sociológica. | ||
| + | * Uma fenomenologia da memória, menos sujeita ao que se arrisca chamar preconceito idealista, pode extrair da concorrência que lhe faz a sociologia da memória incitação a se desdobrar em direção a uma fenomenologia direta aplicada à realidade social, onde se inscreve a participação de sujeitos capazes de se designar a si mesmos como autores de seus atos em graus diversos de consciência refletida. | ||
| + | * Esses desenvolvimentos se encontram encorajados pela existência de traços do exercício da memória que trazem a marca do outro: em sua fase declarativa, | ||
| + | * A superação dos obstáculos à rememoração que fazem da memória um trabalho pode ser ajudada pela intervenção de um terceiro, o psicanalista entre outros, que " | ||
| + | * A entrada da memória na esfera pública não é menos notável nos fenômenos de identificação encontrados sob título vizinho ao da memória impedida, a memória manipulada: a comparação com outrem surge como fonte maior de insegurança pessoal. | ||
| + | * Antes mesmo de considerar os motivos de fragilidade ligados ao confronto com outrem, cabe atenção ao gesto de dar um nome a quem vem ao mundo: cada um carrega um nome que não deu a si mesmo, recebido de outro — na cultura, um patronímico que situa numa linha de filiação, um prenome que distingue na fratria, palavra de outrem depositada sobre uma vida inteira que confere apoio linguístico, | ||
| + | * É constituindo-se diretamente em fenomenologia da realidade social que a fenomenologia penetrou no campo fechado da sociologia, tendo esses desenvolvimentos reforço na última grande obra de Husserl, A Crise das ciências europeias, onde a atenção se volta aos aspectos antepredicativos do "mundo da vida", que não se identifica de modo algum a uma condição solitária, menos ainda solipsista, mas reveste desde logo forma comunitária. | ||
| + | * Essa extensão da fenomenologia à esfera social deu lugar à obra notável de Alfred Schutz, que não se detém nas etapas laboriosas da percepção de outrem à maneira da quinta Meditação, | ||
| + | * Uma fenomenologia da pertença é convidada a dar-se conceitualidade própria sem preocupação de derivação a partir de um polo egológico, deixando-se essa fenomenologia acoplar de bom grado a uma sociologia compreensiva como a de Max Weber, para a qual a " | ||
| + | * Um dos desenvolvimentos dessa fenomenologia da realidade social diz respeito diretamente à fenomenologia da memória no plano da realidade social: o fenômeno transgeracional inscrito na zona intermediária a ser evocada ao final, consagrando Alfred Schutz importante estudo ao encadeamento formado pelos reinos dos contemporâneos, | ||
| + | * O reino dos contemporâneos forma o pivô, exprimindo "a simultaneidade ou quase-simultaneidade da consciência de si do outro com a minha", | ||
| + | * A originalidade dessa fenomenologia da memória partilhada reside principalmente no escalonamento dos graus de personalização e, inversamente, | ||
| + | * Essa extensão da fenomenologia à esfera social a fez roçar a sociologia, tendo esta, em algumas orientações contemporâneas, | ||
| + | * Primeiro, é no campo de uma teoria da ação que os desenvolvimentos ecoados na segunda parte da obra foram mais notáveis, pondo-se a ênfase, com Bernard Lepetit, na formação do vínculo social no quadro das relações de interação e das identidades edificadas sobre essa base, desenvolvendo iniciativas e constrições suas dialéticas respectivas, | ||
| + | * Segundo, os problemas postos pela sociologia da memória coletiva reformulam-se pelos historiadores a propósito da dimensão temporal dos fenômenos sociais: o empilhamento das durações longas, médias e curtas em F. Braudel e os historiadores da escola dos Annales, e as considerações sobre estrutura, conjuntura e acontecimento, | ||
| + | * Enfim, a consideração pelos historiadores dos jogos de escalas dará ocasião a uma redistribuição dos fenômenos mnêmicos entre os degraus da micro-história e da macro-história, | ||
| + | * Termina-se este capítulo e esta primeira parte com uma sugestão: entre os dois polos da memória individual e coletiva, não existiria um plano intermediário de referência onde se operam concretamente as trocas entre a memória viva das pessoas individuais e a memória pública das comunidades a que pertencemos? | ||
| + | * Esse plano é o da relação com os próximos, a quem se está no direito de atribuir memória de gênero distinto, sendo os próximos, essas pessoas que contam para nós e para quem contamos, situados numa gama de variação das distâncias no rapport entre o si e os outros — variação de distância, mas também de modalidades ativas e passivas dos jogos de distanciamento e aproximação que fazem da proximidade um rapport dinâmico sempre em movimento: tornar-se próximo, sentir-se próximo. | ||
| + | * A proximidade seria assim réplica da amizade, dessa philia celebrada pelos antigos, a meio caminho entre o indivíduo solitário e o cidadão definido por sua contribuição à politeia, à vida e à ação da polis, situando-se do mesmo modo os próximos a meio caminho entre o si e o on para o qual derivam as relações de contemporaneidade descritas por Alfred Schutz, sendo os próximos outros vizinhos, outros privilegiados. | ||
| + | * Sobre que trajeto de atribuição da memória se situam os próximos? O vínculo com os próximos corta transversal e eletivamente tanto os rapports de filiação e conjugalidade quanto os rapports sociais dispersos segundo as formas múltiplas de pertença ou as ordens respectivas de grandeza, contando eles, do ponto de vista da memória partilhada, por acrescentarem à contemporaneidade do "tomar junto da idade" nota especial quanto aos dois " | ||
| + | * O primeiro escapa à minha memória, o segundo barra meus projetos, e ambos só interessam à sociedade a título de estado civil e do ponto de vista demográfico da substituição das gerações, mas ambos importaram ou vão importar a meus próximos: alguns poderão lamentar minha morte, mas antes alguns puderam se regozijar com meu nascimento e celebrar nessa ocasião o milagre da natalidade, e a doação do nome sob o qual, minha vida durante, eu me designarei doravante. | ||
| + | * Nesse ínterim, meus próximos são os que aprovam minha existência e cuja existência eu aprovo, na reciprocidade e igualdade da estima, exprimindo a aprovação mútua a partilha da asserção que cada um faz de seus poderes e não-poderes, | ||
| + | * Agostinho é aqui mestre, lendo-se no décimo Livro das Confissões: | ||
| + | * Não é portanto apenas com a hipótese da polaridade entre memória individual e coletiva que se deve entrar no campo da história, mas com a de uma tríplice atribuição da memória: a si, aos próximos, aos outros. | ||
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