estudos:ricoeur:ec:vida-relato
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| + | ====== Vida é relato ====== | ||
| + | //RICŒUR, Paul. Écrits et conférences I. Paris: Éd. du Seuil, 2008.// | ||
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| + | **A vida: uma narrativa em busca de narrador** | ||
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| + | * A relação entre vida e narração deve ser submetida a uma crítica, pois a vida só se torna propriamente humana quando a ficção contribui para examiná-la e configurá-la narrativamente. | ||
| + | * A oposição entre histórias contadas e vida vivida exige examinar primeiro o ato de narrar, a fim de esclarecer a relação entre viver e contar. | ||
| + | * A teoria narrativa moderna encontra uma antecipação na Poética de Aristóteles, | ||
| + | * A intriga aristotélica não é estrutura estática, mas operação integradora que confere identidade dinâmica à história narrada e se completa no leitor ou espectador vivo. | ||
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| + | **I. A composição da intriga** | ||
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| + | * A composição da intriga realiza uma síntese entre múltiplos incidentes e uma história una e completa, transformando acontecimentos dispersos em totalidade inteligível. | ||
| + | * A intriga organiza circunstâncias, | ||
| + | * Toda história narrada reúne a sucessão aberta de incidentes e a configuração que integra, culmina e encerra a história, fazendo da narrativa uma mediação entre tempo que passa e tempo que dura. | ||
| + | * A história como síntese do heterogêneo envolve mediação entre incidentes e história una, primado da concordância sobre a discordância e competição entre sucessão e configuração. | ||
| + | * A composição narrativa possui inteligibilidade própria, pois a história bem narrada ensina algo e desenvolve uma inteligência narrativa próxima da sabedoria prática e do julgamento moral. | ||
| + | * A poesia narrativa e dramática oferece experiências de pensamento nas quais condutas, felicidade, infelicidade, | ||
| + | * A narratologia contemporânea pode construir uma ciência do relato, mas apenas como simulação de segundo grau de uma inteligência narrativa prévia já exercida por quem conta e segue histórias. | ||
| + | * A narratologia reconstrói racionalmente regras profundas da atividade narrativa, como a linguística reconstrói leis da linguagem, mas permanece precedida pela inteligência narrativa da imaginação criadora. | ||
| + | * A análise permanece situada no nível primeiro da inteligência narrativa. | ||
| + | * O segundo corolário prepara a reinterpretação da relação entre narrativa e vida. | ||
| + | * A atividade narrativa possui vida própria no caráter tradicional do esquematismo narrativo. | ||
| + | * A tradição narrativa não é transmissão inerte, mas circulação viva entre sedimentação de modelos e reativação inovadora dos momentos criadores da composição poética. | ||
| + | * Os modelos narrativos, nascidos de inovações anteriores, orientam novas experimentações, | ||
| + | * Fora dos relatos tradicionais, | ||
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| + | **II. Do relato à vida** | ||
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| + | * O paradoxo entre histórias narradas e vida vivida parece abrir um abismo entre ficção e vida. | ||
| + | * A superação desse abismo exige revisar seriamente os dois termos do paradoxo. | ||
| + | * Do lado do relato, a configuração narrativa só se completa no leitor, e é nessa leitura que a narrativa pode reconfigurar a vida. | ||
| + | * O mundo do texto abre um horizonte de experiência possível no qual o leitor pode habitar imaginativamente, | ||
| + | * A distinção entre dentro e fora do texto resulta de um método de análise estrutural e não corresponde à experiência efetiva do leitor. | ||
| + | * A hermenêutica compreende o texto como mediação entre ser humano e mundo, entre seres humanos e entre o ser humano e si mesmo, articulando referencialidade, | ||
| + | * A dinâmica de configuração literária prepara a dinâmica de transfiguração da experiência, | ||
| + | * A leitura já reconcilia relato e vida, pois viver imaginariamente no universo fictício da obra é uma forma de experiência. | ||
| + | * O outro termo da alternativa, | ||
| + | * A vida possui capacidade pré-narrativa, | ||
| + | * O primeiro ancoramento narrativo da vida está na estrutura do agir e do sofrer, pois a semântica da ação já reúne projeto, fim, meio, circunstância e paixão numa inteligibilidade próxima da intriga. | ||
| + | * O segundo ancoramento narrativo está nos recursos simbólicos do campo prático, que determinam quais aspectos do agir podem ser transpostos poeticamente. | ||
| + | * A ação pode ser narrada porque já é articulada por signos, regras e normas, tornando-se um quase-texto cuja primeira legibilidade é fornecida pelo simbolismo imanente à prática. | ||
| + | * O terceiro ancoramento do relato na vida está na qualidade pré-narrativa da experiência humana, pela qual a vida aparece como história nascente e como atividade e paixão em busca de relato. | ||
| + | * A objeção de circularidade afirma que a experiência humana já estaria mediada por relatos recebidos, tornando difícil falar de narratividade anterior à literatura. | ||
| + | * A noção de estrutura pré-narrativa responde à objeção ao indicar situações em que a própria experiência apresenta narratividade virtual e demanda relato. | ||
| + | * A experiência cotidiana contém encadeamentos de episódios que aparecem como histórias ainda não contadas e oferecem pontos de ancoragem para o relato. | ||
| + | * A psicanálise mostra de modo exemplar a história não contada, pois o analisando traz fragmentos de histórias vividas que a análise transforma em relato mais suportável e inteligível. | ||
| + | * A situação judicial também revela o enredamento pré-narrativo, | ||
| + | * A ficção narrativa é dimensão irredutível da compreensão de si, pois a vida examinada é uma vida narrada. | ||
| + | * A vida narrada reencontra as estruturas fundamentais da narrativa, especialmente a tensão entre concordância e discordância que articula a intriga. | ||
| + | * A definição aristotélica da intriga e a definição agostiniana do tempo podem ser confrontadas, | ||
| + | * A vida, contemplada em conjunto, aparece como campo de atividade construtora pela qual se busca uma identidade narrativa, distinta tanto da sucessão incoerente quanto da substância imutável. | ||
| + | * A identidade narrativa permite aplicar à compreensão de si o jogo entre sedimentação e inovação, pois a autocompreensão se reinterpreta à luz dos relatos oferecidos pela cultura. | ||
| + | * A vida difere da ficção porque se pode tornar narrador de si mesmo sem se tornar autor absoluto da própria existência. | ||
| + | * O sujeito não é dado no ponto de partida; ele se forma como si instruído pelos símbolos culturais e sobretudo pelos relatos recebidos da tradição literária. | ||
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| + | **O relato: seu lugar em psicanálise** | ||
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| + | * A reflexão sobre a função narrativa em psicanálise nasce do encontro entre a teoria da narratividade e uma investigação independente sobre a criação histórica ou ficcional. | ||
| + | * A identidade narrativa situa-se no cruzamento entre o modo histórico, ligado aos documentos, e o modo ficcional, ligado à exploração do imaginário. | ||
| + | * A compreensão de si é narrativa, histórica e ficcional ao mesmo tempo, pois envolve documentos da própria existência e ensaios imaginários de intrigas sobre a própria vida. | ||
| + | * A insatisfação com o freudismo decorre da discordância entre a metapsicologia energética de Freud e a riqueza da descoberta freudiana. | ||
| + | * A teoria freudiana, de modelo mecanicista e econômico, deixa escapar a dimensão da prática analítica, especialmente aquilo que ocorre na relação entre analisando e analista. | ||
| + | * A experiência analítica exige reintroduzir o elemento narrativo na criteriologia do fato analítico, sob a pressão da própria prática e de seus testemunhos clínicos. | ||
| + | * O fato analítico distingue-se por quatro elementos, sendo o narrativo o quarto. | ||
| + | * A experiência analítica pressupõe que a afetividade profunda não é estranha ao linguagem, pois mesmo o desejo recalcado mantém afinidade com a expressão simbólica. | ||
| + | * O pathos humano tem afinidade com o logos humano, e a cura analítica consiste em levar ao linguagem aquilo que foi excluído dele por dessimbolização. | ||
| + | * A censura freudiana pode ser compreendida como exclusão linguística, | ||
| + | * O desejo humano possui estrutura dialógica, embora o modelo freudiano costume representá-lo monologicamente como aparelho fechado. | ||
| + | * A relação edipiana com pai e mãe é uma estrutura linguística e dialogal, pois a criança nasce num mundo em que já se falou antes dela e entra por meio deles na comunidade da linguagem. | ||
| + | * A relação com a realidade e com os outros passa pelo imaginário, | ||
| + | * O problema decisivo é saber se o ser humano consegue viver com seus fantasmas e transformá-los criativamente ou se eles lhe bloqueiam o acesso à realidade. | ||
| + | * A função simbólica possui aspecto virtualmente patológico quando o símbolo, em vez de dar a pensar e conhecer, produz ilusão e mistificação. | ||
| + | * A dimensão narrativa introduz o tempo de uma vida, articulando infância, desenvolvimento e arqueologia do desejo. | ||
| + | * A doença pode ser compreendida como denarrativização, | ||
| + | * A experiência clínica exige interrogar o modo como cada sessão analítica trabalha com relatos, especialmente quando o analisando conta sonhos. | ||
| + | * O sonho analisado não é o sonho sonhado, mas o relato do sonho, e a dimensão narrativa já está implicada no modo como a análise ordena e interpreta esse material. | ||
| + | * A cura visa ajudar o paciente a construir a história de sua vida com inteligibilidade e aceitabilidade, | ||
| + | * A psicanálise é hermenêutica porque o ser humano se compreende interpretando-se, | ||
| + | * A estrutura narrativa da existência não é literária no sentido estrito, pois permanece aberta no começo inacessível da própria concepção e no fim que não poderá ser narrado pelo próprio sujeito. | ||
| + | * A fragilidade da narrativa de vida decorre da ausência de conclusão, pois é possível contar várias histórias de si enquanto o sentido final permanece aberto. | ||
| + | * A clínica junguiana desloca a atenção dos conflitos infantis para a maturidade, quando a vida é avaliada em busca de sentido diante de seu fim. | ||
| + | * O relato de si depende de um horizonte de espera, pois a vida inacabada é narrada segundo a relação entre memória do passado e expectativa do futuro. | ||
| + | * A vida não possui a última página do livro, e a reestruturação narrativa liga a compreensão do passado à projeção de futuro, fazendo da identidade narrativa uma relação entre expectativa e relato. | ||
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| + | **Post-scriptum** | ||
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| + | **Uma última escuta de Freud** | ||
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| + | * Ao fim do colóquio, a palavra deve retornar a Freud, sem o qual a questão da relação entre psicanálise, | ||
| + | * A transposição analógica dos procedimentos psicanalíticos ao sonho, à neurose e à obra de arte deve ser completada pela visão freudiana da cultura nos escritos tardios. | ||
| + | * O sentido da cultura é definido por Freud por três questões: diminuir o peso dos sacrifícios pulsionais, reconciliar com renúncias inevitáveis e oferecer compensações satisfatórias. | ||
| + | * A elaboração freudiana da tarefa da cultura coincide com a revisão da teoria das pulsões, na qual Éros passa a confrontar-se com a pulsão de morte. | ||
| + | * A estética deve ser recolocada no interior da visão cultural freudiana, na qual arte, satisfação e morte se articulam a partir do problema geral da cultura. | ||
| + | * O problema do prazer adquire sentido trágico quando a pulsão de morte mostra que o ser humano só encontra satisfação de modo simbólico diante da dureza da vida. | ||
| + | * O problema econômico da arte deve ser situado no conjunto da cultura, sob o signo de Éros, Thanatos e Anangkê. | ||
| + | * A religião é a via regressiva da ilusão, enquanto a arte aparece como forma não obsessiva e não neurótica de satisfação substitutiva, | ||
| + | * A função catártica da arte não esgota a posição de Freud, pois o princípio de realidade constitui um segundo frente crítica mais profunda. | ||
| + | * O princípio de realidade envolve uma gradação que vai do oposto do fantasma à aceitação da necessidade, | ||
| + | * Freud não se entrega a uma visão estética do mundo, pois a arte permanece aquém da educação terrível exigida pela necessidade. | ||
| + | * A interpretação freudiana do humor mostra inicialmente um poder estético de libertação diante da dor, da enfermidade e da morte. | ||
| + | * A nota posterior sobre o humor torna essa avaliação mais severa, compreendendo o sublime humorístico como triunfo narcísico do eu que se coloca acima do sofrimento. | ||
| + | * O humor não permite julgar toda a arte, mas revela um ponto extremo em que o prazer estético pode permanecer ligado à recusa da realidade. | ||
| + | * O cientismo freudiano não se reduz a banalidade positivista, | ||
| + | * A arte pode reconciliar-se com a necessidade ao revelar possibilidades que assombram o real e que convocam não apenas resignação, | ||
| + | * As questões finais deixam aberta a reflexão sobre a relação entre arte, necessidade, | ||
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