estudos:ricoeur:ec:religiao
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| + | ====== Religião ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.// | ||
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| + | * O deslocamento do acento da ontologia para a ética que caracteriza a compreensão moderna da religião serve de ponto de partida para explorar, sob o título do homem capaz, uma região da experiência humana que escapa à dicotomia entre ética e ontologia, e para examinar em seguida de que modo a religião se dirige a esse homem capaz. | ||
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| + | **I. O HOMEM CAPAZ** | ||
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| + | * As categorias da ordem prática têm igual direito às da ordem teorética a constituir uma filosofia segunda autônoma, sob a égide comum de uma filosofia primeira caracterizada pelo exercício da função meta, ilustrada tanto pelos " | ||
| + | * O termo capacidade não se deixa incluir em nenhuma fórmula da avaliação moral e relança de modo inédito o debate entre ética e ontologia, sendo a questão da capacidade de agir encontrada em todos os níveis de uma hermenêutica do si, já que todas as respostas à pergunta quem? conduzem à designação de si como aquele que pode falar, agir e narrar, com sua correlativa fragilidade. | ||
| + | * Esse limiar é ultrapassado com a ideia de imputabilidade, | ||
| + | * O termo simbólico engloba a multiplicidade das figuras da injunção — imperativo, conselho, costume, relato fundador, sentimentos morais — e comporta uma fragilidade própria, tanto quanto à consistência dessa ordem quanto à aptidão de nela entrar, capacidade cuja ausência afeta dramaticamente os excluídos do sistema sociopolítico. | ||
| + | * Três precisões complementam a capacidade de entrar numa ordem simbólica: sua dimensão dialógica, que a afasta do monologismo kantiano e a aproxima do conceito hegeliano de reconhecimento; | ||
| + | * A capacidade de reconhecimento mútuo, de imparcialidade e de equidade constituem as estruturas constitutivas da capacidade geral de entrar numa ordem simbólica, dando à ideia de imputabilidade seu conteúdo concreto. | ||
| + | * A fórmula reflexiva "eu sou aquele que pode" possui dimensão cognitiva no sentido de Marco Olivetti, atribuindo-lhe assim uma dimensão ontológica ligada à pretensão veritativa, sem contudo se reduzir a uma proposição científica verificável, | ||
| + | * Esse estatuto veritativo original, inseparável do momento prático da potência de agir mas dele distinto, constitui o enigma epistemológico e ontológico da noção de capacidade, fazendo vacilar a dicotomia demasiado segura entre ética e ontologia e aproximando essa ontologia das ideias de potência e ato mais do que da substância. | ||
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| + | **II. A PALAVRA QUE A RELIGIÃO DIRIGE AO HOMEM CAPAZ** | ||
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| + | * Propõe-se mostrar que a religião atinge o homem num nível de incapacidade específica, | ||
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| + | **a) O mal radical** | ||
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| + | * Kant declara logo de início que a moral não necessita da religião, bastando-se a si mesma pela razão pura prática, sendo apenas com o Ensaio sobre o mal radical, e o conceito de disposição (Gesinnung), | ||
| + | * A partir dessa noção base distinguem-se a disposição originária ao bem (Anlage), enraizada nas três disposições da destinação humana — animalidade, | ||
| + | * A radicalidade do mal situa sua raiz fora do alcance reflexivo da espontaneidade absoluta da ação, constituindo uma crise da imputabilidade e da atestação, | ||
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| + | **b) As mediações da religião cristã** | ||
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| + | * A essa situação primitiva mas não originária do arbítrio cativo responde o religioso, situado nem na ética, já que a religião nada acrescenta ao dever, nem na ontologia tradicional, | ||
| + | * A filosofia da religião, muda sobre a origem divina enquanto divina do processo de regeneração, | ||
| + | * No plano da representação, | ||
| + | * No plano da crença, a eficácia dessa representação depende da libertação efetiva do arbítrio servo, " | ||
| + | * No plano institucional, | ||
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| + | **c) O " | ||
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| + | * A inescrutabilidade da origem do mal constitui uma crise da atestação, | ||
| + | * As três mediações religiosas — representação, | ||
| + | * O estatuto da religião entre ética e ontologia resolve-se, portanto, na questão do estatuto da esperança, que retoma a atestação da capacidade de agir para além do abismo da inescrutabilidade do mal, aproximando-se antes do testemunho, na reconstrução proposta por Jean Greisch e nas páginas de Jean Nabert em O desejo de Deus, e inscrevendo-se fora da alternativa entre ética e ontologia, tal como sugerido pela terceira questão kantiana — que me é permitido esperar? —, ao mesmo tempo prática e teórica, deixando o leitor perplexo diante dessa abertura. | ||
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