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| + | ====== Mitos da Salvação ====== | ||
| + | //RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.// | ||
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| + | **Mitos da salvação e razão** | ||
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| + | * A relação entre os mitos da salvação e a razão contemporânea exige primeiro examinar a pertinência da expressão “mitos da salvação” e, em seguida, distinguir essa noção mais ampla da categoria bíblica de história da salvação. | ||
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| + | **1. Pertinência da expressão “mitos da salvação”** | ||
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| + | * A discussão exige um uso preciso dos termos mito e salvação, a fim de evitar equívocos preliminares. | ||
| + | * O mito pode ser definido como narrativa das origens, recebida pela tradição, geralmente anônima, digna de fé para o grupo que a transmite e situada num tempo originário incoordernável com o tempo da história e do conto. | ||
| + | * A ideia de salvação, no horizonte judaico-cristão, | ||
| + | * A categoria de mito é útil inicialmente para situar a noção judaica e cristã de salvação num campo comparativo mais amplo, incluindo o pano de fundo assírio-babilônico e os paralelos órficos e trágicos gregos. | ||
| + | * Os relatos de salvação pertencem ao mundo dos mitos por sua correlação com o problema do mal, que interroga a origem da condição miserável humana, marcada por sofrimento, morte, ódio, assassinato, | ||
| + | * A tipologia dos mitos da origem do mal inclui o mito teogônico, o mito órfico, o mito trágico e o mito adâmico, cada qual oferecendo uma figura distinta para a entrada do mal na condição humana. | ||
| + | * O relato do Gênesis pode ser chamado mito porque narra, em tempo incoordernável com a história dos homens, a deflexão da condição humana a partir de uma criação boa. | ||
| + | * Os mitos da salvação respondem aos mitos da origem do mal, pois proclamam reparação, | ||
| + | * Nas mitologias que integram o mal à cosmogonia ou à teogonia, o drama da salvação não se distingue da criação e se repete ritualmente no culto. | ||
| + | * No mito trágico, a salvação não constitui história, mas purificação das emoções de terror e piedade por meio da participação nos sofrimentos do herói. | ||
| + | * No mito órfico, a salvação é menos histórica ainda, pois a libertação da alma exilada ocorre pela purificação gnóstica e pela evasão para fora da história. | ||
| + | * No mito adâmico, a réplica da libertação começa a exceder a categoria de mito, pois a criação boa distingue-se do desvio do mal e abre uma história distinta. | ||
| + | * A figura de Abraão introduz, no tempo dos homens, a primeira réplica à figura imemorial de Adão, deslocando a narrativa bíblica do mito para a legenda, a saga e a história do povo. | ||
| + | * A salvação bíblica opera no próprio tecido da história de Israel, do Êxodo à instalação em Canaã e à monarquia de David e Salomão, de modo que o mito se torna mito da história e na história. | ||
| + | * A articulação bíblica entre tradição e profecia rompe ainda mais a temporalidade mítica, pois a profecia de desgraça abala a confiança nas tradições fundadoras e a profecia de libertação anuncia uma novidade futura. | ||
| + | * A abertura profética para um futuro superior à integridade perdida marca o limite mais significativo da noção de mito da salvação. | ||
| + | * A apocalíptica preserva a pertinência do mito da salvação ao produzir mitos da Fim simétricos aos mitos da Origem, nos quais a Endzeit responde à Urzeit fora da coordenação com o tempo histórico. | ||
| + | * A escatologia permanece ligada à história enquanto prolonga a profecia, mas a apocalíptica rompe esse vínculo ao revelar segredos sobre os últimos tempos e a Fim da história. | ||
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| + | **2. História da salvação e mito da salvação** | ||
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| + | * A dimensão supra-histórica do mito deve ser confrontada com a dimensão intra-histórica da Heilsgeschichte, | ||
| + | * O primeiro traço da história da salvação é o vínculo tipológico que estrutura os relatos bíblicos por correspondências entre Promessa e Cumprimento, | ||
| + | * O tempo bíblico é cumulativo porque as alianças com Noé, Abraão, David e outros não apenas se sucedem, mas se acumulam e se reforçam mutuamente. | ||
| + | * A reconstrução tipológica de Northrop Frye evidencia a relação promessa-cumprimento, | ||
| + | * A história da salvação só permanece mito de salvação enquanto o vínculo tipológico se subordina à polaridade entre Origem e Fim. | ||
| + | * O segundo traço da Heilsgeschichte é a aparência de grande relato produzida pela organização canônica e pelo trabalho redacional que alinham tradições múltiplas num eixo temporal único. | ||
| + | * O grande relato bíblico articula criação, vocação de Abraão, patriarcas, libertação do Egito, Sinai, conquista e instalação em Canaã, constituindo a identidade narrativa de Israel. | ||
| + | * A Igreja cristã primitiva compreendeu a inscrição histórica de Jesus como cumprimento das Escrituras e abertura de um tempo intermediário entre Ressurreição e Parusia. | ||
| + | * O adiamento da Parusia obrigou a articular a história universal à história do novo povo de Deus, processo que encontrou um equilíbrio provisório em A cidade de Deus, de Santo Agostinho. | ||
| + | * A identificação da salvação bíblica com a Heilsgeschichte deve ser criticada porque a libertação do mal não se exprime apenas no modo narrativo. | ||
| + | * A pluralidade de leis, profecias, textos sapienciais, | ||
| + | * A obediência aos mandamentos, | ||
| + | * A imposição de um grande relato à diversidade de textos e gêneros literários corre o risco de violentar a riqueza plural do tema da salvação. | ||
| + | * A crítica do conteúdo da salvação mostra que a eleição de Israel, inicialmente ligada às guerras de Yahweh, foi transformada pela experiência do exílio e pelo sofrimento extremo. | ||
| + | * O exílio introduziu uma “tranche de néant” na compreensão da eleição, fazendo Israel pensar-se como sobrevivente e tornando mais insondáveis as vias do Senhor. | ||
| + | * A passagem do destino coletivo ao sofrimento imerecido do justo, sobretudo no livro de Job, desloca a reflexão para o malheur individual que nenhuma teodiceia consegue resolver. | ||
| + | * O símbolo crístico ocupa no grande relato o tempo axial que separa o antes e o depois, reorientando a história bíblica em torno do evento de Jesus de Nazaré. | ||
| + | * O evento crístico pode integrar-se ao grande relato, mas o símbolo da Cruz e da Kénose tende a fazê-lo explodir por dentro. | ||
| + | * O Logos da Cruz, em Paulo, apresenta a loucura, a fraqueza e o nada como passagem para a potência e a elevação, impedindo que a história da salvação seja lida como marcha triunfal. | ||
| + | * A inversão messiânica de Jesus, como Messias às avessas, subverte a lógica política da dominação e torna problemático inscrever a Cruz num grande relato de vitória. | ||
| + | * A Paixão só poderia ter continuidade histórica se a Cruz se tornasse fio condutor de uma história centrada nas vítimas e não nos vencedores. | ||
| + | * As histórias das vítimas não se deixam incluir como momento superado na história contínua da dominação, | ||
| + | * O vínculo entre loucura e Kénose, de um lado, e potência e elevação, de outro, não pode ser sabido racionalmente nem narrado como sistema, mas apenas esperado no respeito de seu mistério. | ||
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| + | **3. Mito da salvação e razão contemporânea** | ||
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| + | **a)** | ||
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| + | * O conflito entre mythos e logos deve ser limitado ao plano da história, porque no horizonte judaico-cristão a salvação foi identificada à Heilsgeschichte e expressa literariamente como grande relato da Gênesis ao Apocalipse. | ||
| + | * A leitura literal do mito das origens produziu conflitos inúteis com astronomia, geologia, biologia e antropologia, | ||
| + | * A derrota das leituras literalistas permitiu à fé compreender mais profundamente o mito como linguagem da fundação, situada em plano distinto do saber científico. | ||
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| + | **b)** | ||
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| + | * No campo da historiografia científica, | ||
| + | * A historiografia recusa os relatos das origens situados em tempo originário e só reconhece eventos inscrevíveis no tempo calendárico sustentado pela ciência astronômica. | ||
| + | * A prova documental constitui a ruptura epistemológica que separa a historiografia do mito, da lenda, da novela, da epopeia e de toda narrativa ficcional. | ||
| + | * A emergência da historiografia exige investigar funções do mito que não se reduzem a explicação histórica. | ||
| + | * A função fundadora do mito constitui uma identidade narrativa para a comunidade que produz e recebe esses relatos. | ||
| + | * Israel e a Igreja primitiva compreenderam-se historicamente por narrativas confessionais, | ||
| + | * Nenhum povo parece elaborar sua identidade narrativa sem recorrer a mitos fundadores, como mostram Roma, a Revolução Americana e a Revolução Francesa. | ||
| + | * A função fundadora do mito exige uma concepção não ingenuamente unilinear do tempo, capaz de reconhecer durações heterogêneas e profundidades qualitativas distintas. | ||
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| + | **c)** | ||
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| + | * O problema mais difícil é a Heilsgeschichte como visão de uma história total e totalizada por sua Fim. | ||
| + | * Os mitos da Fim foram abandonados mais tarde que os mitos do Começo porque a ação humana necessita de orientação futura. | ||
| + | * A crença moderna no progresso funcionou como versão secularizada da história da salvação até entrar em crise. | ||
| + | * A questão contemporânea é saber se uma sociedade pode viver sem projeto coletivo e sem utopia diretora. | ||
| + | * O horizonte de expectativa descrito por Koselleck e o Princípio Esperança de Bloch recolocam a necessidade de uma orientação futura para a ação histórica. | ||
| + | * A esperança laica das Luzes e do marxismo e a esperança judaico-cristã, | ||
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| + | **d)** | ||
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| + | * A crítica interna ao grande relato da Heilsgeschichte questiona a inteligibilidade de todo processo totalizante. | ||
| + | * A proclamação da salvação não passa apenas por narrativas, e essas narrativas não se deixam unificar plenamente num grande relato inteligível. | ||
| + | * O símbolo crístico introduz um princípio de ruptura e destotalização por meio da loucura da Cruz e da Kénose de Cristo. | ||
| + | * O Logos da Cruz constitui o núcleo contestador de toda história da salvação triunfalista. | ||
| + | * Na época pós-moderna, | ||
| + | * A especificidade da palavra cristã reside na esperança de que, de modo desconhecido, | ||
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