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estudos:ricoeur:ec:metafora-hermeneutica

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 +====== Metáfora e Hermenêutica ======
 +//RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.//
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 +**A metáfora e o problema central da hermenêutica**
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 +  * O problema central da hermenêutica é a interpretação de textos escritos, cuja autonomia em relação à intenção do autor, à situação da obra e ao leitor originário cria dificuldades específicas inexistentes no diálogo oral.
 +  * A interpretação distingue-se epistemologicamente da explicação porque envolve a implicação do leitor, a reciprocidade entre interpretação do texto e interpretação de si e o círculo hermenêutico.
 +  * A oposição entre interpretação e explicação poderá ser reformulada, mas a hermenêutica se define provisoriamente pelo contraste entre texto escrito e fala viva, e entre interpretação e explicação.
 +  * A investigação busca relacionar os problemas hermenêuticos da interpretação dos textos aos problemas retóricos, semânticos e estilísticos da metáfora.
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 +**1. O texto e a metáfora enquanto discurso**
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 +  * A teoria do texto e a teoria da metáfora encontram terreno comum no discurso, cuja estrutura deve ser explicitada.
 +  * Texto e metáfora diferem pela extensão, pois a obra se identifica por sua máxima amplitude discursiva e a metáfora por sua mínima incidência no nível da palavra.
 +  * A metáfora exige contexto frasal, mas a torção metafórica acontece no nível da palavra, que permanece o foco da significação emergente.
 +  * A diferença formal entre obra e palavra permite perguntar se a metáfora pode ser tratada como obra em miniatura e se os problemas hermenêuticos do texto ampliam os problemas condensados na metáfora local.
 +  * A resposta à relação entre metáfora e obra exige examinar propriedades gerais do discurso apresentadas como polaridades ou paradoxos.
 +  * O primeiro paradoxo do discurso consiste em ser produzido como acontecimento fugaz e, ao mesmo tempo, compreendido como significação identificável e reidentificável.
 +  * A segunda polaridade do discurso opõe identificação singular e predicação geral, estrutura na qual a metáfora atribui caracteres a um sujeito principal.
 +  * A terceira polaridade do discurso opõe sentido e referência, distinguindo aquilo que é dito do aquilo sobre o qual algo é dito.
 +  * A quarta polaridade distingue o conteúdo proposicional do ato de discurso e a força ilocucionária daquilo que se faz ao dizer.
 +  * O discurso possui referência ao mundo e autorreferência ao locutor, além da referência ao destinatário, formando a tríplice orientação indicada pelos pronomes ele, eu e tu.
 +  * As polaridades fundamentais do discurso são acontecimento e significação, identificação singular e predicação geral, ato proposicional e ato ilocucionário, sentido e referência, referência à realidade e referência aos interlocutores.
 +  * Todo texto é discurso porque procede da frase como unidade mínima, ainda que deva tornar-se mais que uma sequência de frases para constituir uma obra.
 +  * A metáfora também pertence ao discurso porque as palavras só adquirem significação atual no interior da frase, enquanto o léxico oferece apenas significações potenciais.
 +  * A teoria da polissemia prepara a teoria da metáfora, pois a ação contextual seleciona sentidos possíveis das palavras e, em certos casos, produz efeitos metafóricos inéditos.
 +  * O sentido literal não é um sentido originário ou próprio, mas o conjunto dos usos contextuais codificados pela polissemia lexical.
 +  * O sentido metafórico é um sentido contextual único e fugaz, produzido por uma ação específica do contexto e distinto das mudanças lexicais sedimentadas na história da língua.
 +  * A teoria moderna da metáfora substitui a concepção retórica da substituição por uma teoria semântica da interação entre campos de sentido.
 +  * A significação metafórica nasce da colisão entre significações literais, que impede o uso literal de uma palavra e orienta a descoberta de uma significação nova capaz de tornar a frase significativa.
 +  * A metáfora viva é simultaneamente acontecimento e sentido, pois cria uma significação emergente num contexto singular que pode ser identificada, repetida e eventualmente incorporada à polissemia lexical.
 +  * A metáfora também pressupõe a estrutura predicativa, pois funciona como modificador atribuído a um sujeito principal, em termos de veículo e teor, quadro e foco, ou modificador e sujeito principal.
 +  * As polaridades de sentido e referência, bem como de referência à realidade e referência a si, só poderão ser esclarecidas mediante a teoria do texto.
 +  * A comparação entre texto e metáfora permite perguntar se explicação e interpretação operam de modo semelhante nos níveis distintos da obra e da palavra.
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 +**2. Da metáfora ao texto: a interpretação**
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 +  * A hipótese de trabalho distingue dois movimentos: a metáfora guia a explicação do sentido de textos mais longos, enquanto a obra como todo guia a interpretação da referência da metáfora.
 +  * A explicação se aplica ao sentido como desenho imanente da obra, ao passo que a interpretação se aplica ao poder da obra de projetar um mundo e reconfigurar a compreensão de si.
 +  * Os exemplos triviais de metáfora ocultam a dificuldade principal, pois a significação nova deve ser construída como única forma de dar sentido à frase inteira.
 +  * As metáforas banais dependem de sistemas de lugares-comuns associados ou de conotações potenciais que funcionam como filtros para realçar aspectos novos do sujeito principal.
 +  * A teoria da interação supera a simples substituição porque a metáfora informa e esclarece por meio de uma operação intelectual irredutível à paráfrase literal.
 +  * A explicação da metáfora exige ir além dos lugares-comuns estabelecidos e investigar os sistemas de implicação especialmente construídos no próprio processo de interação.
 +  * A colisão entre significações literais cria uma atribuição autocontraditória significante, na qual uma nova significação deve ser atribuída ao modificador para salvar o sentido da frase.
 +  * A teoria das conotações potenciais ainda prende a criação metafórica a elementos já disponíveis na linguagem e não explica plenamente a inovação semântica.
 +  * A metáfora transforma uma propriedade atual ou atribuída em sentido, conferindo novo estatuto verbal a propriedades que ainda não pertenciam à significação lexical.
 +  * A significação metafórica nova não é tirada de um lugar prévio na linguagem, mas constitui uma criação momentânea, sem estatuto anterior como denotação ou conotação.
 +  * A inovação semântica só se torna identificável pelo ponto de vista do leitor, para quem a significação emergente corresponde a uma construção interpretativa.
 +  * O momento decisivo da explicação consiste em construir a rede de interações que faz de um contexto singular um acontecimento semântico significativo.
 +  * A metáfora serve de paradigma para a explicação de uma obra literária porque, em ambos os casos, a significação é construída a partir da convergência de elementos textuais.
 +  * A significação de um texto deve ser construída porque a escrita cria uma relação assimétrica entre texto e leitor, na qual o texto autônomo já não é sustentado pela intenção viva do autor.
 +  * A significação de um texto também deve ser construída porque a obra é uma totalidade singular cuja arquitetura de temas e propósitos não se reduz à sequência de frases isoladas.
 +  * A compreensão de uma obra exige um juízo que passa circularmente do todo às partes e das partes ao todo, retificando conceitos genéricos para alcançar sua singularidade.
 +  * Compreender um texto e compreender um enunciado metafórico consistem igualmente em produzir a melhor inteligibilidade global de uma diversidade aparentemente discordante.
 +  * A construção interpretativa tem a forma de um aposta validável, pois não há regras para formular bons palpites, mas há métodos para validar sua probabilidade.
 +  * A validação interpretativa aproxima-se de uma lógica da probabilidade qualitativa e de procedimentos argumentativos semelhantes aos da interpretação jurídica.
 +  * A explicação da metáfora e da obra literária repousa em índices contidos no texto, que permitem algumas construções e excluem outras.
 +  * Uma construção é mais provável quando considera mais fatos textuais e oferece maior convergência qualitativa entre os traços interpretados.
 +  * Os princípios de congruência e plenitude orientam a boa explicação, pois uma interpretação deve ser coerente e deve atribuir ao poema tudo o que ele pode significar.
 +  * O princípio de plenitude ultrapassa o sentido e anuncia a referência, pois mede a densidade semântica do texto pela exigência de uma experiência que pede expressão.
 +  * A interpretação propriamente dita se situa na fronteira em que o discurso procura deslocar sempre mais longe o limite entre o expresso e o inexprimido.
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 +**3. Do texto à metáfora: a interpretação**
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 +  * No nível da interpretação propriamente dita, a compreensão do texto como totalidade fornece a chave para compreender a metáfora.
 +  * A referência e a autorreferência só se tornam problemas explícitos quando o discurso assume a forma de obra literária.
 +  * No discurso oral, a referência é ostensiva porque os interlocutores compartilham uma situação comum e podem mostrar aquilo de que falam.
 +  * No texto escrito, a referência deixa de ser ostensiva, mas poemas, ensaios e ficções continuam a falar de algo, isto é, de um mundo próprio da obra.
 +  * O texto liberta sua significação da tutela da intenção mental e liberta sua referência dos limites da situação ostensiva, abrindo referências não situacionais como modos possíveis de ser-no-mundo.
 +  * A significação de um texto não está atrás dele, mas diante dele, nas proposições de mundo abertas por suas referências não ostensivas.
 +  * Interpretar é apreender as proposições de mundo abertas pelo texto, deslocando a hermenêutica da reconstrução da vida espiritual do autor para a compreensão do mundo que a obra desdobra.
 +  * Compreender é seguir a dinâmica pela qual a obra passa do que diz ao mundo sobre o qual diz, oferecendo ao leitor um modo possível de ser-no-mundo.
 +  * O círculo hermenêutico não se dá entre subjetividades nem pela projeção do leitor no texto, mas entre o mundo aberto pela obra e a compreensão de si diante desse mundo.
 +  * A apropriação hermenêutica não se dirige a uma intenção distante, mas ao horizonte de mundo para o qual a obra se orienta.
 +  * O leitor compreende a si mesmo diante do texto quando deixa que a obra e seu mundo ampliem o horizonte de sua autocompreensão.
 +  * A interpretação oferece ao sujeito novos modos de ser e novas formas de vida, aumentando sua capacidade de conhecer-se por meio do mundo projetado pela obra.
 +  * O círculo hermenêutico desloca-se do plano subjetivista para o plano ontológico, entre a maneira de ser do leitor e a maneira de ser descoberta pelo mundo da obra.
 +  * Esse modelo de interpretação pode ser transposto do texto à metáfora, tomada como poema em miniatura.
 +  * A teoria aristotélica mostra que a metáfora pertence à lexis, mas a lexis só adquire função poética no interior da tragédia como obra completa.
 +  * A metáfora recebe seu sentido local da relação com o muthos da tragédia, pois não há significação local da metáfora fora da significação regional da intriga.
 +  * A metáfora liga-se à referência da tragédia por meio da mimèsis, isto é, pela intenção da obra de representar poeticamente as ações humanas.
 +  * A mimèsis contém os paradoxos da referência porque exprime o mundo já dado das ações humanas e, ao mesmo tempo, não o copia, mas o recria por meio da poièsis.
 +  * A mimèsis pode ser compreendida como referência não ostensiva da obra literária, isto é, como abertura e descoberta de um mundo.
 +  * O poder da metáfora procede do poder do poema como totalidade, pois depende de sua conexão com a lexis, com o muthos e com a intenção mimética da obra.
 +  * O caráter emergente da metáfora relaciona-se à função da poesia como imitação criadora da realidade.
 +  * A invenção de significações novas serve à poièsis da mimèsis, pois a criação de mundos pela poesia exige uma linguagem que preserve e exprima esse poder criador.
 +  * A teoria da interpretação conduz a uma compreensão final do poder da metáfora, sem anular a reciprocidade entre explicação da metáfora e interpretação da obra.
 +  * A interpretação de metáforas locais é iluminada pelo texto como todo, mas a interpretação do texto como todo é controlada pela explicação das metáforas locais.
 +  * A afinidade entre mimèsis e metáfora sugere que o projeto de elevar as ações humanas acima de sua realidade comum corresponde ao poder da metáfora de elevar a linguagem acima de seu uso ordinário.
 +  * A criação de significações novas só tem sentido porque serve ao projeto de fazer emergir novos mundos pela força da poesia.
 +  * A reflexão sobre metáfora e interpretação abre a possibilidade de repensar a imaginação não como faculdade de imagens sensíveis, mas como capacidade linguística de deixar novos mundos formarem a compreensão de si.
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