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| + | ====== Liberdade ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.// | ||
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| + | * A questão da liberdade comporta três níveis de discurso distintos, cada um exigindo um tipo próprio de investigação filosófica | ||
| + | * No primeiro nível, o da linguagem ordinária, " | ||
| + | * No segundo nível, o da reflexão moral e política, a liberdade deixa de ser mero traço descritivo e passa a designar uma tarefa e um valor a realizar nas instituições, | ||
| + | * No terceiro nível, o da filosofia fundamental, | ||
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| + | **I. O DISCURSO DESCRITIVO: O QUE É UMA AÇÃO LIVRE?** | ||
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| + | * A filosofia analítica de Oxford e a fenomenologia husserliana convergem em tratar a liberdade não como entidade, mas como caráter atribuído a certas ações, o que impõe reconhecer primeiro a linguagem geral da ação | ||
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| + | **A linguagem da ação** | ||
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| + | * Agir e fazer designam o vasto domínio dos comportamentos que produzem mudanças no meio físico ou social, distinção fundamental entre o prático e o teórico presente na maioria das filosofias | ||
| + | * A linguagem ordinária dispõe de um repertório rico de expressões — intencionalmente, | ||
| + | * A tarefa inicial de uma filosofia atenta ao dizer do fazer é reconhecer integralmente essa linguagem da ação, sob pena de duas confusões possíveis | ||
| + | * A primeira confusão consiste em identificar o discurso da ação com o discurso do movimento observável na natureza, quando na verdade uma ação é algo que se faz e se sabe fazer, distinta de um evento constatado | ||
| + | * A segunda confusão consiste em reduzir intenções e motivos a " | ||
| + | * O retorno à linguagem ordinária dissolve esse pseudoproblema, | ||
| + | * Existe uma gramática própria da ação, irredutível a enunciados sobre eventos físicos ou mentais, marcada por verbos de ação com agente, objeto, meios e circunstâncias, | ||
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| + | **A intenção e o motivo** | ||
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| + | * Reconhecida a gramática própria da ação, cabe situar a expressão " | ||
| + | * O caráter de liberdade explica-se por termos básicos que se definem mutuamente e compõem o que se entende por ação livre | ||
| + | * A ação intencional constitui o primeiro desses termos, compreendida sempre em ligação com o motivo que a explica | ||
| + | * A noção de intenção remete à de motivo, sendo este buscado nas respostas à pergunta "por quê", que se funde com a pergunta "o quê" de uma ação | ||
| + | * Alegar uma intenção supõe invocar um motivo como razão de agir e não como causa, ainda que certos motivos "olhem para trás" — vingança pela morte do pai, gratidão por um benefício, piedade pela desgraça alheia — sem por isso funcionarem como causas mecânicas | ||
| + | * Quando o motivo interpreta a ação, oferecer uma razão significa pedir que a ação seja considerada sob certa luz, comunicável e compreensível para o outro | ||
| + | * Dessa análise resulta uma primeira aproximação da liberdade: livre é a ação explicável por motivos no sentido de razão, sendo chamadas de contrangidas as ações explicáveis apenas por causa, com inúmeros graus intermediários entre esses dois polos que a conversação ordinária maneja melhor do que qualquer filosofia | ||
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| + | **Intenção e finalidade** | ||
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| + | * O caráter livre atribui-se sobretudo às ações feitas "com tal intenção", | ||
| + | * Um verdadeiro enunciado de ação articula ao menos dois segmentos ordenados entre si, como em " | ||
| + | * A intenção assim entendida aproxima-se do raciocínio prático, que ordena os caracteres de desejabilidade da ação sem deixar de partir de algo desejado, constituindo o primeiro grau da liberdade: a capacidade de elevar o desejo à linguagem e submetê-lo ao cálculo de meios e fins | ||
| + | * Aristóteles, | ||
| + | * A mesma estrutura de intenção, motivo e fim reencontra-se na filosofia prática de Kant, para quem as " | ||
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| + | **Projeto e decisão** | ||
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| + | * A filosofia moderna privilegia o vocabulário de " | ||
| + | * Uma filosofia atenta à linguagem ordinária corrige essas leituras unilaterais, | ||
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| + | **O agente responsável** | ||
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| + | * O traço mais difícil de situar nessa rede conceitual é o sujeito da ação, marcado pela forma pronominal (" | ||
| + | * Essa autoimplicação do agente funda o que se chama responsabilidade, | ||
| + | * Numa análise eticamente neutra, o epíteto " | ||
| + | * Cabe a uma fenomenologia linguística a tarefa de esclarecer esses conceitos e suas conexões | ||
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| + | **II. O SEGUNDO DISCURSO: A LIBERDADE RACIONAL** | ||
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| + | **Da liberdade arbitrária ao campo da política** | ||
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| + | * Um texto de Hegel situa o domínio do direito como o império da liberdade realizada, segunda natureza produzida pelo espírito através das instituições jurídicas, morais, econômicas e políticas | ||
| + | * Passar desse nível ao anterior exige acrescentar o confronto de duas vontades, exemplificado pelo contrato, no qual vontades que se afrontam a propósito das coisas se reconhecem mutuamente e engendram uma vontade comum, tornando-se livres num sentido novo | ||
| + | * Falta à análise anterior a consideração de uma regra, norma ou valor que confira caráter objetivo a uma liberdade até então presa ao ponto de vista subjetivo | ||
| + | * A ação livre normatizada revela ainda a dimensão da razão prática, capaz de produzir efeitos no mundo e de se inscrever em obras que afetam a história, ambicionando "mudar o mundo" | ||
| + | * Esses traços — duplicação do querer, ação normatizada, | ||
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| + | **Ética e política em Aristóteles** | ||
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| + | * Em Aristóteles, | ||
| + | * A investigação sobre a excelência articula a relação entre pessoas, a norma da justa medida, a razão prática prefigurada na prudência (phronesis) e a arquitetônica política que envolve todas essas considerações | ||
| + | * Depois de Aristóteles, | ||
| + | * Paralelamente, | ||
| + | * Coube a Rousseau, antes de Hegel, reintroduzir na filosofia da liberdade a questão do poder político e da soberania, com o conceito de vontade geral testemunhando o esforço de despsicologizar e repolitizar o problema da vontade livre | ||
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| + | **O colapso da síntese kantiana** | ||
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| + | * A filosofia prática de Kant constitui um intermediário decisivo entre Aristóteles e Hegel, tentando pensar até o fim a diferença entre liberdade arbitrária e liberdade sensata na Crítica da razão prática, que articula a liberdade e a lei do dever segundo a fórmula da universalização da máxima | ||
| + | * As dificuldades da filosofia kantiana da liberdade decorrem da própria força de sua análise: conciliar a vontade objetiva, determinada pela lei, com a experiência humana ordinária do mal exige acrescentar a possibilidade contingente de desobedecer | ||
| + | * O método de isolamento e abstração kantiano, ao depurar a experiência de seus traços empíricos, acaba por dissociar a vontade segundo a lei da produção efetiva de realidade, deixando fragmentos cindidos — dever e desejo, forma da vontade e objeto, virtude e felicidade — em contraste com a unidade que Aristóteles buscara na prudência | ||
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| + | **A dialética hegeliana** | ||
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| + | * A filosofia hegeliana da liberdade nasce do próprio fracasso do kantismo, propondo um discurso dialético capaz de superar as antinomias por meio de mediações e sínteses cada vez mais concretas | ||
| + | * A progressão dialética da Enciclopédia hegeliana permite recapitular as situações dialéticas implicadas no discurso sobre a ação sensata | ||
| + | * A primeira situação dialética é a transição do desejo animal à racionalidade na vontade humana, que Aristóteles definiu como " | ||
| + | * A segunda situação dialética retoma, sob nova forma, a interação escolástica e cartesiana entre entendimento e vontade livre, prefigurando a distinção kantiana entre razão teórica e razão prática, constituindo o núcleo do Espírito subjetivo | ||
| + | * A terceira situação dialética corresponde à transição da vontade subjetiva à vontade objetiva, unidade que Aristóteles intuíra sem dispor do aparato lógico necessário, | ||
| + | * O primeiro patamar da liberdade realizada é a relação contratual, na qual cada vontade renuncia à sua particularidade e reconhece a outra como idêntica a si no ato da troca, universalizando-se mutuamente por meio da coisa | ||
| + | * O segundo patamar é a objetivação da vontade em obras e ações que a representam no mundo, submetendo-a à prova do sucesso e do fracasso e ao julgamento dos outros homens, tensão entre a exigência infinita de autoafirmação e a finitude da realização | ||
| + | * O terceiro patamar culmina numa teoria das comunidades concretas — família, sociedade civil e Estado — nas quais a vontade individual se reconhece objetivada, realizando o projeto aristotélico de unir liberdade individual e filosofia política, e resolvendo à sua maneira o labirinto de Rousseau | ||
| + | * A teoria política hegeliana afirma que o homem só tem deveres e virtudes concretos quando se situa em comunidades históricas reconhecíveis, | ||
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| + | **III. O TERCEIRO DISCURSO: LIBERDADE E ONTOLOGIA** | ||
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| + | **O ser do ato e a ética da ação** | ||
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| + | * A questão de como deve estar constituída a realidade para que o homem seja agente e autor de seus atos abre um tipo de investigação irredutível tanto à descrição da ação intencional quanto à dialética da ação sensata | ||
| + | * As palavras ato, ação e atividade indicam uma espessura de sentido — um caráter de ser — que nem a teoria moral nem a teoria política esgotam, sendo a experiência da ação livre, mais que a da percepção, | ||
| + | * Em Aristóteles esse reenvio do discurso ético-político ao discurso ontológico aparece na noção de obra ou tarefa (ergon) do homem, identificada com a vida ativa (energeia) regida por um logos, articulando ética e ontologia na definição do bem humano como atividade da alma segundo a excelência numa vida acabada | ||
| + | * A filosofia aristotélica, | ||
| + | * Decifrado o ato ontológico na ação ético-política, | ||
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| + | **O surgimento da subjetividade** | ||
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| + | * A noção de subjetividade remete a uma história profunda dos modos de ser, que não se reduz a mera mudança teórica, cultural ou ideológica, | ||
| + | * A história metafísica do conceito de liberdade é essencialmente a história de sua aliança com a subjetividade, | ||
| + | * O primeiro patamar exige conceber a liberdade como infinita, inversão desconhecida de Aristóteles, | ||
| + | * O segundo patamar é representado pelo cogito cartesiano, no qual o sujeito é aquele para quem o mundo se torna representação, | ||
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| + | **A antinomia entre liberdade e natureza** | ||
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| + | * O terceiro patamar consiste no reconhecimento da antinomia entre liberdade e natureza, possível apenas depois que a natureza foi unificada sob uma legislação única por Newton e refletida por Kant, exilando definitivamente a liberdade do campo natural | ||
| + | * A terceira antinomia kantiana revela a cisão entre liberdade e natureza como problema da razão em seu esforço de totalizar a causalidade, | ||
| + | * Essa cisão, mais radical que as do campo prático, só se reconhece no âmbito de uma teoria da ilusão transcendental, | ||
| + | * Resta saber se essa antinomia constitui a última palavra do pensamento, já que, para Kant, ela é obra da razão e não do entendimento, | ||
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| + | **O questionamento do “espírito” hegeliano** | ||
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| + | * A filosofia hegeliana surge para compor essa antinomia por meio da atividade mediadora da razão, mas a noção mesma de Espírito (Geist), a partir da qual se constitui essa dialética, precisa ser posta em questão no plano da história profunda | ||
| + | * Do ponto de vista dessa história profunda, o hegelianismo aparece como mais um momento da metafísica ocidental, compartilhando a finitude do modo de ser da subjetividade, | ||
| + | * A chegada histórica de um novo modo de ser, com Kierkegaard, | ||
| + | * A crise da relação entre liberdade e verdade, sobrevinda no plano da história profunda, questiona a pretensão do filósofo de situar-se ao mesmo tempo além e no meio do processo, na posição do saber absoluto | ||
| + | * Após o fracasso do saber hegeliano, abre-se uma interpretação irrecuperável por nenhum saber de todos os signos segundo os quais o fundo do ser é ato, signos a buscar apenas no jogo de reenvio pelo qual a experiência cotidiana da ação intencional e a busca de uma ação sensata no plano ético e político apontam na direção do ser "no qual somos, vivemos e nos movemos" | ||
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