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| + | ====== Fernando Gil (ME:3-6) – a crença ====== | ||
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| + | ==== MODOS DA EVIDÊNCIA ==== | ||
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| + | === AQUÉM DA EXISTÊNCIA E DA ATRIBUIÇÃO: | ||
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| + | //Fernando Gil, MODOS DA EVIDÊNCIA. Lisboa: INCM, 1998, p. 3-6// | ||
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| + | 1. A minha exposição tem a sua origem no cruzamento de um dos eixos que nos é proposto — a distinção entre juízo de existência e juízo de atribuição tal como ela se apresenta em Freud — com uma ou, antes, duas questões filosóficas: | ||
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| + | Estas teses são convergentes e enigmáticas. Elas apontam — em vários registos de um pensamento sempre fundante e inaugural — para uma existência anterior ao modo da facticidade. O seu estatuto é, grosso modo, da ordem de uma ontologia formal que é também uma ontologia do sentido; mas ele toca (diz respeito...) também à fé. Esse estatuto recobre o modo de ser de uma alucinação que, em Freud, põe também uma entidade aquém de qualquer juízo. De certo modo, a alucinação primitiva e este pensamento da existência iluminam-se mutuamente. Permito-me acrescentar que apresento aqui um troço de uma investigação mais vasta na qual mostro que algo como a alucinação é o operador natural da evidência. | ||
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| + | É especificamente da crença que me vou ocupar e, no meu título, autorizei-me, | ||
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| + | 2. Aquém do juízo de existência e de predicação existe a fé, o modo da crença «certa». Toda a modalidade da certeza, e também da dúvida, da suputação, | ||
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| + | Este solo, que ecoa em todo o juízo, é um nec plus ultra: «Atingimos aqui a fonte mais profunda na qual se pode colher um esclarecimento sobre a universalidade da ordem lógica e finalmente sobre a do juízo predicativo» ((Ideen, I, § 117.)). Veremos que esta tese vale tanto para a atribuição negativa como para a afirmativa. | ||
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| + | Também Freud postula um pano de fundo do juízo que é igualmente do domínio da fé. Esta não versa sobre a experiência antepredicativa mas é também «matricial». Ela constitui a «ficção», | ||
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| + | Esta ficção é uma ficção transcendental. De certo modo, a alucinação primitiva dá conta da fé perceptiva husserliana. É um dos temas que queremos desenvolver, | ||
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| + | O meu tema arranca daqui. Tem por objectivo a natureza da fé. Pertence à natureza da crença o não se crer senão no verdadeiro, e aí há também algo que exige uma elucidação. A minha hipótese será a seguinte: crer na existência é o próprio conteúdo da crença e não se pode crer senão no verdadeiro porque a existência é por definição verdadeira. Todo o poder da fé radica na «reciprocabilidade» da entidade (ens) e da verdade, conformemente à doutrina medieval dos transcendentais, | ||
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| + | Uma tal existência coloca-se atrás da categoria da existência enunciada que consta da tábua kantiana da modalidade, ao lado da possibilidade e da necessidade. Ora é ela que Kant, de certa forma, visa, na última nota dos Paralogismos da Razão Pura, ao notar que na apercepção do sujeito «algo de real [...] é dado, mas apenas ao pensamento em geral, e não, por conseguinte, | ||
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| + | Uma existência pré-categorial, | ||
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| + | É o movimento complexo, «arcaico», | ||
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