estudos:merleau-ponty:1945:percepcao
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| + | ====== Percepção ====== | ||
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| + | * O pensamento objetivo caracteriza-se por ignorar o sujeito da percepção ao pressupor o mundo como um dado inteiramente pronto e previamente constituído, | ||
| + | * Essa pressuposição implica tratar a percepção como um fato objetivo inserido na cadeia dos acontecimentos do mundo, submetido às mesmas categorias explicativas aplicáveis aos demais fenômenos, como a causalidade, | ||
| + | * Ao proceder dessa maneira, o pensamento objetivo apaga a especificidade da percepção enquanto relação originária com o mundo, dissolvendo-a numa ontologia de fatos já dados e independentes do ato perceptivo. | ||
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| + | * No empirismo filosófico, | ||
| + | * O sujeito perceptivo é concebido como o simples lugar ou suporte dessas coisas mentais, da mesma forma que um território é o suporte de sua fauna, permitindo uma descrição externa e neutra das sensações e de seu substrato. | ||
| + | * Essa descrição ignora que o próprio filósofo que descreve está engajado numa experiência perceptiva atual, esquecendo que ele mesmo percebe e que a percepção vivida desmente a descrição objetivante que se pretende universal. | ||
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| + | * Considerada a partir de seu interior, a percepção não depende dos saberes objetivos constituídos pela física ou pela biologia, nem dos conceitos de estímulo ou de órgão sensorial tal como são elaborados por essas ciências. | ||
| + | * A percepção não se apresenta como um acontecimento localizado no mundo físico, ao qual se possam aplicar categorias como a causalidade mecânica. | ||
| + | * Ela se manifesta, a cada instante, como uma recriação ou reconstituição do mundo, isto é, como o próprio advento do mundo enquanto campo de sentido e de presença. | ||
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| + | * A crença em um passado do mundo, em um mundo físico objetivo, em estímulos e em um organismo descrito cientificamente, | ||
| + | * Esse campo perceptivo funciona como superfície de contato contínua com o mundo, não como um dado representado, | ||
| + | * O mundo não é algo que se oferece à subjetividade de modo distante, mas algo que a investe e a assalta incessantemente, | ||
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| + | * Todo saber, seja científico ou reflexivo, instala-se nos horizontes previamente abertos pela percepção, | ||
| + | * A percepção constitui a falha ou abertura interna do mundo objetivo, a condição pela qual o mundo pode aparecer e ser tematizado. | ||
| + | * Tratá-la como um acontecimento objetivo equivale a apagar a condição de possibilidade do próprio mundo enquanto mundo. | ||
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| + | * O intelectualismo representa um progresso em relação ao empirismo ao explicitar o ponto de vista implícito a partir do qual o filósofo descrevia a percepção, | ||
| + | * O lugar exterior ao mundo, anteriormente pressuposto de modo tácito, passa a ser tematizado e nomeado. | ||
| + | * As teses empiristas são formalmente invertidas: o estado de consciência torna-se consciência de um estado, a passividade torna-se posição de uma passividade, | ||
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| + | * Apesar dessa inversão formal, o intelectualismo mantém a pressuposição fundamental de um mundo já inteiramente pronto. | ||
| + | * A constituição do mundo é reduzida a um acréscimo meramente verbal, consistindo na adição do índice consciência de a cada termo da descrição empirista. | ||
| + | * O sistema da experiência é subordinado a um pensador universal exterior ao próprio sistema, encarregado de estabelecer relações entre mundo, corpo próprio e eu empírico. | ||
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| + | * Como esse pensador universal não está envolvido no sistema da experiência, | ||
| + | * O corpo próprio e o eu empírico são tratados como objetos entre outros, submetidos ao olhar de um Eu verdadeiro que permanece exterior à experiência vivida. | ||
| + | * Essa posição torna incompreensível a possibilidade mesma da percepção. | ||
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| + | * A dificuldade central consiste em explicar como foi possível confundir-se com o próprio corpo e acreditar que se vê com os olhos aquilo que, segundo o intelectualismo, | ||
| + | * Se o mundo fosse plenamente explícito para o verdadeiro Eu, não haveria razão para que ele se desdobrasse apenas progressivamente e nunca de modo completo. | ||
| + | * A própria ocorrência da percepção permanece inexplicável dentro desse quadro. | ||
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| + | * A percepção só se torna inteligível se o eu empírico e o corpo próprio não forem imediatamente objetos e nunca se tornarem objetos completos. | ||
| + | * Deve haver um sentido legítimo em afirmar que se vê com os olhos, isto é, que o corpo participa originariamente da abertura perceptiva ao mundo. | ||
| + | * Correlativamente, | ||
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| + | * O chamado Eu transcendental não é uma instância plenamente constituída, | ||
| + | * Nenhum ato de reflexão ou tomada de posição voluntária se estabelece a partir de si mesmo, mas sempre sobre o fundo de uma vida de consciência pré-pessoal. | ||
| + | * Essa vida pré-pessoal constitui o solo originário sobre o qual se erguem a reflexão e a objetivação. | ||
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| + | * O sujeito da percepção permanece ignorado enquanto se mantiver a alternativa clássica entre o naturante e o naturado. | ||
| + | * Essa alternativa inclui oposições como sensação enquanto estado de consciência ou enquanto consciência de um estado. | ||
| + | * Inclui também a oposição entre existência em si e existência para si. | ||
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| + | * A superação dessa alternativa é a condição para reconhecer o sujeito da percepção como aquilo que não é nem um objeto no mundo nem um puro constituinte exterior a ele. | ||
| + | * Trata-se de compreender a percepção como relação originária, | ||
| + | * Somente assim a experiência perceptiva pode ser pensada como o lugar em que mundo e sujeito se cooriginam. | ||
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