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| + | ====== Relance ====== | ||
| + | //MCNEILL, William. The Glance of the Eye. Heidegger, Aristotle, and the Ends of Theory. New York: SUNY, 1999// | ||
| + | **Capítulo 1** | ||
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| + | **Introdução: | ||
| + | - A frase inaugural da Metafísica de Aristóteles — "todos os seres humanos por natureza desejam conhecer" | ||
| + | * A frase grega original é: Pantes anthropoi tou eidenai oregontai phusei. | ||
| + | * A tradução de Heidegger em Ser e Tempo é: "O cuidado pelo ver é essencial ao ser do homem." | ||
| + | * John Macquarrie e Edward Robinson, tradutores de Ser e Tempo para o inglês, indicam em nota que Heidegger compreende eidenai — conectado a eidos, a forma visível de algo — a partir de seu sentido radical: " | ||
| + | * Aristóteles prossegue identificando a tendência humana de preferir a visão (horan) sobre todos os outros sentidos, seja no que concerne à ação (prattein) ou mesmo quando nenhuma ação é antecipada. | ||
| + | * Aristóteles afirma: "de todos os sentidos, a visão é o que melhor produz (poiei) o conhecimento das coisas e revela muitas distinções." | ||
| + | - O tipo de ver em jogo no " | ||
| + | * As cinco formas de conhecimento ou virtude intelectual pelas quais a alma pode atingir a verdade são: techne (o saber-fazer artesanal); episteme (o conhecimento teórico ou " | ||
| + | * Nos parágrafos iniciais da Metafísica, | ||
| + | - Duas observações devem ser feitas sobre a apropriação heideggeriana da frase aristotélica, | ||
| + | * O Dasein, existindo como cuidado, já está no mundo em certa abertura e junto (bei) às coisas mundanas com as quais se ocupa. | ||
| + | * O Dasein é essencialmente futural: em suas atividades práticas, já antecipou e, portanto, já " | ||
| + | * O sentido literal do grego orexis é " | ||
| + | - O que se apresenta em Ser e Tempo como interpretação do modelo platônico-aristotélico de conhecimento — uma visão ou avistamento prévio — parece coincidir com o que Heidegger, anos mais tarde, enuncia como sua própria definição de saber: Wissen heißt: gesehen haben, "saber significa: ter visto." | ||
| + | * A questão que emerge é se a definição heideggeriana é, de fato, a definição tradicional de conhecimento subjacente à metafísica ocidental. | ||
| + | - A segunda observação é que Heidegger, no parágrafo 36 de Ser e Tempo, insere a discussão da primazia da visão na tradição filosófica numa seção intitulada simplesmente " | ||
| + | * Heidegger percorre, em poucas frases, Parmênides, | ||
| + | * Agostinho reconheceu a primazia filosófica da visão no Livro X das Confissões, | ||
| + | * Heidegger afirma: "a verdade originária e genuína reside na pura contemplação (Anschauung). Esta tese permaneceu o fundamento da filosofia ocidental desde então." | ||
| + | * A curiosidade, | ||
| + | * Heidegger assegura que "a curiosidade nada tem a ver com contemplar os seres e maravilhar-se com eles — com o thaumazein." | ||
| + | - Coloca-se a questão de se o thaumazein originário não teria sido precisamente o que se extinguiu quando a filosofia entrou em cena, o que poderia ser lido no início da Metafísica de Aristóteles. | ||
| + | * O Livro I, capítulo dois da Metafísica observa: "É pelo espanto (thaumazein) que os homens agora começam e originalmente começaram a filosofar, maravilhando-se em primeiro lugar com as aporias mais próximas... Ora, aquele que se maravilha e se perplexa sente ignorância (agnoein)... portanto foi para escapar da ignorância que os homens estudaram a filosofia." | ||
| + | * Hannah Arendt sugeriu um enfraquecimento da experiência do thaumazein em Aristóteles, | ||
| + | * John Sallis examina filosofia e espanto em Double Truth e no ensaio "Uma maravilha que nunca se poderia aspirar a superar", | ||
| + | * Walter Bröcker também aborda o tema em Aristoteles, | ||
| + | * A questão permanece em aberto: haveria uma " | ||
| + | - O alinhamento entre o desejo filosófico de ver e o da curiosidade cotidiana é problematizado pela necessidade de distinguir três concepções do desejo de ver, distintas entre si e possivelmente irredutíveis umas às outras. | ||
| + | - A primeira concepção é o desejo cotidiano de ver, manifesto na curiosidade ordinária, que não se restringe à visão ocular nem à apreensão sensorial pura, mas permanece orientado ao âmbito sensível, dirigindo-se para o que ainda não está presente — um desejo pelo novo, como o alemão Neugier implica. | ||
| + | * A curiosidade, | ||
| + | * O parágrafo 31 de Ser e Tempo, intitulado "O Dasein como compreensão", | ||
| + | * A curiosidade não busca compreender no sentido de saber (Wissen) ou de "estar sabiamente na verdade"; | ||
| + | * O verbo ter indica que, na curiosidade, | ||
| + | * Heidegger, ao analisar a temporalidade da curiosidade, | ||
| + | - A segunda concepção é o desejo filosófico de ver, representado pela história da ontologia ou metafísica, | ||
| + | * O desejo filosófico difere do cotidiano não apenas em sua direcionalidade, | ||
| + | * Com a emergência desse modo de compreensão, | ||
| + | * Na República de Platão (475c-e), Glauco distingue os amantes de espetáculos (philotheamones) dos verdadeiros filósofos, definidos como " | ||
| + | - A seção sobre a curiosidade em Ser e Tempo oferece um esboço da gênese não apenas da curiosidade, | ||
| + | * Ontologicamente, | ||
| + | * A curiosidade é o oposto de tal permanência: | ||
| + | - A aparência exterior ou " | ||
| + | * O conhecimento cognitivo (Erkennen) é abordado no parágrafo 13 de Ser e Tempo como um modo fundado de ser-no-mundo. | ||
| + | * Aristóteles indica que o conhecimento teórico, o eidenai enquanto episteme, começou com o ócio, quando praticamente todas as necessidades da vida já haviam sido providas (M, 981 b14; 982 b23). | ||
| + | * Heidegger parafraseia: | ||
| + | * Heidegger escreve em Ser e Tempo: "Ao reter-se de qualquer tipo de produzir, manipular e similares, o cuidado coloca-se no que é agora o único modo restante de ser-no-mundo, | ||
| + | * No tratado de 1922 " | ||
| + | - Ser e Tempo fornece um relato conciso da gênese do comportamento filosófico e teórico, da vida do theorein — possibilidade que, segundo Heidegger, pode desenvolver-se em ciência e, como tal, passar a governar o ser-no-mundo. | ||
| + | - O que foi um dia conhecimento filosófico tornou-se ciência, hoje subserviente à tecnologia que ordena o mundo contemporâneo, | ||
| + | * Heidegger sustenta que tal compreensão restritiva surgiu de uma interpretação redutora da techne, concebida como atividade produtiva artesanal. | ||
| + | * A supremacia dessa interpretação redutora da techne ocorreu — como a República de Platão documenta claramente — sob a pressão de uma certa necessidade política. | ||
| + | - O conhecimento filosófico fundado por Platão e Aristóteles não era uma visão do eidos como aparência sensível exterior, mas um avistamento do eidos não sensível — a essência (ousia) que pode ser " | ||
| + | * O eidos é ao mesmo tempo comum a todos (koinon), universal (katholou), e não vinculado a nenhuma imagem ou percepção sensorial particular. | ||
| + | * O eidos é o mais constante, até " | ||
| + | * Aristóteles caracteriza o eidos como o to ti en einai: aquilo que a coisa já era antes de sua atualização — ele é causa, aition. | ||
| + | - O conhecimento filosófico, | ||
| + | - A questão de por que a visão se tornou o modo privilegiado de acesso às coisas no desdobramento explícito do conhecimento — e não a audição, o olfato, o tato ou o paladar — é respondida por Heidegger com o argumento de que a visão é a única que concede a simultaneidade do presente e do que foi, mantendo-os juntos em uma visão. | ||
| + | * Aristóteles indica que a visão delimita as coisas de modo mais claro, em termos de seu contorno, figura ou forma. | ||
| + | * Somente a visão concede a possível apreensão de uma constância relativa da presença, mesmo permitindo a mudança. | ||
| + | * Aristóteles explica no Livro X da Ética a Nicômaco: "o ato de ver (horasis) parece ser perfeito (teleia) em qualquer momento de sua duração; não requer que algo advenha posteriormente para aperfeiçoar sua forma." | ||
| + | * Heidegger afirma (GA:34, 159-60): "Ver, ter ou manter algo em vista, é de fato o modo predominante, | ||
| + | * Hans Jonas examina extensamente a simultaneidade inerente à visão em "The Nobility of Sight", | ||
| + | * Heidegger observa: somente porque os gregos compreendiam implicitamente o ser dos entes como presença pôde o eidos, como aquilo que pode estar mais constantemente presente em meio ao fluxo das coisas, dominar o evento do desvelamento como tal. | ||
| + | - Para que a visão verdadeiramente veja e constitua um conhecimento genuíno, ela deve permanecer junto ao seu objeto, na presença do que vê — ao contrário da atividade produtiva do artesão ou da inquietude do meramente curioso, que deseja apenas ter visto. | ||
| + | * Ver é sempre já ter visto — o grego eidenai expressa precisamente esse tempo perfeito; assim, a primeira linha da Metafísica pode ser traduzida mais literalmente como: "todos os humanos por natureza desejam ver e ter visto." | ||
| + | * Somente o permanecer em que se tem visto e continua a ver cumpre o sentido do conhecer genuíno expresso na palavra grega episteme (literalmente, | ||
| + | * O desejo filosófico é, portanto, em seus primórdios, | ||
| + | - A terceira concepção — um conhecer mais primordial — remete à definição que Heidegger enuncia em "A Origem da Obra de Arte" (1936): Wissen heißt: gesehen haben, "saber significa: ter visto", | ||
| + | * No ensaio " | ||
| + | * Em "A Origem da Obra de Arte", Heidegger identifica esse saber com a techne, e o tipo de ver em questão deve ser tomado "no sentido amplo de ver, que significa: apreender algo presente enquanto tal." | ||
| + | * Heidegger define: a techne "como um modo de saber experimentado pelos gregos, é um trazer-à-frente (Hervorbringen) dos entes, na medida em que traz (her) o que está presente enquanto tal para fora do ocultamento expressamente diante (vor) de nós e para o desvelamento de sua aparência exterior (Aussehen); techne nunca significa a atividade do fazer." | ||
| + | * A techne não é mera atividade humana, mas um trazer-à-frente que responde a um " | ||
| + | * Heidegger relaciona esse terceiro desejo de ver à existência extática do Dasein como abertura resoluta (Ent-schlossenheit), | ||
| + | * "A Origem da Obra de Arte" enfatiza a relação da obra com o mundo, o modo pelo qual a obra " | ||
| + | - O thaumazein não deve ser identificado com a curiosidade, | ||
| + | * Heidegger declara em GA:45, 156: "As explicações habituais da proveniência (Herkunft) da filosofia a partir do thaumazein geralmente dão a impressão de que a filosofia nasce da curiosidade (Neugier) — uma determinação fraca e lamentável de sua origem, e uma que só é possível onde nunca se pensou o que é que aqui deve ser determinado em sua ' | ||
| + | * O thaumazein é experimentado apenas na medida em que a techne humana se volta para e se confronta com a phusis, o predomínio autogerminante dos entes como um todo. | ||
| + | * Heidegger observa que pode acontecer que "o anseio (Gier) de adquirir conhecimento e de poder calcular tome o lugar da afinação fundamental do espanto. A própria filosofia torna-se agora um empreendimento entre outros; ela é subordinada a um fim que é tanto mais perigoso quanto mais elevado for posto — como, por exemplo, na paideia de Platão, palavra que é mal traduzida como ' | ||
| + | - A vocação da filosofia pela qual a supremacia da theoria se torna subserviente ao fim de governar a polis — tendência que Aristóteles consolida — e eventualmente à techne da produção calculativa, | ||
| + | * O deslocamento do desvelamento dos entes para o âmbito da ideia faz com que a própria filosofia se torne uma curiosidade, | ||
| + | * Heidegger pergunta o que significa a filosofia ter se tornado uma curiosidade e responde (GA:45, 182-83): "que a filosofia se encontra ao fim de seu primeiro começo (Anfang), naquela situação que corresponde ao seu começo — embora apenas como seu predicamento final (Endzustand). Outrora a filosofia era o que havia de mais estranho e raro e singular — agora é o mesmo, mas agora apenas sob a forma de uma curiosidade." | ||
| + | * O próprio sucesso dos filhos da filosofia, a ciência e a tecnologia, provoca o fim e a conclusão legítima da própria filosofia, que se torna crescentemente marginalizada e impotente, subsumida paradoxalmente por aquilo que outrora buscou resistir. | ||
| + | * Esse processo anda de mãos dadas com a perda ou oclusão da essência originária da aletheia, do " | ||
| + | - O percurso da obra examinará o traço complexo desse desejo de ver e suas mutações no pensamento de Heidegger, considerando primeiro a resposta filosófica da theoria à luz de sua leitura de Aristóteles e de Ser e Tempo, depois a transformação moderna desse desejo na essência da ciência e da tecnologia modernas, em seguida a leitura heideggeriana do pensamento de Nietzsche sobre o eterno retorno do mesmo, e finalmente o retorno ao começo grego para compreender o que o estabelecimento da theoria filosófica implicou. | ||
