estudos:marion:welten-deus
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| + | ====== Ruud Welten ====== | ||
| + | //WELTEN, Ruud. Phénoménologie du Dieu invisible: essais et études sur Emmanuel Levinas, Michel Henry et Jean-Luc Marion. Tradução: Sylvain Camilleri. Paris: l’Harmattan, | ||
| + | * A publicação de Dieu sans l' | ||
| + | * A questão decisiva não é o desejo humano de falar de Deus, mas o fato de que é Ele quem se dirige a mim, chave que permite a Marion articular religião e fenomenologia sem se apresentar como reformador teológico, denunciando antes a idolatria dentro da própria filosofia e teologia, à maneira de Heidegger, e propondo uma imagem não fixa de Deus que ele chama ícone. | ||
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| + | **1. O ídolo e o ícone** | ||
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| + | * Ídolo e ícone designam duas declinações diferentes da aparência divina, distinguindo-se não pelo que referem mas pelo modo como referem, questão de estrutura fenomenológica e não de veracidade. | ||
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| + | **A. O ídolo** | ||
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| + | * O ídolo é a imagem de Deus adaptada aos critérios do humano e do finito, experiência humana do divino que não nos assemelha ao divino mas assemelha o divino à nossa experiência, | ||
| + | * A fixidez é o traço mais importante do ídolo, comparável à necessidade do olhar de se ancorar num ponto fixo do horizonte ou ao enamoramento que fabrica sua própria imagem do ser amado, funcionando o ídolo como espelho que reflete apenas o próprio olhar, conforme já observara Feuerbach, citado por Marion ao lado de Nietzsche e Marx quanto à idolatria como idolização de si mesmo. | ||
| + | * O ídolo pode assumir a forma de ideia ou conceito, sendo a onto-teologia justamente o nome dado à conceitualização de Deus dentro de uma ordem lógica. | ||
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| + | **B. O ícone** | ||
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| + | * O ícone é Deus mesmo aparecendo livre de todo desejo individual, mas não pode nunca ser fixado sem recair na idolatria, não sendo Marion um escritor de método para "ver Deus", mas um filósofo interessado em evitar a fixação de Deus. | ||
| + | * A teologia do ícone, própria da Igreja ortodoxa oriental e fundada em Colossenses 1,15, opõe-se historicamente ao ídolo desde a controvérsia iconoclasta, | ||
| + | * O ícone é a presença de um não-objeto que não resulta de uma visão mas a provoca, invertendo a intencionalidade ao concentrar seu olhar sobre mim e se doando à consciência como dádiva. | ||
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| + | **2. Deus e a onto-teologia** | ||
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| + | * A fenomenologia marioniana não se desliga inteiramente de toda ontologia, já que a metafísica ocidental pensou Deus em termos de ser, questão que a doutrina escolástica da analogia não resolveu satisfatoriamente, | ||
| + | * Diferentemente da crítica heideggeriana à onto-teologia, | ||
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| + | **3. Dom, dado e doação** | ||
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| + | * A partir do final dos anos 1980, Marion volta-se ao desenvolvimento fenomenológico do conceito de aparência, substituindo em Étant donné a onto-teologia crítica pela fenomenologia pura, deslocando seu objeto de Deus para o modo não-ontológico de seu aparecer. | ||
| + | * A questão da doação, reformulada a partir do " | ||
| + | * Ao contrário da ciência, que trata seus objetos como objetos de saber, a teologia manifesta uma abertura receptiva ao que é dado, aproximando-se aqui Marion de Michel Henry, assumindo a doação múltiplas formas teológicas, | ||
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| + | **4. O fenômeno saturado** | ||
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| + | * A questão fenomenológica central não é se Deus aparece, mas se é possível descrever um aparecer que não esteja sujeito à minha intencionalidade, | ||
| + | * Enquanto Husserl definiu o fenômeno por um déficit constitutivo, | ||
| + | * Tal fenomenalidade saturada, irredutível a estrutura puramente intencional e tributária de uma origem não fenomenal, aproxima-se das noções de carne em Merleau-Ponty, | ||
| + | * Cristo constitui, para Marion, não o paradigma da teologia mas o paradigma do fenômeno de revelação, | ||
| + | * Recorrendo às quatro categorias kantianas do saber, Marion mostra como o fenômeno saturado transcende os limites estabelecidos pela filosofia kantiana, examinando-se em seguida dois desses tipos de saturação, | ||
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| + | **A. O ídolo** | ||
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| + | * Como fenômeno saturado, o ídolo já não se opõe diretamente ao ícone, mantendo porém suas características: | ||
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| + | **B. O ícone** | ||
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| + | * O ícone, como fenômeno saturado, é irregardável, | ||
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| + | **5. O paradoxo** | ||
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| + | * Diferentemente de Dieu sans l' | ||
| + | * A obra de Marion é considerada paradoxal por demonstrar simultaneamente a inadequação da filosofia e da teologia ocidentais para compreender a aparência autodada de Deus e a possibilidade dessa mesma aparência através dessas mesmas disciplinas, | ||
| + | * Permanecem questões quanto à possível deriva crypto-teológica dessa fenomenologia da possibilidade, | ||
| + | * O próprio fenômeno saturado constitui um paradoxo, pois não resulta apenas da atividade da consciência mas possui intencionalidade própria orientada a mim, invertendo a relação entre o si e o fenômeno, como na experiência musical em que não sou eu quem faz a música mas ela quem me faz, testemunha e não sujeito, sendo somente essa reflexão paradoxal capaz de constituir os prolegômenos de uma teofenomenologia que faça justiça à aparência autônoma de Deus. | ||
