estudos:marion:rd:escanteio-ontologia
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| + | ====== Escanteio da Ontologia ====== | ||
| + | //MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.// | ||
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| + | **1 - A colocação fora de jogo da ontologia** | ||
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| + | * A oposição radical entre Heidegger, para quem a ontologia científica nada mais é que fenomenologia, | ||
| + | * A radicalidade dessa oposição se confirma por outros textos de Heidegger, torna possível e necessária sua divergência em relação a Husserl mesmo antes de 1927, atravessa os debates entre as escolas fenomenológicas pós-husserlianas e envolve o giro que faz a questão do Ser ser perdida e reencontrada | ||
| + | * A investigação segue sucessivamente a definição da fenomenologia, | ||
| + | * A transgressão da ontologia pela fenomenologia se determina terminalmente como idealismo transcendental, | ||
| + | * O idealismo se define pela ideia como aquilo que se pode ver, ou seja, experimentar-se como vivido, e Husserl, relendo as Investigações lógicas, declara que essas pesquisas eram puramente fenomenológicas na medida em que não tinham temas ontológicos | ||
| + | * A fenomenologia começa autenticamente quando cessa a consideração de temas ontológicos, | ||
| + | * O direito e a validade de um conceito ontológico podem ser reconhecidos fenomenologicamente, | ||
| + | * A tarefa de uma ontologia a priori do mundo real é inescapável, | ||
| + | * A ontologia tenta, e deve tentar, esclarecer o a priori do mundo, mas por princípio não pode alcançá-lo, | ||
| + | * A distinção entre fenomenologia e ontologia se funda na reflexão teórica que também produz a separação entre ciência natural e filosofia, revelando que as ciências naturais do ser não são as ciências definitivas do ser, exigindo ainda uma ciência do ente no sentido absoluto | ||
| + | * Coube às lições de Göttingen de 1907 indicar o passo a dar para fora da ontologia, não por esta tentar pensar o ser do mundo, mas por não o pensar radicalmente até sua origem, e a certeza quanto ao ser só a fenomenologia obtém, tomando como único objeto a doação absoluta sob o olhar da intuição | ||
| + | * Somente a epoché, a redução fenomenológica alcançada em 1907, permite atingir o ente como tal, absolutamente dado à intuição pura de um olhar transcendental, | ||
| + | * A busca do ente se torna um caso particular da pesquisa da doação absoluta, que não retoma em nível mais seguro o campo de investigação da ontologia, mas o desloca poderosamente, | ||
| + | * Todas as ontologias caem sob o golpe da redução e nela desaparecem, | ||
| + | * Uma vez cumprida a redução, ou antes, na experiência aberta pela prática constante da redução, não é mais útil nem lícito recorrer ao ser nem lhe conceder qualquer confiança teórica, pois o ser jamais intervém na doação absoluta, os entes desaparecem ou se reduzem a essa mesma doação, e o mundo se desdobra doravante como mundo da experiência | ||
| + | * Se a fenomenologia parece abrigar em si todas as ontologias, porque as raízes de todas as ontologias são seus conceitos fundamentais e axiomas, essa restauração só permanece legítima na medida em que tudo o que as ciências dos entes fornecem se resolve no fenomenológico, | ||
| + | * As ontologias não se elevam à fenomenologia pela redução, tampouco os entes coincidem, na redução, com o dado absoluto imanente e noemático, e sob a evidência de um outro mundo, absolutamente outro, os entes e a crença no ser perdem definitivamente sua visibilidade e validade, de modo que em si a ontologia não é a fenomenologia, | ||
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