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 +====== Redução radical ======
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 +//MARION, Jean-Luc. Le phénomène érotique: six méditations. Paris: Librairie générale française, 2003.//
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 +**DE UMA REDUÇÃO RADICAL**
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 +**§ 1. Duvidar da certeza**
 +  * Todos os homens desejam conhecer e preferem o saber à ignorância, apesar do esforço que a conquista de qualquer conhecimento exige.
 +  * O desejo de conhecer visa, na verdade, o prazer de conhecer, de modo que conhecer se torna meio para gozar de si mesmo através do ato de conhecer.
 +  * Mesmo quando o conhecimento fere ou inquieta, buscá-lo responde à necessidade de segurança e salvaguarda de si, e não ao conhecido por si mesmo.
 +  * O desejo de conhecer recai, portanto, sobre quem conhece e não sobre o que é conhecido, o que se confirma na definição clássica de ciência como conhecimento certo, cuja certeza remete sempre ao ego que a certifica.
 +  * Convém, porém, colocar em dúvida essa evidência, pois a univocidade da certeza entre o ego e seus objetos não é garantida.
 +  * A certificação supõe reduzir o objeto a partes claras e distintas, o que só ocorre em fenômenos pobres de intuição, como os da matemática, da lógica e da técnica.
 +  * Tal certeza de fenômenos pobres não interessa, pois a carne, modo próprio de ser do eu, permanece sempre saturada e irredutível a qualquer objetivação certa.
 +  * Mesmo concedida a certeza clássica da existência do ego — que se afirma a cada vez que pensa —, permanece a questão de saber em que essa certeza difere daquela dos objetos certificados por ele mesmo.
 +  * Assim como o objeto só é certo enquanto pensado, o eu só é certo de si enquanto se pensa, de modo que, ao certificar-se a si mesmo como objeto, o eu se perde como ego.
 +  * A experiência de vida ensina um ceticismo persistente quanto às próprias possibilidades e ao próprio futuro, mesmo quando a existência presente permanece certa.
 +  * Permanece em aberto até onde se estende essa dúvida sobre si mesmo, sugerindo que o doubt não visa produzir a certeza, mas ultrapassá-la.
 +
 +**§ 2. "Para quê?"**
 +  * A metafísica julga cumprir seu dever ao oferecer a certeza do objeto e depois estendê-la ao ego, mas nisso revela apenas seu cegueira.
 +  * A certeza fornecida pela metafísica só concerne aos objetos, e não à identidade, à história, ao destino ou à carne, que é o único domínio de real interesse.
 +  * Mesmo a certeza dos objetos, por mais válida que seja em seu próprio plano, se expõe à pergunta "para quê?", que a desqualifica ao revelar sua vaidade para quem não habita o mundo dos objetos.
 +  * Estender ao ego, por meio da cogitatio, o mesmo tipo de certeza que rege os objetos apenas prolonga a vaidade, pois essa certeza depende de uma decisão de querer, sempre sujeita à mesma pergunta "para quê?".
 +  * Uma certeza que dependeria inteiramente de mim mesmo permanece contingente e derivada, incapaz de se autofundar sem recair em círculo ou em contingência irremediável.
 +  * A demonstração metafísica da existência do ego expõe-se, portanto, à vaidade justamente no instante de seu sucesso, pois toda certeza produzida por mim mesmo não me tranquiliza.
 +
 +**§ 3. A redução erótica**
 +  * A vaidade desqualifica toda certeza, seja sobre o mundo, seja sobre si mesmo, sem que a mera constatação dessa impotência baste para resistir a ela.
 +  * Assegurar-se de si exige abandonar o paradigma da certeza e responder, em vez disso, à pergunta "sou amado?".
 +  * A certeza convém aos objetos porque, para eles, ser equivale a subsistir efetivamente, ao passo que o eu se define por possibilidade e não por efetividade.
 +  * Além da possibilidade, o eu não se reduz a nenhum modo de ser, pois ser, para ele, exige a possibilidade erótica de ser amado, sem a qual ninguém aceitaria existir.
 +  * A objeção de que ser amado pressuporia primeiro ser cai por sofisma, pois, no caso do eu, "ser amado" constitui um enunciado analítico e não sintético.
 +  * É preciso abandonar tanto a redução epistêmica quanto a ontológica em favor de uma terceira redução, que assegure o fenômeno dado contra a vaidade por meio da pergunta "não estou, apesar de toda certeza, em vão?".
 +  * A certeza de existir, mesmo inabalável, não basta para tornar a existência boa ou desejável, pois permanece obra solitária do próprio pensamento, exposta sem defesa ao golpe da vaidade.
 +  * A certeza resulta da redução epistêmica e permanece assunto entre o ego e seu objeto, enquanto a assegurança resulta da redução erótica e vem de uma instância outra, soberana, que responde à pergunta "sou amado?".
 +  * A identidade desse alhures permanece indeterminada e seu anonimato reforça seu impacto, pois um acontecimento radical, e não uma identidade conhecida, é o que dissipa a indiferença da vaidade.
 +  * O alhures anônimo determina originariamente o que o eu é a partir de quem (ou do que) o quer bem ou mal, substituindo a pergunta "sou?" pela pergunta "o que se me quer?".
 +  * A essa figura do ego erótico não cabe a acusação de egoísmo injusto, pois, ao contrário da certeza de si, a assegurança vem sempre de alhures e altera o ego a si mesmo.
 +  * Esse egoísmo tem a coragem de não esconder o terror diante da vaidade e reconhece a diferença cardinal entre ser amado e não ser amado, diferença que nenhuma neutralidade transcendental pode ignorar sem hipocrisia.
 +  * Buscar ser amado alhures constitui, portanto, dever primeiro e condição para que qualquer obrigação ética ou substituição por outrem se torne possível.
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 +**§ 4. O mundo segundo a vaidade**
 +  * O mundo só se fenomenaliza ao se dar a mim e me fazer seu destinatário, de modo que reivindicar meu lugar erótico não constitui injustiça, mas primeiro dever.
 +  * Substituir o ego pensante pelo ego amado ou odiado parece enfraquecê-lo, pois o expõe à incerteza radical de uma resposta que não domina e o priva da autonomia da cogitatio.
 +  * A redução erótica atinge o ego destituindo-o de toda autoprodução, mas esse resultado não constitui simples perda, pois introduz o eu num terreno novo, onde ele se descobre amável antes de se descobrir existente.
 +  * O amante se opõe ao cogitante ao substituir a busca da certeza pela busca da assegurança, destituindo a pergunta "ser ou não ser" em favor de "sou amado alhures?", questão que rege as três dimensões seguintes — espaço, tempo e identidade de si.
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 +**§ 5. O espaço**
 +  * A redução erótica destitui a homogeneidade do espaço próprio da atitude natural, em que todo lugar pode se trocar por outro.
 +  * Em situação amorosa, o lugar próprio deixa de ser o aqui físico e passa a ser definido pelo alhures do qual se espera resposta à pergunta "sou amado?".
 +  * A identificação desse alhures ocorre por meio de gestos triviais, como discar um número ou escrever um endereço, que designam, mesmo provisoriamente, quem realmente importa.
 +  * Mesmo antes de qualquer deslocamento geográfico, esse alhures já exercia a função de lá longínquo em relação ao qual o eu se tornava amante.
 +  * O espaço em redução erótica torna-se essencialmente heterogêneo: habito não onde estou fisicamente, mas onde me alcança o alhures que me importa.
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 +**§ 6. O tempo**
 +  * A redução erótica destitui igualmente a sucessão homogênea do tempo próprio da atitude natural, em que todo instante substitui outro indiferentemente.
 +  * Em regime erótico, o alhures se temporaliza como acontecimento imprevisível, impondo a postura da espera, durante a qual o tempo, paradoxalmente, não passa.
 +  * Nada se passa enquanto se espera precisamente o que ainda não chegou, mesmo que muitas outras coisas ocorram ao redor; o presente só se realiza quando o esperado finalmente chega.
 +  * Esse presente só advém para quem compartilha a mesma espera, e a identidade do ausente aguardado distingue quem espera de quem não espera, definindo assim uma individualidade ou comunidade original.
 +  * O passado, em redução erótica, não conserva presentes revolvidos como patrimônio, mas sanciona o fim da espera, o luto da possibilidade de uma nova vinda.
 +  * Futuro, presente e passado se definem, assim, pela espera, pela chegada e pela ultrapassagem do alhures, cuja advinda permanece sempre contingente e imprevisível.
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 +**§ 7. A ipseidade**
 +  * A redução erótica destitui toda identidade de si fundada no pensamento de si, pois, ao perguntar "sou amado?", o eu não sabe quem é, mas sabe onde está.
 +  * Esse ponto onde o eu se descobre afetado identifica-se com a carne, que jamais sente sem se sentir sentindo, e da qual jamais é possível se afastar.
 +  * Ao tomar carne, o eu se pensa ainda, mas segundo o sentir e não segundo o entendimento, que opera pela universalização e pela ausência de singularização.
 +  * A tomada de carne atribui ao eu um lugar irredutível e uma palavra que o individualiza até a última ipseidade, palavra que não se profere, mas se recebe.
 +  * A dúvida inicial conduz, assim, não à certeza dos objetos ou de si mesmo, mas à exigência de uma assegurança que só pode vir de alhures, jamais de si próprio.
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