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estudos:marion:eros:carne

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 +====== Carne ======
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 +//MARION, Jean-Luc. Le phénomène érotique: six méditations. Paris: Librairie générale française, 2003.//
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 +**DA CARNE, QUE ELA SE EXCITE**
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 +**§ 22. A individualidade**
 +  * Cada amante promete a mesma significação formal "Eis-me aqui!", que passa do ego nominativo ao vocativo de quem se deixa convocar, reconhecendo outrem como o datativo a que se referir.
 +  * Objeta-se que essa significação comum permanece vazia e universal como um imperativo categórico, valendo igualmente para qualquer amante e qualquer ocasião, sem nada dizer verdadeiramente a ninguém.
 +  * Essa objeção só se sustenta se o amante se confundir com um ego transcendental universal, mas o amante individualiza-se radicalmente, o que restabelece plenamente a significação de "Eis-me aqui!"
 +  * O amante individualiza-se primeiro pelo desejo, que nasce da própria falta e se dirige a quem, sem razão explicável, é reconhecido subitamente como aquele que me destina a ele mesmo.
 +  * O amante individualiza-se em seguida pela eternidade, pois dizer "eu te amo" implica sempre, ainda que instantânea, a convicção de uma irreversibilidade, sem a qual amar equivaleria a não amar.
 +  * Uma vez proferido, o juramento marca o tempo de modo irrevogável, individualizando definitivamente o amante que se arriscou a amar de uma vez por todas, mesmo que não consiga cumpri-lo.
 +  * O amante individualiza-se, por fim, pela passividade tripla — a do juramento que depende da resposta alheia, a do avanço que já me expõe sem saber a quem, e a do risco assumido em primeira pessoa e sem procuração.
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 +**§ 23. Minha carne e a dela**
 +  * Essa passividade erótica não se confunde com a inércia mineral nem com a reatividade animal, mas relaciona-se ao fenômeno da carne, único capaz de sentir-se sentindo.
 +  * As coisas do mundo nunca me afetam por si mesmas, pois só a carne, ao sentir-se a si própria, torna possível sentir qualquer outra coisa, invertendo a suposta atividade dos corpos inertes.
 +  * A auto-afecção da carne condiciona toda hetero-afecção, de modo que o mundo só se abre na exata medida em que minha carne se sente a si mesma sentindo-o.
 +  * Sentir a carne de outrem exige mais do que perceber um corpo, pois toda mise a nu que reduz o outro a objeto visível destrói justamente a fenomenalidade própria da carne.
 +  * A carne de outrem só se fenomenaliza ao se deixar sentir e ressentir, distinguindo-se de um corpo físico precisamente por não resistir, por se retirar e abrir espaço à minha carne.
 +  * Ao entrar na carne de outrem, saio do mundo e recebo, pela primeira vez, minha própria carne, o que define o prazer como recepção e a dor como resistência que priva dessa carne.
 +  * A carícia, mal compreendida como simples toque, na verdade nunca toca nada, pois a carne de outrem só se deixa sentir como o retraimento indefinido daquilo que não resiste.
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 +**§ 24. A erotização até o rosto**
 +  * Cada amante dá ao outro a carne que não possui, e essa inadequação recíproca, longe de alienar, constitui o único acesso possível a si mesmo e a outrem.
 +  * A erotização não admite limite nem interrupção, devendo estender-se a toda a carne, inclusive aos órgãos sexuais, que pertencem ao corpo mas podem ser recuperados pela carne mediante o beijo generalizado.
 +  * A palavra beijar, tomada em sua univocidade, revela uma verdadeira metamorfose: a boca inaugura a tomada de carne infinita que deve, por fim, envolver todo o corpo.
 +  * Erotizado, o rosto de outrem não desaparece, mas se manifesta ainda mais intensamente, pois toda a carne glorificada converge nele, embora já não profira mais a proibição ética "Não matarás."
 +  * Nessa situação, o universal ético cede lugar à particularidade insubstituível de mim e de ti, sem que a transcendência de outrem desapareça — ao contrário, ela se acentua na carne em glória de seu rosto.
 +  * O cruzamento dos olhares, ambos tornados carne, revela uma alma comum aos amantes, unidos na distância irredutível de suas duas carnes que se recebem mutuamente sem jamais se confundir.
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 +**§ 25. Gozar**
 +  * Gozar de outrem difere de simplesmente usá-lo, pois adiro à sua carne para lhe dar o que não tenho, de modo que meu próprio prazer só existe como reflexo do prazer dele.
 +  * A redução erótica, agora consumada na carne em glória, dissolve as falsas antinomias entre união e incomunicabilidade das consciências, entre amor de si e amor de outrem.
 +  * O espaço do fenômeno amoroso deixa de ser homogêneo e mundano, definindo-se apenas em referência à carne de outrem, que se torna o único ponto cardeal do meio erótico.
 +  * O futuro erótico consiste na espera sem fim do próprio acréscimo da erotização, pois o desejo cresce indefinidamente na não resistência mútua das duas carnes que se avançam e se retraem.
 +  * O presente erótico realiza-se como um passar que dura precisamente por permanecer inacabado, cuja interrupção contraditória se chama orgasmo, quando uma carne enfim ultrapassa a outra.
 +  * O passado erótico distingue-se entre o encalhe, que abre a repetição futura do processo, e o fracasso, quando a própria falta do desejo torna a erotização definitivamente revolvida.
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 +**§ 26. A suspensão**
 +  * Ao cessar bruscamente, sem gradação, a erotização não deixa vestígio algum, pois nada de real desaparece — apenas a carne, que não pertence ao mundo das coisas.
 +  * Com a suspensão, reaparecemos como simples corpos físicos nus, e vestimo-nos então para mascarar a vergonha de retornarmos à ordem corporal do mundo.
 +  * Minha própria carne não desaparece com a suspensão, pois continuo a sentir o mundo, mas perco o acesso à carne de outrem e à graça de sua não resistência.
 +  * A carne de outrem, ao contrário, torna-se inteiramente problemática fora da erotização, o que explica a fragilidade dos argumentos contra sua negação, como no caso extremo do racismo.
 +  * A suspensão não deixa memória verdadeira da jouissance, que permanece um puro acontecimento sem coisa a descrever, distinto de qualquer tentativa pornográfica de torná-la visível.
 +  * A decepção não provém do cruzamento das carnes em si, mas de sua suspensão inevitável, o que remete à necessidade de compreender a finitude própria da erotização.
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 +**§ 27. O autômato e a finitude**
 +  * Ao contrário da diferença absoluta entre carne e corpo, a fronteira entre carne e carne erotizada permanece constantemente franqueável, num vaivém oscilante e gradual.
 +  * Minha carne não se excita nem por minha vontade nem pela mera não resistência de outrem, mas por sua própria espontaneidade, tornando-se assim verdadeiramente automática.
 +  * Esse automatismo revela uma primeira finitude: a carne se erotiza em mim sem mim, exercendo sobre o amante uma violência que este só pode servir ou interromper, nunca comandar.
 +  * Uma segunda finitude, intrínseca, decorre do fato de que a erotização, embora deva em princípio ser infinita, sempre acaba por cessar num instante preciso, o instante do orgasmo.
 +  * Essa finitude não condena a redução erótica, mas obriga à sua repetição incessante, ensinando o amante a renascer sempre de novo através da carne dada e recebida.
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 +**§ 28. As palavras para não dizer nada**
 +  * A erotização não deixa memória descritível, configurando um fenômeno rasurado e não saturado, do qual nada pode ser dito, mesmo entre amantes.
 +  * Ainda assim, gozar exige falar, pois gozar de outrem, ao contrário de simplesmente usá-lo, requer dirigir-se a ele e receber sua resposta, mesmo sem nada a descrever.
 +  * Os amantes falam sem descrever coisa alguma, dizendo apenas "Eis-me aqui!" em suas variantes temporais — "Vem!", "Eu venho!", "Ainda!" — que se entendem perfeitamente sem ambiguidade.
 +  * Essa fala erótica não é constatativa, mas performativa: dizer "Eu te amo" realiza o que enuncia, fazendo do amante aquilo mesmo que declara ser.
 +  * A linguagem erótica privilegia por isso léxicos que nada descrevem do mundo — o obsceno, o infantil e o místico — pois todos, à sua maneira, servem apenas a excitar a carne e não a informar.
 +  * Esses três léxicos, apesar de sua aparente incompatibilidade mundana, convergem por analogia às três vias da teologia mística — afirmativa, negativa e hiperbólica — pois todos têm a carne como único referente.
 +  * Assim a carne recebida de outrem aparece na luz branca da erotização, mas, por sua finitude, desaparece de imediato, exigindo recomeçar sempre tudo de novo.
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